Os 11 candidatos e candidatas à prefeitura do Recife participaram do debate virtual

O primeiro debate entre os prefeituráveis do Recife já mostrou que a campanha durante a pandemia do coronavírus não vai ser nada fácil. Com todos os 11 candidatas e candidatos participando remotamente, através de videoconferência e com exibição no YouTube, o encontro promovido pela Universidade Federal de Pernambuco (UFPE) foi no início e no final um caótico festival de falhas técnicas e de candidatos confusos com a tecnologia. No meio, alguma coisa se salvou.

“Tá me ouvindo agora?” e “Seu microfone está fechado!” foram algumas das frases mais repetidas ao longo das duas horas de transmissão. Foi um debate que não teve fim. Na última rodada, quando os candidatos iriam deixar uma mensagem final, a transmissão travou. E, sem nenhuma explicação para quem estava assistindo pelo YouTube, nem nas redes sociais da UFPE, voltou mais de 20 minutos depois apenas com a ficha técnica de quem trabalhou na transmissão.

Pelo twitter, se espalhou o comentário de que a internet da UFPE havia caído e que os candidatos gravariam vídeos para o perfil “Políticas públicas em debate”, que organizou o encontro. Até às 11h30 da manhã desta terça-feira, nada havia aparecido nas redes sociais do grupo ou da UFPE.

As diferenças de cenário, câmera e áudio entre os candidatos revelaram outro aspecto da campanha neste ano: os debates virtuais serão amplamente desiguais. Sem um ambiente de igualdade técnica, como estariam em um estúdio de televisão, alguns candidatos, com campanhas menores, sofreram mais. A candidata do PSTU, Cláudia Ribeiro praticamente perdeu a chance de falar sobre transporte: sua fala era tão inaudível que a intérprete de libras ficou parada.

Além dela, o candidato do PCO Victor Assis e o do UP Thiago Santos se apresentaram com câmeras com imagens de baixa qualidade. O fundo branco foi a aposta da maioria – não se sabe se por escolha do candidato ou da organização do debate.

Nem a intérprete de libras entendeu o que Cláudia Ribeira (PSTU) falou

O debate não teve apenas falhas de ordem meramente estrutural. Por mais de uma vez, a mediadora Brunna Carvalho teve que pedir para que um ou uma candidata abrisse o microfone. Por mais de uma vez, os candidatos desligaram as câmeras quando não estavam com a palavra – era permitido? Faltou explicar melhor o que podia e o que não podia no meio virtual.

Alguns candidatos e candidatas usavam a conta de assessores e, quando começavam a falar, era o nome do assessor que aparecia na tela. Foi o caso de Marco Aurélio (PRTB). Na vez em que iria falar sobre segurança, a câmera ficou desligada, com o nome e a foto do assessor de comunicação dele aparecendo no mosaico. Houve até uma tentativa de tutorial para ligar a câmera: “o senhor vai passar o mouse…”, explicou a mediadora, ao vivo. Não deu certo. Marco Aurélio cedeu a palavra e só falou depois, já com a câmera ligada.

Com tantas interrupções e distrações, quando o mosaico dos participantes abria, dava para ver que nem todo mundo estava 100% focado no debate. Vez por outra, alguns olhavam para baixo com arzinho de riso, como se mexessem no celular, além de desligarem as câmeras. Alberto Feitosa chegou ao disparate de falar animadamente ao telefone enquanto Marília Arraes (PT) respondia à primeira pergunta, sobre transporte público. Ele ainda iria repetir a grosseria em outro momento ao longo da transmissão.

Propostas e poucas alfinetadas

Em um ambiente tão confuso e distraído, sobrou pouco espaço para um confronto mais direto entre os candidatos. Até porque se corria o risco do opositor não ouvir, ter delay ou a câmera estar desligada, como saber?

Logo de saída, o debate que estava marcado para às 19h30 atrasou por cerca de meia hora por conta de uma celeuma com o cenário de Victor Assis, do PCO. Ele havia colocado um banner com a frase “Fora Bolsonaro” ao fundo. A mediadora Brunna Carvalho, professora da UFPE, não explicou de pronto a causa do atraso: em debates políticos, ainda mais ao vivo e com transmissão tão frágil, a transparência é sempre o melhor caminho.

Quando Victor pegou o direito de fala, esculhambou com o que chamou de “conluio” entre quatro candidatos bolsonaristas – Alberto Feitosa (PSC), Mendonça Filho (DEM), Carlos Andrade Lima (PSL) e Marco Aurélio (PRTB) – para que o banner fosse retirado. Ele disse que teve que mudar de cômodo e fez um comentário homofóbico sobre o encontro de Mendonça e Alexandre Frota, quando o primeiro era ministro da Educação de Temer.

O formato facilitou um debate propositivo, já que não havia perguntas entre candidatos. Na primeira rodada, estudantes da instituição faziam as perguntas, em vídeos previamente gravados. Na segunda, dois ou três professores. Eram perguntas sobre temas amplos, como educação, cultura, saúde, transporte e violência.

(E se você chegou até aqui nessa leitura, não é preciso dizer que esses vídeos travavam constantemente e um chegou a ser substituído por outra estudante, desprevenida e que desligou a câmera. Enfim…seria mais simples e eficiente se a mediadora tivesse lido as perguntas.)

Os candidatos mais bem colocados nas pesquisas – Marília Arraes (PT) e João Campos (PSB) – tiveram participações parecidas. Ambos estavam tranquilos e falaram com segurança, apresentando propostas. Ao falar de transporte, Marília criticou as ciclofaixas sem conexão da gestão do PSB. João Campos defendeu o Fundeb e a criação de mais creches, ao falar de educação.

Ambos trouxeram dados, mas não de forma excessiva, como foi o caso de Patrícia Domingos, que, com sua fala monocórdica e rosto impassível, despejou números e dados. Patrícia também mostrou que quer um certo afastamento da imagem de bolsonarista: atacou a gestão de Geraldo Julio (PSB), falou do combate à corrupção, mas evitou citar o nome do presidente.

Quem mais quis se associar a Bolsonaro, de forma até meio desesperada, foi Marco Aurélio (PRTB). Em alguns momentos, parecia que a intenção dele era apenas repetir o nome do presidente em loop durante os três minutos a que tinha direito. Se vangloriou de ter votado no 17 no primeiro turno e deu uma catucada em Alberto Feitosa: “não preciso trocar meu nome para dizer que sou Bolsonaro”. Aliado até pouco tempo do PSB, Feitosa trocou o primeiro nome por um “coronel” para participar das eleições.

Quem aguentou as 2h do debate virtual viu um produto confuso, caótico e mal elaborado. Careceu de ensaio, de transparência com as regras do ambiente virtual e de plano “B” para evitar os possíveis ruídos com o novo formato – não tinha um 4G quando caiu o Wi-Fi? Mas foi, acima de tudo, um debate bastante esclarecedor: mostrou que uma campanha majoritariamente virtual tem inúmeros e novos desafios. Na internet, as desigualdades continuam a se sobressair. Equipamentos de áudio e vídeo, iluminação e cenário vão fazer muita diferença em como o eleitor vai perceber o candidato. E a direção oposta também: é uma campanha que vai exigir bastante preparo e foco para que os candidatas e candidatos se mantenham atentos em frente ao computador, sem a tensão e a energia de um debate corpo a corpo.