Feira de Beberibe, um dos bairros que compõem um dos estratos com maior taxa de letalidade por Covid-19 do Recife. Crédito: Veetmano/Agência JC Mazella

Tem sido um desafio para os cientistas sociais mostrar em números o impacto desigual do coronavírus na sociedade. Um estudo realizado pelo Observatório UFPE da Covid-19 joga luz sobre o tema ao evidenciar a disparidade de dados de diagnóstico em comparação com o de óbitos por Síndrome Respiratória Aguda Grave (SRAG) provocada por coronavírus em cinco estratos do território do Recife, considerando o percentual de área de assentamentos precários em cada um deles.

Os pesquisadores do Departamento de Ciências Geográficas da Universidade Federal de Pernambuco analisaram as taxas de casos confirmados por 100 mil/hab e de mortalidade por 10mil/hab. No primeiro estrato estão 17 bairros que têm entre 87% e 100% de seu território com assentamentos precários e um total de 271 mil moradores. No outro extremo, composto de 21 bairros e pouco mais de 121 mil moradores, o estrato com no máximo 3% de comunidades de interesse social (CIS).

Os três estratos intermediários reúnem cada um 18 ou 19 bairros, todos com mais de 300 mil habitantes, e variações de território com assentamentos precários de 4% a 15%, 16% a 34% e 35% a 86%.

Ficam evidentes dois movimentos. No primeiro, quanto menor a área de assentamentos precários mais casos registrados de SRAG por Covid-19. É o que acontece em bairros de classe média da Zona Norte como Espinheiro, Tamarineira, Parnamirim e Jaqueira. No segundo movimento, quanto mais assentamentos precários, menos casos confirmados e maior a taxa de óbitos por SRAG. É o que vemos nos bairros populares do Alto José do Pinho, Vasco da Gama, Nova Descoberta, Alto José do Bonifácio e Brejo da Guabiraba, por exemplo.

O levantamento foi realizado com base nos dados do Boletim Epidemiológico da Secretaria de Saúde do Recife do dia 2 de junho, quando a capital contabilizava 15.749 casos, sendo 9.114 leves e 6.635 casos de SRAG por Covid-19, tendo 1.100 destes evoluído para óbito.

Professor aposentado da UFPE e um dos coordenadores do estudo, o geógrafo Jan Bitoun traduz os números de uma maneira bem didática relacionando-os a acesso ao teste e acesso aos meios de cura da doença.

“São duas escadas. Os casos de SRAG por Covid-19 se distribuem de forma decrescente dos bairros mais favorecidos socialmente para os mais precários. Isso significa que a possibilidade de ser diagnosticado é diferente. Os mais favorecidos têm mais acesso ao teste, ao hospital, especialmente o privado. No caso dos óbitos, a escada vai em outro sentido. É bem maior a taxa nos bairros com mais áreas de assentamento precário. Mostra que a possibilidade de se curar da doença é menor nesses territórios”.

Os pesquisadores construíram uma linha do tempo com a evolução dos casos, óbitos e taxa de letalidade para cada estrato de 24 de abril (quando foi divulgado o primeiro boletim semanal a registrar a escala dos casos por bairro) até 5 de junho, dividido em sete semanas.

Constataram que todos os números cresceram “(com pequena variação no estrato 4 somente para a letalidade nas 3 últimas semanas epidemiológicas) o que sugere que, somente segundo os poucos dados apresentados, pode não ter sido ainda alcançado o pico da doença, mesmo que nas últimas duas semanas o crescimento parece ter sido levemente menor”.

O número de registros de casos aumentou em todos os cinco estratos territoriais, mas está aumentando proporcionalmente mais nos bairros com maior área de assentamentos precários, o que mostraria uma melhora gradativa da capacidade de testagem das populações desses territórios, justamente onde as pessoas estão mais submetidas ao sistema público de saúde.

No caso dos óbitos por 10 mil/hab, a série histórica mostra que eles têm aumentado proporcionalmente mais nos territórios com maior área de assentamentos precários do que naqueles com menor área. “Fica evidenciado que o sistema público de saúde ainda não conseguiu brecar o aumento desses óbitos nesses territórios”, analisa Jan Bitoun.

A taxa de letalidade – que conta o número de mortos proporcionalmente ao número de casos confirmados em cada estrato – mostra, no entanto, que embora a diferença entre os bairros mais e menos favorecidos socialmente seja ainda muito grande, ela vem diminuindo. Efeito também do aumento da testagem.

A letalidade no grupo com mais de 87% de área precária cresceu 1,57, enquanto que nos bairros com menos comunidades de interesse social multiplicou em 2,13. “A letalidade continua com uma diferença abissal, mas tende a reduzir no tempo. A diferença já foi bem maior. O dado mostra um esforço da gestão municipal de saúde”, explica Jan.

Falta de atuação nos territórios

O pesquisador defende que para avançar no enfrentamento ao coronavírus “seria preciso montar uma metodologia que analisasse as comunidades de forma mais detalhada, aproximando o olhar para partes do Recife, para isso não bastariam os dados por bairros, mas os dados geolocalizados”. Esses dados foram solicitados à Secretaria Estadual de Saúde, mas ainda não foram disponibilizados ao grupo que coordenou o estudo.

A abordagem territorial do combate ao coronavírus no Recife também é criticada pela epidemiologista e pesquisadora da Fiocruz, Tereza Lyra. “Não houve uma estratégia agressiva de compreender a epidemia dentro do território. Ou seja, não sabemos se os dados apresentados (pelo poder público) representam a realidade. O ideal teria sido unidades sentinelas, que mapeassem os locais mais vulneráveis, e com estratégias diferenciadas, em função da identificação de casos”, analisa Tereza, exemplificando a definição de locais para casos sintomáticos leves ficarem isolados dos familiares, quando não fosse possível fazer isso no domicílio.

A epidemiologista diz que o levantamento realizado pelos pesquisadores da UFPE expõe a desigualdade nos espaços da cidade.

“Mesmo dispondo de uma escassez de dados, já que o Brasil tem testado muito pouco, o documento consegue evidenciar as desigualdades socioespaciais do Recife. Tanto em relação ao acesso aos testes, pois certamente muitos testes dos bairros dos estratos superiores foram realizados na rede privada (que envia para a Secretaria Estadual de Saúde os resultados), enquanto os pacientes SUS dependem da oferta pública de testes, o que não foi disponibilizado em grande escala. Quanto aos óbitos, a imensa maioria era testada, então findam por serem dados mais universais”.

O mapa é resultado de um projeto mais amplo de produção de material informativo dirigido para a prevenção em comunidades de interesse social partilhado pelo Departamento de Ciências Geográficas e pelo Departamento de Ciência da Informação da UFPE. Partiu do entendimento dos professores da responsabilidade da universidade com a sociedade, ainda mais num período de crise sanitária e econômica.

Antes de começar a produção e divulgação dos materiais para as comunidades, com a consultoria de especialistas em saúde, os geógrafos pesquisadores decidiram elaborar o mapa que trouxesse informações qualificadas para orientar a segunda etapa de trabalho.

Interesses em jogo

Diante do resultado do levantamento, tomaram a decisão de dar visibilidade ao mapa. Ainda mais quando o Governo do Estado e a Prefeitura do Recife começaram a implementar a abertura das atividades econômicas em Pernambuco e na capital. “Entendemos que os governos devem funcionar como fóruns de interesses divergentes, mas o que não pode é que os interesses dos grandes grupos econômicos prevaleçam sempre. O mapa é uma forma de pressionar o poder público em favor da saúde da população”, explica a professora Ana Cristina Fernandes, uma das pesquisadoras que assina o estudo, produzido também por Cristina Duarte e pelo professor do IFPE Anselmo Bezerra.

Até a terça-feira (8) já haviam sido registrados 51.040 casos de Covid-19 em Pernambuco com 3.453 óbitos. No Recife, os casos totalizavam 17.133 com 1.315 mortes no mesmo período.

Ana Cristina Fernandes lembra que a estigmatização dos bairros mais pobres do Recife já existia na pandemia da gripe espanhola, há mais de 100 anos, porque a taxa de letalidade era maior nessas áreas. “Muito tem se falado que a pandemia do coronavírus está escancarando a desigualdade, mas o que ela precisa mesmo é escancarar a necessidade de uma política pública que dê efetivamente aos bairros mais pobres do Recife as condições mínimas de uma vida digna e civilizada, que respeite o direito à cidade dessas pessoas e não privilegie os interesses dos grupos imobiliários como vem acontecendo”, critica Ana.

Jan Bitoun chama atenção para o fato de que a escassez de dados epidemiológicos disponíveis por bairro não permitiu tratar do tema da prevenção e sim da detecção/diagnóstico e cura/óbito. Não se pode avançar, por exemplo, nas questões de isolamento social e acesso aos meios de higiene, focando mais na resolutividade da saúde, considerando a base de dados de SRAG. “Procuramos formar grupos de bairros que tivessem pontos em comum e o ponto em comum é a proporção de áreas em assentamentos precários a partir do Atlas de Infraestrutura das Comunidades de interesse Social, produzido em 2014 pela Prefeitura do Recife”, explica.

A transparência na divulgação dos dados epidemiológicos é considerada um instrumento fundamental de política pública de saúde pelos especialistas. A sociedade civil também tem se mobilizado para pressionar o Governo de Pernambuco e a Prefeitura do Recife por ampliar a publicização das informações relativas ao coronavírus. O movimento negro, por exemplo, pressiona para que sejam divulgados os dados de raça dos casos confirmados e óbitos por Covid-19.

Na semana passada, o mandato coletivo das Juntas protocolou projeto de lei na Assembleia Legislativa obrigando estabelecimentos de saúde públicos e privados a realizar identificação de raça e cor nos formulários dos pacientes. O Estado também fica obrigado a apresentar os dados desagregados nos boletins epidemiológicos publicados pela Secretaria Estadual de Saúde.

“Em um momento no qual o racismo estrutural tem sido pauta de luta no mundo todo, as análises por raça, sexo, idade são fundamentais, tanto para casos quanto para óbitos. O local de residência (bairro, não domicílio, por ser invasivo), também é importante. A dinâmica da epidemia seria mais bem analisada em função do conjunto de informações: onde há mais casos? Quem é mais acometido (sexo, raça, idade)?”, explica a epidemiologista da Fiocruz, Tereza Lyra.

Segundo Tereza, com esses dados seria possível por exemplo saber se a infecção por Covid-19 está relacionada a alguma atividade profissional específica, como os entregadores. E, a partir daí, mudar protocolos de procedimentos, fazer rodízio de atividades. “Mesmo com os poucos dados disponíveis, a equipe que do Departamento de Ciências Geográficas da UFPE que elaborou o mapa conseguiu evidenciar as profundas desigualdades espaciais na cidade do Recife. Imagine se eles tivessem acesso a um banco de dados que discriminasse esse conjunto de variáveis?”, questiona.