As metrópoles que estão escolhendo o caminho da roça

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O que parecia uma área de interesse restrita a ONGs, agricultores familiares e a uma parcela da classe média identificada com a tendência de consumo na Europa e América do Norte, a agricultura agroecológica começa a fazer parte do planejamento urbano de algumas metrópoles brasileiras. O tema esteve presente em vários seminários e trocas de experiências no IV Encontro Nacional de Agroecologia, realizado neste final de semana no Parque Municipal de Belo Horizonte.

Não foi casual a escolha da capital mineira para sediar um evento cujo principal mote era um apelo à união entre campo e cidade. Belo Horizonte é uma referência nacional em matérias de políticas que associam a segurança alimentar à chamada agricultura urbana.

Para se entender essa importância, é preciso voltar ao ano de 1995, quando Patrus Ananias era o prefeito da cidade. Naquele ano, foram criados os Centros de Vivência Agroecológicas na periferia de Belô (para usar uma das formas com que seus moradores se referem à capital) com o objetivo de envolver a população dos bairros mais pobres na produção de alimentos orgânicos, sem uso de venenos e fertilizantes químicos, seguindo práticas de impacto ambiental mínimo.

“Ou seja, há 23 anos a gestão pública da capital já integrava a preocupação ambiental à segurança alimentar e nutricional! E isso era em cogestão com a sociedade civil, pois os Centros de Vivência eram geridos pela Rede de Intercâmbios de Tecnologia Alternativa, uma ONG bastante respeitada no tema”, recorda a bióloga e geógrafa Daniela Adil. Em 1995, recém-formada, ela foi contratada para trabalhar num dos Centros, no bairro do Taquaril.

Depois da experiência na gestão de Patrus, Daniela passou anos como técnica da Rede, atuando junto a agricultores na região metropolitana. Depois de concluir seu doutorado, criou AUE, um grupo multidisciplinar de Estudos da Agricultura Urbana na UFMG. Logo depois, foi convidada para o desafio de, à frente de uma diretoria na subsecretaria de Segurança Alimentar, executar a política de agricultura urbana e familiar em Bê-agá (outra forma adotada pelos mineiros).

No Encontro, Daniela explicou que, além da política de manter uma política de subsídios aos comerciantes permissionários de uma rede de sacolões que vendem alimentos mais baratos na periferia da cidade e de ampliar de 20 para 50 os pontos do programa Direto da roça que garantem espaços fixos para agricultores familiares dos municípios do entorno venderem seus produtos na cidade, a prefeitura de Belo Horizonte decidiu criar um inédito Corredor Agroecológico no vale formado pelo Ribeirão Arrudas, que foi canalizado nos anos 70 e corta a cidade, ora em um canal a céu aberto, ora oculto sob ruas e avenidas.

O corredor começou a ser implantado durante o período do Encontro de Agroecologia. Considerada uma ação estratégica, conta com a participação de vários setores da prefeitura. A secretaria de Planejamento Urbano, por exemplo, mapeou áreas públicas a serem cultivadas, a BHTrans, autarquia que gerencia o trânsito, está revitalizando a degradada ciclovia já existente nas avenidas ao longo do ribeirão.

“O projeto inicial contemplava uma avenida afastada do centro, onde só passavam ônibus e carros, mas para integrar a população, era preciso que fosse numa área de mobilidade ativa, ou seja, com ciclistas, pedestres a caminho do metrô etc”, explica Daniela Adil, que enfatiza a participação da sociedade civil desde o início do processo, em novembro de 2017. Estão participando cooperativas de catadores de lixo, entidades de ciclistas, integrantes do comitê de bacia. Os cicloativistas e catadoras, inclusive, acompanharam a apresentação do projeto, chegando a intervir em várias oportunidades.

Nos taludes do canal, estão sendo plantados arbustos frutíferos típicos do cerrado. Nas praças do percurso haverá estações educativas ou produtivas, com cultivo de ervas medicinas ou aromáticas, como cidreira, erva-doce, manjericão, alecrim e boldo. Moradores de rua estão sendo mobilizados para assumirem os cuidados com as plantas.

Ocupações sustentáveis

Como a maior parte das metrópoles brasileiras, Belzonte (mais uma) convive com as ocupações de prédios vazios ou terrenos ociosos. Lá, apesar da distância política, o prefeito Alexandre Kalil, empresário e ex-dirigente de futebol filiado ao PHS, e o governador Fernando Pimentel (PT), em abril deste ano assinaram um decreto para legalizar e regularizar 119 ocupações, considerando como Assentamentos de Interesse Social as maiores delas: Rosa Leão, Vitória, Esperança e Helena Greco. As três primeiras compõem um conjunto de ocupações na área agora conhecida como Ocupação Izidora, uma das maiores da América Latina.

O decreto foi apenas mais um passo para transformar as quatro maiores ocupações em Territórios Sustentáveis, conforme programa lançado pela gestão municipal em 2017. Os moradores dessas áreas, muitos deles vindos do interior de Minas, estão sendo capacitados para cultivarem hortaliças, legumes e frutas sem agrotóxicos ou defensivos agrícolas. Pomares e hortas comunitárias estão sendo criadas, junto com quintas produtivos, sem a derrubada das árvores ainda existentes na região.

O trabalho está sendo feito a partir da demanda criada pelos militantes das Brigadas Populares e Movimento de Luta nos Bairros, Vilas e Favelas (MLB), movimentos sociais que coordenaram as ocupações.

Rastafári vegano e fazenda no shopping

As iniciativas agroecológicas em Belo Horizonte não partem apenas do poder público e das ONGs especializadas no assunto. Uma das experiências mais singulares caiu no gosto do público. Trata-se da Roots Ativa, grupo de rastafáris que vivem na comunidade Vila Nossa Senhora de Fátima, bairro com população majoritariamente negra.

Os rásta produzem na favela os próprios vegetais, base de sua alimentação vegana. Pelo menos 30 famílias do local contribuem e participam recolhendo diariamente os resíduos orgânicos domésticos, que são levados em baldes para uma central de compostagem que fornece o adubo que fertiliza a agroflorestal no alto do morro.  O método é abertamente inspirado na Revolução dos Baldinhos catarinense que veremos mais abaixo.

As famílias participantes recebem parte dos recursos gerados pela venda dos sucos naturais, bombons de grão com mel, granola artesanal, pastéis integrais, hambúrguer vegano e as tapiocas rosas (com farinha de beterraba), amarelas (farinha de açafrão) e verdes (farinha de cheiro-verde). As tapiocas coloridas, por sinal, é o lanche da moda na cidade.

Na outra ponta da pirâmide social e econômica, o Shopping Boulevard abriga a Be Green, com aquilo que sua propaganda chama de “maior fazenda urbana da América Latina”. Traduzindo a linguagem publicitária: um conjunto de estufas onde são cultivadas 20 variedades de hortaliças aquapônicas (hidropônicas, com utilização da água para a criação de peixes. Sim, peixes). Toda a produção é vendida na loja, instalada bem ao lado das estufas, no lado externo do shopping.

 Dos bolcheviques aos baldinhos em Florianópolis

Os moradores do bairro de Monte Cristo, na ilha de Florianópolis, tem motivos para desconfiar que a revolução socialista não acontecerá sob liderança de arrojados guerrilheiros bolcheviques, mas com baldinhos. Isso mesmo: baldes, pequenos e cheios de restos de comida, tudo quanto é tipo de sobras e, porque não, cocô.

Pode ser que Revolução dos Baldinhos seja um nome exagerado para um projeto socioambiental, mas a verdade é que já elegeu um vereador na capital de Santa Catarina. Marcos José de Abreu, tem 38 anos e chegou na comunidade aos 20 para trabalhar como arte educador. Mudou de carreira e se formou em Agronomia.

Anos depois, assumiu a coordenação do programa de agricultura urbana na comunidade, financiada pelo Misereor, fundo de financiamento social mantida pelos bispos alemães. Em 2016, foi eleito pelo PSOL como o segundo vereador mais votado de Floripa. Graças aos baldinhos.

O projeto é simples: 150 famílias do bairro recolhem seus resíduos orgânicos e levam para a central de compostagem, mais ou menos como os rastafáris mineiros, só que numa proporção cinco vezes maior. São mais de 10 toneladas de lixo por mês, transformada em 3,5 toneladas de adubo utilizado nas hortas cultivadas nos quintais. O excedente é vendido para sementeiras ou floriculturas da vizinhança.

“Isso é socialismo, cara, socialismo na prática! A população assume a gestão dos seus resíduos, é o desmonte da centralidade do capital”, afirma o vereador Marcos Abreu, que continuam a ser chamado de Marquito pelas dezenas de mulheres que protagonizam a Revolução dos Baldinhos.

Na Câmara Municipal, Marcos quer aprovar a primeira lei “revolucionária”. Ele apresentou um projeto de lei para que o município remunere as associações, cooperativas e empreendimentos de economia solidária que façam gestão de resíduos sólidos. A parada é dura: caso seja aprovada, a lei criará um precedente que reduzirá o lucro das empresas que recolhem e tratam o lixo da capital.

Seus argumentos, no entanto, são dotados de uma lógica fácil de ser compreendida. “A maior parte do lixo orgânico é água. Tem sentido ficar transportando toneladas e toneladas de água suja para lá e para cá? Os aterros sanitários foram criados para isolar a população da sujeira. Hoje, isso tem sentido apenas no caso do lixo químico ou hospitalar. Se existe tecnologia barata para fazer a sujeira se transformar em riqueza, por que isolá-la do povo?” O parlamentar questiona se a cidade deve continuar gastando R$ 200 milhões do seu orçamento com recolhimento de lixo (20% do total em 2017), quando gasta apenas R$ 11 milhões com cultura e esportes.

Recifenses dão exemplo de comercialização

Agricultoras pernambucanas apresentam projeto das frutas orgânicas do Recife. Foto: Inácio França/MZ Conteúdo

Agricultoras pernambucanas apresentam projeto das frutas orgânicas do Recife. Foto: Inácio França/MZ Conteúdo

Durante o Encontro de Agroecologia, a Rede de Espaços Agroecológicos do Recife,  popularmente conhecidas como “feiras de orgânicos” foram apresentadas como exemplos de experiência positiva para a “construção social de novos mercados” e de ampliar a visibilidade da agroecologia junto ao público urbano.

As agricultoras Carla Oliveira e Silva, de Bom Jardim, que vende seus produtos na feira das Graças, e Maria José de Freitas, de Lagoa de Itaenga, cujo pai comercializa em Boa Viagem, explicaram para agricultores ou técnicos de todo o Brasil e de sete países (Argentina, Colômbia, Espanha, França, Guatemala, Paraguai e Uruguai) como os agricultores definem em assembleias democráticas a tabela de preços, o gerenciamento dos recursos financeiros do fundo comum, fardamento e regimento interno. Segundo elas, quase R$ 2 milhões já circularam em apenas duas feiras: em Boa Viagem e na mais antiga delas, nas Graças.

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Sobre o autor

Formado em Jornalismo na Unicap, aprendeu mesmo o ofício como repórter de polícia do Diário Popular (SP) . Passou pela sucursal paulista de 'O Globo' e 'Diário de Pernambuco'. Ganhou os prêmios Vladimir Herzog de Jornalismo e Direitos Humanos, Cristina Tavares, Ayrton Senna de Jornalismo e menção honrosa no Ibero-Americano de Jornalismo pelos Direitos da infância. Saiu das redações para ser secretário de Comunicação de Olinda. Em seguida, foi oficial e consultor de comunicação do UNICEF, assessor de imprensa pouco inspirado na secretaria de Ciência e Tecnologia de PE. Também viu de perto os intestinos do futebol como diretor de Comunicação do Santa Cruz F.C. Publicou a novela 'Terezas' (2017), uma trilogia de crônicas de futebol com Samarone Lima (2013-2014) e dois livros de entrevistas e memória com a cineasta Tuca Siqueira (2009 e 2014). É casado com uma mulher que ama desde a adolescência e tem três filhos.

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