Para a socióloga Ana Carolina Marsicano, pesquisadora do Laboratório de Estudos de Religião e Política (Laberp), da Fundação Joaquim Nabuco (Fundaj), o avanço da extrema direita nas urnas deste domingo não se explica pelo voto evangélico. “Existe um equívoco muito grande em colocar o cenário eleitoral na conta do campo evangélico”, afirma. Para ela, o fenômeno a observar é a aproximação de atores cristãos com a extrema direita, com destaque para a radicalização de lideranças católicas.
Em entrevista à Marco Zero, a pesquisadora, que também é pós-doutoranda na Universidade Estadual de Campinas (Unicamp), fala sobre a complexidade do campo religioso na política brasileira, a ausência de um voto evangélico em bloco, a nova geração de políticos formada nas redes e o que pode mudar até o segundo turno.
Ana Carolina Marsicano
Crédito: Acervo pessoal
Marco Zero – Já dá para saber como foi o voto evangélico nessas eleições?
Ana Carolina Marsicano – Ainda não temos muitas pesquisas com estratificação por religião e gênero, mas dá para levantar algumas hipóteses. Na perspectiva da religião, o primeiro ponto a destacar é que existe um equívoco muito grande em colocar o cenário eleitoral na conta do campo evangélico. Produzi recentemente, com a Casa Galileia, um relatório sobre as alianças de católicos e evangélicos em torno da campanha de Flávio Bolsonaro, e percebemos também uma participação intensa de atores católicos em torno da candidatura dele.
A grande questão é que estamos diante de uma forma de fazer política que passa por algumas inflexões e mudanças. Tivemos um percentual muito grande de eleitos para o Legislativo que vêm de uma carreira de influenciadores digitais, políticos cujo capital político foi construído nas redes sociais. Existe uma ruptura, obviamente não total, mas parcial, com uma tradição e uma forma de fazer política.
Os católicos e os evangélicos costumam se unir em pautas religiosas?
Mais ou menos. Os conflitos entre os campos evangélico e católico são históricos. O que observamos desde 2010, principalmente entre 2010 e 2014, foi uma aproximação entre atores dos dois campos em torno de uma aliança programática, de algumas agendas, para impedir o avanço de pautas progressistas e de governos de esquerda. Mas o conflito de interesses entre católicos e evangélicos é anterior a essa aliança.
Acredito que esta eleição deixou claro que existem questões próprias e sensíveis a cada campo. A polêmica envolvendo Nossa Senhora mobilizou conflitos que revelam tensões internas ao catolicismo. De um lado, a posição da Conferência Nacional dos Bispos do Brasil, que não apoiou Lula nem falou de Flávio Bolsonaro explicitamente, mas se manifestou a favor de uma agenda contra a desinformação, pelo bem comum e pela soberania nacional. De outro, a polêmica de que Flávio Bolsonaro faria Nossa Senhora deixar de ser a padroeira do Brasil, e depois a alegação de que essa informação teria relação com agentes comunistas infiltrados na CNBB. São conflitos clássicos do campo religioso.
Existem alianças, sim. Mas, para mim, mais fundamental do que pensar as alianças entre evangélicos e católicos é pensar a aproximação de atores do campo cristão, católicos e evangélicos, com a extrema direita. Há atores conservadores dos dois campos que entendem a necessidade de preservar valores democráticos e republicanos. O que observamos nos últimos anos é uma radicalização de atores católicos que se aproximam da extrema direita, uma convergência de atores do campo cristão com interesses da extrema direita.
Não à toa, nestas eleições houve um aumento percentual de votos em Flávio Bolsonaro em municípios com maior percentual de evangélicos, alguns em que ele teve inclusive mais votos que o pai. Em compensação, e esse é um ponto importante para tensionar, Lula teve queda no voto de católicos em regiões onde historicamente foi votado por eles. Então, para onde está indo esse voto? Em quem esses católicos estão votando agora? Se percebemos uma tendência de radicalização no catolicismo, será, e é só uma hipótese, que esses católicos deixaram de votar em Lula para votar em Flávio Bolsonaro porque estão se radicalizando?
Então, o grande ponto é que não podemos colocar esse cenário desolador da eleição para a Câmara e o Senado na conta dos evangélicos. Uma série de parlamentares católicos e de influenciadores conservadores e tradicionalistas apoiou Flávio Bolsonaro, seja explicitamente, seja fomentando um discurso de antipetismo e antilulismo. O campo religioso é mais complexo do que as análises, às vezes, fazem parecer.
Lideranças católicas conservadoras, como Frei Gilson, ganharam muita influência nas redes. Qual o peso delas nesse cenário?
Frei Gilson é conservador, tem um número muito grande de seguidores e é representante do que chamamos de apostolado digital. Mas acho mais importante direcionar o olhar para além da hierarquia católica, para outros atores identificados com valores do catolicismo. Por exemplo, Eduarda Campopiano, uma jovem do PL Jovem que foi uma das mais bem votadas no estado de São Paulo como deputada estadual. Ela é católica apostólica romana e defende valores da extrema direita. Fez uma fala recente dizendo que os indígenas são canibais e é contra a pauta LGBTQIAPN+. É extremamente jovem, mas defende a subordinação das mulheres.
Essas lideranças, esses apóstolos digitais, são importantes, mas existe algo que vai além deles no catolicismo. É esse campo que tem se aproximado cada vez mais da extrema direita e criado alianças cada vez mais firmes com ela.
E consegue muitos votos...
Muitos votos. Estamos falando de pessoas jovens: do PL Jovem, do PL Mulher, na verdade do PL, que elegeu uma quantidade imensa de candidatos. O ponto importante é entender que o PL se converteu no principal celeiro da extrema direita brasileira. Lucas Pavanato, de São Paulo, e Rafael Satiê, do Rio de Janeiro, foram eleitos vereadores e agora chegam à Câmara dos Deputados, onde já está Nikolas Ferreira.
Aqui, o vereador evangélico e de extrema direita Thiago Medina também foi eleito deputado federal.
Exatamente. E quando falo dessa inflexão na forma de fazer política, é importante também pensar a partir de um lugar um pouco mais otimista, porque está muito difícil: a esquerda também precisa ver nisso uma oportunidade. Digo isso justamente por causa de Jones Manoel. Ele representa um projeto de extrema esquerda, um projeto comunista, realmente comprometido com agendas com as quais muitos atores da esquerda têm pudor de se comprometer, como a descriminalização do aborto.
“…é importante também pensar a partir de um lugar um pouco mais otimista: a esquerda também precisa ver nisso uma oportunidade”.
E este é o primeiro cargo de Jones Manoel, como deputado federal. Ele é um influenciador digital com mais de 2 milhões de seguidores e a prova viva de que essa inflexão na forma de fazer política pode funcionar para a direita e para a esquerda. Só que a esquerda precisa ver nisso uma oportunidade, e só vai aproveitá-la se entender a importância de fazer alianças. Quando falo em alianças, falo de PT e PSOL.
Existem diferenças internas, é normal. Os partidos têm suas correntes, o PT também. Mas o momento pede um pouco mais de esforço para fazer alianças e construir quadros jovens que ocupem esse espaço na política. O que mais me deixa inconformada é pensar que Lula foi eleito em 2002, estamos em 2026 e não temos um novo quadro. Isso é revoltante. Qual quadro vai suceder Lula? Quais candidatos?
Esta eleição mostrou todas essas questões: muitos candidatos da extrema direita se elegendo, muitos jovens se elegendo, o que indica que a juventude está sendo disputada. A esquerda precisa entender isso e investir mais energia no diálogo com os jovens, estimulando-os a participar da política institucional. Durante anos vivemos uma crise, com o discurso da antipolítica, do antissistêmico. Precisamos voltar a transformar a política em uma utopia, um horizonte de mudança real.
E Jones Manoel representa isso?
Sim. Temos alguns outros jovens: o próprio Renato Freitas, lá no Paraná, que se elegeu deputado federal. Temos figuras muito interessantes eleitas, como Natália Boulos. Erika Hilton se reelegeu, Sâmia Bomfim se reelegeu. São figuras muito importantes, que representam de fato um projeto progressista de defesa de direitos. Mas precisamos ficar atentos também: os novos que estão entrando representam o quê? Que novidade representam?
No Senado, por exemplo, entrando mais na questão de gênero, tivemos numericamente o maior número de senadoras eleitas na história: 12.
O próximo Senado vai ser o com mais mulheres, mas são mulheres que não defendem as mulheres.
Esse é o ponto. Doze mulheres eleitas: quem são essas senadoras? Que projeto político representam? Isso também indica o problema do discurso puro e simples da representatividade. Como mulher de esquerda, progressista, me interessa muito mais uma figura que represente os interesses das mulheres, seja homem ou mulher, do que uma mulher que represente os valores do antifeminismo, das pautas antidireitos, das políticas neoliberais, da precarização das condições de trabalho das mulheres. É preciso ficar atento às ciladas de defender uma representatividade que não tenha convergência com a fidelidade a determinadas agendas.
O voto evangélico é um voto em bloco?
Não. É importante destacar que o campo evangélico é extremamente disputado e tensionado. As pesquisas de intenção de voto apontaram o segmento evangélico masculino votando majoritariamente em Flávio e, em contrapartida, o segmento feminino católico votando mais em Lula. Então a análise do voto religioso tem que vir acompanhada de uma análise do voto de gênero, para capturar essa complexidade. Por que os homens evangélicos votam mais em Flávio? Por que as mulheres católicas votam mais em Lula? Qual é o ponto de identificação? Precisamos de análises com mais profundidade, que ainda não temos, relacionando religião, gênero e também território.
Uma questão que me preocupou muito, vendo o percentual dos votos para presidente, foi uma série de estados no Norte do país onde o voto em Flávio Bolsonaro foi altíssimo, entre 65% e 70%. E aí entra o ponto de não colocar isso só na conta do evangélico. A expansão do campo evangélico no Norte é obviamente um dos elementos, mas esse dado, sozinho, não explica tudo.
É correta a visão de que o evangélico tem uma propensão maior a votar em quem é indicado pelo pastor, pela igreja?
As pesquisas recentes têm mostrado que essa lógica do voto conforme a orientação do pastor já não acontece há um bom tempo. Uma pesquisa do Instituto de Estudos da Religião (Iser) sobre mulheres evangélicas e cotidiano mostrou que o que mais importa para elas são questões como o preço dos alimentos e do gás, questões realmente básicas.
Outro ponto importante para entender que não é um voto de rebanho, e sim um voto intensamente disputado: na última eleição, o voto que virou e permitiu a eleição de Lula foi o das mulheres evangélicas. Teve um peso imenso, justamente porque elas levam em consideração questões econômicas. A perspectiva de que o evangélico vota no conservador por causa das pautas morais, além de rasa, é muito ultrapassada. Obviamente as questões morais têm peso e exercem influência, mas não são necessariamente predominantes quando analisamos as mulheres, e os homens também.
O posicionamento no campo evangélico é muito matizado. E hoje a comunicação com os fiéis não acontece mais só no púlpito. Há os grupos de WhatsApp: existe uma construção coletiva do voto dessas comunidades acontecendo também nesses grupos.
E a direita está sabendo se comunicar melhor com esse público? A propaganda de Flávio Bolsonaro é muito isso: está tudo caro, a comida está cara, vamos baratear a comida.
Flávio Bolsonaro parte desse discurso, desse tom, também porque não está na posição governista. É muito mais fácil fazer essa crítica na oposição. Ele vai surfar no discurso da necessidade de manter o Bolsa Família, de melhorar as políticas públicas para as pessoas, mesmo sem dizer como. E mesmo procurando a todo custo evitar a palavra meritocracia, a ideia de criar as condições para a pessoa fazer aquilo por si só, sabemos que o pano de fundo é exatamente esse.
Tanto que quem foi cotada para estar à frente da pauta econômica de Flávio Bolsonaro é Daniella Marques, uma mulher católica, da escola de Paulo Guedes. Apesar de ele falar em baixar o preço dos alimentos, a orientação econômica por trás é neoliberal, de baixíssima preocupação com o trabalhador. É a distância entre o discurso público e o que vem sendo construído como plataforma política.
“…o voto que virou e permitiu a eleição de Lula [em 2022] foi o das mulheres evangélicas. Teve um peso imenso, justamente porque elas levam em consideração questões econômicas.”
Você acha que Lula ainda tem condições de virar no segundo turno? O que poderia mudar na campanha para atingir tanto as mulheres quanto as pessoas religiosas?
Acho que tem sim condição de virar e de se eleger no segundo turno. Há alguns pontos importantíssimos a trabalhar. O primeiro tem a ver com o nível altíssimo de abstenção e de votos nulos e brancos. É o lugar do diálogo, do olho no olho, dos movimentos sociais e da militância indo às ruas para dialogar principalmente com os eleitores que não queriam votar nem em Lula nem em Flávio Bolsonaro e votaram em um Augusto Cury da vida. Abrir esse flanco de comunicação para tentar angariar o voto de quem não votou em Flávio.
O segundo ponto é convencer quem anulou ou votou em branco a votar. O terceiro é investir numa estratégia de comunicação massiva nos lugares onde se percebeu um percentual muito baixo de voto em Lula. Há um trabalho grande a fazer e o tempo é muito curto, mas acredito que esses são os pontos mais importantes.
Em relação ao segmento religioso propriamente dito, o segundo turno sempre traz um senso de urgência. É outra etapa, com outras estratégias. A primeira coisa é acompanhar se determinadas figuras públicas do campo cristão vão se posicionar. Elas podem não ter se posicionado no primeiro turno, mas vir a se posicionar agora. Uma delas é Frei Gilson, que não chegou a se posicionar no primeiro turno. Será que vai se posicionar agora?
O mesmo vale para outras lideranças religiosas: observar se, nesse contexto mais acirrado, vão se posicionar publicamente e, para quem está engajado no monitoramento das redes desses atores, ver o nível de repercussão. Existem algumas frentes em que cabe investimento, fazendo esse monitoramento passo a passo, porque no segundo turno cada dia conta muito.
Mas Frei Gilson não se posicionaria a favor de Flávio Bolsonaro?
Pode ser que sim, pode ser que não. A política tem uma tendência a nos surpreender. Eles podem se posicionar a favor de Flávio Bolsonaro ou, por exemplo, reforçar a nota que a CNBB publicou. Os católicos não precisam manifestar um apoio explícito para, ainda assim, se posicionarem de uma forma que influencie. É preciso observar também essas delicadezas.
Eu vi um vídeo em que padre Marcelo Rossi falava alguma coisa sobre o voto dele e sinalizou nitidamente com a mão, fazendo um L. Ele apagou esse vídeo depois. Mas é isso: ir acompanhando essas declarações e manifestações que não recaem explicitamente num apoio declarado de voto, mas que têm uma mensagem subliminar. Tudo isso pode acontecer agora, porque segundo turno é senso de urgência. A hora é essa. É uma nova eleição. Acredito que, muito provavelmente, alguns atores dos campos católico e evangélico vão ser interpelados a ter algum tipo de posicionamento mais explícito.
Jornalista pela UFPE, com especialização em Experiências Digitais. É repórter da Marco Zero desde 2018. Foi repórter e editora no Diario de Pernambuco e jornalista multimídia na Revista Coletiva, além de colaborar com diversos outros veículos. Venceu os prêmios Caixa de Jornalismo Social, Urbana e Inaldo Sampaio. É membra da Associação Brasileira de Jornalismo Investigativo (Abraji), da Rede Brasileira de Jornalistas e Comunicadores de Ciência (RedeComCiência) e da Society of Environmental Journalists (SEJ). Contato: carolsantos@marcozero.org