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Engessados e previsíveis, debates perdem importância na luta por eleitor indeciso

Maria Carolina Santos / 27/09/2022
Em cenário de tom azul, candidatos a presidente estão perfilados lado a lado, atrás de púlpitos em tom cinza azulado

Na semana decisiva para as eleições, a televisão é inundada por debates políticos. Para o governo de Pernambuco, ontem a TV Guararapes/Record exibiu o primeiro debate da semana. Na quinta-feira, às 11h, acontece o da TV Jornal/SBT. E, hoje, aquele deve ter mais audiência e é considerado o mais importante, o da TV Globo, logo após a novela Pantanal. Com um modelo que tem tido poucas mudanças ao longo dos anos, os debates desta semana geram uma expectativa maior pela disputa acirradíssima tanto em Pernambuco, com uma situação inédita com cinco candidatos competitivos, quanto nacionalmente, com a possibilidade de Lula vencer Bolsonaro já no primeiro turno. Mas também levantam questionamentos sobre a importância para as campanhas e os resultados nas urnas. 

Para o professor de comunicação da UFPE Heitor Rocha os debates são uma conquista da população e que “não são apenas vitrines, mas uma oportunidade de esclarecimento da população sobre as questões trazidas pelas candidaturas”, diz Heitor. “Ampliando um pouco, há o guia eleitoral que funciona também como um debate entre as campanhas. Acho que são grandes conquistas do sistema brasileiro”, diz, lembrando que o guia eleitoral foi instituído antes de 1964 e eram exibidos ao vivo.

Para o debate para o governo de Pernambuco na Globo, há duas faltas hoje: Anderson Ferreira (PL), presente em apenas um dos debates, e Marília Arraes (SD), que não foi a nenhum debate. Havia, então, a expectativa de que ambos finalmente fossem ao da Globo, o mais tradicional. Mas Anderson deu preferência a receber hoje pela manhã o presidente Bolsonaro, que fez em Petrolina sua segunda visita ao estado em menos de 15 dias. Já Marília Arraes divulgou agenda sem presença no debate.

O cientista político Antônio Torres, doutorando em Ciência Política pela Universidade Federal de Pernambuco (UFPE), acredita que os debates não são balas de prata, mas estão longe de ser dispensáveis para as campanhas. “Estamos falando aqui em Pernambuco de uma disputa que está muito acirrada. Qualquer movimento, qualquer desempenho que diferencie um candidato dos outros já pode trazer um benefício”, diz.

Mesmo com a previsão do debate acabar perto de 1h, o que seria uma barreira para a audiência, isso não influi nas estratégias de campanhas. “Os debates hoje não funcionam mais como antes, quando o espectador que perdia o debate só iria ver trechos dele nos jornais da própria emissora ou na imprensa. Hoje não é mais assim. Na maioria das vezes, os debates servem para frases de efeito e ataques que sejam rápidos e bem elaborados para que sejam replicados várias e várias vezes nas redes sociais dos próprios candidatos”, diz Torres.

Para o debate de hoje, a expectativa é de muitos ataques a Marília Arraes (estando ou não presente), já que ela está na dianteira da pesquisa. Mas também será preciso que os outros três presentes – Danilo Cabral (PSB), Miguel Coelho (UB) e Raquel Lyra (PSDB) – que lutam (com o ausente Anderson Ferreira) pelo segundo turno se ataquem entre si. “Esses ataques visam principalmente destruir a candidatura do oponente para conseguir esse pouquinho de voto que falta para ir ao segundo turno”, afirma Antônio Torres.

Formato não evoluiu

Os formatos dos debates mudaram pouco ao longo das últimas décadas, com candidaturas fazendo perguntas entre si ou blocos em que jornalistas fazem as perguntas.

O modelo é considerado engessado por muitos pesquisadores. Há o tempo cronometrado, que não favorece o desenvolvimento de ideias ou planos mais complexos. “O formato não ajuda. Quando há perguntas entre candidatos, às vezes fica me parecendo com a escolinha do professor Raimundo”, compara o professor Heitor Rocha.

Outro ponto é levantado pelo professor da Universidade Federal de Sergipe (UFS) Carlos Figueiredo, pesquisador das áreas de comunicação e economia: o formato também privilegia um esquema de sabatina por jornalistas que trazem uma agenda muito próxima àquela proposta pelo próprio jornalismo.

“Ou seja, não foge daquilo que é debatido pelos jornalistas nas mesas redondas de canais como GloboNews ou CNN Brasil, por exemplo. Os candidatos já são treinados de forma exaustiva para responder justamente essas perguntas, tornando a discussão circular. Há também os questionamentos entre os candidatos, mas as equipes de comunicação estudam as táticas das candidaturas adversárias, tornando a dinâmica do debate previsível”, diz.

José Serrra, Marina Silva, Dilma Rousseff e Plínio Arruda Sampaio na Globo, em 2010. Crédito: Thays Cabette

Para sair dessa circularidade, analisa Carlos, os candidatos buscam frases de efeito. “Essas frases são valorizadas devido ao embate político nas mídias sociais. O candidato pode apresentar uma performance discreta no debate, mas brilhar em duas ou três oportunidades. A equipe de comunicação do candidato pode fazer cortes desses momentos para exibir nas mídias sociais ou no Horário Eleitoral Gratuito”, exemplifica Carlos.

Para Heitor Rocha uma atualização muito bem-vinda aos debates seria a incorporação da checagem de dados e fatos durante a transmissão. “Iria qualificar e esclarecer melhor a população sobre o que os políticos estão apresentando”, acredita.

Carlos Figueiredo também vê a checagem como um freio para a disseminação de mentiras e desinformação. “A não checagem legitima dados mentirosos usados por candidatos mal-intencionados”, afirma.

Para ele, uma alternativa seria que o último bloco dos programas de debate fosse reservado para que o candidato que traz dados falsos fosse confrontado. “Assim, uma equipe de jornalistas poderia checar esses dados em tempo real. O problema é que os candidatos usam muitos dados e números a serem checados em pouco tempo, mas isso pode ser resolvido com algum ajuste logístico. Creio que um grande problema seria a negociação entre as emissoras de televisão e as equipes dos candidatos quanto às regras dessa checagem. Também pode haver o receio das emissoras de serem acusadas de parciais ao expor as mentiras de um candidato simplesmente porque este mente em profusão. Mas creio que essa é uma medida que deve ser tomada urgentemente pelas emissoras”, diz.

Cenário nacional

Na quinta-feira, a Globo exibe seu tradicional debate entre as candidaturas à presidência. Deve começar por volta das 22h30 e se estender até depois da 1h, com três intervalos. Vai ser o segundo debate com a presença de Lula e de Bolsonaro – o primeiro debate, na Band, também teve a participação de ambos.

Assim como em Pernambuco, a disputa está acirrada. Mas é pela decisão no primeiro turno, já que as pesquisas têm colocado Lula com pouco mais de 50% dos votos válidos. “A priori, não enxergo muito espaço para grandes alterações nas escolhas dos eleitores. As pesquisas apontam para um cenário em que os eleitores dos candidatos mais bem colocados apresentam uma convicção muito forte em relação à sua escolha”, acredita Carlos Figueiredo.

Na dianteira, Lula deverá optar por uma estratégia mais segura. “Ele provavelmente buscará não cometer grandes erros no seu discurso, e relembrar os feitos dos seus dois governos, muito bem avaliados, buscando comparações com os números do governo Bolsonaro. Espera-se também que Lula busque atrair os eleitores de Ciro e Simone Tebet dispostos a mudar de voto no último instante para evitar um segundo turno”, diz o professor da UFS.

Já Bolsonaro vai usar o debate como oportunidade para tentar tirar votos de Lula e garantir o segundo turno. “Creio que Bolsonaro tentará relembrar as denúncias de corrupção surgidas nos governos do PT. Entretanto, o eleitor já conhece todos esses casos. Foi um tema exaustivamente debatido e divulgado, e o leitor do Lula parece estar dando de ombros”, diz.

Para Carlos, essa estratégia pode não dar retorno. “Esta eleição não é sobre corrupção. Temas como inflação, custo de vida e retorno da fome parecem preocupar mais o eleitorado”, aponta.

Outro fator importante a ser observado, segundo ele, é a postura dos candidatos que apresentam poucas chances de figurar em um segundo turno. “As interações podem indicar futuras alianças ou, até mesmo, guinadas ideológicas. Como as candidatas Simone Tebet e Soraya Thronicke vão se comportar? Vão acenar para uma composição em um novo governo do ex-presidente ou vão atacá-lo para enfraquecê-lo e poder negociar o posicionamento de seus partidos com Lula ou Bolsonaro em um possível segundo turno? Qual será a postura do candidato do PTB, Padre Kelmon, acusado de ter atuado como linha auxiliar do Bolsonarismo no último debate?”, questiona.

O debate da Globo também vai servir para analisar os rumos futuros de Ciro Gomes, que, pressionado para desistir da candidatura, resolveu prosseguir, com ataques ao PT e Lula. “O grande dilema de Ciro Gomes é que seu discurso vem se aproximando, em termos estéticos e de conteúdo, àquele apresentado pelo bolsonarismo. Isso pode causar um incômodo em seus eleitores posicionados na centro-esquerda do espectro político, levando a uma possível migração para o Lula. Algo que só pode ser confirmado após a apuração dos votos dado o pouco tempo de campanha que resta”, afirma Carlos Figueiredo.

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AUTOR
Foto Maria Carolina Santos
Maria Carolina Santos

Jornalista pela UFPE. Fez carreira no Diario de Pernambuco, onde foi de estagiária a editora do site, com passagem pelo caderno de cultura. Contribuiu para veículos como Correio Braziliense, O Globo e Revista Continente. Ávida leitora de romances, gosta de escrever sobre tecnologia, política e cultura. Contato: carolsantos@gmail.com