Jacielma da Silva Santos (PT), do Quilombo Águas do Velho Chico, concorreu pela segunda vez e foi eleita vereadora em Orocó, cidade do Sertão pernambucano. Crédito: Camila Rodrigues

Impulsionado por uma luta de 116 anos, o professor José Moreira de Santana estreou nas eleições 2020 e conquistou uma vaga na câmara municipal de Caetés, no Agreste. O feito inédito para o Quilombo Atoleiro, ter um filho da terra vereador, é também fato marcante para Pernambuco, que é o terceiro estado com o maior número de quilombolas eleitos no Nordeste – sete ao todo.

Assim como Moreira do Atoleiro (PP), nome de urna de José Santana, outros três quilombolas receberão o diploma de parlamentar em 2021 pela primeira vez. Outros três ganharam nas urnas o reconhecimento dos eleitores e foram reeleitos para mais quatro anos no cargo legislativo.

Três dos sete quilombolas vereadores e vereadoras no estado exercerão a próxima legislatura em cidades do Agreste – Caetés, Brejão e Lagoa dos Gatos. A maioria, no entanto, foi eleita para câmaras municipais sertanejas das cidades de Orocó, Itacuruba, Custódia e Betânia. Nesta última, a mais votada foi Espedita Quilombola, vereadora reeleita. 

“Agora é estudar todo regramento da câmara de vereadores para nos apropriarmos do mandato. Assim como a campanha foi participativa, a atuação como vereador também tem que ser. Estarei sempre na rua ouvindo a população e levando as demandas para o plenário da casa”, afirma Moreira do Atoleiro.

Assim como a Marco Zero mostrou às vésperas do primeiro turno das eleições, as candidaturas de quilombolas foram para a disputa com uma pauta unificada em torno da luta pelo reconhecimento da terra e mais investimentos em educação, cultura e saúde. De acordo com Moreira do Atoleiro, as bandeiras ajudaram a obter os votos necessários para a vitória.

José Moreira de Santana, Moreira do Atoleiro (de máscara), eleito vereador em Caetés, no Agreste de Pernambuco. Crédito: Divulgação

“Imagine a dificuldade para um negro, pobre e quilombola entrar em uma disputa eleitoral que, para a elite, só brancos e ricos podem participar e ganhar. A gente tem uma visão diferente da política e demos a cara a tapa sem compra de voto ou troca de favores. A gente vai para lá [câmara municipal] para implantar políticas públicas e fiscalizar a prefeitura”, diz Moreira do Atoleiro.

Para Jacielma da Silva Santos ou Professora Jacielma (PT), como é mais conhecida, além da agenda comum, a trajetória dos quilombolas dentro de cada uma de suas comunidades também foi capital político decisivo nas eleições. Depois de 15 anos trabalhando no levantamento histórico do Quilombo Águas do Velho Chico, em Orocó, e em seguida no reconhecimento do território e na atração de políticas públicas, a educadora chega à câmara municipal da cidade sertaneja.

Jacielma (de máscara), em roda de conversa com as mulheres durante sua campanha por uma vaga na Câmara Municipal de Orocó.

“É uma candidatura coletiva desde que nasceu e será assim na legislatura. Conquistamos mais esse espaço de poder e não vamos ficar sentados, avançamos muito a partir da nossa organização como comunidade quilombola e temos que avançar ainda mais”, conta, emocionada, a futura vereadora.

Resultado aquém do esperado

Em todo o Brasil, cerca de 500 homens e mulheres quilombolas se candidataram a mandatos nos poderes executivos e legislativos municipais. Segundo a Coordenação Nacional de Articulação das Comunidades Negras Rurais Quilombolas (Conaq), 56 foram eleitos, sendo um prefeito e um vice-prefeito.

Pernambuco teve quase o dobro de concorrentes em relação ao pleito de 2016, quando foram eleitos 12 vereadores. A expectativa para a disputa eleitoral deste ano era fazer 17 parlamentares municipais.

“A questão da estrutura financeira foi decisiva para esse resultado [aquém do esperado]. Chegamos a acompanhar visitas de diversos candidatos e as pessoas demonstravam estar fechadas com os quilombolas, mas, do sábado para o domingo, os vereadores com mandato ou maior aquisição financeira ofereceram dinheiro e emprego em troca do voto. Infelizmente [os eleitores] cederam”, diz o coordenador executivo nacional da Conaq, Antônio Crioulo.

De olho em 2022

Olhando o Brasil, Crioulo afirma que a estratégia de fortalecimento do povo quilombola nos espaços de poder e decisão não foi afetada. Segundo ele, a Conaq vai criar um grupo de trabalho com os representantes eleitos para construir planos de atuação com temas alinhados com a pauta nacional quilombola com vistas às eleições de 2022. 

“Vamos construir com eles as pautas referentes à educação, à saúde, acesso ao território e ao fortalecimento da identidade quilombola. Mas também lembrando de sub-eixos importantes, como a questão do acesso ao emprego e à renda, à sustentabilidade e à agricultura. Todas essas serão pautas que nós vamos construir com esse povo quilombola eleito”, explica Crioulo.

Para o coordenador, o pleito deste ano foi apenas um termômetro para a próxima disputa eleitoral.  “Nosso objetivo quando apoiamos essas candidaturas foi possibilitar uma estrutura que dialogasse com a pauta nacional quilombola. E também pensando no futuro, para garantir que tenhamos representantes em nível estadual fortalecendo a pauta do movimento”.