Crédito: Inês Campelo/MZ Conteúdo

Dezenas de vizinhos, amigos e familiares de William da Silva bloquearam, na manhã desta quarta-feira (15), a principal avenida do bairro do Ibura, pedindo por justiça e pelo fim da violência policial contra a juventude negra. William foi assassinado no domingo, com um tiro no peito, durante um baile de rua na comunidade onde morava. Amigos, que estavam na festa, garantem que ele foi baleado por policiais militares que já chegaram atirando. A PM, em nota oficial, negou o envolvimento no caso e ainda insinuou que William estaria envolvido em “uma briga entre grupos rivais locais”.

Mas o protesto que aconteceu no cruzamento da Avenida Dois Rios com a Avenida Xingu foi além da morte de uma pessoa. A fumaça produzida pelos pneus queimados, os cartazes e as palavras de ordem gritadas num misto de dor e revolta coletiva traziam uma mensagem clara : “Parem de nos matar. Hoje foi William, amanhã pode ser o filho de outra mãe”.

A morte de William, um jovem de 19 anos que havia acabado de concluir um curso profissionalizante de mecânico, não foi um fato isolado no Ibura. Segundo dados da plataforma digital colaborativa Fogo Cruzado – coordenada pelo Instituto Update, de São Paulo, e que em Pernambuco tem parceria com o Gabinete de Assessoria Jurídica às Organizações Populares (Gajop) -, dos 474 disparos de arma de fogo no Recife em 2019, 32 foram registrados no Ibura, o maior número entre os bairros.

Para a família, de certa maneira, William morreu duas vezes. Primeiro, quando sua vida foi tirada por uma bala no peito. A segunda, quando a polícia insinuou que ele estava envolvido com o crime e teria sido vítima de uma briga de grupos rivais, notícia reproduzida sem checagem por vários meios de comunicação. “Nós somos pobres (…) e somos marginalizados para justificar a nossa morte”, desabafou Patrícia Santos, tia de William e uma das organizadoras do protesto.

Por isso, a família e os amigos tentam a todo custo esclarecer como William foi assassinado. Procuram imagens de câmeras da Secretaria de Defesa Social instaladas próximas ao local do crime, cobram a realização de perícia na bala retirada do peito da vítima, acompanham de perto as investigações e, como aconteceu no protesto desta quarta-feira, buscam chamar a atenção da opinião pública para não deixar o caso cair no esquecimento.

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Protesto pacífico

Crédito: Inês Campelo/ MZ Conteúdo

Por volta das 6h40, quando o movimento na Avenida Dois Rios já era intenso, as pessoas que lideravam o protesto deram o comando: agora! Rapidamente, dezenas de pneus, alguns sofás velhos e pedaços de madeira pegaram fogo, bloqueando o cruzamento mais movimentado do Ibura. “Justiça, justiça. Estamos aqui pela paz. Cadê nosso William. Por que William não está aqui? A polícia matou!”

Antes mesmo do fogo ganhar corpo, sete viaturas da Polícia Militar já cercavam o local. Motos da CTTU, de forma coordenada (um helicóptero da Secretaria de Defesa Social sobrevoava o local), desviavam o trânsito para vias alternativas. Apesar do grande contingente, levando em conta o número de manifestantes, os policiais observam tudo de longe, sem interferir mas filmando tudo.

Às 7h34, uma viatura do Corpo de Bombeiro chegou ao local. Depois de uma rápida negociação, os bombeiros começam a apagar o fogo. Enquanto isso, os manifestantes, de mãos dadas, gritavam as últimas palavras de ordem: “Parem de nos matar.” Antes das 8h, a avenida já estava liberada.