Foto: Joaninha Dias/Cortesia

Por Joaninha Dias*

Começo logo dizendo que Educação Antirracista não é um projeto escolar para ser executado em determinados períodos do ano letivo. Educação Antirracista é currículo e precisa estar no cotidiano da escola sempre, desde a sala de aula, passando por todos os ambientes escolares e pelas pessoas que trabalham neles. Precisa estar no cartaz de “Boas-Vindas”, na hora do recreio, no momento da escolha do livro didático, nas reuniões pedagógicas, no planejamento de ações educativas e muito mais.

A minha vida como afrodescendente foi sempre permeada pelo debate dentro do seio familiar. A história de nosso povo sempre nos interessou demais e desde muito pequena recebia informações de que a “abolição dos escravos” foi uma farsa e que a história do povo negro não começava com a escravidão e nem terminava com a abolição.

Quando estudava nas séries iniciais em uma escola da Rede Municipal de Ensino do Recife, sempre comemorava-se o “13 de maio” com pinturas de desenhos de negros escravizados sendo libertados e com louvores incansáveis à Princesa Isabel e sua Lei Áurea. Sempre me incomodou o fato de que tudo que eu conhecia e debatia dentro da minha família não era discutido, comentado ou citado nas aulas que tinha nessa escola.

Ao mesmo tempo, o racismo, o preconceito e a discriminação já faziam parte da minha vida também e a escola nunca me ajudou a me aceitar como negra nem a lutar contra os apelidos e as constantes piadas racistas. Se a escola que estudei quando criança praticasse uma Educação Antirracista, minha infância e a das outras crianças negras, grande maioria nas escolas da rede pública de ensino, seria bem diferente. A vida adulta também.

A sociedade é racista, o governo é racista, a justiça é racista, consequentemente, a escola é racista e precisamos desnormalizar o que o racismo normaliza há séculos. O fato de não estudarmos a história dos grandes povos africanos e as pessoas negras sempre serem apresentadas nas escolas como “escravas”, de não lermos textos escritos por pessoas negras nas aulas, ou nunca termos feito uma releitura de uma obra de arte pintada/esculpida por uma pessoa negra ou, até mesmo, ouvido contos e músicas, assistido filmes nos quais o povo negro protagonizava em lugar de poder, sem subserviência ou sofrimento, faz parte dessa normalização do racismo.

A Educação Antirracista discute racismo, tece relações entre a escravização e a situação atual do povo negro, desmistifica as ideias de bonito e feio, puxa a reflexão sobre a demonização das religiões de matriz africana, traz pra dentro das salas de aula a produção científica/ artística/ literária/ cultural/ histórica/geográfica… do povo negro.

Faz a criança/adolescente/jovem/adulto negro se reconhecer nos conteúdos, textos, fotos, debates. Faz as pessoas brancas perceberem que não é normal só elas estarem representadas em todos os espaços e que existe muita coisa errada na normalidade com que esse fato foi tratado até agora. Em cada disciplina, em cada conteúdo do currículo, é necessário refletir, combater o racismo e colocar o legado negro, pois foi esse mesmo racismo que fez e faz com que nada da construção e produção do povo negro chegue às salas de aula. É um trabalho da escola como um todo. Envolvendo totalmente pessoas, espaços e ações.

(Deixo bem explicado aqui, que a Educação Antirracista abrange os povos negro e indígenas no Brasil, mas estou me atendo ao povo negro neste escrito).

Em tempos de épandemia (palavra criada pela família Dias e que é a junção das palavras epidemia e pandemia, refletindo a situação de caos sanitário/social/econômico/emocional que vivenciamos atualmente), as escolas estão fechadas e as tentativas de se firmar novas formas de educação através de aulas remotas, coloca ainda mais em evidência o abismo social: professoras(es) dando aulas de dentro das suas casas, com seus computadores e celulares (obtidos com recursos próprios) pagando contas aumentadas de internet e energia para crianças e jovens sem aparelhos eletrônicos e acesso à internet.

Mesmo a educação sendo um direito de todos e todas, ela deixa de ser a partir do momento que a aula da escola pública é veiculada em um sistema que não dá oportunidade de acesso a todos e todas. E a Educação Antirracista é ainda mais distanciada destas crianças e jovens sem acesso aos meios mínimos para as aulas.

Essa épandemia vai passar e a luta por uma Educação Antirracista continuará! Axé!

* Joaninha Dias é professora antirracista na Rede Pública de Ensino, pedagoga formada pela UFPE, poeta, escritora erótica, autora de atividades pedagógicas afrocentradas, ativista e coordenadora da REDE de Mulheres Negras de Pernambuco.