A gestão que não precisa da sociedade

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Na próxima sexta feira, o Projeto Novo Recife volta a ser objeto de análise na reunião do Conselho de Desenvolvimento Urbano. Tendo sido aprovado no CDU, o conjunto de 12 torres terá dado um passo decisivo para que suas obras sejam iniciadas – ao menos no âmbito municipal. Algumas conclusões precisam ser tomadas de mais esse movimento da gestão do prefeito Geraldo Julio. A começar pela questão policial. Analisar um empreendimento sob investigação da Polícia Federal significa desconsiderar a possível constatação de que o leilão foi ilegal – principal suspeita da PF. Agindo assim, a atual administração corrobora o crime e se verá implicada nele.

Quando a operação Lance Final foi realizada pela PF em 30 de setembro, com diligências nas sedes das empresas do Consórcio Novo Recife, a prefeitura se manifestou informando que “a atual gestão não tem relação alguma com os fatos investigados pela Polícia Federal. Trata-se de leilão do antigo patrimônio da Rede Ferroviária realizado, em 2008, pelo Governo Federal”. A declaração traz nas entrelinhas o princípio que guia a forma de fazer Política dos principais grupos de interesse no estado de Pernambuco e que opera uma separação entre a administração feita por A ou B e a coisa pública. Não interessa se o leilão foi feito na administração do PT ou do PSB. A discussão sobre o Estelita é sobre o interesse público e que está para além das gestões, que são passageiras, ao contrário dos legados deixados para a cidade.

O que nos cabe é considerar as razões que levam a atual administração – ou o grupo hegemônico dentro da atual administração, considerando a existência das disputas internas –, se dispor a se envolver (ainda mais) criminalmente com o caso. Ao suspender a análise do CDU, ainda em setembro, depois da operação da PF, a PCR indicava que não gostaria de se ver implicada naquilo que o superintendente da PF Marcello Diniz Cordeiro declarou ser “uma fraude constatada”. A delegada federal Carla Patrícia chegou a afirmar, em entrevista coletiva, que há suspeitas de outros delitos envolvendo o Estelita, como associação criminosa, tráfico de influência e corrupção ativa e passiva. Fica evidente agora que a suspensão da reunião em setembro não pretendia ser um intervalo para as investigações ocorrerem, mas uma estratégia pela qual se esperou a poeira baixar.

Uma possível explicação da disposição da prefeitura em desconsiderar a investigação em curso é de fundo eleitoral. Assim como precisou das doações de campanha do capital imobiliário para se eleger, o atual grupo político precisa confirmar que pode honrar os compromissos que estabeleceu com esse capital. O momento dessa sinalização decisiva é agora, que entramos na reta final dos acertos para as eleições municipais de 2016. Por essa hipótese, Geraldo Julio precisa confirmar que continua confiável para o setor da economia que conquistou a prerrogativa de elaborar e realizar planos urbanísticos para a cidade do Recife. Mas uma das partes dessa equação é de cobrança: as doações feitas por empresas do Consórcio precisam ter o retorno – e o empreendimento Novo Recife é esse retorno.

Outra possível explicação dessa disposição da prefeitura é de ordem política. A administração de Geraldo Julio teria escolhido, não outra, mas essa semana para a condução da análise pelo CDU para dar um recado a quem quiser entender. Na semana em que ocorre no Recife um dos mais virtuosos encontros para discutir o destino da cidade, o Urban Thinkers Recife, a administração sinaliza para o lado oposto das discussões em torno de uma cidade mais democrática, saudável e viável. http://utc.inciti.org/

Essa última explicação hipotética, entretanto, parece muito sofisticada para o histórico de estratégias da atual gestão municipal – que no trato discursivo do chefe do executivo e de seus secretários, na relação com movimentos sociais e no que se refere ao entendimento da urbanidade se move como um elefante numa loja de cristais.

Resta uma conclusão mais ou menos óbvia. A recondução do projeto Novo Recife para a análise do CDU, a escolha do próprio Conselho para ser essa instância decisória, a disposição de se implicar criminalmente com o caso e as hipóteses mais ou menos sofisticadas que levam a esse movimento indicam todas um mesmo fio condutor da política que desconsidera a própria política como espaço de dissenso e do interesse público. Em última instância, a condução do processo – como se ele não estivesse sob judice –, é a constatação da desimportância da sociedade por parte administração municipal.

Durante os anos 1980, no auge da egolatria neoliberal, a então primeira-ministra inglesa Margareth Tatcher afirmou que a sociedade não existe. Esse mesmo princípio tem se atualizado por aqui, matizado pelas cores do patriarcalismo açucareiro e pelo clientelismo político.

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Sobre o autor

Jornalista formado, com mestrado e doutorado em Sociologia. Pesquisa formas periféricas de apropriação tecnológica e suas possíveis contribuições a movimentos sociais emancipadores na periferia do capitalismo tardio. Também se interessa pelas discussões atuais em torno do estatuto da propriedade intelectual, segurança em rede, privacidade e cidadania.

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