Data centers previstos para Sergipe devem consumir mais energia do que todo o estado

Marco Zero Conteúdo / 24/08/2026
A imagem mostra um data center semelhante a grande complexo industrial visto de cima, provavelmente capturado por um drone ou avião. Há vários galpões retangulares enormes com telhados claros, cercados por instalações menores, tubulações e áreas de estacionamento. É possível ver vapor saindo de algumas partes, indicando atividade intensa — talvez processos de fabricação ou sistemas de aquecimento. O entorno é composto por terreno plano com partes cobertas de neve ou geada, estradas pavimentadas e pequenas lagoas artificiais. Ao fundo, há linhas de transmissão e outras construções industriais, sugerindo uma área dedicada à produção em larga escala.

Crédito: Google Earth

por Wendal Carmo, do site Mangue Jornalismo

Cerca de 186% mais eletricidade do que o atual consumo de todo o estado de Sergipe: esse é o custo energético do primeiro data center de hiperescala previsto para instalação no menor estado do Brasil. Projetado para uma área às margens da BR-101, no município de Nossa Senhora do Socorro, o empreendimento consumirá 2 gigawatts quando estiver em total funcionamento; o atual consumo de Sergipe é de 700 megawatts.

Com o avanço das Inteligências Artificiais (IAs), cresceu a necessidade de grandes empresas de tecnologia como Meta (dona do Instagram, Facebook e WhatsApp), Alphabet (dona do Google), ByteDance (dona do TikTok), Amazon e Microsoft por data centers de hiperescala. Essas são estruturas pensadas para o processamento e armazenamento de enormes volumes de dados, como os necessários para treinar IAs e possibilitar operações com criptomoedas.

Com o grande interesse no Brasil devido à sua larga oferta de energia de fontes renováveis, água e falta de regulamentação, empresas de data centers nacionais e estrangeiras têm negociado diretamente com estados e municípios os termos dos acordos de instalação, lógica aplicada também em Sergipe.

Há cerca de dois anos, o governo de Fábio Mitidieri (PSD) negocia a instalação de um data center da empresa estadunidense Optimus Technology Group, que inaugurará a Zona de Processamento de Exportação (ZPE) de Sergipe. Empreendimentos instalados em ZPEs recebem generosas desonerações fiscais e devem exportar pelo menos 80% de sua produção. O data center da Optimus ocupará 440 mil m² do total de 880 mil m² da ZPE de Sergipe e terá um centro de formação em IA, segundo comunicados oficiais do governo estadual.

O que parece uma boa notícia para a economia do estado esconde, na verdade, a altíssima demanda de energia para manter as operações ininterruptamente, além da água para resfriamento das máquinas, inclusive com a possibilidade de utilizar captação do Rio São Francisco.

O curta-metragem documental Vampiros de recursos naturais, dirigido por Sarah Lima e as repórteres da Mangue Jornalismo Ana Paula Rocha e Rossella Cecília apresenta essas e outras informações resultantes de meses de investigação. A proposta foi selecionada na 18ª edição do Prêmio Fernando Pacheco Jordão para Jovens Jornalistas, organizado pelo Instituto Vladimir Herzog. Foram repassados R$ 6 mil para a realização do curta, que teve orientação da professora Ana Carolina Cavalcanti (DCOS/UFS) e mentoria da jornalista Angelina Nunes.

Uma das descobertas foi o avanço não de um, mas dois projetos de data centers – o segundo está previsto para o município de Barra dos Coqueiros, mas não foram publicizados números sobre consumo de energia ou água. A localização exata também não foi definida ainda, porém, em entrevista para o documentário, o gestor da Zona de Processamento de Exportação (ZPE) de Sergipe, Carlos Augusto de Albuquerque, afirmou que o data center estará próximo à termelétrica da Eneva, no povoado de Jatobá.

As realizadoras percorreram diferentes localidades para entender qual a situação energética e hídrica dos municípios possivelmenteafetados caso as estruturas sejam instaladas. Elas constataram a cooperação entusiasmada das administrações públicas locais.

Nossa Senhora do Socorro, por exemplo, aprovou uma lei em julho de 2025 que “Institui o Programa Municipal de Incentivo à Instalação de Data Centers mediante concessão de benefícios tributários e urbanísticos, e dá providências correlatas”. Dentre as benesses, está a isenção do Imposto sobre a Propriedade Predial e Territorial Urbana (IPTU) “pelo prazo de até 10 (dez) anos, prorrogável por mais 5 (cinco) anos, mediante requerimento fundamentado”.

Já em Barra dos Coqueiros, a proximidade com a termelétrica da Eneva e a construção de uma segunda unidade a gás da mesma empresa sugerem que o data center que irá para a cidade pode ser alimentado com energia fóssil, caminho inverso ao preconizado por cientistas climáticos de todo o mundo. Apesar de menos poluente que o carvão mineral ou a queima de petróleo e seus derivados, o consumo de gás é um dos causadores do efeito estufa. Hoje, 20% de toda a reserva conhecida de gás fóssil no Brasil está em Sergipe, e o lobby pró-gás no estado é forte, como mostrou o segundo episódio do podcast Sergipe verde, Sergipe fóssil, lançado pela Mangue em dezembro de 2025.

Segundo levantamento do site Data Center Map, o Brasil tem 218 data centers em operação, mas nem todos são de hiperescala. A região Sudeste concentra a quantidade dessas estruturas no país. 

A imagem mostra o interior de um centro de dados — um ambiente técnico onde ficam fileiras de servidores organizados em racks metálicos pretos. O piso é branco e elevado, típico para permitir a passagem de cabos e ventilação. No teto, há arcos e luminárias que iluminam o corredor central. Ao fundo, vê-se uma porta de vidro que leva a outra sala. O logotipo azul “sgi” indica que o equipamento pertence à Silicon Graphics International, empresa especializada em computação de alto desempenho.

Brasil tem 218 data centers em operação

Crédito: Christopher Bowns/Wikimedia Commons

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