Concentradores de oxigênio
Crédito: Miva Filho/SES-PE

Municípios do interior de Pernambuco estão com dificuldade de abastecimento de oxigênio para pacientes com covid-19 porque, com a alta demanda, não há caminhões suficientes para transporte dos cilindros. A falta do insumo e de leitos em locais de menor porte está pressionando ainda mais a capacidade de atendimento dos hospitais regionais, que, como alertam profissionais de saúde ouvidos pela Marco Zero, não estão com estrutura adequada para enfrentar a atual crise.

Segundo o presidente do Conselho de Secretarias Municipais de Saúde de Pernambuco (Cosems-PE), José Edson de Souza, secretário de Gravatá, a demora na entrega de oxigênio para os municípios que dependem de cilindros tem sido de dois a três dias. Segundo ele, apesar da previsão de alta, a demanda foi além do previsto. “Foi uma surpresa para todos nós”, afirma José Edson.

Na coletiva de imprensa desta quinta-feira, 27 de maio, o secretário estadual de Saúde, André Longo, reafirmou que os números voltaram a subir de forma muito preocupante e, por isso, a situação requer “muita atenção” na 1ª Macrorregião de saúde, que engloba Recife, Região Metropolitana e Zona da Mata, e é de “alerta máximo” no Agreste.

Na 2ª Macrorregião, que engloba cidades do Agreste, o aumento nas solicitações de UTI foi de 35% em uma semana e de 55% em 15 dias. Para se ter ideia da disparada, no balanço geral do Estado, esse crescimento foi de 15% e 18%, respectivamente. Já os registros de Síndrome Respiratória Aguda Grave (Srag) aumentaram 20% em uma semana e 48% em 15 dias na 2ª Macrorregião, enquanto os percentuais foram de 17% e 22,5%, respectivamente, na média de todo o Estado. 

Algumas localidades que têm sofrido com o problema do abastecimento de cilindros de oxigênio são Bom Conselho, Venturosa, Camocim de São Félix, Brejo da Madre de Deus e Belo Jardim. Sem ter como dar assistência a quem precisa respirar, as unidades de saúde municipais estão enviando os doentes, através da Central de Regulação de Leitos do Estado, para hospitais maiores, como o Geral do Agreste e o Mestre Vitalino, ambos em Caruaru. 

A reportagem recebeu entre a noite de quarta, 26 de maio, e a manhã desta quinta, 27 de maio, denúncias de profissionais de saúde desses hospitais porque não havia vagas nem estrutura de equipamentos para receber pacientes de covid-19, além da demora para recebimento de Equipamentos de Proteção Individual (EPIs) adequados, como máscara pff2/N95 e capote. 

“Temos 12 vagas de UTI na sala vermelha do Hospital Geral do Agreste, mas estamos com 21 pacientes e tendo que misturar, com leitos sem distância segura, idosos e pacientes de traumatologia e hemodiálise com pessoas que chegam contaminadas pelo novo coronavírus enviadas através da Central de Regulação, porque não há vagas nas cidades menores”, relatou uma das pessoas com quem a Marco Zero conversou no início da madrugada e pediu para não ter o nome divulgado.

Estado levanta hipótese de nova variante

Longo reforçou que o Agreste vive hoje seu pior momento em toda a pandemia e que nenhum sistema de saúde consegue suportar o crescimento dessa demanda. O secretário repetiu que o Governo do Estado trabalha com a hipótese de circulação de uma nova variante em Pernambuco devido ao quadro de rápido agravamento da região. Ele disse que tem mantido comunicação com o Ministério da Saúde e chegou a falar diretamente com o ministro Marcelo Queiroga sobre a necessidade de um reforço rápido da vigilância genômica.

Já há amostras recentes, deste mês de maio, separadas para análise. O governo também pediu ajuda ao laboratório Lika e à Fiocruz em Pernambuco para agilizar esse sequenciamento de amostras. Caso seja confirmada uma nova variante em Pernambuco, o estado irá cobrar do Governo Federal um tratamento semelhante ao dado a Manaus e ao Amazonas, com mais vacinas, insumos e testes.

Apesar do caos já instalado e da confirmação de que Pernambuco passará por pelo menos duas semanas muito difíceis, Longo não fala em colapso. “A gente não gosta da palavra colapso, a gente não trabalha com a palavra colapso, porque o colapso dá sinal de esgotamento, dá sinal de que você não tem mais o que fazer. E nós estamos trabalhando diuturnamente, sete dias na semana, 24 horas, para ofertar o máximo de serviços à população pernambucana e evitar mortes, salvar todas as vidas possíveis”, argumentou na coletiva. 

O secretário confirmou que a dificuldade em obter cilindros de oxigênio tem sido relatada às Gerências Regionais de Saúde (Geres) e o Estado está agindo para auxiliar os municípios. Além de ter solicitado que os gestores municipais revissem seus planos de contingência e contratos, enviou 149 concentradores de oxigênio para 37 localidades do interior, está ampliando a perspectiva de doações junto a empresas como Ambev e Petrobras, se reunindo com companhias de envase e articulando apoio junto ao Ministério Público, uma vez que há indícios de que atravessadores têm gerado dificuldades aos municípios.

As cidades que possuem tanques de oxigênio, segundo Longo, não estão com problemas de abastecimento. Pernambuco conta com uma planta da White Martins, responsável por mais de 80% do fornecimento estadual.

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