#EleNão: a tag que uniu as mulheres contra Bolsonaro nas redes e nas ruas

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Por Helena Dias

Momentos antes dos atos “Mulheres Unidas Contra Bolsonaro” começarem a ocupar as ruas de várias capitais do país como Recife, São Paulo e Rio de Janeiro, a hashtag #Elenão cumpria apenas a função de qualquer outra tag: agrupar nas redes sociais conteúdos em comum. As manifestações contra o candidato à presidência da República Jair Bolsonaro (PSL) estavam em evidência no meio virtual, a dúvida era se a mobilização teria a mesma proporção offline.

Às 14h46 de ontem, sábado (29), boa parte das 14 mil pessoas que confirmaram presença no evento do Facebook, marcado no Recife, gritavam em coro #Elenão e concretizavam o que antes eram hiperlinks muito bem ranqueados e grupos virtuais suprapartidários de brasileiras dispostas a transformar os rumos das eleições deste ano. Mostraram que ainda é primavera feminista e que a estação parece imutável quando se trata de combater os invernos patriarcais. O número de participantes chegou aos 100 mil só no Recife, de acordo com a organização local. Mais de meio milhão de mulheres ocuparam as ruas de 65 cidades brasileiras, na estimativa das organizadoras.

Nas trends do twitter, enquanto a conhecida #ÉpelaVidadasMulheres liderava, as mulheres protagonizavam a maior manifestação de rua registrada desde o #ForaTemer, ocorrido após o Golpe de 2016, que depôs a ex-presidente Dilma Rousseff (PT). A diversidade ocupou a praça. Entre bandeiras de partidos políticos, sindicatos, candidatos e movimentos sociais transitavam rostos novos, feministas, em cores variadas e em sintonia com o colorido da bandeira LGBT.

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Simone Paiva: “Meu voto não pode estar atrelado à sexualidade das pessoas”

Lá estavam grupos cristãos e policiais antifascistas se posicionando abertamente contra o candidato do PSL.

“Deus nos livre”, estava escrito no cartaz de Simone Paiva, profissional da área de educação. Ela questionava como Bolsonaro se afirma cristão e tem disseminado tanto ódio às minorias. “O meu voto não pode ser atrelado à sexualidade das pessoas. Eu voto por um projeto, por moradia, por pão na mesa. E esse é o voto que eu sei que Jesus Cristo é a favor. A sexualidade, cada um resolve a sua. Não tenho nenhum problema com isso, não. #Elenão porque eu, como cristã, é que devo ser contra ele mesmo”, explicou.

De acordo com levantamento do Laboratório de Estudos sobre Imagem e Cibercultura (Labic), da Universidade Federal do Espírito Santo (UFES), divulgado pela edição brasileira do jornal EL País, as hashtags relacionadas a #Elenão tiveram seu pico no Twitter, próximo ao dia 16 deste mês, quando houve o ataque cibernético contra as moderadoras do grupo nacional Mulheres contra Bolsonaro no facebook.

No mesmo período, o movimento deu resposta ganhando ainda mais capilaridade na rede. Para se contrapor, apoiadores do deputado federal do PSL formaram as tags #elesim e #mulherescombolsonaro, no twitter. Mas, segundo o Labic, o engajamento pró-bolsonaro se manteve em níveis inferiores ao das #MulherescontraBolsonaro.

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Edna Andreza: “Violência não ajuda. Gentileza gera gentileza”

O levante feminino virtual transmitiu neste sábado a mesma força e disposição offline. Durante o percurso na Avenida Conde da Boa Vista, ao som da batucada feminista, manifestantes seguiam muitas vezes com as telas dos smartphones nas mãos ou no alcance dos olhos. Fotos, vídeos, lives (quando possível). Não era difícil escutar: “não esquece de taguear”.As tags estavam presentes também nos cartazes. Das redes para as ruas e das ruas para as redes.

Edna Andreza, moradora do bairro da Várzea, vê a manifestação como uma resposta à opressão disseminada por Bolsonaro. “Ser humano é estar aqui. Eu estou aqui por isso. O que me move é que eu respeito as diferenças, eu respeito o que é a mulher, o que é a criança. Eu não acho que violência ajuda, acredito que gentileza gera gentileza. Então o que me move para estar aqui hoje é isso, é aprender como a gente pode brigar pelos nossos direitos.”

Assim como a maioria das mobilizações que têm como ponto de partida a Praça do Derby, a manifestação contra Bolonaro terminou na Praça da Independência, no bairro de Santo Antônio. Já era noite e a reunião transpassava as fronteiras das tags e, mais ainda, dos gêneros. Homens e mulheres dançavam ciranda de mãos dadas e cantavam “Feminismo é Revolução” juntos.

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