Crédito: Arquivo Pessoal/Fátima Carvalho

Um mês depois de tomar as duas doses da vacina contra a covid-19, a economista aposentada Fátima Carvalho, de 82 anos, decidiu fazer um teste sorológico. Ficou assustada com as notícias das falsas aplicações das vacinas e, mesmo tendo filmado o momento das aplicações, queria saber se a vacina tinha surtido efeito. Pagou R$ 250 em um laboratório particular do Recife e o resultado deu negativo para contato prévio com o vírus, o IgG, que identifica infecções passadas.

Os relatos de pessoas que buscam nos testes sorológicos uma resposta para eficácia da imunização contra a covid-19 têm crescido. Mas qual a importância deles? É uma resposta confiável?

O médico virologista Ernesto Marques, pesquisador da Fundação Oswaldo Cruz (Fiocruz) e professor da Universidade de Pittsburgh (EUA), diz que esses exames não podem ser lidos como uma resposta definitiva individual.

E podem causar mais confusão na população do que oferecer respostas.

“Se o resultado do IgG for positivo, ótimo. Se for negativo, há várias possibilidades “, afirma. Essas possibilidades passam tanto pelo histórico de saúde da pessoa vacinada, quanto pelo tipo de vacina e tipo de teste utilizado, pois não há um padrão de teste sorológico para medir pessoas vacinadas.

E há uma série de detalhes que devem ser considerados. “Para a vacina da AstraZeneca, que é feita apenas com uma proteína do vírus, a spike, pode ser preocupante se o teste sorológico der negativo. Para quem tomou a Coronavac, há outras possibilidades, já que a vacina usa três proteínas (spike [S], proteína M [membrana] e a proteína envelope [E]) do coronavírus”, explica.

Porém, o pesquisador destaca que os exames de sorologia feitos nos laboratórios são calibrados para medir a resposta de infecção – e não da vacina. “Não é necessário fazer teste sorológico. Por uma seguinte razão: só faria sentido se tivéssemos um controle adequando do tese sorológico para aquele tipo específico de vacina. Não dá para pegar qualquer teste e decidir se a vacina está funcionando ou não. E a presença de anticorpos também não representa a absoluta garantia que a pessoa não vai pegar a doença”, diz. “A nível individual temos ainda outro problema. O que fazer se der negativo? não tem uma conduta específica para esses casos”, diz, lembrando das poucas doses de vacinas disponíveis hoje no Brasil.

O médico infectologista Artur Brito, da Universidade Federal de São Paulo (Unifesp), também lembra que o exame de uma pessoa que já foi infectada, mesmo assintomática, pode dar positivo sem necessariamente estar relacionado com a vacina. Há também as diferenças de respostas imunológicas individuais.

“A proteção da vacina se dá em até três semanas após a segunda dose, mas pode demorar mais tempo para ser perceptível no sangue de algumas pessoas. Essa resposta pode variar muito. Tem um caso clássico que é a vacina contra a Hepatite B. Um mês depois de tomar a vacina, é necessário fazer o exame sorológico. Se fizer três ou quatro meses depois, pode já não ser detectável no sangue. Em outras pessoas, fica detectável durante a vida toda. E naquelas que não aparece mais no sangue, não significa que estão sem proteção: os anticorpos podem ser ativados se a pessoa tiver contato com o vírus”, explica.

Ainda não se sabe quanto tempo dura a imunidade das vacinas atuais contra a covid-19 ou quando elas precisarão ser atualizadas. A Sinovac já prevê uma terceira dose do imunizante, para atuar melhor contra as novas variantes. Outros laboratórios também já estão em pesquisas para atualizar as vacinas.

Controle da vacinação

Ernesto Marques conta que o Centro de Controle e Prevenção de Doenças dos Estados Unidos (CDC, na sigla em inglês) elaborou um kit específico de teste para cada vacina aplicada no país. “No Brasil, não temos ainda essa recomendação”, diz.

Se a sorologia não deve ser considerada para a tomada de decisões individuais, ela é útil – desde que se use kits adequados de teste – para avaliar como estão sendo cumpridas todas as etapas da vacinação. “A Anvisa precisa ficar atenta para saber se estão cumprindo todo o protocolo. Vigilância sanitária, em teoria, o Brasil tem, se estão conseguindo dar conta, aí já não sei. Existem muitos países que monitoram em um grupo de pessoas como a vacina funcionou. O CDC montou esse teste, que não é um teste aleatório qualquer, é um teste padronizado, para fazer esse acompanhamento”, afirma.

Para Ernesto Marques, os municípios também deveriam fazer essa vigilância. “Até por controle de qualidade. Há várias etapas desde a produção da vacina até a hora de injetar. Temos vistos relatos de vacinas que não são aplicadas, de lugares que pegam o restinho de uma ampola com o restinho de outra e juntam, tudo isso deveria ser mais monitorado. Pode haver falhas principalmente nas etapas finais da vacinação”, diz.

O pesquisador reforça que as vacinas são eficientes. E mesmo as que tiveram eficácia mais baixa nos testes de terceira fase, como a Coronavac, estão conseguindo bons resultados. “A Coronavac está mostrando no estudo clínico em Serrana (cidade de São Paulo onde a vacinação está sendo realizada em toda a população) que consegue bloquear a transmissão. Existe um estudo em profissionais de saúde vacinados com Coronavac em que você vê uma queda enorme de casos e infecções nas pessoas imunizadas. Mas são estudos controlados. O que deve se ficar atento é em como essa vacina está chegando na população em geral. Até porque a vacinação com doses da Pfizer e da Moderna vai ser mais complicada, já que precisam de uma logística diferente, com temperaturas bem mais baixas”, alerta.

Vacinação é medida coletiva

Os especialistas lembram que o principal de tudo é ter consciência de que a vacinação é uma questão coletiva e não individual. “Quem está vacinado agora não deve mudar em nada os cuidados em relação ao coronavírus. Toda vacina vai ter furos. Um percentual, pequeno, da população não vai desenvolver proteção. São detalhes que se tornam irrelevantes quando não se tem o vírus em circulação, que é o objetivo final de qualquer vacina”, diz Brito.

Como o coronavírus é uma pandemia, ou seja, está espalhado pelo mundo todo, a solução também é mais complexa. “Não adianta Israel estar todo vacinado e a Palestina não estar. Porque pode surgir uma variante que fura a proteção da vacina e coloca a perder todo o esforço da vacinação em Israel. A sorte do mundo é que a Ásia, que é mais populosa, conseguiu controlar o vírus. Mas países desenvolvidos que compraram três ou quatro vezes mais vacinas do que a própria população são uma demonstração que não estamos aprendendo nada com essa pandemia”, lamenta.

Mesmo com a a vacinação em massa, o coronavírus provavelmente não irá desaparecer, assim como outras doenças infecciosas não desapareceram. “Mas a vida vai voltar ao normal quando a maioria da população estiver vacinada. Há alarmistas que acham que iremos viver sempre de máscaras, mas isso não faz sentido. Sempre convivemos com doenças infecciosas. Sarampo, por exemplo, é uma doença muito mais contagiosa que a covid-19. Uma pessoa pode contaminar até 18 outras pessoas, enquanto para o coronavírus a média é de 4 a 5. Há alguns anos tivemos surto de sarampo em São Paulo e isso não fez com que tivéssemos que usar máscaras o tempo todo. A vacinação em massa vai trazer a vida normal de volta. Mas ainda vai levar um tempo e até lá é preciso continuar com todos os cuidados”, comenta.

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