Crédito: Nossa Cara Mandata/Instagram

Na eleição com mais mulheres negras candidatas e com mais campanhas incentivando o voto em candidaturas negras e antirracistas, o resultado das urnas trouxe vitórias importantes e lições para futuras disputas.

De acordo com os dados da autodeclaração no Tribunal Superior Eleitoral (TSE), Fortaleza (CE) e Salvador (BA) são as capitais que mais elegeram mulheres negras, com sete vereadoras cada. São Luís (MA) teve três – uma delas coletiva e composta por homens e mulheres. Natal (RN) elegeu duas negras, Aracaju (SE) uma e Recife (PE) também uma, sendo a mais votada. Teresina (PI), João Pessoa (PB) e Maceió (AL) não elegeram nenhuma.

Em uma avaliação não só dos resultados nas urnas, mas das campanhas realizadas, ativistas e analistas concordam que o saldo é positivo, com vitórias significativas de mulheres negras em várias cidades .

No Nordeste, essas candidaturas foram impulsionadas por organizações de mulheres negras, pelo movimento negro e por campanhas como a Eu Voto em Negra. “Durante processo de campanha, eu observei que mesmo estando em municípios diferentes, a gente conseguia promover o debate com todo mundo. A construção de cada uma respeitava o caminho da outra. A gente sai fortalecida porque todas que entraram estão saindo inteiras. Isso já é um saldo extremamente positivo”, observa Piedade Marques, da Rede de Mulheres Negras de Pernambuco e do Nordeste, e da comissão do projeto Mulheres Negras e Democracia. Entre os feitos, esses movimentos conseguiram propor uma nova forma de fazer política eleitoral. 

Mônica Oliveira, da Rede de Mulheres Negras, destaca que é possível e preciso fazer diferentes leituras dos resultados. Um deles é o aumento de mulheres eleitas, que não deve ser minimizado. “Se você observa o volume total houve um aumento de mais de 22%, considerando os dados nacionais, no numero de candidatas autodeclarados pretas e pardas. É um aumento significativo. Quando considerada aumento total de mulheres de todas as cores foi de pouco mais de um ponto percentual. Quando pega os dados de eleitas, tivemos aumento também. Éramos 5%, agora somos 6,3%”. Para ela, esse aumento pode parecer pequeno, mas há nuances e destaques importantes que precisam ser analisados.   

Infográfico: Débora Britto

Além disso, é preciso olhar o desempenho de candidaturas que não foram eleitas por pouco ou os casos em que o partido não tingiu o coeficiente eleitoral. “O fato de ter em algumas capitais pela primeira vez mulheres negras eleitas para nós é algo muito significativo”, explica Mônica. É o caso de Vitória (ES), de Curitiba, Cuiabá. “Você tem mulheres negras como as mais votadas em Belém. Em Nova Friburgo, Uberlândia também, que não são capitais, mas são cidades importantes da encomia e política de seus estados, de grande porte. Quando você olha para o nordeste, você tem Dani como mais votada entre homens e mulheres”.

Segundo Mônica, há também um aspecto simbólico importante para mulheres feministas. “Do ponto de vista do enfrentamento das ativistas negras feministas, existe o fato de que na eleição passada Michelle Collins foi a mais votada e agora é uma mulher feministas, assumidamente negra. Esse é um destaque importante de fazer, que é o confronto de nós mesmas, feministas negras, com o fundamentalismo religioso que estava dominando a câmara dos vereadores”.

Fortalecimento no interior

Em Pernambuco, quatro mulheres negras que participaram da construção da campanha Eu Voto em Negra foram eleitas. Além de Dani Portela (PSOL), na capital, Flávia Helen (PT) foi eleita em Paulista, importante cidade da Região Metropolitana do Recife. Além delas, Fany Lilian (Psol), da candidatura coletiva Fany das Manas em Garanhuns, no agreste, e a professora Jacielma Santos (PT), de Orocó, no sertão, venceram nas urnas carregando a bandeira da defesa dos direitos da população negra.

Segundo Piedade, que acompanhou cursos de formação com pré-candidatas e candidatas, há um acúmulo de experiência e conhecimentos importantes de 2016 para 2020. ”De alguma forma, esse ano, o movimento de mulheres negras consegue dar nova perspectiva na forma de pensar as eleições. A partir dessa construção, que não é individual, porque não dá pra ser individual”. 

Na sua leitura, Piedade aponta a experiência de Dani Portela na eleição de 2018 como estratégica para o acúmulo e preparo para este ano. “Os nossos passos já foram dados”. 

Desafios

Considerando um ano com uma pandemia e os desafios impostos às campanhas, tanto Mônica como Piedade celebram os resultados eleitorais como vitórias, mas enxergam também desafios que precisam ser encarados desde agora. A continuidade do trabalho e formação de mulheres potenciais candidatas é algo que está na agenda dos movimentos de mulheres negras há tempos e culminou com força na eleição de muitas pelo Brasil. 

“É importante fazer reflexão de que não basta ser uma mulher negra, a gente quer eleger mulheres negras que estejam comprometidas com a agenda de defesa de direitos das mulheres negras e da população negra. É preciso eleger pessoas que estejam comprometidas em combater o racismo, o machismo e o patriarcado. Pessoas que defendam uma agenda de direitos que seja contrária à agenda neoliberal, capitalista, que dita a política e a economia no país e nas nossas cidades”, defende Mônica. 

Ela destaca, ainda, que as votações que as mulheres negras tiveram sinalizam que a população pode acolher propostas de renovação da política. “Acho que o fato de a população estar votando nessas candidaturas sinaliza que sim existe uma movimentação. Não é maioria, sabemos que a maioria ainda vota em candidatos de direita ou centro e que o peso do fundamentalismo religioso ainda é muito grande. E é sim um desafio que nós vamos continuar enfrentando”, pontua Mônica.

Mônica cita dois exemplos: de Beatriz Santos (PT), em Camaragibe, e da candidatura coletiva Revolução Preta (PSOL), em Jaboatão dos Guararapes. “Biatriz é uma jovem negra ativista que fez campanha colocando as questões da nossa agenda de luta, foi a mais votada do PT e só não foi eleita porque o partido não alcançou o coeficiente. Mas a população votou nela. Em Jaboatão, a candidatura Revolução Preta teve mais de 1.200 votos. Não é pouco voto para uma candidatura sem dinheiro, de duas mulheres negras jovens”. Apesar de não terem sido eleitas, fizeram história e abriram caminho para outras mulheres negras.