Crédito: Sesau/PCR

Após três dias de sintomas como falta de ar, dor de cabeça, febre e dor no peito, o empresário Alfredo Jonathan Sampaio, 32 anos, foi em busca de atendimento médico. Ele saiu na tarde de quarta-feira, 19 de maio, da sua casa no bairro do Cordeiro, no Recife, e percorreu seis unidades de saúde, sendo três Unidades de Pronto Atendimento (UPAs), uma policlínica, um hospital e até um centro de testagem. Com sintomas comuns à infecção por Sars-CoV-2, o máximo que o paciente conseguiu foi ter a pressão arterial aferida.

A peregrinação de Alfredo Jonathan por um médico começou na UPA dos Torrões, por volta das 14h. Naquela unidade, ele conta que uma servidora responsável pela triagem dos pacientes aferiu sua pressão e constatou que estava normal, ignorando principalmente suas queixas em relação a dor no peito, “que a essa altura estava insuportável”. O empresário ouviu que teria que ir para casa, pois “ali só estavam atendendo casos gravíssimos”.

“Perguntei o que para eles era considerado gravíssimo. Porque eu poderia sair da UPA e morrer de repente na calçada, isso é gravíssimo. Como determinar se um caso é gravíssimo se nem estão avaliando?”, questionou Alfredo Jonathan.

Sem sucesso na tentativa de dialogar com a servidora da saúde, o paciente seguiu no próprio carro, mas conduzido por um amigo, para a UPA da Caxangá e, depois, a da Imbiribeira. Em ambas, Alfredo Jonathan sequer passou pelos vigilantes que controlam as entradas dos pacientes até o balcão da recepção.“Pelo o que vi, as UPAs nem estavam tão lotadas assim, eu já havia ido em outras situações bem piores e fui atendido”, especulou.

Antes de seguir para a Policlínica e Maternidade Barros Lima, em Casa Amarela, Alfredo Jonathan foi pedir ajuda no centro de testagem para a covid-19 montado no Geraldão, na Imbiribeira. Em seguida, foi para a emergência do Hospital Correia Picanço, na Tamarineira. Nas duas unidades de atendimento médico também não passou da portaria, pois “seu estado não era grave”.

“Já era quase 21h, cansei e voltei para casa. Liguei para o Samu, eles me atenderam e disseram que não adiantaria procurar nenhuma UPA ou hospital, pois não tinha vaga. Estou sendo medicado em casa e acompanhado por parentes que são da área de saúde, quem não tem nem essa chance só resta esperar pela morte”, disse.

Plantões restritos se tornaram rotina


A história de Alfredo Jonathan retrata a realidade de um sistema cada vez mais pressionado pelo aumento sustentado de casos de coronavírus em patamares históricos acima ou próximos dos 3.000 novos diagnósticos por dia. Com tanta gente doente e uma rede saturada, os profissionais de saúde precisam apelar para a restrição dos plantões, ou seja, limitar o atendimento a alguns casos.

No mesmo dia em que o empresário peregrinou em busca de atendimento médico, a Marco Zero publicou reportagem que aponta os problemas causados pela opção do governo estadual de abrir leitos de UTI sem apostar na ampliação da capacidade das emergências, que são a porta de entrada para o sistema de saúde. Para ler, clique no link a seguir:

Na quinta-feira (20), quando Pernambuco registrou 3.188 novos casos e 65 mortes por covid-19, as UPAs Torrões e Caxangá, no Recife; Curado, em Jaboatão dos Guararapes; e a de Olinda restringiram o plantão das 19h até as 7h do dia seguinte.

Ao ser perguntado pela reportagem no pronunciamento semanal transmitido pela internet, o secretário de saúde de Pernambuco, André Longo, admitiu pela primeira vez que havia restrições de plantão. Somando-se ao crescimento dos índices de transmissão do vírus e a uma fila de quase 250 pessoas com covid-19 à espera de UTI, o gestor, no entanto, rechaça que a rede pública no estado esteja em situação de colapso.

“A pergunta cita dados verdadeiros, mas não acreditamos na utilização da palavra colapso porque estamos ampliando nossos leitos, dando oportunidade de sobrevivência e de salvar vidas. Basta comparar todos os indicadores com indicadores de outros estados”, alegou.

Desde o fim do ano passado, a Marco Zero Conteúdo vem mostrando a situação das UPAs, que são consideradas a porta de entrada para o serviço público de saúde de média e alta complexidade. A lotação dessas unidades leva a retenção de macas que por sua vez impede a circulação de ambulâncias. Assim, portanto, formando um ciclo de descaso com quem depende do atendimento.

Seja mais que um leitor da Marco Zero

A Marco Zero acredita que compartilhar informações de qualidade tem o poder de transformar a vida das pessoas. Por isso, produzimos um conteúdo jornalístico de interesse público e comprometido com a defesa dos direitos humanos. Tudo feito de forma independente.

E para manter a nossa independência editorial, não recebemos dinheiro de governos, empresas públicas ou privadas. Por isso, dependemos de você, leitor e leitora, para continuar o nosso trabalho e torná-lo sustentável.

Ao contribuir com a Marco Zero, além de nos ajudar a produzir mais reportagens de qualidade, você estará possibilitando que outras pessoas tenham acesso gratuito ao nosso conteúdo.

Em uma época de tanta desinformação e ataques aos direitos humanos, nunca foi tão importante apoiar o jornalismo independente.

É hora de assinar a Marco Zero https://marcozero.org/assine/