O ano da Marco Zero: um 2018 com mais jornalismo independente contra a perda de direitos

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Para a Marco Zero Conteúdo, 2018 foi um ano de consolidação do projeto de manter um veículo de jornalismo independente e financeiramente sustentável em Pernambuco. Não foi fácil. Mesmo com um cenário adverso, marcado por ameaças explícitas à liberdade de expressão e à democracia, pelo fortalecimento do discurso autoritário e pela crescente perda de direitos históricos conquistados pelos trabalhadores, conseguimos produzir ainda mais conteúdos relevantes, ampliamos o número de repórteres na nossa Redação, multiplicamos nossas parcerias estratégicas e aumentamos em mais de 60% nossas receitas. Em 2018 conseguimos estar mais presentes na vida dos nosso leitores.

Para esta breve “prestação de contas”, selecionamos cinco pontos que marcaram a trajetória da Marco Zero nestes últimos 12 meses:

1)    Três vezes mais conteúdo

Publicamos 276 conteúdos jornalísticos em nosso site (uma média de quase cinco postagens por semana). Isso significa um aumento de 188% em relação ao que foi produzido em 2017. Aqui, um recorte importante e que ajuda a entender a linha editorial adotada pela Marco Zero: quase um quarto do material que colocamos no ar (62 reportagens) tinha como foco questões relacionadas aos direitos humanos, cidadania ou democracia. Outro quarto da nossa produção foi dedicado à diversidade, questões de gênero ou identitárias. Destaque também para temas que trataram da relação das pessoas com a cidade (31 matérias) e da segurança pública (12).

Em 2018, a Marco Zero realizou algumas coberturas especiais. Fomos o único veículo de comunicação de Pernambuco presente na 13ª edição do Fórum Social Mundial, que aconteceu em Salvador (BA), entre os dias 13 e 17 de março. Cobrimos também o Congresso Latino Americano de Ciências Sociais (Clacso), realizado mês passado, em Buenos Aires. Essa, por sinal, não foi nossa única cobertura internacional.

Entre abril e maio, acompanhamos a experiência de intercâmbio entre agricultores do Semiárido nordestino e os campesinos do chamado Corredor Seco, abrangendo El Salvador, Guatemala, Honduras e Nicarágua. A iniciativa foi promovida pela Organização das Nações Unidas para Alimentação e Agricultura (FAO) e a Articulação Semiárido Brasileiro (ASA), através do projeto Cooperação Sul-Sul para o manejo de recursos naturais e produtivos em zonas áridas e semiáridas no Corredor Seco da América Central.

Prestação 17 a (3)

2)    “Vocês são da Marco Zero?!”

Ouvimos muito a frase acima. O “Vocês são da Marco Zero?!”, com a entonação que demonstrava reconhecimento e respeito, foi repetido diversas vezes quando nos apresentávamos nos vários encontros, reuniões ou eventos para os quais fomos convidados em Pernambuco ou em outros estados do Brasil, em 2018. A frase serve para ilustrar o fato de que, depois de três anos e meio de existência, a Marco Zero já tem um papel relevante dentro da sociedade civil organizada e, principalmente, no “ecossistema” do jornalismo independente.

Em 2018 fomos convidados para:

- U.S. Study Tour for Brazilian Journalists: Press Freedom and Innovation in Journalism (USA)

- Intercâmbio entre agricultores do Semiárido nordestino e dos campesinos do Corredor Seco (El Salvador e Guatemala)

- Workshop da International Center for Journalists e News Integrity Initiative (São Paulo)

- Festival Vida e Arte (Fortaleza)

- Encontro Nacional de Agroecologia (Belo Horizonte)

- Encontro Nacional de Proteção a Comunicadores (São Paulo)

- Curso Avançado de Direitos Humanos (Brasília)

- IX Congresso Estadual dos Jornalistas do Ceará (Fortaleza)

- XII Encontro Nacional de Projetos do Fundo Brasil de Direitos Humanos (São Paulo)

- Encontro Internacional sobre fontes alternativas de energia (Cajazeiras/PB)

- Festival 3i (Recife)

 

Em 2018 também conquistamos nossas primeiras finais em prêmios nacionais de jornalismo, o que não deixa de ser uma importante forma de reconhecimento público. A reportagem “Salgueiro, a cidade que ficou no meio do caminho“, da repórter Mariama Correia, foi finalista do 25º Prêmio CNH de Jornalismo. O trabalho nasceu de uma parceria entre a Marco Zero Conteúdo e o The Intercept Brasil, sendo publicada simultaneamente por ambos os veículos de jornalismo independente em maio deste ano.

A outra final foi alcançada no Prêmio Fotográfico do Fundo Brasil de Direitos Humanos, com a foto de autoria da nossa editora de imagem Inês Campelo, feita na comunidade do Pilar, no Bairro do Recife.

Imagem finalista  do Prêmio Fotográfico do Fundo Brasil de Direitos Humanos. Foto: Inês Campelo

Imagem finalista do Prêmio Fotográfico do Fundo Brasil de Direitos Humanos. Foto: Inês Campelo

 

A jornalista Carol Monteiro, Presidenta do Conselho Diretor da Marco Zero Conteúdo, participou entre os dias 5 e 17 de março do U.S. Study Tour for Brazilian Journalists: Press Freedom and Innovation in Journalism, nas cidades de Washington, Austin e São Francisco, nos EUA. O programa é oferecido pelo International Center for Journalists (ICFJ), organização engajada em fomentar o jornalismo através da inovação, da tecnologia e das boas práticas.

A Marco Zero foi o único veículo de Pernambuco no evento que promoveu encontros, debates e treinamentos com profissionais de algumas das mais inovadoras experiências jornalísticas, como a Vox, AJ+ e Vice News, entre outras. A programação também incluiu encontros com representantes de iniciativas de jornalismo independente, como o Texas Tribune e PolitiFact, site de checagem de fatos vencedor do prêmio Pulitzer de 2008 pela cobertura das eleições americanas realizadas no mesmo ano, e visitas a universidades como Stanford e à sede do Google em São Francisco. A jornalista viajou a convite do Consulado Geral dos Estados Unidos no Recife.

3)    Eleição além das agendas das candidaturas

Dois projetos marcaram a cobertura das eleições 2018 feita pela Marco Zero: o Adalgisas e o Truco. A ideia era cobrir a disputa eleitoral indo além das agendas, eventos e declarações dos candidatos, dando visibilidade a temas que passam longe das abordagens feitas pela mídia tradicional.

No projeto Adalgisas a cobertura das eleições foi feita com foco na participação das mulheres. Além da produção de 42 reportagens destacando a participação feminina na disputa pernambucana, o Adalgisas inovou também na forma de captação de recursos. Através de uma campanha de financiamento coletivo no Catarse, conseguimos arrecadar R$ 18.635,40 (já descontadas as taxas da plataforma).

O sucesso do Adalgisas deve-se também às várias parcerias estabelecidas. Nos pouco mais de três meses do projeto, trabalhamos em conjunto com o Observatório da Mídia da UFPE, com o Centro das Mulheres do Cabo, com a revista Gênero e Número e com a Inspirada na Computação. Um detalhe importante é que todas estas organizações são comandadas por mulheres.

Já o Truco nos Estados foi um projeto de checagem de fatos nas disputadas estaduais coordenado nacionalmente pela Agência Pública e feito em Pernambuco em parceria com a Marco Zero Conteúdo, repetindo o que já havia sido estabelecido para as eleições municipais de 2016.

Durante 60 dias, verificamos a veracidade e atribuímos selos ao que foi dito pelas seis candidaturas ao Governo do Estado em sabatinas, entrevistas e redes sociais, analisando diferentes discursos e pontos de vista, com o objetivo de aprimorar o debate público durante as eleições. Ao todo, analisamos 12 temas e 32 checagens foram publicadas.

checagens por candidato truco 2018 pernambuco

4)    A ciência e a arte de ser sustentável

Pelo segundo ano consecutivo, desde junho de 2015 quando a Marco Zero entrou no ar, conseguimos financiar toda nossa operação. Mais do que isso, aumentamos nossa receita em 63% em relação ao ano anterior, passando de R$ 453.669,76 para R$ 738.858,85. Ao todo, somando o saldo de 2017, em 2018 movimentamos R$ 992.654,49. Ainda em janeiro iremos publicar nosso balanço contábil, detalhando as receitas e as despesas realizadas em 2018.

Com o aumento na receita foi possível ampliar a estrutura da Marco Zero, com a compra de equipamentos e a contratação de profissionais.

Agora, nossa Redação é formada por:

- Coordenador executivo

- Coordenador de conteúdo

- Editor

- Editora de imagem

- Cinco repórteres

- Contadora

- Gerente de projetos/administrativo

A exemplo do que ocorreu no ano passado, nossa principal fonte de receitas veio do apoio institucional da Fundação OAK, uma organização internacional que tem como missão apoiar questões de interesse global, social e ambiental.

Saiba quais foram nossas fontes de receita:

- OAK (Apoio institucional): R$ 618.880,23

- Fundo Brasil de Direitos Humanos (Edital de jornalismo investigativo): R$ 40.000

- Fundo Socioambiental Casa (Edital): R$ 28.500

- Agência Pública (Projeto Truco Eleições 2018): R$ 19.420

- Catarse (Financiamento coletivo para o Projeto Adalgisas): R$ 18.635,40

- Asserte – Associação de Defesa da Saúde Sexual, Saúde Reprodutiva Educação e Cidadania (Prestação de serviço editorial) R$ 11.000

- Assinaturas: R$ 7.158,62

- Instituto Vladimir Herzog (Projeto Usina de Valores): R$ 6.950

- Saldo de 2017: R$ 253.795,64

- Total movimentado: R$ 992.654,49

5)    Juntos somos fortes

A Marco Zero acredita na construção compartilhada e colaborativa do conhecimento. Por isso, apostamos na criação de redes e no estabelecimento de parcerias estratégicas. A lógica serve tanto para a parte editorial, na produção de conteúdos jornalísticos, quanto na captação de recursos e gestão. Em 2018, cumprimos com rigor esse preceito. Foram quase duas dezenas de projetos tocados em conjunto com várias entidades da sociedade civil ou outras organizações de jornalismo independente.

Viva nossos parceiros:

- Instituto Vladimir Herzog (Projeto Usina de Valores)

- Departamento de Comunicação Social da UFPE (Programa Fora da Curva)

- Departamento de Serviço Social da UFPE (Documentário Bora Ocupar)

- Observatório da Mídia da UFPE (Projeto Adalgisas)

- Gênero & Número (Projeto Adalgisas)

- Agência Pública (Truco 2018)

- The Intercept Brasil (Reportagem “Salgueiro: a cidade que ficou no meio do caminho)

- Fundo Socioambiental Casa (Projeto Bigú Comunicativismo)

- Fundo Brasil de Direitos Humanos (Projeto “Suape pelo Avesso”)

- Plataforma DHESCA (Relatório Complexos Industriais e Violações de Direitos – o caso Suape)

- Fórum Suape (Projeto “Suape pelo Avesso”)

- Centro das Mulheres do Cabo (Projeto Adalgisas e Projeto “Suape pelo Avesso”)

- Gestos (Eleições x Objetivos do Desenvolvimento Sustentável)

- GT Agenda 2030 (Eleições x Objetivos do Desenvolvimento Sustentável)

- Gajop e Fórum Popular de Segurança Pública (Eleições x Segurança Pública)

- Cesar Scool (Desenvolvimento de um sistema de gerenciamento de tarefas integrado)

- Organização das Nações Unidas para Alimentação (Reportagem “Sertão das Américas)

- Agricultura e a Articulação Semiárido Brasileiro (Reportagem “Sertão das Américas e diversas pautas do Semiárido)

- Inspirada na Computação (Projeto Adalgisas)

- Abraço Brasil – Associação Brasileira de Radiodifusão Comunitária (Várias transmissões ao vivo)

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Sobre o autor

Formado em jornalismo pela Universidade Católica de Pernambuco, trabalhou no Diario de Pernambuco entre 1998 e 2014. Começou a carreira como repórter da editoria de Esportes onde, em 2002, passou a ser editor-assistente. Ocupou ainda os cargos de editor-executivo (2007 a 2014) e de editor de Política (2004 a 2007). Em 2011 concluiu o curso Master em Jornalismo Digital pelo Instituto Internacional de Ciências Sociais, vinculado à Universidade de Navarra. Venceu o Prêmio Cristina Tavares de Jornalismo (2005), o Prêmio Caixa de Jornalismo Social (2006) e foi finalista do Grande Prêmio Ayrton Senna de Jornalismo (2004/2005) e do Prêmio Embratel de Jornalismo (2007).

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