Crédito: Arthur Marrocos

No dia 10 de junho, a pedido da equipe da Marco Zero Conteúdo, o analista de sistemas da Universidade Federal Rural de Pernambuco (UFRPE), Antônio Manso, usou modelos matemáticos para projetar quando a pandemia no Brasil alcançaria o pico da curva de casos de covid-19. No dia seguinte, Manso analisou os números no podcast Arrumadinho indicando que o momento máximo de contágio seria no dia 4 de julho. Naquele momento, o Brasil tinha 802 mil casos confirmados  e 40.919 mortes.

Dez dias depois, Manso, que é especialista em análise de dados geográficos pela Universidade de Ottawa, no Canadá, fez novamente os cálculos e foi surpreendido: com os novos números registrados na sexta-feira, 19 de junho (mais de um milhão de casos e 48.954 mortes), o pico de contágio deslocou-se para seis dias adiante, ou seja, pelo ritmo atual a doença continuará se espalhando e aumentando o percentual do número de casos até 10 de julho.

A partir daí, o contágio do coronavírus continuaria, porém mantendo o mesmo ritmo do dia 10 de julho, naquilo que os epidemiologistas chamam de platô, com a curva ficando estável, porém em um patamar elevado.

Escute a edição do Arrumadinho com a participação do pesquisador Antônio Manso

Antônio Manso explicou como chegou a esse resultado. “As últimas análises da covid-19 para o Brasil, realizadas através de um programa, codificado na Linguagem FORTRAN, que implementa o Modelo Epidemiológico SIR (Susceptíveis, Infectados e Recuperados).  O programa utiliza a série temporal de dados fornecida pelo Ministério da Saúde, com foco no número de novos casos confirmados”, detalhou o pesquisador.

Segundo ele, os números atuais indicam apenas uma projeção, mas recomendou que os epidemiologistas podem interpretá-los a luz dos acontecimentos concretos e da gestão de saúde.

Quarentena incompleta

Médico sanitarista e doutor pela Fundação Oswaldo Cruz (Fiocruz), Tiago Feitosa alerta que as projeções matemáticas são sempre lineares, “mas em saúde pública, é o imponderável da vida que muda a trajetória das epidemias. Os gestores públicos teriam de usar esses números para tomar medidas que evitem que as projeções se concretizem”.

O achatamento inicial da curva, do final de março ao início de maio, foi resultado das medidas de distanciamento e isolamento social tomadas pelos governos estaduais à revelia do Governo Federal. “Mas isso durou pouco, a flexibilização aconteceu antes e numa velocidade maior do que aquela que foi adotada nos demais países. Por isso, a estabilização vai acontecer num patamar muito elevado, por isso não é possível dizer que está diminuindo ou melhorando”, lamentou Feitosa.

O estado que mais preocupa o epidemiologista é Minas Gerais, o segundo mais populoso do país: “Só ficamos sabendo da extensão do problema em Minas por causa do estrangulamento de sua rede de saúde, pois os números de lá estavam bastante subnotificados”.

Responsabilidade individual?

Ao analisar a projeção feita por Antônio Manso, a professora de Medicina Social da UFPE e doutora em Saúde Coletiva, Bernadete Perez Coelho, confirmou que “o crescimento da curva vai perdurar com um número muito alto de casos e de óbitos”. Para que isso não acontecesse, seria necessário quebrar a cadeia de transmissão do vírus.

“E para quebrar a cadeia de transmissão, é preciso rastrear e identificar os casos e a rede de interações pessoais das pessoas contaminadas, além de controlar o contágio em locais específicos, como hospitais, cidades do interior e ambientes de trabalho. Seria preciso também tomar medidas de controle no transporte público”, explicou Bernadete Coelho. No entanto, segundo ela, a flexibilização do isolamento social ocorreu sem a existência dos pré-requisitos recomendados pela Organização Mundial de Saúde (OMS).

 Ela faz críticas severas aos argumentos usados pelos gestores públicos para justificar o fim do isolamento social: “O mais grave é o discurso que joga para o cuidado individual a responsabilidade pelo controle da pandemia. Como responsabilizar indivíduos que não tem acesso à água, que vivem em habitações degradadas, que foram submetidos nos últimos anos à precarização do trabalho e que não tem acesso a transporte público de qualidade?”