Pré-Ocupa Política promove debates e ações culturais nas periferias do Grande Recife

0

selo ocupa políticaA programação do Ocupa Política começa oficialmente no dia 29 de agosto, a próxima sexta-feira. Mas, até lá, a periferia do Grande Recife vai respirar política e cultura com as atividades do Pré-Ocupa: uma forma de levar os debates para os territórios e para chamar a população para o evento principal. A partir deste sábado e até a véspera do encontro, quatro comunidades irão receber debates, rodas de diálogo e manifestações culturais. Confira a programação.

Igarassu

 Sábado (24), a partir das 16h20
 Praça de Cruz de Rebouças

Morador da comunidade do Pancó, Otho faz parte do coletivo Catucá, um grupo de 20 pessoas que se juntou no ano passado. Em um cenário nacional de perda de direitos, o grupo surgiu do anseio e da necessidade da construção do debate político em Igarassu. “Por mais que houvesse um esforço, o debate estava muito concentrado na capital. As cidades da região metropolitana, da mata norte e do litoral também têm suas próprias necessidades de pauta política”, diz Otho. “A gente percebeu que a gente precisava criar um processo de auto-estima para nossa quebrada. É muito difícil não ter voz na nossa cidade, ter que fazer os corres no Recife. O processo de perda de direitos se reflete diretamente em quem permanece no chão da fábrica. Há, sim, um crescente desemprego e informalidade, mas por aqui a indústria ainda é muito forte por conta do pólo da Fiat. Os jovens de Igarassu saem da escola para as fábricas”, conta.

O coletivo catucá, de Igarassu

O coletivo Catucá, de Igarassu

O tema do debate em Igarassu vai ser o nepotismo. Um tema que voltou ao debate nacional com a vontade de Bolsonaro indicar o filho Eduardo, para a embaixada dos Estados Unidos. “Mas temos no campo estadual essa romantização, inclusive da esquerda, de João Campos, que hoje é deputado, mas foi chefe de gabinete do Governo do Estado sem ter experiência alguma. Aqui em Igarassu, o prefeito Mário Ricardo (PTB), ligado a Armando Monteiro e que apoiou Bolsonaro no segundo turno, colocou o filho para concorrer a deputado estadual. Ele não ganhou, mas já é apontado como sucessor do pai na prefeitura”, detalha Otho.

Participam do debate a professora de história Milena Cristina, o doutorando em religião e integrante do Catucá, Maílson Cabral, e a integrante do coletivo Fala Alto, Rafa Ramos. Na parte musical, vai ter batalha com 12 MCs de Igarassu, Abreu e Lima e Goiana, com a participação da Batalha do Sítio Histórico, Batalha Histórica, Batalha do Núcleo e Batalha da Cruz.

Alto Santa Terezinha

 Domingo (25), a partir das 16h20
 Rua Aníbal Benévolo, 715

O coletivo Fala Alto também é recém-formado, com atuação que começou em 2018. O tema escolhido para o debate poderia ter sido escolhido por várias outras comunidades pobres: “Só vem quando tem voto”. “É o que a gente vive. E fazer resistência política na base é a forma que a gente tem de conversar com o outro, da periferia. Mesmo os políticos de esquerda não chegam para ter interesse de conversar, de coligar”, diz Priscila Melo, integrante do coletivo.

Com pouco mais de sete mil moradores, o Alto Santa Terezinha é um bairro pobre na Zona Norte do Recife, onde a renda domiciliar é, em média, de um salário mínimo. Há três anos, o Alto recebeu o primeiro Compaz do Recife, mas ainda não tem uma creche, uma reivindicação dos moradores que já ultrapassa uma década. “A prefeitura comprou o imóvel no Córrego do Deodato, que hoje está em ruínas, e não fez nada lá”, reclama Pricila.

O Fala Alto tem apenas seis pessoas e atua pontualmente na conscientização sobre a reforma da previdência e junto com o Gajop, instruindo sobre processos jurídicos. A ideia do grupo é desenvolver uma conversa contínua com a comunidade da qual faz parte. No debate do Pré-Ocupa, vão participar também Otho, do coletivo Catucá e Beatriz Santos do coletivo Cara Preta. As atrações culturais são os grupos O tem som de U, Coco da Bomba e Andynho, com rock, coco e pagode.

Água Fria

 Terça-feira (27), a partir das 16h20
 Campo do Barreirão, no Alto no Pereirinha

No Campo do Pereirinha, em Água Fria, as terças-feiras rotineiramente são movimentadas pelo Recital Boca no Trombone, que reúne jovens da comunidade e de outros lugares que aparecem para acompanhar as batalhas de poesia. No dia 27, o Pré-Ocupa se integra à dinâmica local.

O tema da batalha será “Tempos difíceis, era bostanaro” e o recital propõe o mote de “O corre da vida delas”. Nada é por acaso, explica Larissa Themonia, do Recital Boca no Trombone e da Aquilomba, coletivo que reúne mulheres e grupos de periferia na região metropolitana. A ideia é falar de maneira simples, do jeito como a juventude se expressa, sobre questões políticas que dizem respeito a todo mundo. “O corre de todo dia é conseguir sobreviver nessa conjuntura política em que lidamos com o desmonte de políticas, com o racismo e machismo”, explica.

Recital Boca no Trombone. Foto: Inês Campelo/MZ Conteúdo

Recital Boca no Trombone. Foto: Inês Campelo/MZ Conteúdo

Para ela, o Ocupa Política é a chance de aprender a ocupar e atuar nos espaços políticos institucionais. Sair da periferia com as pautas e o modo de fazer político da periferia. “Tanto a gente pode aprender a incidir efetivamente com candidaturas coletivas, fazer conexões, trocas de experiência com essas pessoas para aprender como chegar lá, como também podemos oferecer à nova política um aprendizado de chegar no território, conversar com a galera, com diálogo que as pessoas entendam”, comenta.

Ibura

 Quarta-feira (28), a partir das 16h20
 Praça da UR11, Jaboatão dos Guararapes

O Pacote Anticrime proposto pelo ministro da justiça Sérgio Moro é o tema escolhido para a atividade no Ibura, bairro do Recife que convive com a violência e ineficiência do poder público e forças de segurança.”O tema foi pensado pelo fato do Ibura ter um índice de violência com a juventude negra, e o pacote anti-crime  nos atinge diretamente, acelerando o encarceramento em massa”, explicaram as integrantes do Coletivo Periféricas. O pacote também vem sendo criticado de modo organizado pelo movimento negro brasileiro – em fevereiro, uma denúncia formal foi feita na Comissão Interamericana de Direitos (CIDH), órgão autônomo da Organização dos Estados Americanos (OEA).

Em 2018, o bairro viveu meses de terror quando uma guerra entre o tráfico e milícias deflagrou uma escalada de violência que assustou moradores. O bairro vem sendo gradualmente ocupado por coletivos e movimentos que utilizam a arte e educação para mudar a realidade local. O Coletivo Periféricas, Espaço Cultural das Marias, Ibura+Cultura, Favela LGBT, UR11 Free Style, Recital Revolta da Periferia, Coco do Besouro e Aquilomba são alguns desses e estão na organização do evento.

Conectadas e em diálogo com outros bairros, afirmam que o tema de Santa Terezinha, por exemplo, também  seria estratégico no Ibura. “Pelo fato da velha política estar presente nos parlamentares que são eleitos pelo nosso território”, explica.

Articulados, os coletivos têm afirmado também que o Ocupa Política é uma oportunidade de fortalecer as experiências e sujeitos locais, mas com participação e protagonismo de quem está fora dos centros de poder. “O ocupa vem com uma proposta muito estratégica que é viabilizar a informação, e como coletivo o que sempre tivemos a oferecer sempre foi o nosso quilombo”, conta.

O recado vale não só para esta mobilização, mas para a política em geral. “É uma experiência inovadora, porém é importante pessoas negras e de favela estarem participando das tomadas de decisões em cada processo no qual somos diretamente atingidos”, explicam.

Compartilhe:

Sobre o autor

Deixe um comentário