Visibilidade trans: aceitação familiar fortalece saúde mental

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É com uma voz mansa, mas sempre assertiva, que Gabriel Ventura fala do passado e do presente como se tivesse muito mais estrada do que seus dezoito anos. É que, no pouco tempo que tem de vida, ele conseguiu enfrentar vários desafios que pessoas trans comumente encontram pelo caminho: a auto-aceitação e a aceitação da família. Estudante de Letras, Gabriel encontrou na educação seu caminho para lutar contra o preconceito e o estigma social.

Morador de Igarassu, Gabriel ia todo dia, de ônibus, para o bairro de Apipucos, Zona Norte do Recife, onde cursava o ensino médio na Escola de Referência Professor Cândido Duarte. Eram tempos difíceis: Gabriel não encontrava um nome que pudesse descrevê-lo. “Desde os quatro anos eu apresentava indícios de transexualidade. Queria fazer xixi em pé, andar sem camisa, jogar futebol com os meninos. Minha mãe sempre percebeu isso. Eu tirava vestido, tirava maquiagem. Mas para ela essas atitudes eram algo da sexualidade, de que eu era lésbica”, conta.

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Na puberdade, os indícios se acentuaram. “Fui cortando o cabelo e rejeitando cada vez mais outros símbolos de feminilidade. Ficava com garotas, mas não me sentia uma garota lésbica. Fui perguntando: o que está se passando? O que eu era?”, lembra. Em um grupo de estudos de gênero na escola, ele teve pela primeira vez contato com o termo transexualidade. “Fui procurando mais e me identifiquei. O quebra-cabeça foi se encaixando. Eu disse: sou isso”, conta Gabriel.

A experiência o libertou de uma angústia, mas ele se deparou com outra. “Eu necessitava da aceitação da minha família também. Foi um processo de um ano para isso acontecer. Minha mãe começou a se afastar de mim, porque ela é cristã. Foi um momento muito depressivo. Me senti muito sozinho. E comecei a beber muito”, diz.

A depressão e outros sofrimentos mentais são comuns na adolescência de homens e mulheres trans. “A mudança no corpo traz questionamentos. E há sofrimento psíquico com o surgimento dos caracteres sexuais secundários. Não acontece em relação à questão da sexualidade, de ser hétero ou homo. É algo que vai muito mais além”, explica a psicóloga Carla Maciel, que atende no ambulatório LGBT do Cisam.

É nesta fase delicada que o jovem mais precisa do apoio da família e dos amigos. “Os casos mais sérios de depressão, tentativas de suicídio e abuso de substâncias, como álcool e drogas, na maioria das vezes são resultado do preconceito que os transexuais sofrem, e não da identificação de gênero ou da sexualidade”, explica a psicóloga. Ela cita um estudo realizado com 250 transexuais em 2016, no México, e que foi essencial para que a transexualidade deixasse de ser considerada um transtorno mental – o que ocorreu no ano passado naquele país.

A pesquisa, publicada no The Lancet, revelou que era o estigma social o maior responsável pelos problemas. Do grupo entrevistado, 76% afirmaram ter sofrido rejeição social – a maioria, da própria família. E 63% também haviam sido vítimas de violência. Ao fazer o acolhimento nas clínicas especializadas em LGBT, os pacientes transexuais passam também por avaliação psiquiátrica. “É para fazer o diagnóstico referencial de alguém com inadequação de identidade de gênero, intersexo ou transtorno mental de fato, ou seja, de alguém que delira pensando que é outra pessoa. Este último diagnóstico é bastante incomum nos ambulatórios LGBT”, diz Carla Maciel.

Para Gabriel Ventura, o ano em que passou afastado da família foi o mais difícil até agora, mas está sendo superado. Mãe e filho fazem acompanhamento psicológico. “Hoje ela já me chama de Gabriel e estamos restabelecendo nossa relação”, comemora ele, que saiu de casa recentemente para morar com a namorada. Nos próximos anos, Gabriel quer se formar para que, assim como aconteceu com ele, os estudantes possam aprender sobre transexualidade também dentro das escolas – diminuindo assim o preconceito e, quem sabe, ajudando a evitar anos de sofrimento para outras pessoas trans.

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