No Recife, Mourão fala com empresários, recebe título de cidadão e sai à francesa

0

Sentado no chão, um grupo de jornalistas esperava do lado de fora do Mar Hotel, em Boa Viagem, no começo da tarde desta quarta-feira (5). No salão interno, a portas fechadas, acontecia um almoço-debate com o vice-presidente da República, o general Hamilton Mourão e 220 empresários, promovido pelo Grupo de Líderes Empresariais, o LIDE, entidade ligada ao governador de São Paulo, João Dória. Mourão, que veio a Pernambuco  receber o título de cidadão recifense concedido pela Câmara de Vereadores, aproveitou a ocasião para se aproximar do empresariado e conquistar apoio para as pautas do governo.

A principal das pautas é a reforma da Previdência, que tramita no Congresso, e foi o tema central da fala do general durante o evento no Mar Hotel. O empresariado respondeu com aprovação de 99%  da proposta entre os 220 participantes, segundo pesquisa do IBOPE e do LIDE Empresarial, realizada no momento do debate. O LIDE inclusive espalhou outdoors em apoio às mudanças na aposentadoria pelo Recife.

O vice-presidente chegou ao almoço-debate acompanhado pelo deputado Marco Aurélio  (PRTB), correligionário e autor do projeto de concessão do título de cidadão recifense a Mourão. Os três anos de serviço ao Exército na capital pernambucana, de 1982 a 1985, foram a justificativa usada por Marco Aurélio quando ainda era vereador, para conseguir aprovar a proposta, rejeitada apenas por dois vereadores. No período, contudo, Mourão não chegou a morar no Recife, mas no bairro de Candeias, que fica em Jaboatão dos Guararapes. Desde o ano passado o deputado Marco Aurélio tentava uma vaga na agenda de Mourão para realizar a solenidade de entrega. Em 8 de março, no Dia da Mulher, o vice-presidente cancelou a participação em cerimônia, já anunciada, para se dedicar a apagar incêndios no governo.

bannerAssine

Visto como alguém de melhor relacionamento com os jornalistas do que o presidente Jair Bolsonaro (PSL),  que costuma xingar os repórteres, o nada decorativo vice-presidente anda evitando o contato coletivas de imprensa. No Recife, cumpriu a agenda sem falar com os jornalistas, de certo para evitar polêmicas em torno de suas declarações, que costumam divergir dos disparates presidenciais. Mesmo assim concedeu entrevista para o empresário Antônio Lavareda, que tem programa na TV Jornal. A Assessoria de Imprensa da vice-presidência disse que “a entrevista já estava agendada há tempo.”

Leia mais:

Contra rejeição, Bolsonaro acena para o Nordeste e recebe crítica por governo “de uma nota só”

Ato pró-Bolsonaro no Recife: novos “vilões” e clima de campanha

Na saída do Mar Hotel alguns empresários comentaram que Mourão manteve o mesmo tom moderado que assumiu desde que sentou na cadeira da vice-presidência, destoando da cúpula do governo. “Se mostrou uma pessoa muito sensata”, comentou o presidente do Sindicato dos Produtores de Açúcar e de Álcool (Sindaçúcar-PE), Renato Cunha. “Sem dúvida a classe empresarial mostra apetite em investir no país, mas é preciso que se crie um ambiente favorável com reformas como a da Previdência”, acrescentou.

Sobre a Previdência, o general  disse que a tramitação do projeto deve ser concluída em breve. “Acredito que vou ganhar esse presente de aniversário (15 de agosto) quando já vai estar aprovada a reforma”, previu. “Eu disse que a reforma da Previdência é igual a uma garrafa, tem aquele caminho estreito, um gargalo, mas que tem que sair porque se abre toda uma gama de novas oportunidades. Se cria confiança para os investimentos virem ao país”, comparou.

O recado ao empresariado ainda incluiu a defesa das reformas tributária e financeira, além de mudanças no comércio exterior e nas agências reguladoras. Também falou da importância da segurança jurídica. “Deveria ter um acordo que não houvesse decisões monocráticas dentro do Supremo Tribunal Federal”, argumentou.

Rumo à Câmara

Depois do discurso, Hamilton Mourão almoçou com os participantes do debate. Comeu peixe, arroz e salada, o mesmo cardápio servido ao público. Chegou à Câmara dos Vereadores à tarde. Do lado de fora da sede do legislativo municipal não se viam protestos contra a concessão do título de cidadão recifense para o vice-presidente. Ali estavam apenas poucos apoiadores do governo Bolsonaro, como a secretária e ativista de projetos sociais Lucineide Brasil. “A saúde está doente. A educação está mal. A segurança está insegura. Mas não é culpa de Bolsonaro”, considerou enquanto distribuía bombons e mensagens aos presentes. “É culpa das falcatruas…da falta de Deus. Queria dizer a Mourão que ele não desista da competência que ele tem”.

Um pouco mais à frente, um grupo de seis pessoas com bandeiras do Brasil foi barrado por causa da lotação do Plenário. “Não votei em Bolsonaro,  estou aqui por consideração a Marco Aurélio. Não acho que esse governo está dando resultado”, disse uma das participantes, que pediu para não ser identificada.

O general foi recebido em um plenário dominado por homens engravatados ou fardados. Os jornalistas foram mantidos na galeria, parte mais alta e isolada do espaço. Representantes da Academia Militar das Agulhas Negras, onde ele serviu, estavam na plateia, que incluiu também grupos de paraquedistas e outros companheiros da carreira militar. A notável ausência do prefeito Geraldo Júlio (PSB) foi justificada em leitura de uma carta dele pelo presidente da Câmara, Eduardo Marques (PSB). No texto, o gestor explicava que precisou se ausentar para receber um prêmio em Brasília. Marques fez uma saudação a Mourão citando uma passagem bíblica que é bênção a Israel. “O Senhor sobre ti levante o seu rosto e te dê a paz”, diz um dos versículos.

A mesa da cerimônia foi formada pelo presidente da Casa, pelo presidente da Assembleia Legislativa, Eriberto Medeiros (PP), pelo deputado Marco Aurélio, pelo presidente do PRTB, Levy Fidélix, pelo Comandante Militar do Nordeste, Marco Antônio Freire, e pelo Comandante do Cindacta (Centro Integrado de Defesa Aérea e Controle de Tráfego Aéreo), César Faria. O protocolo foi quebrado para que o deputado Marco Aurélio pudesse conduzir o momento de entrega da medalha e do diploma de cidadão a Hamilton Mourão. Na tribuna, o parlamentar fez questão de narrar como conheceu o vice-presidente, quando fez material de campanha com foto de Bolsonaro e Mourão, gesto retribuído pelo general com um vídeo.

“Depois nos encontramos em São Paulo, na gravação do programa de Dória. Foi então que soube que ele tinha servido no Recife. Fiquei impressionado com o conhecimento que ele tem da cidade e achei que era justo conceder esse título”. Presidente do PRTB, Levy Fidélix, que também recebeu o título de cidadão recifense graças a projeto apresentado pelo então vereador Hélio Guabiraba (PRTB), disse que “quando o partido filiou Mourão, um ano atrás, o Brasil começou a mudar”.

Rato Molhado?

A apresentação da Orquestra Cidadã, projeto social que atende jovens de baixa renda, emocionou o vice-presidente, que enxugou as lágrimas enquanto os violinos tocavam “My Way”, canção que ficou eternizada na interpretação de Frank Sinatra. Ele também balançou a cabeça acompanhando as músicas apresentadas em sua homenagem e aplaudiu de pé os jovens da orquestra. “Enquanto a orquestra tocava passava um filme na minha cabeça. Em agosto de 1982 recebi a minha movimentação no interior do Rio grande do Sul para o Recife. Conhecia só das histórias do meu pai que serviu no final dos anos 30, aqui no forte das cinco pontas. Meu filho tinha cinco anos. Embarcamos no nosso Chevette e viemos parar aqui”, lembrou, ainda emocionado.

Mourão, que na época tinha 29 anos, diz ter se apaixonado pela cidade onde nasceria a sua filha Renata. “Conheço tudo. Da Ilha do Maruim,  ao Cabanga, Pina, Brasília Teimosa, Torre, Madalena, Entra a Pulso”, listou, se gabando, mas deixou escapar nessa lista um lugar de nome Rato Molhado que, até onde a reportagem tem conhecimento, não existe no Recife.  “Criei uma simbiose com a cidade, perdoe a emoção”, comentou, novamente enxugando as lágrimas. “Por isso, em vez de trazer um discurso pasteurizado, quis falar com vocês de coração”, justificou o General, mostrando um lado emotivo.

No final do evento, contudo, Mourão preferiu sair à francesa, sem enfrentar os questionamentos dos jornalistas. A Assessoria de Imprensa da vice-presidência também se manteve reservada, interagindo com os repórteres apenas por mensagens no Whatsapp. Essa falta de comunicação também causou ruídos entre as equipes de trabalho da Câmara de Vereadores e da vice-presidência, e quase fez repórteres serem barrados no evento porque a entrega das credenciais foi adiantada em uma hora sem que todas as equipes fossem devidamente comunicadas.

 

Compartilhe:

Sobre o autor

Mariama Correia trabalhou por mais de três anos como repórter do caderno de Economia da Folha de Pernambuco. Antes disso, adquiriu ampla experiência atuando como freelancer e em assessorias de imprensa. Tem cursos nas áreas de jornalismo de dados (Associação Brasileira de Jornalismo Investigativo), fact-checking e mídias digitais (Kings Brighton).

Deixe um comentário