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Dona Nelita morreu quatro meses depois de se alfabetizar e inspirou filha a escrever o livro "Mamãe aprendeu a ler"
Na infância da educadora e escritora Luana Tolentino, os dias podiam ser marcados por ausências, mas havia algo que nunca faltava: livros. Eles ocupavam a casa como companheiros silenciosos, abrindo janelas para mundos possíveis. Foi nesse cenário, incentivada pelo pai, que Luana aprendeu que a educação podia ser um caminho para transformar a realidade.
Ainda menina, gostava de treinar autógrafos imaginários, como quem pressentia que as palavras seriam parte importante de sua vida. Professores reforçaram esse destino, aos 12 anos, ouviu que tinha “jeito de escritora”. Poucos anos depois, outro mestre levou um texto seu para mostrar ao escritor Roberto Drummond, um romancista mineiro responsável por obras como Hilda Furacão. Assim, a escrita se insinuava como horizonte desde cedo.
Com o passar dos anos esse amor se tornou carreira. Sua trajetória começou como professora de História na rede de educação básica, seguindo até se tornar mestra e doutora em Educação pela Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG).
Nesse processo, escreveu obras para contribuir na discussão de raça no país, como Outra educação é possível: feminismo, antirracismo e inclusão em sala de aula, pela editora Mazza, Sobrevivendo ao racismo: memórias, cartas e o cotidiano na discriminação no Brasil e também co-organizou o Por uma infância sem racismo: pesquisas, práticas e formação de professores, ambas pela editora Papirus.
No entanto, o destino levou Luana para a literatura infantil com uma história com jeito de literatura ou filme. Em 2025, ela escreveu e lançou aquele que é provavelmente sua obra mais singular. Mamãe aprendeu a ler foi inspirado na história de sua mãe, Enelita Canuto Teles dos Santos, conhecida como dona Nelita.
Se o pai era o leitor que a incentivava desde criança, a mãe, Dona Nelita, trazia a lição de que nunca é tarde para aprender. Aos 70 anos, decidiu frequentar a escola pela primeira vez. Luana acompanhou cada passo, levando a mãe à sala de aula, esperando no pátio, assistindo às descobertas. Em pouco tempo, Dona Nelita já lia textos, orgulhosa de poder ler aquilo que antes só sabia com a ajuda de outras pessoas.

“Ela mostrou o poder transformador da educação. Ela reforçou isso. A educação como um direito para todos. E como é grave quando esse direito é negado, né? Porque ela teve esse direito negado a vida toda. E quando ela pôde vivenciar, exercer esse direito em sua plenitude, como eu conto no livro, ela descobriu o mundo”, conta Luana.
Foi assim que a escritora decidiu documentar e contar sobre o processo nas redes sociais. “Minha mãe decide voltar para escola, decide aprender a ler e eu comecei a escrever muito sobre essa experiência dela, comecei a contar no Instagram e as pessoas foram ficando muito comovidas”, lembra Luana.
Mas o que ela não contava era que após quatro meses de iniciar na escola e aprender a ler, dona Nelita iria falecer. O ingresso da mãe na escola, o falecimento, a escrita e o lançamento do livro aconteceram em um intervalo de menos de dez meses. A escrita sobre a trajetória da mãe foi semente para a criação do livro, pois foi após sua morte que Luana decidiu materializar essa história.
“Antes dela falecer, eu já achava que eu tinha que trazer a história dela para um livro, só não sabia como. E eu também já tinha uma coisa pairando na minha cabeça, que eu queria escrever um livro para crianças. Então, 16 dias após ela falecer, eu estava no Uber, e aí o título veio como uma revelação mesmo: Mamãe Aprendeu a Ler”, explica.
Após essa “revelação” o livro foi escrito em apenas três dias e contou com ilustração de Anna Cunha para compor a construção narrativa. Lançado em novembro, segundo Luana, o livro tem impactado crianças de diferentes lugares e tem sido utilizado em sala de aula por professores e professoras, propondo a reflexão também desses profissionais.
No fim das contas, a obra não fala apenas sobre acesso à educação, fala sobre sonhos, maternidade e finitude de uma forma lúdica. “Esse livro tem mexido com os adultos, que era uma coisa que eu não pensava. Eu tenho contato mais com as professoras, de falar que o livro fez pensar na questão da maternidade, ou essa relação de mãe e filha, a mãe na velhice e a filha que assume esse lugar de mãe, que eu acho que aconteceu isso comigo também”, reflete Luana.
Crédito: Divulgação
Jornalista formada pelo Centro Universitário Aeso Barros Melo (UNIAESO), mestranda pelo Programa de Pós-graduação e Inovação Social da Universidade Federal de Pernambuco (UFPE)/Campus Agreste. Contato: jeniffer@marcozero.org.