Crédito: Ricardo Labastier/Divulgação

Pela primeira vez, Recife tem chances reais de ter uma prefeita. Marília Arraes (PT) está no segundo turno disputando o cargo com o primo de segundo grau João Campos (PSB). Foi a primeira vez também que duas mulheres ficaram entre as quatro candidaturas mais votadas. Marília e a delegada Patrícia (Podemos), no entanto, representam polos opostos.

Para a socióloga Carmen Silva, do SOS Corpo – Instituto Feminista para a Democracia, a ida de Marília para o segundo turno se deu pela junção de três fatores. “A tradição política das gestões do PT, a tradição política de esquerda na cidade, que transcende Miguel Arraes (avô de Marília), mas tem nele um ícone, e a incorporação na campanha de proposições dos movimentos sociais”, enumera.

Para o segundo turno, Carmen espera que Marília se posicione mais à esquerda, para fazer contraponto com o PSB, que até bem recentemente era aliado ao PT. “Espero que ela tenda mais para a esquerda, voltando a campanha para o enfrentamento das desigualdades e para o diálogo com as periferias”, diz.

Carmen Silva cita ainda que a vereadora mais votada para a Câmara Municipal é Dani Portela (PSol), uma vitória para as mulheres negras. “Ela fez uma ótima campanha para governadora nas ultimas eleições e isso é sentido agora. Em 2018 ela ficou na frente de Júlio Lóssio (Rede) e Maurício Rands (Pros), dois políticos bem experientes”, lembra.

Para a também socióloga Betânia Alvez, uma das fundadoras do SOS Corpo e integrante da Articulação de Mulheres Brasileiras, o trunfo da campanha de Marília Arraes foi apostar na política. “Foi a única que se colocou com um posicionamento político de oposição, centrado na desigualdade social”, disse, lembrando da pesquisa do IBGE, divulgada há poucos dias, que colocou Recife como a capital mais desigual do país.

“Só pode ter concentração de riqueza quando se tem muita pobreza. Recife é uma cidade partida: de um lado, a classe média para cima e do outro uma população muito pobre majoritariamente negra, trabalhadora. Marília fez uma campanha de oposição a esse modelo de “gestão”, que se apresenta despida de política. Política é o espaço do conflito, do diálogo, da transformação. Marília se posicionou contra essa perspectiva tecnocrata”.

Betânia também considera que Marília acertou quando falou das políticas públicas para as mulheres. “De uma maneira muito serena ela pautou questões importantes, como a relação entre creche e trabalho, que acho fundamental. A creche é um direito das crianças, mas afeta a vida das mulheres da classe trabalhadoras. Também salientaria a visão bastante realista de como estão as políticas locais e uma crítica fundamentada entre o que é apresentado e o que de fato existe. Acho que no segundo ela tem que continuar nessa linha e ganhar mais força nas desigualdades raciais, especialmente sobre as mulheres negras”, sugere.

A diluição da Delegada Patrícia

Por volta das 21h, a delegada Patrícia admitiu a derrota com discurso no comitê. As urnas ainda estavam em pouco mais de 30% quando ela afirmou que “PT e PSB não terão meu apoio nem hoje nem nunca”. A trajetória da delegada foi tortuosa nessa campanha. Primeiro, se apresentou como uma espécie de terceira via, mas a campanha foi se juntando a políticos reacionários – como a deputada estadual Clarissa Tércio (PSC) – até descambar para o apoio do presidente Jair Bolsonaro.

O endosso do presidente consolidou a queda para o quarto lugar, de onde não saiu mais. “A campanha da delegada Patrícia evidenciou um problema nessa eleição que é a quantidade de candidaturas de profissionais da segurança pública e militar. Ao fazer o festão com Bolsonaro, ela perdeu a possibilidade de ir para o segundo turno. Se ela tivesse se colocado como centro, poderia ter disputado os votos com Mendonça Filho (DEM)”, comenta Carmen.

Das nove capitais que Bolsonaro declarou apoio a candidatos, sete perderam e dois foram para o segundo turno (Crivella no Rio de Janeiro e Capitão Wagner, em Fortaleza). “Não é um fenômeno local, as alianças do Bolsonarismo estão perdendo no Brasil, a exemplo de Celso Russomano (em São Paulo)”, analisa Carmen.

Para Betânia, a delegada Patrícia “foi uma farsa ao longo da campanha e acabou tendo o apoio de outra farsa”. A estratégia de se mostrar como uma personagem nova na política não funcionou.

“Ela trata a questão da segurança pública meramente pela repressão e traz um discurso de moralidade que é uma farsa por si só. O discurso dela era pura retórica, vazio de sentido. Foi uma candidatura baseada em falsas evidências. “Chama a delegada“? Como assim? Recife é um caso de polícia? A gente vê no noticiário o que acontece quando se “chama a delegada”, quem são os alvos. Com esse discurso moralista e o apoio de Bolsonaro, ela foi se diluindo, se desmanchando por ela mesmo”.