Em 14 de março de 2020, serão dois anos ou 731 dias transcorridos desde o assassinato brutal da vereadora carioca Marielle Franco e de Anderson Gomes, seu motorista. São dois anos em que as perguntas feitas desde o dia do crime seguem sem respostas. Quem mandou matar? E por que? São dois questionamentos que, se respondidos, podem abalar a estrutura da frágil democracia brasileira. 

Ao longo desses dois anos, a incessante luta por justiça e pela memória de Marielle se tornou foco da ação da família da vereadora e também de movimentos feministas, sociais e do Psol, partido ao qual ela era filiada. 

Grandes eventos adquirem mais importância com o tempo e deixam marcas que não podem ser esquecidas. Onde você estava quando recebeu a notícia e o que tem feito, até hoje, para que não caia no esquecimento? 

Por todo o país, o mês e o dia 14 de março terá manifestações e atos que pedem por justiça e reforçam a trajetória de luta e defesa de direitos humanos que era uma das marcas de Marielle. O Instituto Marielle Franco, criado pela família da vereadora e presidido por Aniele Franco, irmã, realiza, no Rio de Janeiro, uma dia de manifestações que reforçam o objetivo da organização: buscar justiça, defender a memória, multiplicar o legado e regar sementes de Marielle Franco. 

No Recife, na sexta-feira (13), ato organizado pelo setorial de Mulheres do Psol sairá do Tribunal de Justiça de Pernambuco. O evento tem início marcado para as 16h, com apresentação de um manifesto. Com velas acesas, a caminhada segue em direção à antiga Ocupação Marielle Franco, na Praça da Independência, bairro de Santo Antônio, onde acontecerá um ato ecumênico e intervenção artístico-política para chamar atenção da sociedade. A organização estendeu o convite à sociedade e também para movimentos feministas e sociais, organizações de defesa de direitos humanos e partidos políticos. 

Dani Portela, do setorial de Mulheres do Psol Pernambuco e ex-candidata a governadora, explica que a ideia da manifestação é denunciar a falta de resposta e exigir justiça. “Passados dois anos, apesar de ter duas pessoas presas, não se chegou à autoria. Por isso escolhemos que o ato saísse do Palácio da Justiça, porque para a gente responder a pergunta ‘Quem mandou matar Marielle?’ é uma questão de justiça e fundamental para o rumo que a democracia brasileira está tomando”, diz. 

Segundo ela, a democracia brasileira sempre esteve em vertigem – em uma alusão ao documentário de Petra Costa -, fato que era ignorado ou negligenciado por muitos setores da política. Hoje, para a psolista, as mobilizações por justiça por Marielle e Anderson tomaram a proporção de definir o rumo do que resta das instituições democráticas. “Para alguns grupos, como as pessoas negras, pobres, faveladas… essa democracia nunca havia chegado. Hoje, conseguir responder essa pergunta é garantir as nossas instituições democráticas. Estamos no país que mais mata defensores e defensoras de direitos humanos no mundo”, lembra. 

Investigações

Apesar de ter identificado e prendido duas pessoas acusadas de participarem do assassinato, o caso Marielle e Anderson envolve diversas linhas de investigação. Isso porque o envolvimento de milícias do Rio de Janeiro avança lentamente. No último dia 10 de março, o Tribunal de Justiça do Rio determinou que os acusados Ronnie Lessa e Élcio de Queiroz vão a júri popular, mas sem data definida. Ainda há margem para a defesa recorrer.

Mas o andamento jurídico é só uma ponta do problema. “A gente sabe que dois anos após um assassinato brutal, com várias ligações com a milícia no Rio de Janeiro, e da milícia com grupos políticos, sabemos que há muito interesse em não se revelar os verdadeiros mandantes do assassinato de Marielle”, argumenta Dani Portela.

O Psol estabeleceu que acompanhar o caso e pedir por justiça é uma prioridade partidária e, sendo assim, também vem acompanhando as investigações do caso, fazendo, inclusive, a defesa de não federalizar as investigações. “A gente não acredita que a federalização do caso vá garantir isonomia do processo”, lembrou Dani, justamente devido às conexões não esclarecidas entre as milícias cariocas e a família do atual presidente da República. “A gente acredita que uma figura como Marielle nesse momento tem uma força muito grande para, inclusive, derrubar esse governo. A partir da força que se gerou a partir das sementes de Marielle”, completa Dani.

Levante de mulheres negras

Uma das ações que articulam a memória e a importância de defender pessoas como Marielle foi a instituição do dia 14 de março como Dia Estadual das Defensoras e Defensores de Direitos Humanos. A proposta de lei é uma iniciativa das Juntas Codeputadas estaduais, aprovada em 2019.

O assassinato político que interrompeu prematuramente a vida de Marielle, no entanto, não silenciou a insurgência de mulheres, especialmente de mulheres negras, que se viu após aquele 14 de março. Apesar do agravamento do contexto conservador nas casas legislativas e da eleição de Jair Bolsonaro para a presidência, 2018 foi o ano em que também mais mulheres negras foram eleitas. 

Jô Cavalcanti, das Juntas, no dia da posse como deputada estadual. Foto: Inês Campelo/MZ Conteúdo

Jô Cavalcanti, codeputada estadual das Juntas, é uma dessas mulheres que chegaram ao poder a partir da articulação política e social desencadeada e inspirada em Marielle. A própria candidatura coletiva das Juntas, composta por cinco mulheres diversas, das quais três são negras, uma delas trans, reflete algumas das principais bandeiras de luta que a vereadora carioca levantava. 

Para a codeputada pernambucana, Marielle se tornou um símbolo de luta por justiça para todas as mulheres, especialmente as negras. “A continuidade da luta por justiça é no dia a dia, trazendo mais mulheres negras para estarem também disputando isso aqui. Enquanto não existir mais de nós aqui a gente sempre vai ser mais uma. Essa casa, a Alepe, é antiga, tem 184 anos e eu sou a segunda mulher negra a subir e falar na tribuna. Quem está lá e sempre esteve são homens de famílias tradicionais e a gente vem da cara no sol”, argumenta Jô.

O desafio da segurança

Para Jô, apesar de estar em Pernambuco, estado que não passa pelo acirramento e a violência política como no Rio de Janeiro, o sentimento de medo existe e não deve ser ignorado. Outras parlamentares que, como Marielle Franco, vêm de espaços periféricos e levantam bandeiras para mudar a estrutura desigual da sociedade brasileira, vivem hoje com escolta devido a ameaças.

Garantir a segurança das mulheres que entraram na política ainda é terreno nebuloso. Parlamentares precisam pagar do próprio bolso por segurança privada, por exemplo. Para Jô, esse é um debate que os partidos precisam fazer com urgência. “Uma lição é que a gente tem que estar ocupando esses espaços, mas também ter uma rede de proteção porque aconteceu com Marielle, mas pode acontecer com qualquer uma de nós”, aponta Jô.

Para ela, a violência diária que as mulheres sofrem nas casas legislativas é outra questão que passa imperceptível, mas precisa ser combatida. “A gente é agredida todos os dias quando somos expulsas de uma comissão, como Robeyoncé foi aqui na Alepe. Quando é falado sobre seu jeito de vestir, seu jeito de falar, é querer constranger você quando está na tribuna falando. Ou não dão atenção ou começam a falar mais alto que você ou então dizem que você está nervosa, como se a gente não fosse ser humano”, conta Jô.

Esse relato lembra, inclusive, o último discurso em tribuna realizado por Marielle. Quando impedida de continuar a falar por outros vereadores, ela ergueu a voz e afirmou que não seria interrompida. Ao lado da luta por justiça, o compromisso com a memória de quem foi e pelo que lutava Marielle é não permitir que mulheres como ela sejam interrompidas novamente.

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