Crédito: Raíssa Ebrahim/MZ Conteúdo

Por Myrella Santana*

Discutir eleições não deve ser limitado aos 45 dias do período eleitoral e do dia de votar. Se pensarmos o sistema eleitoral como um jogo (podendo ser futebol, xadrez, basquete, vôlei ou qualquer outro que seja), observamos que ele está dentro de uma estrutura, que funciona de uma determinada forma, que possui regras e o mais importante: alguém ganha e alguém perde.

Como também sabemos, todo jogo exige uma preparação prévia, como treinamento, organização, preparação, estruturação, etc. E da mesma forma que consideramos injusto que uma pessoa tenha vantagens materiais ou imateriais na disputa e, principalmente, na preparação para disputar (basta ver as grandes discussões e minuciosas observações quando se tem jogos de futebol), por que não defendemos o mesmo quando se trata do jogo eleitoral? Ou nos atentamos aos mínimos detalhes dos processos que vão apontar para quem vai ou não ganhar?

É importante destacar que o sistema eleitoral e o sistema partidário são jogos diferentes, porém, o jogo no sistema partidário é um reflexo do jogo no sistema eleitoral, que, por sua vez, reflete como os jogos funcionam no Estado brasileiro. Nesta última semana se iniciou as convenções partidárias, um momento importantíssimo para aqueles que estão se colocando como pré-candidatas e pré-candidatos a algum cargo nesta eleição, pois, é onde será decidido pelos partidos internamente quem vai ou não de fato disputar.

Por entender que esse também é um momento de demonstração de força, nesse último final de semana, cinco candidatos ao governo do estado de Pernambuco lotaram o Clube Português e o Classic Hall, na tentativa de espelhar uma possibilidade de ida para o segundo turno. Cinco candidaturas foram homologadas, colocando mais de 10 mil pessoas nesses espaços para mostrar que são candidaturas competitivas. O que é atípico para o nosso histórico. Nas últimas eleições para governo, a possibilidade se mantinha sempre nos dois candidatos mais fortes. No máximo, uma possibilidade de terceira via, mas com baixa expectativa. O que não vai acontecer esse ano. Esse final de semana foi um breve spoiler de como será a partir do dia 16 de Agosto.

As convenções não apenas legitimam os candidatos a majoritária, mas também as chapas proporcionais. Só pode ser candidato quem tiver sua pré-candidatura homologada. Só é possível eleger bancadas de mulheres negras LBT+ e de periferia, se essas mulheres tiverem suas candidaturas legitimadas dentro do partido. E quando estamos falando dessa etapa no jogo partidário, estamos falando exatamente de condições para fazer com que a bola gire, condições para correr atrás dela e fazer acontecer no jogo eleitoral, que é a próxima etapa. Esse é o período das negociações, dos acordos e das prioridades.

Nos últimos anos, podemos observar um aumento significativo e gradativo na candidatura de pessoas negras. O que é uma surpresa quando olhamos a fotografia da Assembleia Legislativa de Pernambuco. Isso é um exemplo de que apenas dizer que essas candidaturas podem entrar no jogo não é suficiente se não são dadas condições pelos partidos para que de fato essas candidaturas disputem. Olhar as eleições como um jogo não é uma das coisas mais coerentes de se fazer quando se trata de uma República Federativa Democrática e quando estamos falando de representação, mas se vivemos no mesmo país da democracia racial, esta contradição não é uma das piores.

Apenas homologar candidaturas não é suficiente. É importante, mas não apenas. Para mulheres negras a disputa eleitoral é um dos processos mais violentos que vão passar em suas vidas, isso se dá principalmente pela falta de prioridade e condições que não são dadas nas negociações neste período de pré-campanha. Falamos muito de quem senta nas cadeiras das casas Legislativas e no Executivo de todo o Brasil, mas eu pergunto, quem está sentado nas cadeiras das executivas e diretórios partidários? Quem está presidindo os partidos? Quem está nas tesourarias? Quem está com a caneta na mão decidindo quanto cada uma dessas candidaturas vai receber do FEFC (Fundo Especial de Financiamento de Campanha)?

O baixo financiamento nas candidaturas de mulheres, principalmente mulheres negras, é o reflexo do descompromisso e da falta de interesse em que essas mulheres sejam eleitas. Mulheres negras nos espaços de poder nunca foi um sonho distante ou inexistente, pelo contrário, sempre estivemos lá, sempre estivemos mobilizando e nos organizando.

Sempre estivemos prontas. Podemos não estar com a caneta na mão, mas somos nós que fazemos o Brasil real acontecer. E por saber desse potencial transformador, é que não há interesse de se investir em uma mudança de estruturas que os beneficiam. Claro, salve as exceções, se essa candidatura puder trazer voto o suficiente para ajudar o partido a bater a cláusula de barreira… ótimo, mas também não pode crescer tanto a ponto de ofuscar quem de fato é prioridade e tá no seu milésimo mandato.

Os partidos políticos têm um papel fundamental na construção democrática, eles são um espelho que reflete a sociedade, e precisam, antes de tudo, estar comprometidos com a mudança dela. É necessário que os partidos, e digo os progressistas, de esquerda, que se dizem antirracista, feministas, antiLGBTQIA+fóbicos, coloquem isso na prática, não apenas garantindo que pessoas negras, mulheres, LGBTQIA+, etc, se candidatem, mas dando condições para que essas candidaturas de fato se tornem competitivas.

Tenho dito, desde o meu primeiro texto, que priorizar e dar condições para que mulheres negras candidatas possam de fato chegar lá tem que ser um compromisso de toda a sociedade. As regras do jogo não funcionam igual para todos, além de condições de estar, é necessário condições para disputar. Importante que estejamos atentas e atentos em todas as etapas. O período eleitoral começa dia 16 de Agosto, mas as eleições começaram desde o início do ano.

*  Myrella Santana é graduanda em Ciência Política na Universidade Federal de Pernambuco. Integra a Rede de Mulheres Negras de Pernambuco e a Articulação Negra de Pernambuco. É Diretora Operacional e pesquisadora na Rede Internacional de Jovens LBTQIA+. 

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