Crédito: Arnaldo Sete/MZ Conteúdo

Aos gritos de “não houve troca de tiros”, parentes e amigos da família da menina Heloysa Gabrielle, de apenas seis anos, realizaram um ato cobrando por justiça, em frente ao Palácio do Campo das Princesas, na manhã desta segunda-feira. A manifestação aconteceu no momento em que os pais de Heloysa estavam reunidos com o secretário-executivo da Casa Civil do Governo de Pernambuco, Eduardo Figueiredo, para tratar sobre o andamento das investigações do assassinato da criança e pedir o fim das operações policiais na cidade de Porto de Galinhas, litoral sul do estado. 

Abalados, os pais da criança decidiram não dar entrevistas, mas fizeram questão de afirmar que “não houve troca de tiros”, reforçando, mais uma vez, que a menina foi morta por disparos feitos por policiais militares do Batalhão de Operações Especiais (Bope). Se os pais não quiseram falar, outros parentes fizeram relatos com detalhes dolorosos.

Tia da criança assassinada, Wilma Fernandes passava a semana cuidando de Heloysa enquanto seus pais trabalhavam. Para ela, a dor e a revolta do assassinato são sentimentos que nunca vão passar: “A sensação que eu tenho é que perdi uma filha. Ela passava muito tempo comigo, os pais dela saíam para trabalhar e ela ficava no hotelzinho que eu tenho junto com a minha filha. Infelizmente, nunca mais vou ter ela comigo. Tudo que eu quero agora é justiça por ela”, afirmou a tia. 

Presente no ato desta segunda-feira, Wilma pediu por segurança para a família e afirmou que está sendo intimidada por policiais. “Todos os dias, eles [policiais] passam pela nossa casa, eu e minha mãe estamos muito assustadas, não conseguimos dormir”, disse. O irmão da garota, de apenas quatro anos, viu o momento em que a irmã morreu, no dia 31 de março, na frente da casa da avó . Os parentes que participaram do protesto contam que toda a família está em choque, bastante balada, e precisando de acompanhamento psicológico.

Vizinhos e amigos da família presentes no ato fizeram questão de afirmar o quanto a menina era querida na comunidade, reforçando também as denúncias contra a violência policial que tem assustado os moradores de Porto de Galinhas. “Nós queremos justiça, queremos que nosso grito seja ouvido, porque além de perder Heloysa nós estamos sendo ameaçados dentro da nossa comunidade. As ações da polícia ainda acontecem de forma constante, eles vão na casa da família, tentando nos amedrontar para distorcer os fatos”, declarou Marilene Rosália, vizinha da família de Heloysa.

A reação do Governo

De acordo com o advogado Eliel Silva, que presta assistência jurídica à família de Heloysa, na reunião desta segunda-feira, o representante da Casa Civil, Eduardo Figueiredo, afirmou que o governador Paulo Câmara deve se encontrar com os pais da criança ainda esta semana. “O secretário disse que o estado de Pernambuco não tolera qualquer tipo de violência, mas as organizações e o Movimento Negro de Pernambuco têm denunciado publicamente o nível de truculência da abordagem policial, então, o governador pode até não tolerar, mas a prática e o modus operandi da polícia são outros”, afirmou Eliel Silva.

Ainda de acordo com o advogado, na reunião desta segunda-feira, foram apresentadas as reivindicações da família de Heloysa e dos demais moradores de Porto de Galinhas que afirmam estar sob constante ameaça da Polícia Militar. As principais demandas manifestadas foram a realização um encontro da família de Heloysa com o governador, o afastamento imediato dos policiais envolvidos na operação que culminou na morte da criança, celeridade nas investigações do caso e fim das operações do Batalhão de Operações Policiais Especiais (BOPE) em Porto de Galinhas.

 

Advogado Eliel Silva informou que governador receberá pais de Heloysa. Crédito: Arnaldo Sete/MZ Conteúdo

Após a reunião, a família seguiu para Corregedoria, onde formalizaram todas as denúncias sobre o assassinato de Heloysa. As investigações do caso estão sendo conduzidas pela Divisão de Homicídios Metropolitana Sul, localizada em Jaboatão dos Guararapes. De acordo com Eliel Silva, o inquérito já foi instaurado e a transparência e celeridade das investigações serão acompanhadas de perto pela família. 

“Se a polícia e a proteção não chegaram antes dessa situação, para salvar a vida de Heloysa, que chegue pelo menos agora nas investigações e responsabilizações imediatas de quem atirou e de quem corroborou com essa violência que está instalada em Ipojuca”, disse o advogado. 

“Não somos contra a polícia, somos contra o que eles estão fazendo na comunidade, a forma que eles estão agindo, tratando todo mundo como bandido. Não somos bandidos, lá [Porto de Galinhas] moram famílias e pessoas de bem. A gente não dorme, a gente não descansa por medo do que estamos vivendo hoje em nossa comunidade. Nós estamos sendo coagidos e intimidados por olhares, por armamentos pesados, porque eles [policiais] chegam nas ruas como se fossem pegar um bandido”, ressaltou Mayara Talita, prima de Heloysa Gabrielle.

Esta reportagem foi produzida com apoio do Report for the World, uma iniciativa do The GroundTruth Project.

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