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	<title>Arquivos Jornalismo Crônico - Marco Zero Conteúdo</title>
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	<description>Jornalismo investigativo que aposta em matérias aprofundadas, independentes e de interesse público.</description>
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	<title>Arquivos Jornalismo Crônico - Marco Zero Conteúdo</title>
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		<title>No sertão, enterrar umbigo dos recém-nascidos é plantar esperança</title>
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		<dc:creator><![CDATA[Marco Zero Conteúdo]]></dc:creator>
		<pubDate>Tue, 23 Jan 2024 18:32:42 +0000</pubDate>
				<category><![CDATA[Destaque]]></category>
		<category><![CDATA[Jornalismo Crônico]]></category>
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					<description><![CDATA[<p>por Géssica Amorim, do Coletivo Acauã Quilombo Teixeira, zona rural de Betânia, Sertão do Moxotó, Casa de Dona Dora, 12 de janeiro de 2024: – Quando a criança está madura, nascendo no tempo certo, a liturgia é essa: ir até a casa da mulher que vai ganhar o neném, olhar pra ela, sentir a barriga, [&#8230;]</p>
<p>O post <a href="https://marcozero.org/no-sertao-enterrar-umbigo-dos-recem-nascidos-e-plantar-esperanca/">No sertão, enterrar umbigo dos recém-nascidos é plantar esperança</a> apareceu primeiro em <a href="https://marcozero.org">Marco Zero Conteúdo</a>.</p>
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<p><strong>por Géssica Amorim, do <a href="https://www.instagram.com/coletivoacaua?igsh=MWo4d3d3cXczbXN0Mg==" target="_blank" rel="noreferrer noopener">Coletivo Acauã</a></strong></p>



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	                                        <p class="m-0">Crédito: Coletivo Acauã</p>
	                
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<p>Quilombo Teixeira, zona rural de Betânia, Sertão do Moxotó, Casa de Dona Dora, 12 de janeiro de 2024:</p>



<p>– Quando a criança está madura, nascendo no tempo certo, a liturgia é essa: ir até a casa da mulher que vai ganhar o neném, olhar pra ela, sentir a barriga, ver se a criança tá na posição certa, ir massageando, acalmando a mãe, e a criança vem sem muita dificuldade. Quando ela nasce, a gente mede três dedos a partir do umbigo e corta o cordão. O pedaço que fica na criança, o coto umbilical, a gente amarra. Quando a placenta sai do útero, a gente enterra em algum lugar perto da casa da mãe, mesmo. Uns sete dias depois, o coto cai e é do costume enterrar também.</p>



<p>– Mas o povo enterra pra quê, Dona Dora? Por quê?</p>



<p>– Isso que resta do parto, você pergunta, né?</p>



<p>– Sim, a placenta, e, depois, o coto umbilical. Por que enterrar?</p>



<p>– A placenta, a gente enterra pra não jogar em qualquer canto, de qualquer jeito. Assim, os bichos brutos não mexem, não vão lá comer. O coto, que a gente chama mesmo de umbigo, tem quem diga que é pros ratos não comerem e acontecer de a criança crescer malina, mexendo no que é dos outros, dando até pra roubar.</p>



<p>– E, pra isso não acontecer, basta enterrar em qualquer lugar?</p>



<p>– Bom, aí, quem sabe é o pai ou a mãe. Se a criança já for grande, ela também pode escolher o canto. Mas o povo tem os lugares certos, sabe? É como uma simpatia, você entende? Tem gente que escolhe a porteira de uma fazenda ou de um curral, pra criança ser fazendeira quando crescer. Enterra no terreiro de uma escola, pra ser estudiosa. No pé de uma roseira, pra crescer bonita, e assim vai.</p>



<p>– A senhora acredita?</p>



<p>– Eu não! Tive 16 filhos e nunca enterrei o umbigo de nenhum. Nem sei que fim levaram. Até hoje, ninguém aqui de casa deu pra roubar. E, por aí, eu também nunca vi essa ruma de fazendeiro que devia ter se criado por aqui. É tudo invenção, mesmo.</p>



<p>– E de onde é que vem tudo isso, Dona Dora? De onde vem esse costume?</p>



<p>– Minha filha, quem fez primeiro, e a razão, eu não alcanço pra dizer. É coisa muito antiga, não sei quem sabe explicar. Já nasci vendo os outros fazendo.</p>



<p>Mais cética do que eu poderia imaginar, a parteira e agricultora aposentada Maria das Dores de Jesus, 79, conhecida como Dora, habitante do Sítio Teixeira, uma das comunidades quilombolas do município de Betânia, me falou sobre a condução do trabalho de um parto normal e sobre as possibilidades de destinos para dar aos seus resíduos &#8211; principalmente ao coto umbilical, que costuma se desprender do umbigo do bebê pelo menos sete dias após o parto.</p>



<p>Na barriga de quem está gerando um bebê, o cordão umbilical é a principal ligação física entre a pessoa gestante e a criança. Ele é fundamental para o desenvolvimento saudável e suporte vital do feto. Com o seu nascimento, já podendo respirar e se alimentar sem a necessidade da placenta e cordão umbilical, o coto não teria mais tanta utilidade. No entanto, desde muito tempo e para muita gente, enterrá-lo é parte de um ritual cercado de simbolismos e crenças que sustentam uma tradição popular brasileira: enterrar o umbigo de uma criança &#8211; dependendo do local escolhido &#8211; pode, de alguma maneira, influenciar o desenvolvimento da sua personalidade e o seu futuro.</p>



<p>A pedagoga Mailza Costa, também moradora do Quilombo Teixeira, conta que o umbigo do seu filho Dhonatas Samuel (foto de abertura), de 11 anos, foi enterrado ao lado de um xique-xique, espécie  de cacto que, assim como as demais, consegue se adaptar e sobreviver em ambientes secos. O xique-xique é arbustivo,  tem o caule ramificado acima da sua base e, geralmente, se desenvolve em afloramentos rochosos e solos areno-pedregosos. No período de estiagem severa, com a remoção dos seus espinhos, costuma ser utilizado na alimentação de muitos animais e chega a ser consumido por humanos. </p>



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	                                        <p class="m-0">Laísa Magalhães. Crédito: Acervo pessoal</p>
	                
                                    </figcaption>
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<p>“Quando Samuel completou sete anos, eu decidi enterrar o umbigo dele. Como ele já estava grandinho, ele foi com o meu marido procurar um lugar pra fazer isso. O lugar escolhido foi ao lado de um pé de xique-xique. Dá pra ver aqui de casa. Pelo que diz o costume, eu torço para que ele cresça forte, protegido e saiba se adaptar ao que encontrar de dificuldade na vida, assim como o cacto”, conta Mailza.</p>



<p>Em dezembro de 2023, a produtora cultural Laísa Magalhães, de Serra Talhada, no sertão do Pajeú, enterrou o umbigo da filha Açucena, que acabava de completar três meses de vida. O local escolhido foi ao pé de uma bananeira, no sítio dos seus avós, na zona rural de Ipubi, outro município pernambucano a mais de 250 quilômetros e três horas de viagem. “Eu enterrei o umbigo dela em um pé de bananeira porque dizem que dá dinheiro”, brinca Laísa.</p>



<p>“Na verdade, eu sempre ouvi falarem a respeito dessa coisa de enterrar o umbigo das crianças e, quando engravidei, fui atrás de pesquisar sobre os porquês. Tem quem diga, por exemplo, que é pra prender a pessoa ao lugar onde o seu umbigo foi enterrado, mas isso não bastava pra fazer sentido pra mim. Eu alcancei um outro significado, algo maior, que tem relação com as minhas origens. A minha mãe faleceu quando eu tinha quatro anos. Açucena veio para me dar um amor que foi tirado de mim, que é o amor entre mãe e filha. Enterrei o umbigo dela entre as bananeiras do sítio onde a minha mãe nasceu porque enxerguei nisso uma forma de me reaproximar dela e superar o meu luto. Pra mim, foi como plantar a possibilidade para que o nosso amor cresça sem as dores do meu passado ”.</p>



<p>Sítio dos Nunes, Flores, Sertão do Pajeú, casa de Maria de Fátima, 13 de janeiro:</p>



<p>– Mãe, onde foi que a senhora enterrou o meu umbigo?</p>



<p>– Géssica, aqui mesmo, em Sítio. Acho que foi bem no quintal daquela casa, ali, onde Creuza mora. Aquela, que era de Zé de Adolfo. Eu morei lá uns meses, quando tu nasceu.</p>



<p>– E a senhora enterrou por quê?</p>



<p>– Porque o povo diz que tem que enterrar, pros bichos não comerem. Tem que enterrar.</p>



<p>– Só por isso? A senhora acredita?</p>



<p>– Eu não sei mais a respeito disso, não. De primeiro, eu acreditava. Agora, não acredito mais. Mas, por via das dúvidas, o caba enterra.</p>



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	                                        <p class="m-0">Dona Dora, a parteira que não acredita no significado da tradição de enterrar umbigos. Crédito: Géssica Amorim/Coletivo Acauã</p>
	                
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		<title>Estudante de jornalismo recorda o &#8220;dia de cão&#8221; para ver o show de Taylor Swift que não houve</title>
		<link>https://marcozero.org/estudante-de-jornalismo-recorda-o-dia-de-cao-para-ver-o-show-de-taylor-swift-que-nao-houve/</link>
		
		<dc:creator><![CDATA[Marco Zero Conteúdo]]></dc:creator>
		<pubDate>Thu, 23 Nov 2023 18:20:10 +0000</pubDate>
				<category><![CDATA[Destaque]]></category>
		<category><![CDATA[Jornalismo Crônico]]></category>
		<category><![CDATA[onda de calor]]></category>
		<category><![CDATA[rio de janeiro]]></category>
		<category><![CDATA[São Paulo]]></category>
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					<description><![CDATA[<p>por Cynara Maíra Desde 9 de junho que sabia que iria em um dos shows da The Eras Tour, turnê que celebra os 10 álbuns, ou “Eras”, da Taylor Swift. Já naquela época, a The Eras foi polêmica no Brasil após cambistas furarem as filas de ingressos no Rio de Janeiro e de São Paulo, [&#8230;]</p>
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										<content:encoded><![CDATA[
<p><strong>por Cynara Maíra</strong></p>



<p>Desde 9 de junho que sabia que iria em um dos shows da <em>The Eras Tour</em>, turnê que celebra os 10 álbuns, ou “Eras”, da Taylor Swift. Já naquela época, a <em>The Eras</em> foi polêmica no Brasil após cambistas furarem as filas de ingressos no Rio de Janeiro e de São Paulo, chegando até a tentar agredir fãs.</p>



<p>Mesmo com todo o caos e a dificuldade que foi conseguir os ingressos pela fila eletrônica ainda no Recife, a sorte de ainda ter conseguido comprar na pré-venda do show me deixou tranquilizada.</p>



<p>Quando cheguei na sexta-feira (17) às 22h percebi que não seria tão fácil quanto imaginava. Eu nunca tinha sentido tanto calor no meio da noite em toda minha vida, no avião já havia relatos de sensação térmica de quase 60 graus e ao sair diretamente do aeroporto, eu senti que estava sendo cozida, como se houvesse uma aura de calor ao meu redor.</p>



<p>Por chegar muito tarde na cidade, eu não olhei muitas coisas sobre o show daquele dia e só havia visto que muitas pessoas tinham passado mal com o calor. Só tomei conhecimento do falecimento de Ana Benevides quando acordei no sábado, que seria a data do segundo show.</p>



<p>Saber que existia uma chance genuína de morrer por conta do evento me deixou ansiosa, até então eu só temia que minha pressão caísse e eu perdesse o show.</p>



<p>Como só tínhamos conseguido comprar ingressos para pista comum, um setor com uma visão mais complicada, especialmente para mim que tenho menos de 1,60m, queríamos chegar cedo na fila para ter uma chance de ficar mais na frente. Com isso, fomos eu e mais três amigos para o estádio do Engenhão às 7h da manhã munidos de cangas, sombrinhas velhas (porque teríamos que descartar), protetor solar, muita água e comida. Já havia um número razoável de pessoas, ao menos 100 fãs, na nossa frente.</p>



<p>Quando chegamos, já passava dos 30 graus, não sei a sensação térmica porque ainda não estávamos na grade do Engenhão, então evitamos pegar o celular para descobrir. Ao longo das horas, também aprendemos que era melhor nem saber para não gerar mais nervosismo.</p>



<p>Por conta do forte calor, as grades do Engenhão foram liberadas antes das 9 horas e pudemos pendurar nossas cangas e sombrinhas diretamente nas barras para fugir do contato direto com o sol.</p>



<p>A partir desse momento, foi quando todo o caos realmente começou, a temperatura passou a subir cada vez mais e, como havia muitas pessoas amontoadas em mini “cabanas” criadas com as cangas, a sensação de calor era terrível.</p>



<p>Depois do que aconteceu com Ana, foi exigido que nos dessem água gelada de graça o tempo todo. Ao longo do dia fomos descobrindo que havia determinações judiciais e mobilizações nacionais sobre o assunto, mas até o momento não sei exatamente quem fez o quê nessa história, afinal éramos os últimos a saber o que iriam fazer com a gente.</p>



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	                                        <p class="m-0">Crédito: Cynara Maíra</p>
	                
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                    </figure>

	


<p>O tempo a partir daí não passava, sinto que ficamos mais de um dia na fila com a lentidão que aquelas horas levaram a passar naquele amontoado. Como estávamos tentando sobreviver e ignorar os riscos possíveis, acabamos fazendo amizade com as pessoas próximas da fila, juntamos nossas cabanas para garantir menor exposição ao sol, trocamos pulseiras da amizade e cantávamos músicas da Taylor Swift, enquanto todo mundo tentava se ajudar com comida, água, abanadas com leque, etc. Mesmo assim, o número de pessoas passando mal ao nosso redor só aumentava. Uma menina que estava ao lado da nossa cabana ficou mais de duas horas na área para socorro, segundo ela, não foi feito nada para devidamente ajudá-la, o único auxílio foi o local ser na sombra e longe da multidão.</p>



<p>O calor estava tão forte que começamos a implorar para os funcionários que achávamos ser do estádio (não vimos nenhuma identificação da Time For Fun, a organizadora do show no Brasil) para nos dar as pedras de gelo das sacolas de água para que pudéssemos passar no corpo.</p>



<p>A partir das 11 horas, algumas ondas de calor vinham com muita força e só tentávamos sobreviver até elas melhorarem, nesses momentos guardava a energia e evitava falar muito, porque me sentia tonta, parecia que estava em uma névoa quente.</p>



<p>Nessas horas eu só bebia água gelada e respirava fundo, pensando que não podia desmaiar. Para dar mais força, pedimos por aplicativo um lanche para almoçar.</p>



<p>A jornada para buscar essa comida na rua foi extremamente complexa. Como basicamente criamos um estacionamento de “cabanas” ao redor das grades, passar por elas era muito difícil, ou você engatinhava por dentro dos espaços improvisados pedindo licença para passar no meio de todo mundo, pulava as grades que estava provocando queimaduras por conta do sol ou passava por baixo delas se fosse fino o suficiente para isso. Idas ao banheiro eram bem difíceis, eu só fui quando estava dentro do estádio, quase 10 horas após chegar no local.</p>



<p>Um dos nossos amigos conseguiu pegar a comida pulando as grades usando toalhas nas mãos para não se queimar. Alimentados, a maioria ficou mais tranquila, mas o calor começou a me consumir e estava tentando não me desgastar. Acho que não iria desmaiar porque – acredito -estava controlando tudo para que isso não ocorresse, mas às 13h o calor com certeza estava começando a me consumir. Se o caminhão de bombeiros não tivesse chegado poderia, sim, ter acontecido algo.</p>



<p>Depois de 30 minutos que os bombeiros apareceram sem explicar nada, começaram a jogar água em todo mundo com suas mangueiras. Como meu grupo estava mais atrás, a água inicialmente não chegou e tivemos que implorar para que puxassem as mangueiras para próximo da nossa área. Tentando animar a situação, entoávamos gritos chamando os bombeiros e celebrando os momentos que conseguíamos ser atingidos pela água.</p>



<p>Após levar muita água em todo o corpo e todas as cabanas, roupas, mochilas, etc, ficarem encharcados, tivemos uma leve trégua no calor, mesmo que agora estivéssemos totalmente desarrumados e com os olhos irritados do protetor que caiu durante o banho de mangueira.</p>



<p>Pouco tempo depois do fim da ação dos bombeiros, o público começou a ser chamado para dentro do estádio, em um horário antecipado comparado ao que estava previsto anteriormente.</p>



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	                                        <p class="m-0">Crédito: Cynara Maíra</p>
	                
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                    </figure>

	


<p>Corremos o máximo que podíamos para entrar no Engenhão, meu grupo preferiu ficar sentado na cadeira sul, pois a pista estava tomada pelo público vip e eu ainda estava me recuperando de uma fratura no pé. Sentamos, acreditando que o pior já tinha passado.</p>



<p>Acredito que tenhamos ficado uma hora e meia sentados esperando o show começar, faltava cerca de 30 minutos para o início da abertura da cantora Sabrina Carpenter, quando pessoas começaram a ver em seus celulares que a Taylor havia adiado o evento. Primeiramente eu acreditei que era <em>fake news</em>, como também ocorreu quando disseram no meio da fila que outra pessoa tinha morrido no portão oeste, mas quando consegui acessar a Internet vi que a Taylor tinha realmente desistido do show que estava prestes a começar.</p>



<p>Todos ao nosso redor estavam em choque, passamos a fila toda nos questionando se iriam adiar, mas ninguém imaginava que isso iria ocorrer 30 minutos antes, quando a situação aparentava estar mais tranquila. Eu não sei qual era a sensação de quem estava na pista comum e premium, que sofria mais com o aglomerado e o sol, mas os comentários que ouvi eram de que o calor estava melhor do que na fila e que os ventiladores colocados nas áreas estavam ajudando.</p>



<p>Enquanto a revolta explodia entre os fãs, ainda não havia nenhum comentário oficial dentro do estádio e alguns tinham esperança de que alguém conseguisse convencer a Taylor para mudar de ideia. Gritos chamando por ela foram feitos, muitas pessoas choravam pensando no esforço que fizeram para estar lá e eu permanecia em choque, pensando que meu voo era para o dia seguinte às 10h da manhã.</p>



<p>Enquanto eu tentava pensar se voltaria para Recife sem ver a <em>The Eras</em>, o anúncio foi feito ao público e muitos começaram a vaiar. Nem reagi, percebendo que estava passando por uma situação infernal para nada.</p>



<p>Depois de 30 minutos chamando o motorista que ia nos buscar, tentando resolver o que fazer e acalmando uma menina que estava passando mal de tanto chorar próximo do nosso grupo, a equipe do Engenhão pediu para que nos retirássemos do local e tivemos que já ficar no ponto de encontro, perto de um posto de gasolina.</p>



<p>Enquanto tentávamos sair das proximidades do Engenhão em companhia de diversas pessoas na mesma situação que a gente, alguém gritou “arrastão” e todo mundo começou a correr. Eu sinceramente não sei se o caso era verdadeiro porque não olhei para trás, só tentando sair de perto. Entramos em uma venda próxima e só saímos quando confirmaram que a rua estava tranquila, mas meu pé, que ainda está se recuperando de uma fratura, já não estava funcionando tão bem.</p>



<p>Com medo de mais um arrastão, continuamos a tentar correr, enquanto meu pé implorava para que eu parasse. Ao chegar no ponto de encontro tivemos que esperar, já que o motorista não tinha conseguido chegar por conta do trânsito.</p>



<p>Sem opção, ficamos juntos de diversas pessoas na mesma situação, aguardando carro. O caso piorou quando começou a cair uma chuva muito forte e uma série de relâmpagos apareceram. Estávamos desolados, sem saber o que fazer, com medo de roubo e tentando se proteger da chuva. No fim, o motorista apareceu, descobrimos que raios caíram no Engenhão e só pensamos que existia mais uma chance de morrer ou nos machucar.</p>



<p>Ao chegar no lugar onde estávamos hospedadas ainda não sabíamos se ficaríamos até segunda, até porque nosso voo seria no dia seguinte de manhã e, normalmente, sairia caríssimo para resolver. Por volta das 21h ,anunciou que a remarcação dos voos seria gratuita por conta do adiamento, porém passamos a noite tentando mudar em vão.</p>



<p>Apenas no dia seguinte, faltando três horas para decolagem do nosso voo, conseguimos a alteração. O problema é que o grande volume de remarcações causou o esgotamento das passagens, só sobrando a viagem de volta na quinta-feira, 23, data da publicação deste texto. Como não tínhamos opção e não queríamos perder o dinheiro, aceitamos ficar quase uma semana a mais que o planejado, mesmo sabendo que não tínhamos hospedagem para tanto tempo, nosso <em>check out</em> seria, obrigatoriamente, no domingo às 12h.</p>



<p>Contando com a boa vontade do dono do local que estávamos hospedados, conseguimos local para ficar até terça, reservando apenas para o dia seguinte. Então, decidimos ir para casa de um amigo em Jacarepaguá, mais uma etapa de uma jornada quase nômade.</p>



<p>Sobre o show de segunda-feira? Chegamos 11 horas na fila e o local tinha pouquíssimas pessoas, já que a maioria ainda estava traumatizada com as situações vividas nos dias anteriores. Não choveu, não fez sol, o clima foi ótimo e a situação pareceu um sonho comparado com o sábado. O evento aconteceu com normalidade, relativa organização e cautela que deveriam ter existido desde a sexta. O fim da onda de calor definitivamente ajudou.</p>



<p>Taylor não falou nada sobre o adiamento ou citou o caso de Ana Benevides, o que chateou a mim e diversas pessoas que esperavam mais empatia e importância para uma jovem que perdeu a vida tentando realizar um sonho e que poderia ter sido qualquer um de nós. Com certeza a <em>The Eras Tour</em> foi inesquecível, para o bem e para o mal.</p>



<p>Não irei para os shows em São Paulo, mas pelo bem de todos e todas espero que haja mais organização, melhores condições climáticas e humanidade por parte daqueles que organizam o evento para que o sonho de muito tempo de várias pessoas não vire um pesadelo.</p>



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		<title>O negócio, a festa e a tradição da pega de boi no sertão de Pernambuco</title>
		<link>https://marcozero.org/o-negocio-a-festa-e-a-tradicao-da-pega-do-boi-no-sertao-de-pernambuco/</link>
		
		<dc:creator><![CDATA[Marco Zero Conteúdo]]></dc:creator>
		<pubDate>Sun, 22 Oct 2023 00:50:07 +0000</pubDate>
				<category><![CDATA[Destaque]]></category>
		<category><![CDATA[Jornalismo Crônico]]></category>
		<category><![CDATA[Principal]]></category>
		<category><![CDATA[Coletivo Acauã]]></category>
		<category><![CDATA[Semiárido]]></category>
		<category><![CDATA[sertão do Pajeú]]></category>
		<category><![CDATA[sertão pernambucano]]></category>
		<category><![CDATA[vaqueiros]]></category>
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					<description><![CDATA[<p>por Géssica Amorim, do Coletivo Acauã Eu cresci ouvindo o meu pai falar com frequência e orgulho, durante os nossos encontros semanais, sobre a primeira e última pega de boi no mato que ele organizou na fazenda Boa Vista (zona rural do município de Betânia, Sertão do Moxotó), no início da década de 1990. Segundo [&#8230;]</p>
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										<content:encoded><![CDATA[
<p><strong>por Géssica Amorim, do <a href="https://instagram.com/coletivoacaua?igshid=MWo4d3d3cXczbXN0Mg==" target="_blank" rel="noreferrer noopener">Coletivo Acauã</a></strong></p>



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	                                        <p class="m-0">Crédito: Coletivo Acauã</p>
	                
                                    </figcaption>
                    </figure>

	


<p>Eu cresci ouvindo o meu pai falar com frequência e orgulho, durante os nossos encontros semanais, sobre a primeira e última pega de boi no mato que ele organizou na fazenda Boa Vista (zona rural do município de Betânia, Sertão do Moxotó), no início da década de 1990.</p>



<p>Segundo ele, foram três dias de festa com apresentações de trios de forró, muita comida, bebida e a participação de mais de 200 vaqueiros e outros muitos espectadores vindos de fazendas, povoados e municípios de quase toda a região. O boi solto no mato era branco e tinha o nome de Camambá. Por ali, era tido como um dos mais valentes e difíceis de pegar no embrenhado da caatinga. Representaria a glória de qualquer vaqueiro cujo laço lhe alcançasse os chifres.</p>



<p>Meu pai fazia parecer que, em todo o sertão, ninguém nunca havia feito uma festa tão grande, bonita e duradoura &#8211; e eu, por muito tempo, acreditei nisso. Ele sempre falava a respeito do assunto apoiado numa frágil garantia de que tudo teria sido filmado por alguém cujo nome ele não lembrava e que, na casa de um dos vaqueiros presentes na farra daqueles três dias, localizada no pé de serra mais distante de nós, estaria guardada uma fita VHS com imagens da grande pega de boi de Zé de Santa, na fazenda Boa Vista.</p>



<p>Era verdade &#8211; pelo menos, a existência da fita: em 2017, pouco tempo depois de eu ter voltado para Pernambuco, após cinco anos vivendo no Sudeste, meu pai apareceu na casa de minha mãe, em Sítio dos Nunes (distrito de Flores, Sertão do Pajeú), trazendo um <em>pendrive</em> com imagens do que seria um resumo da afamada pega de boi da Fazenda Boa Vista. O vaqueiro guardião da fita a converteu em arquivo digital, copiou os vídeos e presenteou alguns amigos da época com o empréstimo do dispositivo para que também fizessem cópias e guardassem os registros.</p>



<p>Plugando o pendrive à televisão, me impressionei com o que vi, enquanto meu pai, alegre, atestava o que, em muitas versões, há muito tempo, contava e descrevia sem muita sustentação. Para mim, foi um momento de resgate &#8211; não só dos arquivos das imagens (que, até aquele momento, ninguém acreditava que pudessem realmente existir), mas do que estive distante durante o tempo que passei fora de casa.</p>



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	                                        <p class="m-0">Organizar uma pega custa R$ 50 mil, mas o lucro é garantido. Crédito: Géssica Amorim/Coletivo Acauã</p>
	                
                                    </figcaption>
                    </figure>

	


<p>Eu acabava de voltar de um período muito tenso, cinza e de muita saudade no estado de São Paulo. Olhar com mais disposição e atenção para algo tão comum e natural entre os muitos signos que compõem o que há no nosso cotidiano e na realidade plural sertaneja, me conduziu para a reaproximação de algo de que eu precisei me distanciar para enxergar a sua totalidade.</p>



<p>A paisagem, as expressões, os hábitos, as conversas e as toadas registradas no vídeo que meu pai me mostrou são de outra época. As imagens foram feitas em 1992 e muita coisa mudou por aqui e no resto do mundo em 31 anos. No entanto, depois de tanto tempo, tudo isso foi determinante para que eu quisesse buscar e me diluir nesse processo de reconhecimento de território e identidade.</p>



<p>Já se passaram sete anos desde que voltei e comecei a frequentar, observar, fotografar e aproveitar inúmeras festas de pegas de boi no mato pelos sertões do Moxotó e Pajeú. A última em que estive presente ocorreu no dia 7 de outubro, na fazenda São Gonçalo (zona rural de Betânia), organizada pelo vaqueiro Alison Siqueira, conhecido na região como Neném.</p>



<p>O vaqueiro tem 27 anos e organiza pegas de boi no mato desde os 22. Segundo ele, o tempo de preparação para esse tipo de evento, hoje, é de no mínimo um ano. Durante o período, ele precisa juntar dinheiro para arcar com os custos do evento, que vão da alimentação dos vaqueiros e visitantes ao pagamento das premiações dos vencedores, incluindo também as atrações contratadas para animar a festa.</p>



<p>Basicamente, a organização de uma pega de boi funciona assim: o dono ou a dona da festa reúne amigos e familiares, escolhe o local para o evento, manda cercar o terreno, monta uma cozinha, um bar e uma bilheteria; abate alguns bois para o churrasco dos vaqueiros e de quem vem assistir, contrata atrações musicais para o forró da noite, escolhe e confina uma semana antes da festa os bois que serão soltos no mato no dia da pega. Tudo precisa estar bem alinhado e os horários precisam ser cumpridos com rigor.</p>



<p>Os vaqueiros vão chegando pela manhã e o almoço começa a ser servido às 11h &#8211; em algumas festas, um pouco mais cedo -, alguns organizadores também costumam oferecer café da manhã. Ao meio dia, o gado é solto na caatinga e, só uma hora depois, os vaqueiros têm permissão para sair em disparada. Eles voltam ao ponto de partida à medida em que vão conseguindo laçar e trazer os bois consigo. A busca pelos animais tem de acontecer até às 18h do mesmo dia.</p>



<p>Neném conta que os gastos com a festa chegam a quase 50 mil reais, mas garante que, no final das contas, consegue uma margem de lucro satisfatória com o investimento. “A gente investe bastante nessas pegas de boi. Esse ano, eu calculo perto de 50 mil. A comida é à vontade, mas a gente cobra uma taxa na entrada, com a bilheteria, cobra a inscrição dos vaqueiros que vão pro mato e vende a bebida aqui no bar que a gente monta todo ano. No final, consegue tirar um lucro em cima do valor investido e guardar um pouco pra próxima festa. Vale a pena”.</p>



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	                                        <p class="m-0">Organizador da pega tem de garantir a carne para um dia todo de churrasco. Crédito: Géssica Amorim/Coletivo Acauã</p>
	                
                                    </figcaption>
                    </figure>

	


<p>As pegas de boi no mato realizadas no sertão atualmente, com essas proporções e configurações, têm uma origem ligada ao trabalho dos vaqueiros no campo &#8211; que até hoje existe e se mantém ativo. Por aqui, há algumas versões para contar como tudo começou, antes de ganhar o caráter de entretenimento e lazer que tem hoje. Uma das mais comuns diz que as pegas de boi vêm de uma época em que não existiam cercas delimitando as propriedades rurais onde fazendeiros e vaqueiros viviam. Assim, quando os animais desgarravam dos seus rebanhos e adentravam na caatinga, era necessário que os vaqueiros vestissem o gibão e se mobilizassem para trazê-los de volta.</p>



<p>No início desse ano, no mês de janeiro, os vaqueiros do município de Betânia fundaram a Associação Betaniense de Promotores de Pegas de Boi (ABPPB). Segundo a presidenta Taiza Magalhães, 28, que também organiza pegas de boi em uma das fazendas da região, a associação foi criada para a representação da classe dos vaqueiros, valorização da cultura local e para a busca de parcerias e contribuições privadas para a realização das pegas.</p>



<p>“A associação tem 26 integrantes e um calendário anual previamente definido para que os vaqueiros trabalhem no planejamento e realização das festas durante o ano todo, com mais espaço e facilidade. Por mês, até três pegas de boi são realizadas no território do município de Betânia. Isso auxilia numa melhor distribuição dos eventos durante esse período do calendário e também ajuda a manter viva a cultura das pegas de boi no município”, afirma Taiza.</p>



<p>Agora, as pegas de boi e muitos outros símbolos e elementos que se integraram ou voltaram a fazer parte do meu cotidiano, estão predominantemente impressos no meu trabalho jornalístico e fotográfico. Desde que comecei a circular com mais disposição e atenção pelos lugares por onde ando hoje, tenho internalizado muitas imagens e impressões.</p>



<p>Presto atenção na vaidade dos vaqueiros, que, ao voltarem do mato com o rosto cortado pelos garranchos, se orgulham do sangue correndo pela pele &#8211; sem tratar dos ferimentos ou sequer minimamente higienizá-los -, sinto falta de mulheres na disputa, buscando o gado no mato, dou atenção às músicas, vejo quem dança, circula e trabalha. Comparo as posturas, gestos e expressões com outras referências que carrego e vejo que tudo é muito parecido e, ao mesmo tempo, muito diferente.</p>



<p>Em casa, tenho me agarrado cada vez mais à certeza de que nada representa plenamente a realidade dos sertões, ao contrário do que parece para muita gente que vive fora daqui, acostumada a tipos, símbolos, imagens petrificadas, congeladas. Também tenho preservadas, em algum lugar de mim, as imagens mostradas pelo meu pai e muito do que tenho visto e escutado por aqui, na tentativa de não contaminar o meu olhar e a minha percepção com quaisquer expectativas que não dialoguem com a diversidade do que eu observo e com o que tento aprender a me relacionar com mais lucidez. Prossigo nessa viagem atenta pelo universo que compõe o lugar onde nasci.</p>





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		<title>&#8220;Menos um fazendo o L&#8221;: assassinato nas redes e a memória de um sobrevivente</title>
		<link>https://marcozero.org/menos-um-fazendo-o-l-assassinato-nas-redes-e-a-memoria-de-um-sobrevivente/</link>
		
		<dc:creator><![CDATA[Samarone Lima]]></dc:creator>
		<pubDate>Wed, 03 May 2023 21:00:00 +0000</pubDate>
				<category><![CDATA[Destaque]]></category>
		<category><![CDATA[Jornalismo Crônico]]></category>
		<category><![CDATA[Principal]]></category>
		<category><![CDATA[bolsonarismo]]></category>
		<category><![CDATA[crônica]]></category>
		<category><![CDATA[menos um fazendo o L]]></category>
		<category><![CDATA[violência bolsonarista]]></category>
		<category><![CDATA[violência urbana]]></category>
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					<description><![CDATA[<p>Tive que respirar fundo para não soltar um palavrão e assustar meu filho pequeno, que brinca de andar e mexer em tudo que represente perigo pela casa, enquanto tento escrever. Resumindo: “Após matar um jovem na ligação leste-oeste, região central de São Paulo, um motorista de aplicativo fez publicação em redes sociais debochando da vítima. [&#8230;]</p>
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]]></description>
										<content:encoded><![CDATA[
<p>Tive que respirar fundo para não soltar um palavrão e assustar meu filho pequeno, que brinca de andar e mexer em tudo que represente perigo pela casa, enquanto tento escrever.</p>



<p>Resumindo:</p>



<p>“Após matar um jovem na ligação leste-oeste, região central de São Paulo, um motorista de aplicativo fez publicação em redes sociais debochando da vítima. &#8216;Menos um fazendo o &#8216;L'&#8221;, em referência aos eleitores do presidente Luiz Inácio Lula da Silva”.</p>



<p>A frase do motorista-assassino confesso:</p>



<p>“É o ladrão de celular. Ladrão, foda-se. Talvez eu encontre esse vagabundo em outra vida”, afirmou em um dos vídeos.</p>



<p>Esse negócio me doeu na alma porque o sujeito que foi morto (que também fazia uns bicos em aplicativos, além de vender bugigangas nos sinais) pode ter roubado um celular, mas ele não era só isso. Era um ser humano. E os tempos estão tão medonhos, que não basta mais matar. É preciso postar nas redes sociais.</p>



<p>Isso é típico dos tempos fascistas que estamos vivendo. Sem a exibição, nenhum crime compensa.</p>



<p>Pois bem. Pego o gancho desta notícia absurda para falar deles, os milhões de brasileiros que trabalham em aplicativos, de carro, moto e bicicleta.</p>



<p>Moro em Olinda, numa rua que tem um nome pomposo, mas todo mundo conhece mesmo é como “rua da Palha”. Parece uma vila, com as casas bem coladas, e a porta já da para a rua. Não tem interfone, portaria, nada.</p>



<p>A gente vê como a luta pela sobrevivência é um osso duro, perverso, e deixa cicatrizes.</p>



<p>Como sou cronista há muitos anos, meu material básico é o ser humano, suas dores e delicias. Por isso, adoro conversas. Sem conversa, não cronista, há artigos sociais. Nosso material humano é esta mistura de lágrimas, epifanias, dores, ressurreições.</p>



<p>Sempre que chega algum entregador de alguma coisa aqui em casa, a regra básica é simples:</p>



<p>Abro a porta, o portão, pergunto o nome do entregador e pergunto algo.</p>



<p>O fato de perguntar o nome sempre causa surpresa. Mas o fato de ser tratado com respeito, de agradecer pelo seu trabalho e perguntar sobre sua vida, é um pequeno desvio na curva.</p>



<p>Mas justamente depois de ter lido a matéria na Folha de São Paulo, chegou um camarada de uns trinta anos, trazendo dois pacotes de fraldas. Veio de bicicleta. Era o final da manhã, e o sol cozinhava o juízo. Aqui em Olinda, o sol não é para amadores.</p>



<p>Perguntei seu nome: Antônio. Me entregou os pacotes, vi uma marca grande no seu braço.</p>



<p>“Isso foi acidente?”, perguntei.</p>



<p>“Que nada, foi leptospirose, a doença do rato. Quase morri. Fiquei dez dias entubado. Peguei fazendo entregas, aquelas chuvas que mataram meio mundo de gente dos morros”.</p>



<p>Me olhou e alisou o braço, onde tinha a marca.</p>



<p>“Fiquei dez dias entubado. Na água da chuva tinha mijo do rato. Peguei. Essa marca aqui é dos soros que tomei, por onde entravam os remédios”.</p>



<p>“Ficasse internado onde?”</p>



<p>“No Miguel Arraes”.</p>



<p>Resposta mais pernambucana que essa, impossível.</p>



<p>“O médico disse que eu tive muita sorte, porque fui atendido em 24 horas. Meu rim estava parando. Dos três que entraram comigo, fui o sobrevivente”.</p>



<p>Após uma pausa, ele completou.</p>



<p>“Foi aperreio, visse?”</p>



<p>“E o iFood te ajudou em alguma coisa?”</p>



<p>“Porra nenhuma. Em caso de acidente, o cara só recebe se ficar numa cama. Se morrer trabalhando, a família recebe R$ 100 mil. Mas eu não quero esse dinheiro de jeito nenhum”.</p>



<p>Ele tinha que seguir. Passei o código para ele.</p>



<p>“Tomara que apareça um trabalho melhor pra você, meu velho”.</p>



<p>“Deus te ouça. Só eu sei o que foram aqueles dez dias. O médico mesmo disse que sou um sobrevivente”.</p>



<p>“É mesmo”, concordei.</p>



<blockquote class="wp-block-quote is-style-large is-layout-flow wp-block-quote-is-layout-flow"><p><strong>Uma questão importante!</strong></p><cite><em>Colocar em prática um projeto jornalístico ousado custa caro. Precisamos do apoio das nossas leitoras e leitores para realizar tudo que planejamos com um mínimo de tranquilidade. Doe para a Marco Zero. É muito fácil. Você pode acessar nossa </em><a href="https://marcozero.org/assine/" target="_blank" rel="noreferrer noopener"><strong>página de doaçã</strong></a><strong><a href="https://marcozero.org/assine/" target="_blank" rel="noreferrer noopener">o</a> </strong><em>ou, se preferir, usar nosso </em><strong>PIX (CNPJ: 28.660.021/0001-52)</strong><em>.</em><br><br><strong>Apoie o jornalismo que está do seu lado</strong></cite></blockquote>
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		<item>
		<title>Encontros com a dor e a coragem</title>
		<link>https://marcozero.org/encontros-com-a-dor-e-a-coragem/</link>
		
		<dc:creator><![CDATA[Samarone Lima]]></dc:creator>
		<pubDate>Sun, 02 Apr 2023 14:24:35 +0000</pubDate>
				<category><![CDATA[Destaque]]></category>
		<category><![CDATA[Jornalismo Crônico]]></category>
		<category><![CDATA[Principal]]></category>
		<category><![CDATA[ditadura militar]]></category>
		<category><![CDATA[Dom Paulo Evaristo Arns]]></category>
		<category><![CDATA[golpe de 1964]]></category>
		<category><![CDATA[golpe de estado]]></category>
		<category><![CDATA[jornal O São Paulo]]></category>
		<category><![CDATA[tortura]]></category>
		<guid isPermaLink="false">https://marcozero.org/?p=54581</guid>

					<description><![CDATA[<p>Segundo texto de Samarone Lima, a respeito de suas pesquisas sobre a resistência à ditadura no Brasil e nos países da América do Sul. Por essas reviravoltas que o mundo dá, em 1996 eu estava morando em São Paulo, me virando com frilas. Estava num mato sem cachorro, quando alguém me indicou para o jornal [&#8230;]</p>
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]]></description>
										<content:encoded><![CDATA[
<p><strong>Segundo texto de Samarone Lima, a respeito de suas pesquisas sobre a resistência à ditadura no Brasil e nos países da América do Sul.</strong></p>



<p>Por essas reviravoltas que o mundo dá, em 1996 eu estava morando em São Paulo, me virando com frilas. Estava num mato sem cachorro, quando alguém me indicou para o jornal O São Paulo, da Arquidiocese comandada pelo lendário Dom Paulo Evaristo Arns, adversário ferrenho da ditadura militar de 1964.<br><br>Fui à redação, na Avenida Higienópolis, 890, local simbólico para quem lutou pelos Direitos Humanos naqueles anos desumanos. A redação ficava na parte de baixo, após uma descida rodeada de plantas, e parecia um <em>minibunker</em>, com uma equipe de jornalistas extremamente simpáticos.<br><br>Saí de lá com uma pauta sobre o Dia Mundial da Fome, que me rendeu uma página inteira no jornal e o convite para cobrir a vaga de um dos jornalistas, que estava saindo de férias.<br><br>Durante dois anos, cobri a área de Direitos Humanos do jornal, assunto que sempre esteve no meu farol, desde a primeira matéria que fiz. Estava no centro da memória da resistência. Na parte dos fundos, funcionava a Comissão Justiça e Paz e o Centro Santo Dias de Direitos Humanos.<br><br>Numa das muitas conversas com a velha guarda da resistência, geralmente num dos botecos ali da Santa Cecília, onde morava, comecei a escutar os relatos sobre as ações de um grupo chamado Clamor, que teve uma atuação extremamente importante na luta pela defesa dos Direitos Humanos no Chile, Uruguai e Argentina.<br><br>Em alguns momentos, as histórias eram tão inacreditáveis, que eu acreditava que as cervejas ajudavam a torná-las mais absurdas. O tempo me mostraria que a verdade era muito mais sombria que qualquer relato.<br><br>Já estava concluindo meu primeiro livro, o <em>Zé</em>, quando fui fazer uma pauta no gigantesco arquivo da Cúria. Naquele labirinto, encontrei uma sala cheia de caixas com o nome Clamor, e pedi para dar uma olhada. Estavam cheias de cartas desesperadas, fotografias, relatos, de pessoas dos países vizinhos, que viviam o momento mais trágico de suas ditaduras. Estavam no poder, após golpes militares sangrentos, Rafael Videla, na Argentina, Augusto Pinochet, no Chile, e a Junta Militar, no Uruguay.<br><br>Voltei para a redação e fui conversar com os ex-integrantes do Clamor. Estava nascendo meu segundo livro, agora sobre a conexão dos que lutaram pelos Direitos Humanos, em quatro países.</p>



<p>Uma coisa me recomendaram desde o início:<br><br>“Você precisa entrevistar Dom Paulo Evaristo”<br><br>Eu quase nunca o via, por causa dos horários e de sua agenda sempre lotada. O contato maior foi na confraternização de um final de ano, em que ele estava lá, bem sorridente. Sempre fui azarado em sorteios, comentei isso com os amigos, até que sortearam uma linda cafeteira, Dom Paulo puxou meu número, ficaram chamando meu número, e me abestalhei, olhando para aquele homem, cheio de fé, mas transbordante de coragem. Chamaram outro. Quando fui reclamar o prêmio, era tarde.<br><br>Fui à sua secretária, pouco tempo depois, marcar uma entrevista. Ele tinha audiências que duravam exatamente 15 minutos.<br><br>Não sei exatamente a data, mas em algum momento de 1998, estava na sala de trabalho de Dom Paulo, entrevistando-o sobre ditaduras e solidariedade na América do Sul.<br><br>São esses, os momentos em que o jornalismo se torna algo especial na minha vida. Quando ele transborda, sai do cotidiano das notícias, e cria memória.<br><br>Foram 45 minutos de conversa, que serviram de base para um livro que começava a ser pensado &#8211; Clamor.<br><br>Um ano depois, estava na sede das Abuelas de Plaza de Mayo, em Buenos Aires, entrevistando Stella de Carlotto, presidente da entidade, que, desde 1977, reúne avós em busca de seus netos, sequestrados pela ditadura da Argentina.<br><br>A repressão no país atingia não apenas os militantes, mas toda a família. Quando um “patota”, grupos paramilitares armados, invadiam uma casa para prender alguém considerado “subversivo”, levava o casal &#8211; incluindo mulheres grávidas ou com bebês. Segundo estimativa das Abuelas, cerca de 500 crianças foram sequestradas durante a ditadura (quando ainda eram pequenas ou logo após o nascimento), entre 1976 e 1983.<br><br>Stella, uma mulher extremamente amorosa, com as palavras de esperança, explicou-me como funcionava a organização, a luta, durante tantos anos, e ao final da entrevista, me revelou seu sonho: encontrar o neto. Quando sua filha Laura foi presa, em 1979, estava grávida, e nunca mais foi encontrada. Ela teve seu filho no centro clandestino La Cacha, e depois foi assassinada. Os familiares nunca souberam o destino do bebê.<br><br>“É meu sonho, encontrá-lo”<br><br>Depois de um silêncio profundo, como se lembrasse de tantas dores, completou:<br><br>“Não quero morrer sem esse abraço”.<br><br>Estava com 69 anos.<br><br>No dia 5 de agosto de 2014, o que parecia impossível aconteceu. As Abuelas convocaram uma entrevista coletiva para anunciar que Stella havia encontrado seu neto, após 36 anos de buscas.<br><br>Os dois apareciam juntos, sorridentes.<br><br>“Tudo isso que está acontecendo parece maravilhoso e mágico para mim”, disse a avó.<br><br>Ignácio Urban, era o nome oficial do neto. Mas nas poucas horas em que ficou com seu filho, a mãe o havia chamado de Guido, apelido do avô, nome do marido de Stella.<br><br>Entre 1998 e 2002, entrevistei 43 pessoas e viajei diversas vezes para a Argentina, Uruguai e Chile, para uma dissertação de mestrado sobre a solidariedade entre os grupos de Direitos Humanos durante as ditaduras do Cone Sul.<br><br>O Brasil, que estava saindo da fase mais brutal de sua ditadura, teve uma importante atuação na denúncia internacional das violações nos países vizinhos.<br><br>Foi Dom Paulo quem disse a frase que serviu como norte para os grupos de Direitos Humanos nos anos seguintes:<br><br>“Solidariedade não tem fronteiras”.</p>
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		<title>Nunca mais</title>
		<link>https://marcozero.org/nunca-mais/</link>
		
		<dc:creator><![CDATA[Samarone Lima]]></dc:creator>
		<pubDate>Sun, 02 Apr 2023 13:46:19 +0000</pubDate>
				<category><![CDATA[Destaque]]></category>
		<category><![CDATA[Jornalismo Crônico]]></category>
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		<category><![CDATA[1º de abril]]></category>
		<category><![CDATA[ditadura militar]]></category>
		<category><![CDATA[golpe de 1964]]></category>
		<category><![CDATA[livro reportagem]]></category>
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<blockquote class="wp-block-quote is-layout-flow wp-block-quote-is-layout-flow"><p>Este texto estava programado para ser postado ontem (sábado, 1º de abril), o que acabou não acontecendo porque o site ficou fora do ar por mais de 48 horas em razão de graves problemas nos equipamentos da empresa que abriga a página. Oficialmente, segundo os responsáveis técnicos da empresa, os &#8220;<em>clusters</em> de <em>cloud servers</em> (ou seja, a infraestrutura que<strong></strong>realiza o armazenamento do processamento de informações e de aplicativos) precisaram ser substituídos. </p></blockquote>



<p><strong>O golpe militar de 1964 teve início na madrugada de 1º de abril, quando o Forte de Copacabana foi ocupado, como <a href="https://www.instagram.com/p/Cqcv3KLu008/?igshid=YmMyMTA2M2Y=" target="_blank" rel="noreferrer noopener">provam os registros do fotógrafo Evandro Teixeira</a>, o primeiro a chegar lá, levando por um oficial do Exército amigo. Deslocar a data em um dia livrou os generais</strong> <strong>do incômodo de celebrar os aniversários da ditadura junto com o Dia da Mentira. Por isso, a Marco Zero decidiu que os 59 anos do golpe seriam abordados hoje, o contrário seria ratificar uma pequena e imerecida vitória aos golpistas.</strong></p>



<p><strong>Para marcar esse dia, convidamos o jornalista, poeta e escritor <a href="https://www.instagram.com/samarone_lima_escritor/?igshid=YmMyMTA2M2Y%3D" target="_blank" rel="noreferrer noopener">Samarone Lima</a>, um dos fundadores da Marco Zero. Samarone está imerso na pesquisa do tema desde que era estudante universitário. De lá pra cá, publicou dois livros reportagens (<em>Zé </em>e <em>Clamor</em>) e um livro de poesia (<em>Cemitérios clandestinos) </em>sobre personagens, circunstâncias e episódios daquele período.</strong></p>



<p>***</p>



<p>Em 1993, eu era um estagiário magricela do Diário de Pernambuco, portador de uma timidez brutal, estudante de Jornalismo da Universidade Católica de Pernambuco e terminando o curso de Educação Artística na “Federal”, como sempre chamamos a UFPE. Tinha passado na seleção do estágio, e creio que contou a meu favor a habilidade com o teclado das velhas Remington, que ocupavam todas as editorias do Diário.<br><br>Era realmente delicioso trabalhar com aquela sinfonia de teclas, e o famoso reeeeec, quando alguém puxava a folha que estava sendo batida, com papel carbono, irritado por algum erro grave. Cigarros estavam sempre no bico de alguns editores e eu achava aquilo tudo o máximo.<br><br>Nos meus 23 anos de idade, o tema Ditadura no Brasil não era uma grande preocupação. Durante os vários anos de colégio, o tema nunca me foi apresentado. Meu pai, funcionário bem colocado no Banco do Brasil, era transferido com rara facilidade, mas em nenhuma delas das escolas das cidades por onde passamos tinha professor que falasse do tema. Meu pai nunca falou sobre o assunto. Nem minha mãe. Na oitava série, um professor de Moral e Cívica poderia até falar do assunto, mas sempre chegava de óculos escuros, com uma ressaca memorável (as aulas eram na segunda-feira), ele queria tudo, menos falar.<br><br>Um belo dia, apareceu um exemplar do livro <em>Brasil: Nunca Mais</em> lá em casa, e comecei a ler e fiquei chocado. Estava com 16 anos. Depois, meu irmão Paulo, que tinha ido para um seminário em Carpina, ser padre, chegou em casa com outro livro, <em>Batismo de Sangue</em>, e fiquei ainda mais impressionado com a violência da repressão;<br><br>Até que tive uma pauta com Amparo Araújo, líder do Grupo Tortura Nunca Mais em Pernambuco. Era sobre o Monumento Tortura Nunca Mais, que estava sendo construído, às margens do Rio Capibaribe. Ela começou a falar de sua vida, a militância contra a ditadura, os amigos e amores que perdeu, e a militância por justiça e memória, que fiquei impressionado. Ela era um arquivo vivo dos 21 anos dos militares no poder.<br><br>Saí de lá com cinco ou seis crimes cometidos pelos militares, que jamais tinham sido publicados, e a pauta sobre o Monumento rendeu um bela matéria numa edição de domingo do Diário. Vários familiares de mortos e desaparecidos e pessoas que lutaram contra a ditadura deram um abraço coletivo em torno do Monumento, ainda cercado por tapumes.<br><br>Como estava perto de concluir o curso de Jornalismo, e teríamos a famosa &#8220;Banca de Conclusão do Curso”, resolvi fazer uma boa pesquisa sobre uma das histórias mal contadas do período para uma série investigativa. O tema, portanto, seria a ditadura. Vários colegas da turma ficaram surpresos.<br><br>“Mas a Ditadura? Por quê? Teve alguém da tua família que foi preso?”<br><br>Que eu soubesse não, mas o que me motivava era ir em busca das vozes dos que viveram aquele período. Amparo me deu vários contatos. Eu já tinha um gravador que usava nas minhas entrevistas.<br><br>Fiz algumas entrevistas com pessoas que ela me indicou. Fiquei impactado, comovido, e impressionado por saber que aquelas pessoas nunca tinham dado depoimento sobre o que viveram. Prisão, torturas, exílio, perdas de amigos, de trabalhos, projetos, sonhos.<br><br>Até que surgiu o nome do mineiro José Carlos Novais da Mata Machado, militante da Ação Popular, que teria morrido no Recife, em 1973, num tiroteio com os companheiros da organização.<br><br>Segundo a ditadura, foi uma morte causada por tiroteio entre os pares. Amparo me alertou que era comum no período criar situações que incriminasse as próprias vítimas da violência.<br><br>“Ele foi morto no DOI-CODI do Recife, em 28 de outubro de 1973”, disse. “Você precisa encontrar provas ou testemunhas disso”, alertou Amparo, me dando alguns nomes.<br><br>Fui à luta.<br><br>Encontrei pessoas que tinham visto o Zé chegar vivo ao DOI-CODI do Recife, naquele terrível outubro de 1973, e que nunca tinham falado. Um silêncio de 20 anos, difícil de desatar.<br><br>Descobri que tinha paciência e empatia. Nunca fazia a entrevista no primeiro encontro. Falava das pesquisas e do meu propósito, de resgatar memórias de quem viveu no corpo e na alma uma ditadura. Encontrei uma mulher guerreira, a advogada Mércia Albuquerque, que conseguiu localizar a cova clandestina onde o Zé foi enterrado, ao lado do companheiro de AP (como era conhecida a organização Ação Popular), Gildo Lacerda.<br><br>E na metade da pesquisa, recebi um telefonema de Amparo, com uma frase que jamais esqueci:<br><br>“Samarone, um ‘cachorro’ abriu, em João Pessoa. Estamos indo para lá agora. Quer ir com a gente?”<br><br>Falei com meu editor, expliquei o caso, precisava viajar.<br><br>“Pode ir, mas mande uma matéria de lá para o jornal”, disse.<br><br>No carro, perguntei a Amparo o que era aquela expressão.<br><br>“Cachorro é gente que trabalhou para a repressão, levando companheiros à prisão, tortura e morte”, respondeu.<br><br>Chegamos à OAB de João Pessoa. Gilberto Prata, cunhado de José Carlos da Mata Machado, iria fazer uma declaração pública.<br><br>Para um auditório perplexo, revelou que, em 1973, trabalhou para a repressão, como infiltrado na Ação Popular. Sua missão foi localizar o próprio cunhado.<br><br>Ao final do evento, o entrevistei e perguntei o motivo de ter passado para o lado da ditadura.<br><br>“Covardia ou medo”, respondeu.<br><br>O corpo de José Carlos Novais da Mata Machado foi devolvido à família, em Belo Horizonte, com a condição de que o caixão, lacrado, não fosse aberto. Só 20 anos depois a família fez uma exumação e confirmou que eram mesmo os restos mortais dele.<br><br>De 1993 a 1997, entrevistei mais de 50 pessoas, entre militantes da AP, amigos e parentes do Zé.<br><br>Sempre que eu me despedia de cada pessoa entrevistada, voltava pra casa com o <em>Nunca Mais</em> orientando a caminhada.<br><br>Em 1998, lancei, em Belo Horizonte, meu primeiro livro, <em>Zé: José Carlos Novais da Mata Machado, reportagem biográfica</em>.<br><br>Ano passado, o livro teve roteiro adaptado pelo cineasta mineiro Rafael Conde, e virou um longa-metragem.<br><br>Chegará aos cinemas no segundo semestre.<br><br>Será a chama do <em>Nunca Mais</em> tremulando novamente.</p>



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<p></p>
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		<title>A coragem do jornalismo de Miranda Jordão</title>
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		<dc:creator><![CDATA[Inácio França]]></dc:creator>
		<pubDate>Wed, 12 Feb 2020 20:55:28 +0000</pubDate>
				<category><![CDATA[Destaque]]></category>
		<category><![CDATA[Diálogos]]></category>
		<category><![CDATA[Jornalismo Crônico]]></category>
		<category><![CDATA[Diário Popular]]></category>
		<category><![CDATA[jornalismo]]></category>
		<category><![CDATA[jornalismo impresso]]></category>
		<category><![CDATA[Miranda Jordão]]></category>
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					<description><![CDATA[<p>Desembarquei em São Paulo com o ego em frangalhos, exatamente um mês depois de ser reprovado no exame psicotécnico para passar de estagiário a repórter no Jornal do Commercio. Sim, fui reprovado em psicotécnico de jornal. Imaginem o estrago na autoestima de um rapaz de 22 anos. Nesse estado de espírito cheguei à portaria da [&#8230;]</p>
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<p>Desembarquei em São Paulo com o ego em frangalhos, exatamente um mês depois de ser reprovado no exame psicotécnico para passar de estagiário a repórter no Jornal do Commercio. Sim, fui reprovado em psicotécnico de jornal. Imaginem o estrago na autoestima de um rapaz de 22 anos.</p>



<p>Nesse estado de espírito cheguei à portaria da rua Major Quedinho na esperança de conseguir emprego no Diário Popular. Levava uma pasta com recortes de minhas matérias já publicadas no Recife e uma carta de recomendação assinada por Múcio Borges da Fonseca, um jornalista pernambucano, radicado há muitos anos em São Paulo como empresário,  mas que tinha passado a maior parte da vida em redações. Na do Última Hora, foi colega de Jorge Miranda Jordão, diretor de redação do Diário Popular. Múcio era primo de uma tia, por isso topou, generosamente, me recomendar.</p>



<p>Fui logo ao Diário Popular, pois Múcio tinha a informação de uma vaga aberta na editoria de polícia. Esperançoso, amedrontado, com o estoque de autoconfiança zerado, bati na porta de Miranda. Nem consegui entrar no prédio. O recepcionista informou que Miranda estava no Rio de Janeiro. Liguei para Múcio e agradeci a tentativa, mas ele foi categórico: “É mentira esse negócio de viagem. Ele está aqui em São Paulo. Volte lá e se apresente como Múcio Borges da Fonseca, pode mentir. A secretária sabe que sou amigo dele, mas nunca me viu. Vá lá”.</p>



<p>Voltei e fiz o que ele mandou. Silmara, a secretária de Miranda, me mandou subir na mesma hora. No quinto andar, ela desconfiou que o rapazola diante de sua mesa não era o mesmo senhor com quem falava ao telefone sempre que Miranda pedia uma ligação.</p>



<p>–
Você
é Múcio Borges?</p>



<p>– Múcio Borges Filho – e não disse mais nada.</p>



<p>Quando
entrei na sala de paredes de vidro, o “aquário”, Miranda quase
deu um pulo.</p>



<p>–
Quem
é você?</p>



<p>– Foi Múcio quem disse para usar o nome dele. Vim pedir emprego, ele disse que tinha uma vaga, trabalhei como repórter do Jornal do Commercio, lá no Recife, trouxe uma pasta com algumas matérias e …</p>



<p>– Não quero ver isso, não. Pode guardar ou jogar fora. A vaga que tem é de polícia. Você já fez polícia antes? – Miranda não era é homem de delicadezas, mas eu não estava em condições de ficar melindrado por uma grosseria à toa.</p>



<p>–
Não…</p>



<p>–
Você
conhece São Paulo? Precisa conhecer São Paulo muito bem pra fazer
polícia aqui.</p>



<p>–
Estou
aqui há 15 dias, mas aprendo.</p>



<p>– Nunca fez polícia, não conhece São Paulo e quer ser repórter de polícia do Diário Popular? Aqui, a gente não fica só no boletim de ocorrência, não. Vai na delegacia, mas tem que entrar na favela. Repórter tem que ouvir a versão da polícia, mas tem ouvir também a do bandido, do parente da vítima, da mãe do bandido. Aqui, polícia é fonte, bandido também, é tudo fonte.</p>



<p>Mais
do que uma orientação profissional, tratava-se da mais clara
declaração de princípios e ética jornalística que jamais
voltaria a escutar.</p>



<p>Pensei
que não tinha chances, mas ele mandou chamar “o Giba”, um
magrelo, de barba negra e calvo, com jeito de gente boa. Era o
subeditor Gilberto Lobato de Vasconcelos.</p>



<p>–
Giba,
esse menino diz que é repórter. Ele vai ficar uns dois ou três
meses lá com vocês. Depois a gente vê se dá para ficar com ele na
vaga do Zanfra.</p>



<p>Fiquei quatro anos na calorosa redação do Diário Popular, o mais instigante jornal em que já trabalhei. Pouco mais de um ano depois, provavelmente por causa de meu desempenho na cobertura do massacre do Carandiru, fui promovido por ordem de Miranda. Mais do que uma promoção, uma lisonja, a maior da minha vida.  </p>



<p>Aos poucos fui aprendendo quem e o quê era Miranda. Costuma-se usar a palavra genial nesses casos, mas isso não o traduz. Miranda personificava a coragem que o jornalismo precisa ter. Narrados hoje em dia, os exemplos que ilustram sua coragem para publicar ou não publicar (como no famoso caso da Escola Base) deveriam envergonhar os diretores de redação dos jornais, portais, rádios e TVs do século XXI.  </p>



<p>Tempos depois, minhas leituras revelaram que sua coragem não era apenas editorial, mas também física.  No livro <em>Cães de Guarda</em>, a historiadora Beatriz Kushnir revela o papel que Miranda desempenhou na resistência ao golpe militar de 1964 quando dirigia a primeira versão da Folha da Tarde. Entre outras coisas, ele – bom partido, cheio da grana, com um cargo importante – escondeu Carlos Marighella em seu apartamento durante semanas, enquanto lotava a redação do jornal com militantes das organizações de esquerda. Eram editores, repórteres e revisores que precisavam de emprego para se livrar da clandestinidade. Tudo isso nas barbas dos donos do jornal, fervorosos colaboradores da repressão.</p>



<p>A frase “não podemos contrariar os interesses do dono”, justificativa que os editores da atualidade usam para explicar a própria submissão, era inaceitável para Miranda Jordão. Ao menos, em sua passagem pelo Diário Popular, jornal que pertencia a Orestes Quércia, político com muitos outros negócios, multiplicados magicamente assim que deixou o Governo de São Paulo.  </p>



<p>Em alguns desses negócios o sócio do patrão era Wagner Canhedo, o mesmo empresário que havia comprado a companhia aérea Vasp no leilão de privatização promovido quando o próprio Quércia era governador.</p>



<p>É
óbvio que, na redação do Dipo, todos sabíamos disso.</p>



<p>Por essa razão, quando o repórter da editoria de polícia Antônio Carlos Silveira chegou da rua com a informação do indiciamento em inquérito de Canhedo por lavagem de dinheiro e remessa ilegal de dólares para o exterior, era a perfeita imagem de um homem frustrado. Seu desânimo era contagioso, afinal ele tinha uma matéria exclusiva, um furo de interesse nacional, que o jornal jamais publicaria. </p>



<p>Isto é, jamais publicaria se o diretor de redação fosse outro.</p>



<p>Com
Miranda Jordão, a cantiga era diferente. Ele esfregou as mãos ao
final do relato feito pelo editor. Chamou o repórter, escutou todos
os detalhes do inquérito da polícia civil e nem parou para
refletir, ponderar ou telefonar para o patrão.</p>



<p>“O que é isto aqui na página de Economia?” – foi a pergunta que fez ao secretário gráfico. “Publicidade”, foi a resposta. Miranda mandou derrubar o anúncio para publicar a história de Canhedo. A única concessão foi publicar na página de Economia, não em Polícia.</p>



<p>Seus
auxiliares diretos emudeceram. O editor-executivo Luizinho de Paula,
o número dois na hierarquia da redação, perguntou, como quem
arrisca um conselho:</p>



<p>–
Ô
Miranda, sabia que Canhedo é sócio de Quércia?</p>



<p>– Não, não sabia. Ele nunca me disse nada.  Tô sabendo agora. E agora é tarde. </p>



<p>O editor de Economia engolia em seco, antevendo a corda no pescoço. Paulo Breitenwieser, o de Polícia, saiu do aquário onde o jornal era fechado todos os dias para contar a notícia à equipe.</p>



<p>O
repórter escreveu a matéria cuidadosamente, a todo instante tirando
as dúvidas de ortografia e querendo saber sinônimos para certas
palavras, mas não omitiu nada, apesar da certeza de que seria seu
último texto para o jornal.</p>



<p>No
dia seguinte, só o Diário Popular deu na primeira página a notícia
do indiciamento em inquérito em vários crimes do sócio do dono do
jornal.</p>



<p>Foi a primeira e única vez que vimos Orestes Quércia na redação. Imaginamos a demissão de Miranda. Equívoco total. Ele já estava com a minuta do texto que seria publicada na capa da edição seguinte, um texto no qual Orestes Quércia afirmava seu &#8220;compromisso democrático, a independência do jornal e sua completa ignorância dos delitos cometidos pelo sócio&#8221;, ou melhor, ex-sócio a partir daquela data.</p>



<p>Quércia
sugeriu apenas que o texto fosse assinado com sua própria caligrafia
e não com as fontes de impressão convencionais. Seu pedido foi
atendido.</p>



<p>Na única vez em que entrevistei Miranda, já pelo Diario de Pernambuco, em 1999, tratei do caso da Escola Base, que completava cinco anos. Ele me explicou que decidiu não publicar a fantasiosa história dos donos da escola acusados de abuso sexual das crianças no jardim de infância por “instinto”. Simples assim. Quando escutou o relato do repórter, “sentiu” que havia alguma coisa errada. Confiou em sua voz interior e assumiu o risco. Coragem é o nome disso.</p>



<p>Há poucos anos, escrevi sobre ele num antigo blog que mantive. Sua filha Tatiana encontrou os textos com a ajuda do google e fez contato. Aproveitei para tentar chegar a Miranda e entrevistá-lo. Imaginei que poderia usar o resultado da conversa para um livro entre a ficção e o real. Miranda não se animou, mas mandou recado pela filha: “Vá fazer jornalismo pela internet. Eu sou o passado”.</p>



<p>Acatei sua última ordem. Aqui estou na Marco Zero, tentando usar o que aprendi naquela entrevista que me garantiu o emprego.</p>
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		<title>Lula está com tesão</title>
		<link>https://marcozero.org/lula-esta-com-tesao/</link>
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		<dc:creator><![CDATA[Marco Zero Conteúdo]]></dc:creator>
		<pubDate>Sun, 10 Nov 2019 20:56:08 +0000</pubDate>
				<category><![CDATA[Destaque]]></category>
		<category><![CDATA[Jornalismo Crônico]]></category>
		<category><![CDATA[Reportagens]]></category>
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					<description><![CDATA[<p>No dia 7 de abril de 2018, a repórter Mariana Filgueiras pegou um ônibus do Rio de Janeiro para São Bernardo do Campo, em São Paulo, para acompanhar de perto a prisão do ex-presidente Lula. Da rodoviária do Rio, ofereceu seu olhar à Marco Zero Conteúdo em uma cobertura hora a hora do que chamoude [&#8230;]</p>
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										<content:encoded><![CDATA[<p><em>No dia 7 de abril de 2018, a repórter Mariana Filgueiras pegou um ônibus do Rio de Janeiro para São Bernardo do Campo, em São Paulo, para acompanhar de perto a prisão do ex-presidente Lula. Da rodoviária do Rio, ofereceu seu olhar à Marco Zero Conteúdo em uma cobertura hora a hora do que chamoude <a href="https://marcozero.org/hora-a-hora-da-resistencia-e-prisao-de-lula-em-sao-bernardo/" target="_blank" rel="noopener noreferrer">Dez horas que abalaram o Brasil</a>. Ontem, ela refez o percurso para assistir ao reencontro de Lula com brasileiras e brasileiros que também saíram de várias partes do país para vê-lo de volta à liberdade. Novamente procurou a Marco Zero e produziu conteúdo para as redes sociais e para a reportagem <a href="https://marcozero.org/em-fase-de-paz-e-tesao-lula-acusa-bolsonaro-de-favorecer-milicianos-e-convoca-povo-as-ruas/" target="_blank" rel="noopener noreferrer">Lula &#8220;paz e tesão&#8221; quer ir às ruas e liderar a oposição a Bolsonaro</a>. Na volta para o Rio de Janeiro conheceu no ônibus a fotógrafa Bel Junqueira, que cedeu asimagens para ilustrar acobertura da Marco Zero. Neste texto, ela comenta em primeira pessoa o que viu e viveu nos dois dias que abalaram o Brasil.</em></p>
<p><strong>Por Mariana Filgueiras</strong></p>
<p><div id="attachment_20151" style="width: 310px" class="wp-caption alignleft"><a href="http://marcozero.org/wp-content/uploads/2019/11/Lula-em-Sao-Bernardo_-12.jpeg"><img fetchpriority="high" decoding="async" aria-describedby="caption-attachment-20151" class="wp-image-20151" src="http://marcozero.org/wp-content/uploads/2019/11/Lula-em-Sao-Bernardo_-12.jpeg" alt="Crédito: Bel Junqueira/MZ Conteúdo" width="300" height="450"></a><p id="caption-attachment-20151" class="wp-caption-text">Crédito: Bel Junqueira/MZ Conteúdo</p></div></p>
<p>Lula está com tesão. Há 581 dias, o Lula que eu vi saindo da sede do Sindicato dos Metalúrgicos em São Bernardo direto para a prisão em Curitiba estava com raiva. Depois de passar o dia tentando protelar sua rendição, vociferando contra seus algozes ante uma multidão enfurecida que se enganchava aos portões para impedir sua saída, só sobrava ao ex-presidente a indignação. &#8220;É por isso que eu sou um cidadão indignado: eu não os perdoo por ter passado para a sociedade a ideia de que eu sou um ladrão&#8221;, gritava em cima do carro de som, o semblante sulcado pela ira.</p>
<p>Mas o Lula que eu viontem na mesma esquina de São Bernardo do Campo repetiu a palavra &#8220;tesão&#8221; quatro vezes em menos de uma hora. &#8220;Eu tenho a experiência dos 70, a energia dos 30 e o tesão dos 20 anos de idade&#8221;, sorriu ele, ao lado da namorada, Rosângela Silva, de 52, ouvindo da plateia um sonoro &#8220;beija, beija, beija&#8221;. &#8220;Estou cheio de tesão para rodar por esse país&#8221;, voltou ao termo ao final do discurso. Goste-se ou não dele, ninguém duvida. O Lula de 2019 tem os olhos injetados de serotonina fresca.</p>
<p>No ano que o Brasil via sua democracia ruir pelo governo Bolsonaro, Lula manteve-se isolado, preso, num universo alimentado por café, livros, exercício físico e pen drives recheados de áudios, filmes e discussões políticas. As visitas religiosas foram interrompidas, mas as íntimas foram autorizadas. Ficou muito claro ontem, no palanque, que a energia para convocar seus apoiadores para reconstruir o Brasil deve muito ao foco alcançado na reclusão. Não dá mais tempo, é o que o corpo dele parece dizer: corram todos às ruas, corram como eu estou fazendo, aos 74, recuperem seu tesão dos 20. Dá tempo.</p>
<p>Evocar a potência política do amor e do sexo pareceu surtir efeito, ao menos momentâneo, no seu público – se em 2018 o evento terminou em chororô, homens e mulheres desolados sentados no chão, voltando com suas caravanas, perseguição policial e ocorrências violentas contra a imprensa que tentava cobrir o episódio, o evento de ontem terminou com todos dançando, aos beijos e abraços, qual um carnaval. Se o efeito simbólico de tanto tesão perdura, só saberemos daqui pra frente, quando a agenda de viagens do ex-presidente de fato começar.</p>
<p>Muitas coisas mudaram na plateia que foi apoiar Lula em São Bernardo em 2018: a prisão mobiliza muito mais imprensa que a soltura, mas a soltura mobilizou muito mais apoiadores do que a prisão. Os eleitores de Bolsonaro no ano passado provocavam conflito, xingando das janelas, inflando pixulecos, erguendo a bandeira do Brasil de seus apartamentos (o prédio exatamente em frente ao Sindicato dos Metalúrgicos do ABC, curiosamente, tinha muita manifestação contráriaa Lula). Ontemnão.</p>
<p>Naquela esquina de São Bernardo, que é muito menor do que aparenta na TV, havia homens, mulheres, velhos, crianças, estudantes, camelôs, desempregados, ativistas, vitimados de barragens, integrantes de movimentos de ocupação urbana, de ocupação rural, agroecologistas, sindicalistas, margaridas, indígenas, uruguaios (conversei com dois que vivem em Santo André há dois meses e foram de ônibus para São Bernardo pela manhã), pessoas que perderam empregos, bolsas de estudos, casas, que perderam parentes, direitos, pessoas com muita raiva, e que claramente estão dispostas também a sentir muito tesão. Havia também ladrões de celular e carteira, como em qualquer aglomeração – o senador Lindhberg teve a sua afanada na multidão, o ex-senador Eduardo Suplicy perdeu seu aparelho enquanto saía da carro de som, mas acredita ter apenas perdido.</p>
<p><div id="attachment_20157" style="width: 1156px" class="wp-caption aligncenter"><a href="http://marcozero.org/wp-content/uploads/2019/11/Lula-em-Sao-Bernardo.jpeg"><img decoding="async" aria-describedby="caption-attachment-20157" class="wp-image-20157 size-full" src="http://marcozero.org/wp-content/uploads/2019/11/Lula-em-Sao-Bernardo.jpeg" alt="Lula em Sao Bernardo" width="1146" height="764"></a><p id="caption-attachment-20157" class="wp-caption-text">Crédito: Bel Junqueira/MZ Conteúdo</p></div></p>
<p>Eu gosto de conversar com as pessoas. Eu gosto de saber por que as pessoas quebram bancos ou vão ver o Papa, porque vendem desentupidor de pia na praia ou porque se vestem de Jiraya em festas de cosplay. Conversar com pessoas me anima, me encanta, me esclarece muita coisa – sobre mim mesma também. Gosto de saber por que as pessoas saem de onde estão e vão ali apoiar um político que foi o que mais enriqueceu banqueiros na história desse país, que deixou que os planos de saúde sapateassem na cabeça de todos os brasileiros, alguém que se aliou ao PMDB e que não regulou a mídia. Eu gosto especialmente de conversar com os velhos, de ouvir os nossos ancestrais. São os mais aguerridos e bons de resposta. Dão perspectiva temporal e têm pontos de inflexão mais ricos. Aprenderam a contar suas histórias.</p>
<p>A multidão de ontem tinha vários deles, senhoras embaixo do sol forte de meio dia passando batom para ver o Lula no palanque, um senhor de bigode aparado e cabelo pintado que tinha saído do expediente de porteiro a tempo da fala do ex-presidente. A energia que os mobiliza me contagia como humanista que sou, suas causas são compreendidas e defendidas por mim, repórter que não acredita no mito da isenção jornalística – principalmente por já ter feito um sem-número de reportagens sobre os problemas desse país. Eles estão ali não porque lhes deram um pão com mortadela. Eles estão ali porque a vida deles melhorou entre 2003 e 2011. E também porque piorou muito nesses últimos 581 dias. E é preciso reportar onde há gente junta, mobilizada, seja pelo Papa ou por animes orientais.</p>
<p><div id="attachment_20160" style="width: 1210px" class="wp-caption aligncenter"><a href="http://marcozero.org/wp-content/uploads/2019/11/Lula-em-Sao-Bernardo.jpg"><img decoding="async" aria-describedby="caption-attachment-20160" class="wp-image-20160 size-full" src="http://marcozero.org/wp-content/uploads/2019/11/Lula-em-Sao-Bernardo.jpg" alt="Lula em Sao Bernardo" width="1200" height="396"></a><p id="caption-attachment-20160" class="wp-caption-text">Crédito: Bel Junqueira/MZ Conteúdo</p></div></p>
<p>Uma coisa me chamou muito a atenção tanto em 2018 quanto em 2019: só havia repórteres no chão de veículos assumidamente de esquerda. A TV Globo só cobriu do alto, mais uma vez. Diante das críticas que Lula desferiu à empresa, por não ter engrossado o caldo da Vaza Jato, era esperado que assim fosse. Mas não deixa de ser mais um golpe para a democracia que os veículos de massa não se interessem pelas milhares de pessoas que estavam ali. Ontem, ao fim da micareta que se tornou o evento de recepção a Lula, o tal carnaval que comentei acima, um camelô perguntou se eu, que estava de crachá de imprensa, ia para a Avenida Paulista. Não, respondi, perguntando por que eu deveria ir para lá. Ele me disse: é que estou indo para vender cerveja, agora começa lá o evento de apoio a Bolsonaro. &#8220;Não tem ninguém com dinheiro pra gastar aqui não, a gente vai onde vende&#8221;.</p>
<p>Eu e ele estávamos em situação parecida. Com raiva ou com tesão, juntou gente, a gente vai onde vende.</p>
<p><div id="attachment_20162" style="width: 1210px" class="wp-caption aligncenter"><a href="http://marcozero.org/wp-content/uploads/2019/11/Lula-em-Sao-Bernanrdo_x.jpg"><img loading="lazy" decoding="async" aria-describedby="caption-attachment-20162" class="wp-image-20162 size-full" src="http://marcozero.org/wp-content/uploads/2019/11/Lula-em-Sao-Bernanrdo_x.jpg" alt="Crédito: Bel Junqueira/MZ Conteúdo" width="1200" height="828"></a><p id="caption-attachment-20162" class="wp-caption-text">Crédito: Bel Junqueira/MZ Conteúdo</p></div></p>
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		<title>Do Recife a Brasília: 2 mil quilômetros de histórias e luta feminista</title>
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		<dc:creator><![CDATA[Helena Dias]]></dc:creator>
		<pubDate>Tue, 13 Aug 2019 21:41:50 +0000</pubDate>
				<category><![CDATA[Jornalismo Crônico]]></category>
		<category><![CDATA[Fetape]]></category>
		<category><![CDATA[luta feminista]]></category>
		<category><![CDATA[Marcha das margaridas]]></category>
		<category><![CDATA[marcha das mulheres]]></category>
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					<description><![CDATA[<p>No final de julho deste ano, quando a cobertura da Marcha das Margaridas, em Brasília, era apenas uma possibilidade que estávamos articulando na Marco Zero com a Federação dos Trabalhadores Rurais Agricultores e Agricultoras Familiares de Pernambuco (Fetape), eu escutei da diretora de Política para as Mulheres da entidade, Adriana do Nascimento, a frase: “a [&#8230;]</p>
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										<content:encoded><![CDATA[<p>No final de julho deste ano, quando a cobertura da Marcha das Margaridas, em Brasília, era apenas uma possibilidade que estávamos articulando na Marco Zero com a Federação dos Trabalhadores Rurais Agricultores e Agricultoras Familiares de Pernambuco (Fetape), eu escutei da diretora de Política para as Mulheres da entidade, Adriana do Nascimento, a frase: “a viagem em si já é uma peleja”. Na hora, eu concordei, mas não me detive àquela afirmação. Continuei perguntando sobre os detalhes que estavam sendo orquestrados para a mobilização e seguimos a entrevista.</p>
<p>De lá para cá, as conversas foram muitas, as pautas definidas e decidimos que o especial dessa cobertura seria acompanhar as mulheres e vivenciar a 6ª Marcha das Margaridas desde o percurso do Recife até o Distrito Federal e o ato na Esplanada dos Ministérios, que acontecerá na manhã da quarta-feira (14). Planejamos um diário de bordo e embarcamos no ônibus 3, do Recife em direção ao Agreste Meridional, em que a maioria das passageiras vinha dos municípios de Bom Conselho e Caetés. Passamos cerca de 45 horas na estrada percorrendo 2.272 quilômetros, entre uma parada e outra, para comer, tomar banho e seguir o caminho.</p>
<p>Foi na terceira parada, em um posto do município de Paulo Afonso, na Bahia, que senti o primeiro estalo na minha mente e a fala de Adriana passou a fazer ainda mais sentido. Eu e a fotógrafa Inês Campelo começamos a viver o cansaço e o desconforto de quem dorme e acorda em um ônibus e, junto às companheiras de viagem, tem que escolher a prioridade naquele momento, já que o tempo é curto e a demanda, intensa. O nosso ônibus fazia parte de um comboio com mais três veículos que levavam em média 40 pessoas cada um.</p>
<p>Entre o enjoo e a dor de cabeça, a necessidade de fazer uma refeição em vez de um lanche, eu entrevistava mulheres agricultoras de luta rumo à maior mobilização feminista da América Latina. E, justamente nesses momentos, eu conseguia virar uma chave dentro do meu coração e viver o instante presente que me contava sobre uma peleja de fato real. Não escutei reclamação alguma dessas mulheres. Pedi que elas definissem a Marcha das Margaridas em uma palavra e elas me disseram: resistência, força, igualdade e esperança. Elas se sentem mais fortes, mesmo diante do desmonte das políticas públicas que interferem diretamente no dia a dia de cada uma.</p>
<p>Falo da dificuldade de acesso das agricultoras à Previdência Pública, como elas me relataram nesses últimos dois dias. Falo também da falta dos médicos cubanos, que não mais atuam nas zonas rurais mais distantes da capital, ou em comunidades quilombolas, por exemplo. O difícil acesso ao Pronaf Mulher e ao Pronaf Jovem, que são programas de financiamento voltados para agricultoras e jovens agricultores.</p>
<p>A situação tem piorado dessa forma desde o golpe que depôs a ex-presidenta Dilma Rousseff (PT). As margaridas, esse ano, trazem uma plataforma política dirigida à sociedade brasileira, diferente das cinco marchas anteriores quando as reivindicações foram feitas ao governo federal. Como disse a diretora de Organização e Formação da Fetape, Janusi Marques, durante ato pela soltura do ex-presidente Lula (PT), no município de Águas Belas, no agreste pernambucano, &#8220;a marcha desse ano é de pressão e denúncia&#8221;. Denúncia da falta de diálogo com o governo Jair Bolsonaro, denúncia do desmonte da agricultura familiar no país e sobre a importância da liberdade de Lula no processo de resgate da democracia brasileira.</p>
<p><div id="attachment_18101" style="width: 1162px" class="wp-caption aligncenter"><a href="http://marcozero.org/wp-content/uploads/2019/08/Viagem-acompanhando-camponesas-para-Marcha-das-Margaridas_-4.jpeg"><img loading="lazy" decoding="async" aria-describedby="caption-attachment-18101" class="wp-image-18101 size-full" src="http://marcozero.org/wp-content/uploads/2019/08/Viagem-acompanhando-camponesas-para-Marcha-das-Margaridas_-4.jpeg" alt="Crédito: Inês Campelo/MZ Conteúdo" width="1152" height="864" /></a><p id="caption-attachment-18101" class="wp-caption-text">Pessoas de todas as regiões do país já ocupando o pavilhão do Parque da Cidade. Crédito: Inês Campelo/MZ Conteúdo</p></div></p>
<p>Ao final do percurso, quando chegamos no Parque da Cidade, em Brasília, reencontrei Adriana e contei rapidamente como foi a viagem. Ela me respondeu sorrindo e afirmando que já estava “calejada” depois de tantas marchas. Encontrei também Rani de Mendonça, uma amiga feminista e jornalista, que na semana passada me explicou como a Reforma da Previdência de Bolsonaro é também um golpe de desmobilização nos movimentos sindicais dos meios urbanos e rurais e me fez entender melhor sobre como o governo se utiliza de meios rasteiros e covardes para tirar os direitos do povo.</p>
<p>Com calma, acabo de ler o texto publicado pela Marco Zero em parceria com o SOS Corpo &#8211; Instituto Feminista para a Democracia e reafirmo o quanto é histórico o que estamos vivendo essa semana. Escrevo enquanto converso com Inês e mais uma vez ela me conta o quão emocionante foi a ciranda do Agreste pernambucano que aconteceu no município de Barreiras (BA), na tarde da última segunda, durante uma parada para esticar as pernas.</p>
<p>Eu sinto que somos todas uma força-tarefa. Pela primeira vez, eu piso em Brasília, e é com as pessoas certas. Dedico esse diário de bordo a todas elas.</p>
<p><a href="http://marcozero.org/wp-content/uploads/2019/08/Viagem-acompanhando-camponesas-para-Marcha-das-Margaridas_-6.jpeg"><img loading="lazy" decoding="async" class="aligncenter size-full wp-image-18103" src="http://marcozero.org/wp-content/uploads/2019/08/Viagem-acompanhando-camponesas-para-Marcha-das-Margaridas_-6.jpeg" alt="Viagem acompanhando camponesas para Marcha das Margaridas_ (6)" width="1152" height="648" /></a></p>
<blockquote>
<h4><a href="http://marcozero.org/wp-content/uploads/2019/08/Marcha-info-4.jpg"><img loading="lazy" decoding="async" class="alignright wp-image-18148" src="http://marcozero.org/wp-content/uploads/2019/08/Marcha-info-4-409x1024.jpg" alt="Marcha info (4)" width="320" height="800" /></a><br />
Domingo, 11 de agosto</h4>
<p>9h23 – Saída do Recife com destino a Garanhuns.<br />
12h21 – Primeira parada em Garanhuns para formação do comboio de ônibus do Agreste Meridional e embarque da maioria das pessoas.<br />
14h30 – Saída de Garanhuns e oração pedindo proteção para os viajantes participantes da Marcha.<br />
16h35 – Ato Lula Livre, no município de Águas Belas, anúncio de abaixo-assinado em prol da soltura do ex-presidente e embarque de agricultoras da microrregião.<br />
20h – Parada em Paulo Afonso, na Bahia, para banho e jantar.</p>
<h4>Segunda-feira, 12 de agosto</h4>
<p>5h05 – Parada em Itaperaba.<br />
11h25 – Ensaio dos gritos de desordem criados para a Marcha e orientações para as próximas paradas.<br />
12h20 – Almoço em Ibotirama, na Bahia.<br />
17h30 – Chegamos em Barreiras, ainda na Bahia, onde houve ciranda e um grito coletivo por Lula Livre.<br />
19h30 – No município de Luís Eduardo Magalhães, o comboio parou para o jantar e também para o banho. Foi a última parada no estado baiano.</p>
<h4>Terça-feira, 13 de agosto</h4>
<p>3h – Os ônibus chegaram no município de Formosa, em Goiás. A última parada com estrutura para banho.<br />
5h50 – Entramos em Brasília e o ônibus quebrou a 2,5 quilômetros do Parque da Cidade, onde as margaridas estão acampadas.<br />
8h03 – Desembarque do nosso ônibus, no Parque da Cidade.</p></blockquote>
<p>[Best_Wordpress_Gallery id=&#8221;100&#8243; gal_title=&#8221;Viagem Margaridas&#8221;]</p>
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		<title>&#8220;Bolsonaro Gourmet&#8221;: Na UFPE, Amoêdo defende cortes nas universidades e critica protestos</title>
		<link>https://marcozero.org/bolsonaro-gourmet-na-ufpe-amoedo-defende-cortes-nas-universidades-e-critica-protestos/</link>
		
		<dc:creator><![CDATA[Maria Carolina Santos]]></dc:creator>
		<pubDate>Fri, 17 May 2019 10:59:18 +0000</pubDate>
				<category><![CDATA[Direitos Humanos]]></category>
		<category><![CDATA[Jornalismo Crônico]]></category>
		<category><![CDATA[amoedo]]></category>
		<category><![CDATA[liberalismo]]></category>
		<category><![CDATA[palestra]]></category>
		<category><![CDATA[UFPE]]></category>
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					<description><![CDATA[<p>Quinze minutos antes da hora marcada para a palestra de João Amoêdo, candidato do partido Novo derrotado à Presidência da República com 2,5% dos votos, a fila era grande no auditório do Centro de Tecnologia e Geociências (CTG) da UFPE. No sol quente do começo da tarde, o que chamava atenção era a predominância de [&#8230;]</p>
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										<content:encoded><![CDATA[<p>Quinze minutos antes da hora marcada para a palestra de João Amoêdo, candidato do partido Novo derrotado à Presidência da República com 2,5% dos votos, a fila era grande no auditório do Centro de Tecnologia e Geociências (CTG) da UFPE. No sol quente do começo da tarde, o que chamava atenção era a predominância de estudantes do sexo masculino – chutaria em 99%. Na fila, as conversas iam de como escapar da convocação militar e do porquê de não terem ido aos protestos pela educação (“se fosse somente contra os cortes&#8230;”) até uma teoria da suposta superioridade do carteado em relação às ciências exatas. Vez ou outra, alguém furava a fila. Ninguém reclamava.</p>
<p>Lá dentro, o ar-condicionado era fraco e o auditório lotado ainda ganhou cadeiras de plástico para acomodar mais estudantes. O evento foi promovido pelo Clube Frei Caneca, uma agremiação de cerca de 60 alunos que considera liberdade sinônimo de liberalismo. Fizeram uma longa apresentação sobre o clube, entremeada de muitas críticas ao “viés ideológico” das universidades em geral e um quê de recalque.</p>
<p>Olhando para a plateia do palco, uma das participantes ainda soltou que “é difícil um evento liberal juntar tantas mulheres como hoje”. Olhei com cara de choque para o lado, mas não fui correspondida. Todos pareciam concordar.</p>
<p>Por incrível que pareça, o clube não se diz de direita. Ao invés dessa denominação, o porta-voz do Clube recomenda a instalação de um aplicativo do Diagrama de Nolan para que “cada um se conheça melhor”.</p>
<p><div id="attachment_15837" style="width: 310px" class="wp-caption alignleft"><img loading="lazy" decoding="async" aria-describedby="caption-attachment-15837" class="size-medium wp-image-15837" src="http://marcozero.org/wp-content/uploads/2019/05/amoedo2-300x203.jpg" alt="Fila para ouvir Amôedo. Foto: MCS/MZ" width="300" height="203"><p id="caption-attachment-15837" class="wp-caption-text">Fila para ouvir Amoêdo. Foto: MCS/MZ</p></div></p>
<p>Antes de Amoêdo chegar, houve palestra de um tal de Edísio Pereira Neto apresentando sua empresa de criptomoeda. O que parecia meio deslocado, ganhou ares de trolagem quando ele jogou a seguinte pergunta para a plateia: “Tem algum virgem aqui?”. Espanto, seguido de risadinhas. Ao lado, um grito tímido: “Ninguém”. Edísio, enfim, retoma a fala para discorrer sobre como os impostos são ruins, como os políticos são maus, como ele soube inovar, etc, etc, etc. (ah, o &#8216;virgem&#8217; era sobre o uso de criptomoeda).</p>
<p>Quando finalmente João Amoêdo subiu ao palco – do jeito de sempre: camisa branca, calça social, cabelo bem cortado – foram muitos os aplausos e assobios. Novamente o representante do Frei Caneca, que não se apresentou, fez uma rápida introdução: voltou a falar que as universidades são movidas por um pensamento único, mas desta vez tentou ser mais enfático, quase colérico. Não funcionou muito.</p>
<p>João Amoêdo começou em um tom bem mais conciliatório que o do estudante. O tema era “As reformas que o Brasil precisa”, mas durante a apresentação ele basicamente forneceu dados sobre previdência e dívida pública – muitas vezes com slides que não citavam a fonte das informações ou a fonte estava ilegível. Outras vezes, a fonte era o Banco Mundial ou o Todos pela Educação, organização criada por empresários (entre eles, Viviane Sena e Jorge Gerdau).</p>
<p>Entre um e outro dado, Amoêdo despeja chavões sobre empreendedorismo para a plateia e comprova todos os lugares-comuns sobre ele. É quase uma fábrica de memes para página de humor “Empreendedor nem é gente”. Para ele, o principal problema do Brasil parece ser a autoestima. Afirma chavões do tipo “Não há atalhos” e “Não há almoço grátis”. Sim, Amoêdo não surpreende. Mas a plateia vibra.</p>
<p>Diz que o Brasil tem que copiar o que deu certo em outros lugares – ele genuinamente parece desconsiderar as inúmeras idiossincrasias deste imenso país. Cheio de preconceitos, cita a Índia – “nunca fui, mas parece ser um tumulto lá” – como exemplo de certificação digital. “Se um país daquele conseguiu, o Brasil também consegue”.</p>
<p>O último slide é um resumo do que aqueles homens que lotaram o auditório querem tanto acreditar: “Você é o salvador que a pátria precisa”.</p>
<h2>Ir para às ruas só se for a favor da Reforma da Previdência</h2>
<p>Se na apresentação Amoêdo parece um coach sem criatividade, é na seção de perguntas e respostas que ele mostra porque ganhou o apelido de “Bolsonaro Gourmet”. Ele pode ter uma presença mais afável, certamente fala de modo menos ríspido e seu português é claro, mas as diferenças acabam aí. Em certo ponto, ele até reconheceu: “O problema desse governo é a forma, não o conteúdo”.</p>
<p>E vamos ao conteúdo de Amoêdo. Ele defendeu os cortes na Educação e ainda citou a conta de 3,5% do ministro da Educação Abraham Weintraub – que desconsidera que quase 90% das despesas das universidades são com pagamento de pessoal e, na verdade, os cortes chegam a 30% da manutenção das instituições. Disse que era melhor ter tirado o R$ 1,7 bilhão do fundo partidário, mas que não via grandes problemas em tirá-los do ensino federal.</p>
<p><div id="attachment_15838" style="width: 310px" class="wp-caption alignleft"><img loading="lazy" decoding="async" aria-describedby="caption-attachment-15838" class="size-medium wp-image-15838" src="http://marcozero.org/wp-content/uploads/2019/05/amoedo3-300x218.jpg" alt="Amoêdo na UFPE. Foto: Clube Frei Caneca" width="300" height="218"><p id="caption-attachment-15838" class="wp-caption-text">Amoêdo na UFPE. Foto: Clube Frei Caneca</p></div></p>
<p>Defendeu que as universidades públicas cobrem mensalidades. Quem pode pagar, paga. Quem não pode, não teria bolsa: seria um financiamento. “Mas não como o Fies, que colocou uma quantidade enorme de financiamentos. Isso só beneficiou os grandes grupos educacionais”, criticou.</p>
<p>Parece que para Amoêdo o curso superior deve ser algo para poucos. Ele falou que os investimentos públicos devem ir para a educação básica e fundamental – “Para não criar um <em>gap</em> cognitivo que não se pode corrigir depois”.</p>
<p>A fala mais “bolsonarista” – em termos de fuga da realidade e anti-intelectualidade – foi quando afirmou que quando se investe nas universidades o principal beneficiado é o próprio indivíduo. “Quem se aproveita da educação superior é o cidadão. A pessoa se forma em engenharia, medicina e o ganho é dela. Por que obrigar a sociedade a pagar isso para ele?”, afirmou, para uma plateia que não deu um “ai”. Amoêdo simplesmente deslegitimou os benefícios do trabalho intelectual para o benefício da sociedade: um médico formado a mais, não traz benefício além do próprio ganho. Tudo mantendo uma entonação de voz que Bolsonaro jamais conseguiria.</p>
<p>E, coerentemente, ele desacreditou os atos pela educação que ocorreram na quarta (15) pelo País, achando tudo um exagero. “A população deveria estar nas ruas era para pedir que a Reforma da Previdência fosse aprovada logo”, disse, sendo aplaudido pelos estudantes presentes.</p>
<p>Sobre a previdência, Amoêdo quer apenas celeridade. Não propôs nenhuma mudança na reforma sugerida por Bolsonaro. Mas no mundo alternativo que ele vende, o ideal mesmo seria assim: “Viver em um ambiente de muita liberdade econômica, empreender, ganhar dinheiro e depois se aposentar com essa riqueza&#8221;. Não vale rir.</p>
<p>Neste mundo paralelo onde o capitalismo é essa perfeição toda, Amoêdo também traz um aviso para quem não deseja ser empreendedor: “se você trabalhar com muito afinco, como se fosse o dono, você vai ter riquezas da mesma forma”. Anotou?</p>
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