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MPPE investiga projeto de demolição da pista de bicicross da Jaqueira

Maria Carolina Santos / 02/04/2025
A imagem mostra uma mesa de conferência onde várias pessoas estão sentadas participando de uma audiência pública. Na mesa, há uma faixa que diz: Audiência Pública Discussão sobre a Pista de Bicicross da Jaqueira e Câmara Municipal do Recife. Atrás da mesa, há um painel com o brasão e o nome da Câmara Municipal do Recife, indicando o local do evento. Também é possível ver um monitor que reflete a cena, acrescentando mais contexto ao ambiente.

Crédito: Arnaldo Sete/Marco Zero

O Ministério Público de Pernambuco (MPPE) instaurou um procedimento para investigar os planos da empresa Viva Parques do Brasil de alterar a paisagem do Parque da Jaqueira. Apoiada pela Prefeitura do Recife, a empresa pretende demolir a pista de bicicross, que existe há 40 anos, para construir quadras poliesportivas e “operações de alimentação”. O Parque da Jaqueira, porém, tem sua paisagem protegida por três leis, sendo duas municipais e uma federal.

A instauração do procedimento foi divulgada durante a audiência pública que aconteceu nesta terça-feira, 1º de abril, sobre a pista de bicicross na Câmara dos Vereadores, convocada pela vereadora Jô Cavalcanti (PSOL). Presente na mesa, a promotora do MPPE Fernanda Nóbrega afirmou que vai convocar tanto a prefeitura do Recife quanto a Viva Parques para darem esclarecimentos sobre o projeto.

“O Parque da Jaqueira é uma unidade de conservação. De acordo com a lei municipal 18.014 é uma Unidade de Conservação de Paisagem (UCP). O Parque da Jaqueira tem ainda uma lei específica, que precisa ser observada. Não é porque o município concedeu a administração do parque para a iniciativa privada, que a empresa que assumiu pode modificar a estrutura da forma que bem entender. É preciso obedecer o que diz a lei”, afirmou a promotora de Justiça da 35ª Promotoria de Cidadania.

A lei específica da Jaqueira é a 17.610, de 2010, com alteração em 2022 – ou seja, já na gestão do atual prefeito João Campos (PSB). “Essa lei diz que fica proibida na UCP Jaqueira qualquer intervenção que comprometa o patrimônio ambiental e cultural hoje existente no seu perímetro, como os Jardins de Burle Marx, a Igreja de Nossa Senhora da Conceição, a capela da Jaqueira, que inclusive é tombada pelo Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (Iphan), as áreas verdes e as áreas de lazer coletivo. A lei veda, em primeira análise, qualquer intervenção nessa pista de bicicross”, afirmou Fernanda Nóbrega.

O que diz a lei 17.610, específica da Jaqueira

Art. 3º Fica proibida na UCP Parque da Jaqueira Governador Joaquim Francisco qualquer intervenção que comprometa o patrimônio ambiental e cultural hoje existente no seu perímetro, como:

I – os jardins de Burle Marx;

II – a Igreja de Nossa Senhora da Conceição (Capela da Jaqueira);

III – as áreas verdes; e

IV – as áreas de lazer coletivo.

Parágrafo único. Outra não poderá ser a destinação da UCP Parque da Jaqueira Governador Joaquim Francisco, senão a de atender, em caráter exclusivo e permanente, a função social de parque público.

Analista do MPPE, a arquiteta e urbanista Clara Moreira também falou na audiência e lembrou que o Parque da Jaqueira está incluído na Zona Especial de Patrimônio Histórico-Cultural (ZEPH). “A ZEPH é um setor de preservação vigorosa. Além disso, o tombamento da igreja da Jaqueira pelo Iphan estabelece um perímetro de preservação ao redor da igreja que inclui todo o parque”, afirmou.

“Tudo isso diz que aquela área tem relevância ambiental, histórica, patrimonial e cultural. E isso precisa ser considerado na hora que se organiza o planejamento urbano da cidade. O fato de que a Jaqueira tem várias figuras de preservação determinando que a gente olhe para esse espaço com cuidado e com deferência”, continuou a Clara Moreira, que também chamou a atenção para a participação popular na política urbana a ser executada pelo município, seguindo as diretrizes do que diz o Estatuto da Cidade.

Com o procedimento instaurado, o Ministério Público vai convocar a Prefeitura do Recife e a Viva Parques do Brasil para darem esclarecimentos sobre a reforma do Parque da Jaqueira. “A ideia é que a gente tenha um panorama para entender e demonstrar como a lei deve ser aplicada e tentar resolver essa questão de uma forma administrativa. Se não se chegar a um bom termo para todos os interessados, nós vamos judicializar a questão. Eu espero que não cheguemos a essa fase, porque eu tenho certeza que tanto o município como a Viva Parques estão dispostos a ouvir, a conversar e a se adequar ao que diz a legislação sobre o Parque da Jaqueira”, afirmou a promotora Fernanda Nóbrega.

Foto da promotora Fernanda Nóbrega. Ela está sentada à mesa, diante de um pequeno microfone vermelho e preto, enquanto sorri e olha para o lado. Vestida com um casaco laranja sobre uma blusa marrom, ela tem cabelos castanhos lisos e usa óculos de aros redondos na cor marrom.

Promotora Fernanda Nóbrega alerta que Viva Parques não pode modificar o parque como quiser

Crédito: Arnaldo Sete/Marco Zero

Prefeitura se posiciona ao lado da concessionária

A Prefeitura do Recife não enviou nenhuma secretária ou secretário para representá-la. Quem foi enviada para a audiência pública foi a analista de concessão público-privada Mariana Arnaud, funcionária comissionada da Secretaria de Desenvolvimento Urbano e Licenciamento. No tempo de apresentação, de 10 minutos, Mariana apenas leu um texto, o que durou menos de 2,5 minutos, em que ficou claro o apoio da Prefeitura à Viva Parques, ainda que caiba a Prefeitura a tarefa de fiscalizar o contrato com a empresa e garantir os direitos dos cidadãos durante a concessão.

No texto lido por Mariana, a gestão municipal afirma que “todas as intervenções seguem diretrizes aprovadas pela Prefeitura” e que “a proposta apresentada pela Viva, no contexto do projeto de requalificação do Parque da Jaqueira, parte de um entendimento amplo de dinâmicas urbanas e da necessidade de democratizar ainda mais o espaço, o lazer e o esporte”.

A imagem é um mapa urbano detalhado que exibe diversas zonas coloridas, indicando diferentes usos do solo ou áreas de planejamento. No centro, há uma ampla área roxa que parece representar vegetação ou um parque, cercada por zonas residenciais e comerciais destacadas em amarelo, azul e verde. Uma linha verde atravessa o mapa, possivelmente simbolizando um rio ou uma área de proteção ambiental. As vias estão bem delineadas, e o mapa contém identificadores numéricos que podem indicar lotes ou propriedades. Há também uma indicação centralizada de Hospital, sugerindo a localização de uma unidade de saúde naquela área. O mapa é estruturado e fornece informações claras sobre a organização urbana.

Mapa do zoneamento do Recife mostra o Parque da Jaqueira como Zona Especial de Patrimônio Histórico-Cultural e como Unidade Conservação da Natureza

Crédito: Reprodução

Talvez em um ato falho, a leitura do texto terminou com a funcionária dizendo que a prefeitura está inteiramente à disposição “para ouvir o diálogo”. E foi exatamente isso o que aconteceu: a representante apenas ouviu o diálogo, sem responder a nenhuma das questões que foram colocadas em aproximadamente três horas de discussões sobre as intervenções no Parque da Jaqueira.

A Viva Parques também não enviou nenhum dos sócios para a audiência. Quem foi incumbido da tarefa foi o diretor de comunicação da empresa, Eduardo Villa Boas. Durante toda a audiência, ele evitou como pode usar a palavra “restaurante” para falar sobre o que a Viva Parques pretende construir no lugar da pista de bicicross

Ao ser questionado diretamente pela promotora Fernanda Nóbrega sobre o que a Viva Parques pretende fazer no lugar da pista, ele respondeu: “Nesse espaço de quase 4 mil metros, nós vamos ter quadras esportivas: uma quadra de areia, duas pequenas quadras de futebol e duas quadras de basquete 3mx3m. Vamos ter um anfiteatro para apresentações culturais, uma área de lazer infantil e uma área de lazer de convivência geral, com tênis de mesa e vários esportes ao ar livre”, afirmou, elencando inclusive equipamentos que até então não tinham sido citados nas várias matérias sobre os planos da empresa para a Jaqueira.

Só quando a promotora perguntou se a empresa então havia desistido da instalação de um restaurante foi que ele falou que o local teria “operações de alimentação”, que “vão ocupar apenas 20% do local (da pista de bicicross)”. A promotora, então, insistiu se era um restaurante. “São operações de alimentação que estão sendo detalhadas ainda”, respondeu. Apesar dessa aparente indefinição, quando a vereadora Jô Cavalcanti perguntou, ao fim da audiência, se a empresa iria desistir de demolir a pista de bicicross, Villas Boas respondeu que não há desistência e que “o projeto já está consolidado”.

Promessas da Viva Parques dividem bicicross

No dia 21 de março, a Viva Parques divulgou uma nota à imprensa afirmando que havia firmado uma parceria com as federações pernambucanas de BMX (FPEBMX) e de Ciclismo encerrando, assim, a disputa pela pista de bicicross na Jaqueira. A nota anunciava reformas na pista do parque Santana para receber todas as faixas etárias e iniciantes – o ponto forte da pista da Jaqueira –, além de incentivos para a prática do esporte, como doações de equipamentos, bicicletas e apoio para fazer projetos de captação de recursos.

A reunião em que essa parceria foi definida não contou com a presença de vários atletas e teve a participação do principal acionista da empresa, José Aragão. Para Diego Tarta, um dos atletas que mais tem se posicionado publicamente contra a extinção da pista, foi um gesto para amenizar as críticas da federação à empresa, em um esporte que em décadas teve pouco apoio do poder público.

“Mas, independente disso tudo, a gente quer que esse processo seja transparente. Essa tentativa de debate na audiência é trazer ao público todo o processo que antes não foi publicizado.Acreditamos que, como se trata de um projeto de um espaço público, deveria acontecer um processo de edital para ter um concurso de arquitetura e paisagismo para a comunidade trabalhar em cima do projeto”, disse Tarta.

AUTOR
Foto Maria Carolina Santos
Maria Carolina Santos

Jornalista pela UFPE. Fez carreira no Diario de Pernambuco, onde foi de estagiária a editora do site, com passagem pelo caderno de cultura. Contribuiu para veículos como Correio Braziliense, O Globo e Revista Continente. Contato: carolsantos@marcozero.org