No Recife, Sérgio Moro não encanta plateia e se esquiva sobre articulação

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A primeira passagem oficial pelo Recife do ministro da Justiça e Segurança Pública, Sérgio Moro, foi sem distrações. E com muita pressa. Na agenda oficial, Sérgio Moro tinha três compromissos no Recife: café da manhã com o governador Paulo Câmara (PSB), às 7h, no Palácio do Campo das Princesas; reunião sobre o Pacto Pela Vida, às 8h; e o principal evento, palestra sobre o combate à corrupção para policiais dentro do Programa de Fortalecimento das Polícias Judiciárias.

Pouco depois das 6h30, a comitiva do ministro foi vista parando nos semáforos de Boa Viagem em direção ao centro do Recife. Antes das 6h50 já estava no Palácio. Ainda faltavam uns minutos para as 8h quando chegou na Secretaria de Planejamento e Gestão (Seplag) para a reunião do Pacto pela Vida, junto com o governador. Às 8h20, os dois saíram para uma rapidíssima coletiva de imprensa. Antes das 8h30, Moro entrou na sala para a palestra. Saiu às 10h04. Às 11h30, pegaria um voo comercial de volta para Brasília.

Nos pouco mais de três minutos em que passou respondendo aos jornalistas (e assessores do governo), Sérgio Moro escolheu as perguntas e deu respostas protocolares. Abriu a rápida coletiva afirmando que veio para o curso e que foi convidado “gentilmente pelo governador para conhecer o programa Pacto pela Vida”.

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Nesta introdução, disse que o programa do governo de Pernambuco estava no caminho certo, por trabalhar com  “inteligência e integração” e elogiou a participação de Paulo Câmara nas reuniões. E afirmou, sem explicar de que forma, que o governo federal quer aprofundar as relações com o estado no combate à violência.

Mesmo com o afago já dado, a primeira das quatro perguntas que Moro escolheu responder foi “sobre a funcionalidade do programa Pacto pela Vida, como o senhor avalia?”, feita não por um dos muitos repórteres que se espremiam para tentar falar com o ministro, mas sim por uma assessora de comunicação do governo de Pernambuco. A levantada de bola surtiu efeito e Moro repetiu os comentários anteriores com outras palavras, mais longas.

A pergunta seguinte era inevitável e foi sobre o Conselho de Controle de Atividades Financeiras (Coaf) – que Moro, antes mesmo de assumir o Ministério, havia requisitado o controle para o presidente Jair Bolsonaro. A Câmara dos Deputados impôs mais uma derrota ao governo na noite de ontem (22), e o Coaf voltou ao controle do Ministério da Economia, de Paulo Guedes.

“Já me manifestei ontem (pelo twitter). Faz parte. O governo fez uma proposta legislativa, foi colocada no Congresso, houve uma votação, por uma maioria apertada (228 a 210) se decidiu pela volta do Coaf ao Ministério da Economia. Embora eu não tenha gostado evidentemente da decisão, respeitamos a decisão”, afirmou, esticando as palavras.

Logo em seguida, foi perguntado se esperava um veto presidencial a essa mudança. Explicou então que achava que não seria possível – por questões de legislação – ,  “mas é algo a ser avaliado”, afirmou. “Ministro, quem errou na articulação? (do Coaf)”, perguntou por duas ou três vezes uma repórter, em alto e bom som. Foi ignorada.

A outra pergunta que Moro escolheu responder foi sobre o recuo (pontual) de Bolsonaro em relação ao decreto que amplia porte e posse de armas no Brasil. Enquanto andava, falou apenas que “o presidente foi sensível a algumas queixas que foram feitas. Isso é normal numa política pública”. E entrou no corredor que leva ao auditório da Seplag.

Sem selfies e sem perguntas

Em um auditório pequeno, lotado por policiais civis e assessores dos governos federal e estadual, Sérgio Moro falou por cerca de uma hora sobre medidas de combate à corrupção. Sem o suporte de projeções ou banners, ele falou sobre exemplos da Lava Jato e não citou nenhuma investigação ocorrida recentemente. A palestra foi a portas fechadas, sem acesso da imprensa, que ficou na recepção do primeiro andar, vigiada por policiais. Do lado de fora, foram ouvidos aplausos, curtos, em três situações.

A Marco Zero conversou com três pessoas que assistiram à palestra de Moro. Nenhuma saiu impressionada pelas palavras do ministro. “Eu esperava mais. Ele fala bem, tenta até ser engraçadinho…mas ele não falou algo realmente interessante ou que seja relevante. Foi só o migué”, afirmou um policial civil.

A organização inicial previa um momento de perguntas e respostas entre Moro e os policiais, mas quando chegou neste hora o ministro afirmou que não poderia mais ficar no auditório. Os três ouvintes classificaram a palestra como “nada demais” ou “genérica”.

Na saída, duas emissoras de televisão, dois sites e uma rádio ainda aguardavam o ministro. Olhando fixamente para a frente e com passos ágeis, ele se limitou a dizer “agora não”, sem olhar para os interlocutores. Não tirou fotos com os convidados da palestra, alegando pressa para ir ao aeroporto.

Na agenda oficial, o único compromisso que Moro ainda tem nesta quinta-feira é uma audiência com o deputado federal Diego Garcia (Podemos-PR), em Brasília. Um levantamento do jornal O Estado de S. Paulo mostrou que o ministrou já teve audiências com mais de um sexto dos membros do Congresso, rivalizando em número apenas com o ministro da Casa Civil, Onyx Lorenzoni (DEM). A maior parte das visitas a Moro foi de deputados da bancada da bala. Com a perda do Coaf, Moro deve investir ainda mais em articulação com os deputados para tentar aprovar seu polêmico pacote Anticrime.

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