Crédito: Reprodução / Site da Assembleia Legislativa de Pernambuco

“A arma não ‘tá’ aqui para ‘tá’ guardada não, viu? A arma está aqui na minha cintura para ser usada. Quem tentar violar a minha integridade física, a integridade da minha família ou tentar invadir a minha residência, a senhora entendeu? Porque arma foi feita para isso, arma não foi feita para ser guardada não, arma foi feita para a pessoa se defender. E a arma não mata, quem mata ‘é’ as pessoas”. Essas foram as palavras que o deputado estadual Alberto Feitosa (PL) direcionou à codeputada Jô Cavalcanti, do mandato coletivo Juntas (PSOL), na sessão virtual da Assembleia Legislativa de Pernambuco (Alepe), no dia 31 de maio. 

No plenário, os parlamentares discutiam a tragédia causada pelas chuvas em Pernambuco – que causou 128 mortes e deixou mais de 9 mil pessoas desabrigadas. Quando o debate chegou ao tema das medidas tomadas pelos governos estadual e federal para mitigar os estragos, o deputado bolsonarista fez a intervenção que Jô percebeu como uma ameaça de morte. 

“O deputado se incomodou porque ele defende o atual presidente. Ele quis discutir com a gente dizendo que nossas informações estavam erradas, que o presidente enviou dinheiro para Pernambuco e a gente sabe que o atual presidente, que defende o ódio e é contra a população negra, indígena e LGBTQIA+, cortou os investimentos em moradia. Então, nesse debate o deputado se exaltou por conta de algumas falas minhas, inclusive quando afirmei que ele faz parte desse governo que hoje está sendo inerte com a questão das chuvas”, contou a codeputada. 

Ainda de acordo com Jô Cavalcanti, essa não teria sido a primeira vez que Alberto Feitosa ameaçou o mandato das Juntas. “Já tiveram vários fatos, como quando Robeyoncé foi retirada da Comissão de Constituição e Justiça por influência dele. Ou quando ele proferiu algumas falas preconceituosas contra o nosso mandato”, afirmou. 

Em seu perfil oficial no Instagram, Alberto Feitosa fez diversas publicações afirmando que é fake news a informação de que ele teria ameaçado a parlamentar do PSOL. No dia 2 de junho, o deputado pernambucano publicou o print de uma postagem feita pelo pré-candidato a deputado federal, Guilherme Boulos (PSOL), em que ele defendia Jô Cavalcanti, com a seguinte legenda:

“Percebam que o próprio público de Boulos o contradiz e confirma a verdade: NÃO HOUVE AMEAÇA ALGUMA! Fake News é a tentativa de construir falsas verdades. E isso é o que está sendo feito com a disseminação dessas informações encabeçadas pelo Mandato Coletiva Juntas! Já disponibilizei o vídeo completo do meu pronunciamento no meu canal do YouTube para qualquer pessoa assistir e conferir que não há qualquer ameaça de minha parte à deputada. Seguir o caminho das Fakes News fala muito sobre os princípios dos políticos nesse momento eleitoral”. 

Procuramos o vídeo citado pelo deputado em seu canal do YouTube, mas não encontramos.

Juntas querem proteção e punição

Na manhã desta sexta-feira, 3 de junho, integrantes das Juntas se reuniram com o presidente da Assembleia Legislativa, Eriberto Medeiros (PP), para discutir quais medidas serão adotadas a fim de garantir a segurança não apenas de Jô Cavalcanti, mas de todas as parlamentares do mandato coletivo do PSOL. Já que, após o ocorrido do dia 31 de maio, as redes sociais das deputadas têm sido alvo de xingamentos constantes de apoiadores da base bolsonarista. 

“A violência de gênero é muito forte. Nós (codeputadas) estamos sendo violentadas desde o dia em que chegamos na Assembleia Legislativa, principalmente nas ações que o próprio deputado Alberto Feitosa tem feito contra o nosso mandato”, declarou Jô Cavalcanti. 

Além das medidas de proteção, o mandato das Juntas deve acionar a Comissão de Ética da Alepe para protocolar o pedido de cassação do deputado bolsonarista e também pretende entrar com um processo no Ministério Público contra Alberto Feitosa. 

Advogado Pedro Lavor e as Juntas codeputadas, integrantes das Juntas, reunidos com Eriberto Medeiros. Crédito: Paloma Luna

Para Jô Cavalcanti, todas essas medidas são essenciais para que a violência contra parlamentares mulheres, sobretudo mulheres negras, não fique impune: “o debate de violência de gênero tem que chegar a todas as casas legislativas e para a população como um todo, porque o meu caso não é um caso isolado. A gente tem um fato concreto e emblemático, que é o assassinato Marielle que até hoje a gente não tem respostas sobre quem mandou matá-la, e outros casos como o de Talíria e outros companheiros do PSOL”. 

No dia 14 de março, o assassinato da vereadora do Rio de Janeiro, Marielle Franco, completou 4 anos. Até hoje a polícia não identificou quem foi o mandante do crime. Já a deputada federal Talíria Petrone (PSOL), chegou a fazer denúncias a Organização das Nações Unidas (ONU) após receber diversas ameaças de morte. A deputada estadual pernambucana luta para não enfrentar situações tão graves quanto as sofridas por suas colegas de partido e acredita que “ameaças veladas”, como ela caracteriza a atitude tomada por Alberto Feitosa, podem ser o ponto de partida para violências maiores. 

“Com isso que vem acontecendo eu fico com um sentimento de medo mesmo, porque a gente sabe que ações desse tipo, em um momento político como esse que a gente está vivendo, é algo corriqueiro e nós precisamos ter medidas mais efetivas contra esse tipo de postura, porque o espaço legislativo deve ser um espaço democrático, mas muitas vezes ele está sendo usado para situações ameaçadoras contra nós parlamentares”, afirmou Jô Cavalcanti.

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