Lula está com tesão

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No dia 7 de abril de 2018, a repórter Mariana Filgueiras pegou um ônibus do Rio de Janeiro para São Bernardo do Campo, em São Paulo, para acompanhar de perto a prisão do ex-presidente Lula. Da rodoviária do Rio, ofereceu seu olhar à Marco Zero Conteúdo em uma cobertura hora a hora do que chamou de Dez horas que abalaram o Brasil. Ontem, ela refez o percurso para assistir ao reencontro de Lula com brasileiras e brasileiros que também saíram de várias partes do país para vê-lo de volta à liberdade. Novamente procurou a Marco Zero e produziu conteúdo para as redes sociais e para a reportagem Lula “paz e tesão” quer ir às ruas e liderar a oposição a Bolsonaro. Na volta para o Rio de Janeiro conheceu no ônibus a fotógrafa Bel Junqueira, que cedeu as imagens para ilustrar a cobertura da Marco Zero.  Neste texto, ela comenta em primeira pessoa o que viu e viveu nos dois dias que abalaram o Brasil. 

Por Mariana Filgueiras 

Crédito: Bel Junqueira/MZ Conteúdo

Crédito: Bel Junqueira/MZ Conteúdo

Lula está com tesão. Há 581 dias, o Lula que eu vi saindo da sede do Sindicato dos Metalúrgicos em São Bernardo direto para a prisão em Curitiba estava com raiva. Depois de passar o dia tentando protelar sua rendição, vociferando contra seus algozes ante uma multidão enfurecida que se enganchava aos portões para impedir sua saída, só sobrava ao ex-presidente a indignação. “É por isso que eu sou um cidadão indignado: eu não os perdoo por ter passado para a sociedade a ideia de que eu sou um ladrão”, gritava em cima do carro de som, o semblante sulcado pela ira.

Mas o Lula que eu vi ontem na mesma esquina de São Bernardo do Campo repetiu a palavra “tesão” quatro vezes em menos de uma hora. “Eu tenho a experiência dos 70, a energia dos 30 e o tesão dos 20 anos de idade”, sorriu ele, ao lado da namorada, Rosângela Silva, de 52, ouvindo da plateia um sonoro “beija, beija, beija”. “Estou cheio de tesão para rodar por esse país”, voltou ao termo ao final do discurso. Goste-se ou não dele, ninguém duvida. O Lula de 2019 tem os olhos injetados de serotonina fresca.

No ano que o Brasil via sua democracia ruir pelo governo Bolsonaro, Lula manteve-se isolado, preso, num universo alimentado por café, livros, exercício físico e pen drives recheados de áudios, filmes e discussões políticas. As visitas religiosas foram interrompidas, mas as íntimas foram autorizadas. Ficou muito claro ontem, no palanque, que a energia para convocar seus apoiadores para reconstruir o Brasil deve muito ao foco alcançado na reclusão. Não dá mais tempo, é o que o corpo dele parece dizer: corram todos às ruas, corram como eu estou fazendo, aos 74, recuperem seu tesão dos 20. Dá tempo.

Evocar a potência política do amor e do sexo pareceu surtir efeito, ao menos momentâneo, no seu público – se em 2018 o evento terminou em chororô, homens e mulheres desolados sentados no chão, voltando com suas caravanas, perseguição policial e ocorrências violentas contra a imprensa que tentava cobrir o episódio, o evento de ontem terminou com todos dançando, aos beijos e abraços, qual um carnaval. Se o efeito simbólico de tanto tesão perdura, só saberemos daqui pra frente, quando a agenda de viagens do ex-presidente de fato começar.

Muitas coisas mudaram na plateia que foi apoiar Lula em São Bernardo em 2018: a prisão mobiliza muito mais imprensa que a soltura, mas a soltura mobilizou muito mais apoiadores do que a prisão. Os eleitores de Bolsonaro no ano passado provocavam conflito, xingando das janelas, inflando pixulecos, erguendo a bandeira do Brasil de seus apartamentos (o prédio exatamente em frente ao Sindicato dos Metalúrgicos do ABC, curiosamente, tinha muita manifestação contrária a Lula). Ontem não.

Naquela esquina de São Bernardo, que é muito menor do que aparenta na TV, havia homens, mulheres, velhos, crianças, estudantes, camelôs, desempregados, ativistas, vitimados de barragens, integrantes de movimentos de ocupação urbana, de ocupação rural, agroecologistas, sindicalistas, margaridas, indígenas, uruguaios (conversei com dois que vivem em Santo André há dois meses e foram de ônibus para São Bernardo pela manhã), pessoas que perderam empregos, bolsas de estudos, casas, que perderam parentes, direitos, pessoas com muita raiva, e que claramente estão dispostas também a sentir muito tesão. Havia também ladrões de celular e carteira, como em qualquer aglomeração – o senador Lindhberg teve a sua afanada na multidão, o ex-senador Eduardo Suplicy perdeu seu aparelho enquanto saía da carro de som, mas acredita ter apenas perdido.

Lula em Sao Bernardo

Crédito: Bel Junqueira/MZ Conteúdo

Eu gosto de conversar com as pessoas. Eu gosto de saber por que as pessoas quebram bancos ou vão ver o Papa, porque vendem desentupidor de pia na praia ou porque se vestem de Jiraya em festas de cosplay. Conversar com pessoas me anima, me encanta, me esclarece muita coisa – sobre mim mesma também. Gosto de saber por que as pessoas saem de onde estão e vão ali apoiar um político que foi o que mais enriqueceu banqueiros na história desse país, que deixou que os planos de saúde sapateassem na cabeça de todos os brasileiros, alguém que se aliou ao PMDB e que não regulou a mídia. Eu gosto especialmente de conversar com os velhos, de ouvir os nossos ancestrais. São os mais aguerridos e bons de resposta. Dão perspectiva temporal e têm pontos de inflexão mais ricos. Aprenderam a contar suas histórias.

A multidão de ontem tinha vários deles, senhoras embaixo do sol forte de meio dia passando batom para ver o Lula no palanque, um senhor de bigode aparado e cabelo pintado que tinha saído do expediente de porteiro a tempo da fala do ex-presidente. A energia que os mobiliza me contagia como humanista que sou, suas causas são compreendidas e defendidas por mim, repórter que não acredita no mito da isenção jornalística – principalmente por já ter feito um sem-número de reportagens sobre os problemas desse país. Eles estão ali não porque lhes deram um pão com mortadela. Eles estão ali porque a vida deles melhorou entre 2003 e 2011. E também porque piorou muito nesses últimos 581 dias. E é preciso reportar onde há gente junta, mobilizada, seja pelo Papa ou por animes orientais.

Lula em Sao Bernardo

Crédito: Bel Junqueira/MZ Conteúdo

Uma coisa me chamou muito a atenção tanto em 2018 quanto em 2019: só havia repórteres no chão de veículos assumidamente de esquerda. A TV Globo só cobriu do alto, mais uma vez. Diante das críticas que Lula desferiu à empresa, por não ter engrossado o caldo da Vaza Jato, era esperado que assim fosse. Mas não deixa de ser mais um golpe para a democracia que os veículos de massa não se interessem pelas milhares de pessoas que estavam ali. Ontem, ao fim da micareta que se tornou o evento de recepção a Lula, o tal carnaval que comentei acima, um camelô perguntou se eu, que estava de crachá de imprensa, ia para a Avenida Paulista. Não, respondi, perguntando por que eu deveria ir para lá. Ele me disse: é que estou indo para vender cerveja, agora começa lá o evento de apoio a Bolsonaro. “Não tem ninguém com dinheiro pra gastar aqui não, a gente vai onde vende”.

Eu e ele estávamos em situação parecida. Com raiva ou com tesão, juntou gente, a gente vai onde vende.

Crédito: Bel Junqueira/MZ Conteúdo

Crédito: Bel Junqueira/MZ Conteúdo

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