Crédito: Patrícia Gonçalves/MZ Conteúdo

Com a mesma eficácia que uma xícara de café tem contra a Covid-19, a ivermectina foi, dos remédios inúteis no combate ao coronavírus, o mais comprado em Pernambuco no ano passado. Com incentivo do presidente Jair Bolsonaro (sem partido) e de outros negacionistas, mais de 2,2 milhões de comprimidos do antiparasitário foram vendidos no estado. Um aumento de 615% em relação a 2019. Taxa superior a do Brasil que foi de 557,26%.

O levantamento é do Conselho Federal de Farmácia (CFF) e mostra também o crescimento nas vendas de outros medicamentos inócuos para debelar a pandemia como o colecalciferol (vitamina D) com alta de 82%, e a hidroxicloroquina com 81%. Ambos completam o pódio, mas com índices menores do que os observados no país, que foram de 81% e 113%, respectivamente.

Os dados considerados por especialistas em saúde como assustadores, podem ser ainda maiores já que o relatório do CFF não leva em conta os produtos vendidos em farmácias de manipulação.

“Acreditamos que a preferência pela ivermectina seja porque, ao contrário da cloroquina ou hidroxicloroquina, até então não tínhamos conhecimentos de muitos casos com efeitos colaterais graves como tem os antimaláricos que podem afetar seriamente o coração”, explica o membro do Conselho Regional de Farmácia de Pernambuco (CRF-PE), José de Arimatéia Rocha Filho.

Crédito: Arquivo pessoal

Falsos protocolos

A ivermectina nasceu como derivada de um processo bioquímico de fermentação a partir de um organismo natural encontrado em um fungo no Japão, na década de 1970. Embora em sua forma original apresente uma capacidade antibacteriana e antiviral, após processada industrialmente percebeu-se que tinha uma excelente atividade antiparasitária e assim foi registrada e colocada no mercado. A ivermectina, portanto, age contra parasitas internos, que é o caso dos vermes, e externos, como sarna e piolho, em animais e humanos. 

“A dose é de um comprimido de 6mg para cada 30kg. Em um dia a taxa de eficácia contra parasitas é de 85% a 90%, quando o caso é mais grave nós repetimos a dosagem por mais um dia, mas só a ivermectina”, explica a médica hepatologista do Hospital das Clínicas e professora da Universidade Federal de Pernambuco, Norma Arteiro.

O que se encontra facilmente em grupos de redes sociais são falsos protocolos sugerindo superdosagens da ivermectina combinada com outros fármacos para uma suposta prevenção à Covid-19 ou para o tratamento da doença. As recomendações vão de dois a quatro comprimidos a cada quinze dias até quatro comprimidos seguidos por quatro dias.

“A diferença entre veneno e remédio é a dose, todos eles têm toxicidade. É preciso regular a dosagem e administrar em quem realmente precisa e para sua real finalidade”, alerta José de Arimatéia Filho.

Lesões no fígado

A hepatologista Norma Arteiro afirma que na dosagem usual a ivermectina é considerada segura, mas há alguns casos de lesões no fígado causadas pelo medicamento.

“Casos de lesão podem aumentar. Uma coisa é tomar a ivermectina sozinha como já é conhecida, outra coisa é tomar de forma exagerada e ainda mais se for combinada com outros remédios. Isso pode desencadear hepatite medicamentosa, que seria uma inflamação no fígado em decorrência de uma reação ao medicamento. A maioria dos casos é leve e regride com a suspensão da medicação, mas pode haver casos graves também”, diz.

A professora também aponta como outro possível problema do uso indiscriminado do remédio, o surgimento de patógenos mais resistentes à droga.

No sábado (6), o presidente da Sociedade Paulista de Pneumologia e Tisiologia, Frederico Fernandes, publicou em suas redes sociais o atendimento a um paciente jovem, que manifestou sintomas leves da infecção pelo novo coronavírus. Depois de passar uma semana recebendo a ivermectina, a uma dosagem de 18 miligramas por dia acabou apresentando piora em seu quadro de saúde.

“Muito triste ver uma pessoa jovem a ponto de precisar de transplante [de fígado] por usar uma medicação que não funciona em uma situação que não precisa de remédio algum”, relata o médico.

Entidades médicas silenciam

A farmacêutica Merck, responsável pela fabricação da ivermectina, informou em comunicado, no último dia 4, que não há dados disponíveis que sustentem a eficácia do vermífugo contra a Covid-19. Ainda assim, entidades médicas têm se eximido de fazer um posicionamento crítico ao uso da ivermectina e de outros medicamentos sem efeito sobre o Sars-CoV-2, alegando se tratarem de fármacos off-label, ou seja, fora da indicação já prevista em bula.

O presidente do Conselho Federal de Medicina (CFM), Mauro Luiz de Brito Ribeiro, publicou nota na Folha de S.Paulo, no fim de janeiro, defendendo a autonomia do médico, mas sem se posicionar sobre tratamento precoce contra o novo coronavírus. Em Pernambuco, mais de 2 mil profissionais de saúde protocolaram no Cremepe um pedido de manifestação pública sobre essas atitudes anticiência praticada por alguns profissionais de medicina.

A Marco Zero também procurou o Cremepe sobre o assunto, mas a entidade manteve o padrão comum nesta pandemia que é o silêncio.

“Nós esperamos que com a manifestação da Merk a venda de ivermectina para tratamento preventivo ou precoce da Covid-19 caia. Nós do conselho continuamos orientando os profissionais farmacêuticos a conversar sobre a ineficácia da droga com os clientes, ao mesmo tempo estamos fiscalizando os estabelecimentos que estão fazendo propaganda, indo contra o código de ética”, diz José de Arimatéia Filho.

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