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“Clamor”, livro sobre rede de apoio a refugiados de ditaduras será adaptado para o cinema

Inácio França / 23/05/2026
A foto mostra Samarone Lima segurando seu livro Clamor: A vitória de uma conspiração brasileira bem próximo à câmera, de modo que a capa ocupa o primeiro plano. O autor aparece ao fundo, ligeiramente desfocado, com expressão serena e usando óculos e camisa azul. A capa do livro tem letras grandes em vermelho e branco sobre fundo escuro, com duas chamas de vela que sugerem memória e resistência. Atrás dele, há fitas coloridas penduradas, criando um ambiente vibrante e acolhedor.

Crédito: Arnaldo Sete/Marco Zero

A atuação de uma rede de apoio que ajudava refugiados da repressão dos países sul-americanos que, na segunda metade dos anos 1970, fugiram para o Brasil é uma história dos tempos da ditadura ainda a ser descoberta pelo público brasileiro. Agora, uma das poucas obras que trata desse tema, o livro-reportagem Clamor, do jornalista Samarone Lima, está sendo adaptado para o cinema.

O filme será dirigido por Malu de Martino, cujo trabalho mais marcante foi o longa-metragem Como esquecer, e filmado em Santos e em Valparaíso, no Chile. A produção ainda está nas fases iniciais, com o elenco sendo montado.

A atriz Marjorie Estiano (da série Sob pressão e do filme Ainda estou aqui) foi a primeira a ser anunciada; ela fará o papel da jornalista inglesa Jan Rocha, ex-correspondente no Brasil da BBC durante a ditadura, uma das criadoras do grupo Clamor. Seu marido, o brasileiro Plauto, será interpretado por Mouhamed Harfouch, que atuou em novelas globais como Cordel Encantado e Verdades Secretas. O ator, de ascendência síria por parte de pai, é ativista em organizações de solidariedade a refugiados sírios no Brasil.

A jornalista britânica, que, até hoje, vive no Brasil, é a figura central na história do Clamor.

Em razão do seu trabalho como correspondente estrangeira, era constantemente procurada por militantes exilados que fugiam da máquina repressiva das ditaduras da Argentina, Chile, Paraguai e Uruguai ou por parentes de desaparecidos nesses países. Na época, pressionados internamente e pela opinião pública internacional, os militares brasileiros iniciavam a “abertura” política do regime, o que tornou o país um refúgio próximo de casa para os perseguidos vindos do Cone Sul.

A imagem mostra uma mulher sentada em uma poltrona cinza clara, em um ambiente interno elegante. Ela veste um vestido longo de cetim marrom e sapatos de salto alto amarelos, que criam um contraste marcante. Usa colar e pulseira dourados, e tem o cabelo curto e ondulado, penteado de forma descontraída. Está com uma expressão confiante e um leve sorriso, com uma das mãos apoiada na cabeça. Ao lado, há uma mesa redonda de madeira com um abajur dourado e branco e um telefone preto, compondo um cenário sofisticado e acolhedor.

Marjorie Estiano será a protagonista do filme

Crédito: Reprodução/Instagram @estianomarjorie

Junto com o advogado Luiz Eduardo Greenhalgh e o pastor presbiteriano Jaime Wright, ela criou o Clamor. Sob a proteção de dom Paulo Evaristo Arns, o grupo passou a ter como sede uma sala na Cúria Metropolitana de São Paulo, ora prestando assistência jurídica aos refugiados, ora articulando uma rede para ajudá-los a encontrar casa, trabalho e alimento. No entanto, a atividade do grupo de maior impacto eram os boletins com relatos de casos e fotos de prisioneiros ou desaparecidos.

Graças ao boletim publicado em três idiomas (português, espanhol e inglês), o Clamor chegou aos personagens que protagonizaram o fato detalhado por Samarone Lima no livro e que será recontado no cinema: a localização de Anatole e Victoria, duas crianças uruguaias desaparecidas. Anos após o sumiço dos irmãos, o grupo descobriu que o menino e a menina foram abandonados por militares argentinos no meio da rua em Valparaíso, a mais de 1.400 quilômetros de Buenos Aires, onde seus pais tinham sido assassinados pela repressão.

Direitos sem fronteiras

No final dos anos 1990 e início dos 2000, quando trabalhava no jornal da Arquidiocese de São Paulo, Samarone Lima teve acesso ao acervo de documentos, recortes de jornais de vários países, depoimentos e fotografias armazenados nos arquivos do Clamor, desativado em 1991, logo após o fim da última ditadura sul-americana, a de Pinochet, no Chile. A pesquisa municiou a dissertação de mestrado do jornalista na Universidade de São Paulo (USP).

“O maior legado do Clamor é a ideia de que solidariedade não tem fronteiras geográficas, étnicas, religiosas, de crenças. É a grande lição para todos os grupos de direitos humanos que, por vezes, atuam solitários tentando alguma pequena conquista”, resume o autor do livro.

Samarone ressalta que o posicionamento de dom Paulo Evaristo vinha da convicção de que a luta contra a violação dos direitos humanos é universal: “Dom Paulo tinha conexões com igrejas em todo o mundo, e, com isso, o Clamor recebeu financiamento do Conselho Mundial de Igrejas, que bancou sua estrutura, custeou a viagem secreta para o Chile em busca de Anatole e Vicky”.

No filme, o arcebispo de São Paulo será interpretado por Augusto Madeira, que atuou na novela Três Graças e na série A menina que matou os pais.

Solidariedade brasileira

Aos 86 anos e vivendo no Brasil desde 1986, Jan Rocha acredita que o filme será importante ao tratar de um aspecto da história do Brasil pouco conhecido do público do país. “Sei que um filme nunca consegue captar tudo, sei que serão necessárias licenças poéticas para melhor condensar a história, mas será uma oportunidade para que o Clamor alcance uma audiência maior do que a do livro”, afirma a jornalista.

Ela acredita que, além da própria história do grupo, “também não é muito conhecido o fato de o Brasil ter recebido milhares de refugiados de toda a América do Sul naqueles anos em que o Brasil vivia uma fase diferente da ditadura, a partir de 1977, principalmente”. O processo de reabertura permitiu, por exemplo, a instalação de dois escritórios do Alto Comissariado das Nações Unidas para Refugiados (Acnur) no Rio de Janeiro e em São Paulo.

Os brasileiros foram muito generosos e acolhedores com esses refugiados. Essa é a impressão que, quase meia década depois, permanece na memória de Jan Rocha. “A solidariedade brasileira vai chegar às telas do cinema; espero que o filme consiga mostrar isso”, diz a inglesa.

Na sala cedida pela Cúria Metropolitana ao Clamor chegavam pessoas vivendo situações dramáticas, a exemplo de esposas com maridos desaparecidos e pais cujos filhos foram assassinados ou presos em locais desconhecidos. Mesmo assim, Jan Rocha recusa o rótulo de “heroísmo” à atuação do grupo. “Fazíamos o que precisava ser feito diante de tanto desespero”, garante.

A imagem mostra um chão de asfalto coberto por desenhos e palavras feitas com giz branco e azul. No centro, lê-se “FUE GENOCIDIO”, expressão em espanhol que significa “foi genocídio”. O texto está dentro de um contorno que lembra um lenço triangular, símbolo das Mães da Praça de Maio, movimento argentino que denuncia os desaparecimentos durante a ditadura militar. Dois pares de pés com tênis escuros aparecem caminhando sobre ou perto dos desenhos, sugerindo uma cena de rua, possivelmente durante um ato de memória ou protesto. No canto inferior direito, há a assinatura “@sebastianmiquel”.

O grupo Clamor deu apoio a perseguidos das ditaduras na América do Sul

Crédito: Reprodução/Instagram @sebasmiquel

AUTOR
Foto Inácio França
Inácio França

Jornalista e escritor. É o diretor de conteúdo da MZ.