Coalizão francesa vai cobrar de Macron posição contra políticas de Bolsonaro

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Por Yvana Fechine, de Paris, especial para a Marco Zero Conteúdo

Com o apoio de deputados da FI – France Insoumise (França Insubmissa), foi lançada oficialmente na sede da Assembleia Nacional, em Paris, nesta quinta (20), uma coalizão formada por 23 organizações de solidariedade francesas que estão se articulando para pressionar o governo Emanuel Macron a se posicionar firmemente perante a União Europeia contra decisões tomadas pelo presidente Jair Bolsonaro (PSL).

Entre as iniciativas da Coalizão está a divulgação de uma carta aberta, apresentada no evento, que pede a suspensão das negociações do acordo de livre comércio entre a União Europeia e o Mercosul, enquanto o atual governo brasileiro não demonstrar concretamente que vai cumprir o Acordo de Paris, um tratado internacional que estabelece compromissos dos países signatários com a adoção de medidas para conter as mudanças climáticas.

“É preciso que a União Europeia se dê conta que, fazendo acordo comerciais com o Brasil, está legitimando um governo que não tem compromisso com o planeta”, afirmou Maxime Combres, representante da Attac France, associação que  faz parte da Coalizão e que apresentou a carta durante o evento. “A Amazônia não é só do Brasil”, completou Luis Fernando Urrego, representante do Secours Catholique – Caritas France, criticando o aumento no índice de desmatamento na Amazônia desde o início do ano. Além das entidades que compõem a Coalizão, a carta aberta dirigida aos presidentes do Conselho Europeu, da Comissão Europeia e do Parlamento Europeu é assinada por 340 associações da sociedade civil de vários países.

Outra preocupação demonstrada por representantes das entidades que participam da Coalizão foi o estímulo à violência, com a defesa do armamento da população capitaneada pelo próprio Bolsonaro, e à estigmatização de diversos segmentos sociais promovidas pelo governo brasileiro, como a população LGBTs e os dependentes químicos.

A responsável pelas Américas da Anistia Internacional na França, Geneviève Garrigos, listou um conjunto de medidas do governo Bolsonaro que atentam conta os direitos humanos, mas dirigiu suas críticas mais duras ao pacote anticrime, proposto pelo ministro Sérgio Moro, e a recente decisão do presidente de extinguir os cargos de peritos do Mecanismo Nacional de Prevenção e Combate à Tortura (MNPCT), órgão federal responsável por fiscalizar casos de tortura nas penitenciárias e outras instituições de privação de liberdade no país.

A deputada Danièle Obono, que acolheu o evento na Assembleia Nacional, criticou Bolsonaro, demonstrando uma preocupação particular com seu autoritarismo, uma preocupação cada vez maior na Europa diante da ascenção de políticos de extrema-direita como ele. Assim como Obono, o deputado do FI Éric Coquerel, que também esteve presente no evento, enfatizou o papel que a França deve ter no combate à violação de direitos e na construção de uma rede de solidariedade internacional aos movimentos sociais e à luta pela democracia no Brasil.

Campanha de mídia

Durante o evento, Érika Campelo, da associação Autres Brésils, anunciou que, além de eventos políticos e acadêmicos, a Coalizão pela democracia no Brasil também está preparando uma campanha na mídia, que será lançada em setembro deste ano, para informar e sensibilizar os franceses em relação aos retrocessos políticos e sociais que estão ocorrendo no Brasil. Os temas específicos da campanha, bem como os atores sociais que devem participar, estão sendo discutidos com entidades parceiras no Brasil. A campanha deve ser veiculada pela internet e em jornais franceses.

No evento de apresentação da Coalizão pela democracia no Brasil houve ainda a realização de duas mesas redondas em torno do tema “Bolsonaro au pouvoir: quels chargements pour le Brésil?” (Jair Bolsonaro no poder: quais as mudanças para o Brasil?”). As discussões contaram com a presença de brasileiros e de estudiosos sobre o Brasil que analisaram a atual conjuntura política no país, entre eles, Francisco Whitaker, um dos fundadores do Fórum Social Mundial e integrante da Comissão Arns, que combate atentados aos direitos humanos no Brasil.

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Francisco Whitaker, um dos fundadores do Fórum Social Mundial, foi convidado para palestra na Assembleia Nacional francesa, em Paris, no evento de lançamento da Coalizão pela democracia no Brasil

Para uma plateia composta, entre outros, por jornalistas franceses, e representantes da Coalizão, Whitaker resumiu o sentimento que se tem hoje no Brasil: “Nós somos surpreendidos todo dia, desde que o Brasil foi tomado, a partir de janeiro, por um ‘exército’ que tem um comandante psicopata, com filhos psicopatas e um guru psicopata”, lamentou Whitaker. Para ele, esse “exército” que comanda hoje o Brasil tem ao menos “oito divisões”: o que tem de “pior” no setor empresarial, na religião neopentecostal e na classe média, além do crime organizado (as milícias do Rio, especialmente), os militares entreguistas assombrados ainda com o “comunismo” dos tempos da Guerra Fria e o baixo clero da política, de onde vêm Bolsonaro e os filhos. Ele acrescenta ainda entre as divisões desse “exército venal” grande parte da mídia e do Judiciário.

A Coalizão em defesa da democracia no Brasil começou a ser articulada logo após a eleição de Bolsonaro, em dezembro de 2018, mas somente ontem, com o evento na Assembléia Nacional francesa, a iniciativa foi formalizada. Entre seus objetivos, destaca-se também a defesa de militantes e ativistas de movimentos sociais ameaçados. A Coalizão é composta, entre outras entidades, por: Autres Brésils, ARBRE – Association pour la recherche sur le Brésil em Europe,  Amnesty International France, Secours Catholique – Caritas France, Act Up paris, AMAR – Acteurs dans les Monde Agricole et Rural, ATTAC France, Buereau d’accueil et d’accompagnement des Migrantes (BAAM), CCFD – Terre Solidaire,  Centre d’ études e d’iniciatives de solidarité internationale (CEDETIM), Centre d’étude du développement em Amérique Latine (CEDAL), Centre de recherche et d’information pour le développement (CRID), Comité des Amis des Sans Terre du Brésil, Comité de solidarité avec les Indiens des Amériques (CSIA-Nitassinan), Coopérative Écologique Sociale, Emmaus International, Féderation SUD PTT, France Amérique Latine (FAL), France Libertés, Fédération syndicale unitaire (FSU), Internet sans fronteires, Planète Amazone, Réseau Iniciatives Pour um Autre Monde (IPAM).

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