Crédito: Arnaldo Sete/MZ Conteúdo

No dia do aniversário do Recife, 12 de março, o prefeito João Campos (PSB) usou as redes sociais para fazer um anúncio que agradou ao público: o Mercado São José será reformado. A novidade, porém, causou dúvidas e indignação aos lojistas que ocupam o mercado e dizem não terem sido consultados sobre a proposta apresentada pela prefeitura. 

Sem conhecer as mudanças que serão executadas e como elas afetarão o dia a dia no mercado público, os lojistas formaram uma comissão para tentar dialogar com o governo municipal e contestar pontos do projeto, entre eles aquele que é considerado o mais grave: a construção de um mezanino acima dos boxes para comportar as lanchonetes que atualmente estão na área externa. 

Na postagem feita tanto no perfil do prefeito quanto na conta oficial da Prefeitura do Recife, as mudanças propostas pelo projeto são: reorganização e reconstrução dos 403 boxes existentes; restauração do espaço original da rua interna coberta e reorganização dos pavilhões norte e sul; restauração da estrutura de ferro, vidro e madeira e da calçada; implementação de pisos novos no térreo, no corredor central e pátio interno; construção de novos sanitários e recuperação da infraestrutura. Além disso, haverá incorporação de elementos de acessibilidade como sinalização tátil alerta e direcional, mapas táteis, elevador de acesso ao mezanino.

Incertezas do projeto

As irmãs Alana Barbosa e Amanda Barbosa são filhas da comerciante Maria Barbosa e cresceram acompanhando a mãe em seu trabalho no Mercado de São José. Hoje, elas assumiram a responsabilidade pela loja de artigos artesanais para que a mãe possa cursar uma graduação. 

Há 20 anos trabalhando no mercado, elas conhecem bem os problemas estruturais do local e questionam as soluções que foram apresentadas pelo projeto de reforma proposto pela Prefeitura do Recife. 

“O mercado não vive de turismo, em determinadas temporadas a gente atende muito turista sim, mas a gente depende majoritariamente do público popular da cidade. Estamos preocupadas com essa reforma que vai ‘gourmetizar’ o Mercado São José e pode acabar afastando o nosso público, que pode se sentir intimidado”, declarou Alana. 

Amanda Barbosa e Alana Barbosa ocupam o Mercado de São José há 20 anos. Crédito: Arnaldo Sete / MZ

“A prefeitura quer fazer um elevador, mas ele vai funcionar e ter manutenção todo dia? Porque no último sábado [19 de março] faltou energia aqui e só voltou na segunda-feira de 11 da manhã. Esse projeto assusta quando pensamos na manutenção dele. Como é que ele vai continuar funcionando diariamente aqui? Pela nossa vivência de anos, a gente sabe que não vai funcionar”, completou a vendedora. 

As irmãs afirmam que não houve diálogo da PCR com os lojistas e que “apenas um grupo de seis pessoas, escolhido de forma arbitrária, foi convocado para uma reunião que aconteceu antes do projeto ser postado nas redes sociais” e que, por isso, muitas informações só chegaram aos comerciantes por meio do “telefone sem fio”. A fim de dialogar com a prefeitura, uma comissão formada pelos lojistas se reuniu com a Companhia de Serviços Urbanos do Recife (CSURB) na última quarta-feira, 23 de março, mas ainda assim, os comerciantes afirmam que não conseguiram ter acesso aos detalhes do projeto nem saber como se dará a execução das obras. 

“Ainda não ouvimos da prefeitura o que vai acontecer conosco, eles [responsáveis pelo projeto] dizem que o nosso box vai ser derrubado, mas ainda não disseram para onde a gente vai, se teremos um novo box ou se eu vamos ficar sem box. O que acontece com a gente durante e depois da obra? O projeto foi construído sem nos ouvir, sem conhecer as nossas necessidades”, afirmou Amanda Barbosa, que integra a comissão de lojistas. 

De acordo com Alana e Amanda, no projeto de reforma apresentado pela PCR está previsto a demolição de um corredor inteiro, que atualmente comporta 68 boxes com artigos de artesanato, entre eles o boxe da família Barbosa. 

Restauração ou reforma?

“Nós queremos uma restauração, é inegável que o mercado precisa disso, mas nós não queremos reforma”. Essas são as palavras do comerciante Gilberto Simões, conhecido como Beto Cazuza, que trabalha no ramo de alimentos e ocupa o Mercado São José há mais de 18 anos. Gilberto é totalmente contrário à construção do mezanino para alojar as lanchonetes e garante que essa mudança traria um grande prejuízo para o setor e para a economia do bairro São José, mas reconhece que o local precisa de uma boa restauração. 

“A manutenção, que é de responsabilidade da prefeitura, já é muito precária nos boxes aqui fora, e eu acredito que no mezanino essa manutenção não vai existir. Nós trabalhamos com gordura, a prefeitura fala que terá um exaustor grande para todos os boxes, esses exaustores vão demandar uma manutenção diária, senão vai ficar pingando óleo no mercado. Outra questão: os canos hidráulicos de dejetos vão passar embaixo do piso do primeiro andar, se houver um rompimento de um cano, a sujeira vai cair toda nas mercadorias? Além do calor, que já é péssimo, mas com as lanchonetes lá dentro vai ficar insuportável”, disse Gilberto. 

Gilberto Simões, conhecido como Beto Cazuza e proprietário da Cazuza’s Refeições. Crédito: Arnaldo Sete / MZ

Valdemir Lira, conhecido como seu Miro, também trabalha com alimentação no mercado há 61 anos. Para ele, a transferência das lanchonetes da área externa para o mezanino causaria falência a diversos comerciantes. “O nosso público atual não vai frequentar o mezanino, porque não são turistas, são os comerciantes que trabalham aqui perto e vem tomar café da manhã, almoçar por aqui, então, eles muitas vezes nem querem ter o trabalho de entrar no mercado e procuram o lugar mais próximo para fazer as refeições”, declarou seu Miro. 

Tanto Gilberto quanto Seu Miro, acreditam que a solução está na manutenção e na higiene constante do local e não em uma reforma que pode resultar em descaracterização do Mercado São José. 

“A questão do mezanino já foi debatida em outros momentos em que se falou de reformas e nós a rejeitamos. Atualmente, nós precisamos muito de uma reestruturação do mercado, as instalações hidráulicas e elétricas estão em péssimo estado. Nós queremos esses reparos, mas não queremos que mude o que temos hoje”, ressaltou Gilberto Simões. 

O medo de perder o patrimônio

Há 31 anos trabalhando no Mercado São José, esta não é a primeira vez que Robson Ribeiro teme pelo seu negócio. Em 1994, com a conclusão da restauração, após o incêndio que atingiu o local em 1989, Robson perdeu o seu box, pois a prefeitura alegou que o lojista não possuía uma documentação legalizada. Depois de passar meses desempregado, Robson decidiu fazer um abaixo-assinado e o entregou para a gestão municipal, e só assim pôde ter seu ponto de vendas de volta. 

Para ele, ser comerciante no Mercado São José é uma atividade de constante resistência e esse novo projeto proposto pela PCR é mais uma afronta contra os lojistas. “Se nós estamos em uma democracia, porque a prefeitura não fez um plebiscito com os permissionários do mercado para saber se estávamos de acordo com essa mudança drástica?”, declarou Robson. 

“Aqui nós criamos empregos, você nem imagina a quantidade de pessoas que estão aqui trabalhando comigo, são mais de 50 pessoas espalhadas por todo o estado de Pernambuco produzindo as peças que eu vendo aqui. Se o meu box tiver que ser diminuído eu não vou mais conseguir produzir e vender a quantidade de mercadorias que eu vendo aqui, vai acontecer um desemprego em massa e a culpa vai ser da própria prefeitura”, completou o lojista que vende cestas artesanais. 

A diminuição do boxe, mencionada por Robson, diz respeito a um dos pontos do projeto da PCR que está sendo questionado pelos comerciantes. De acordo com os lojistas, a proposta pretende diminuir o tamanho dos boxes e até transformar alguns em quiosques. A proporção dessa diminuição, porém, ainda não está clara, alguns lojistas afirmam que será diminuído em 20% e outros dizem que será em 5%. Um desencontro de informações causado pela falta de diálogo da prefeitura. 

“Agora eu vou perder o que é meu por direito, a única coisa que eu construí na minha vida, meu único patrimônio? Eu não aceito isso, é desumano, é como se a prefeitura estivesse amputando um membro do meu corpo”, questionou Robson Ribeiro.

Robson Ribeiro está no Mercado São José há 30 anos. Crédito: Arnaldo Sete / MZ

Sem espaço para a mercadoria

Atualmente, cada boxe conta com uma área de estoque de 1,40m2, que fica na parte superior da loja. A construção do mezanino, proposta pela prefeitura, resultaria na extinção desse compartimento e causaria um grande prejuízo aos lojistas, que precisariam alugar um novo espaço para armazenar as suas mercadorias. 

Maria Karolyna, é a quarta geração da sua família a contar com o Mercado São José como espaço de trabalho. Atualmente, ela vende artigos descartáveis e precisa de estoque para fazer vendas em atacado. Sua colega Thalyta Hemmelly está no mercado desde 2007 e vende artesanatos em geral. Ambas reconhecem a necessidade de melhorias no mercado, mas se opõem à proposta apresentada pela PCR. Thalyta afirma que, sem o espaço para estoque, seria impossível ter renda suficiente para alugar outro espaço e pagar seus funcionários.

“Nós precisamos de estoque e precisamos dele perto da gente, porque muitas vezes o cliente vem com um pedido urgente e quer comprar em grande quantidade para receber na hora, se o estoque tiver em outro local e eu tiver que me deslocar até lá, o cliente pode desistir da compra e a gente fica no prejuízo”, contou Thalyta. 

Para a lojista, não basta questionar apenas os resultados do projeto, mas também é preciso pensar em sua execução: “o tempo pra gente é dinheiro. Nós não sabemos quanto tempo a reforma vai durar, ela pode durar dois ou quatro anos. Enquanto isso a gente vai fazer o quê? Vamos viver de auxílio?”. 

Já Maria Karolyna questiona a funcionalidade do projeto e afirma que ele não foi pensado para os lojistas que trabalham no mercado.“O órgão responsável alega que quer fazer um projeto mais próximo do modelo original do mercado, mas se isso for verdade o mezanino não deveria existir. São vários fatores que provam que não houve interesse da prefeitura em ouvir a gente para achar pelo menos um meio termo, um projeto que fosse bom para nós e para eles”, disse. 

“A população abraça o projeto porque ele é visualmente muito bonito e diferenciado, mas muita gente não sabe o quanto a reforma vai impactar no nosso dia a dia e no comércio local”, completou a vendedora. 

O que diz a PCR

A Marco Zero entrou em contato com a Autarquia de Urbanização do Recife (URB), órgão responsável pela execução do projeto de reforma do Mercado São José, para questionar a falta de diálogo com os lojistas e também pedir mais detalhes sobre a proposta. 

Por nota, a URB informou que 

“O projeto de requalificação do Mercado de São José, que fará 150 anos, prevê a recuperação e adequação total do equipamento, a partir de um investimento de R$ 21.484.596,61. As obras devem começar até outubro, com prazo para execução de dois anos a partir da assinatura da ordem de serviço.  O projeto executivo foi financiado pelo Iphan e atende todas as premissas sobre restauro exigidas pelo órgão.  A URB destaca ainda que reuniões foram realizadas pela Autarquia de Serviços Urbanos (Csurb) com os permissionários no decorrer do desenvolvimento do projeto e novos diálogos continuarão acontecendo durante a realização das obras. Além disso, a Autarquia esclarece que a construção do mezanino permitirá o melhor zoneamento do Mercado, possibilitando a divisão mais eficiente da área entre os diferentes tipos de atividades existentes. Esse espaço abrigará os quiosques de alimentação que hoje estão localizados na parte externa do Mercado e precisarão ser realocados por determinação do Iphan pelo fato de não fazerem parte do projeto original do equipamento”.

Esta reportagem foi produzida com apoio do Report for the World, uma iniciativa do The GroundTruth Project.