No ringue do Facebook, extrema-direita consegue mais compartilhamentos sobre a #VazaJato

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A #VazaJato foi a primeira grande ação midiática em que a esquerda teve o controle nos últimos anos: pegou a extrema-direita desprevenida e conseguiu pautar a imprensa brasileira, a internacional, e, talvez o mais importante, a internet. Passado o baque inicial das primeiras horas, os bolsonaristas revidaram e no dia seguinte o que se viu foi uma guerrilha de contrainformação e memes. Desde 2013 mais mobilizada nas redes, a direita ganhou a batalha do dia, ao menos no Facebook.

É o que mostra o levantamento do Monitor do debate político no meio digital, projeto da Universidade de São Paulo. Ao todo, o Monitor contabilizou 2 milhões de interações: a esquerda produziu mais posts, mas a direita conseguiu mais compartilhamentos. Claro, você pode não ter tido essa percepção na sua página. Mas não se deixe enganar: é a bolha, controlada pelos algoritmos para manter você livre de embates.

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Nesta breve análise dos 10 posts, o que dá para se notar é que, na forma, a extrema-direita apostou em imagens simples, que comunicam rapidamente e não necessitam de muita atenção. A esquerda, por sua vez, demandou mais tempo e recursos dos usuários, com textos mais longos e o uso de vídeos. A estratégia simples e direta ao ponto rendeu bem mais compartilhamentos para o top 5 da direita.

No conteúdo, mais distância entre os dois polos. A esquerda focou nas mensagens e nas afirmações anteriores do ministro da Justiça em que defende vazamentos de interesse público. Nos 5 posts da direita, apenas um faz referência, en passant, ao conteúdo dos vazamentos.

Há de se dizer, com razão, que o Facebook é hoje uma rede social em decadência (embora ainda usada por 90% dos 140 milhões de brasileiros nas redes sociais) e que não reflete, necessariamente, o que se deu na internet como um todo. Porém, o que é mais interessante neste conjunto de 10 posts é a enorme distância entre estas duas formas de se comunicar que há hoje no Brasil. Refletem não só a polarização política que o país vive, mas fazem pensar se o caminho é permanecer em estratégias de comunicação que tendem a agradar cada qual apenas e tão somente à sua própria bolha.

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O que a Direita compartilhou

Primeiro, vale ressaltar que as montagens toscas – ou de gosto duvidoso, se quisermos ser gentis – dão a tônica aqui. São mensagens genéricas de apoio, que passam ao largo do conteúdo das denúncias. Dos cinco posts mais compartilhados, apenas um é um link, com um artigo de opinião – e que começa com inacreditável “um juiz não deve ser imparcial”.

No topo do ranking está a página Somos Todos Bolsonaros (1,6 milhão de curtidas) com 46 mil compartilhamentos de um post que é apenas uma imagem de um punho verde-amarelo levantado com uma pequena foto de Sérgio Moro em um canto e os dizeres “Somos todos Sérgio Moro”. Enfim, um exemplo acabado da medonha estética bolsonarista. Os comentários no post são simplórios, a maioria hashtags de apoio ao ex-juiz.

A segunda mais compartilhada é uma frase atribuída ao procurador Carlos Fernando Santos Lima, que trabalhou na Lava Jato, postada na página República de Curitiba. “Contratar um hacker para violar o sigilo de autoridades revela o desespero do crime organizado contra a Lava Jato”. Seria a imprensa livre sinônimo de crime organizado?

A terceira é a nota de Moro compartilhada na página da jornalista plagiadora que virou deputada federal Joice Hasselman. O que sobressai, novamente, é a crise estética desse governo: o texto é emoldurado e tem a cabeça de Moro em baixa resolução num canto. O quarto é um post do “Jornal da Cidade Online”, um dos sites expoentes da extrema-direita, com o tal artigo de opinião, que afirma também que “para tristeza da esquerda, único crime revelado em vazamento é o próprio vazamento”.

O quinto post mais compartilhado é novamente da página República de Curitiba, com uma montagem de Moro e Dallagnol de punhos para o ar. O texto de apoio afirma que Glenn Greenwald é de “extrema-esquerda”.

O que a Esquerda compartilhou

Se do lado da extrema-direita há quatro imagens e um link com artigo de opinião, do outro lado vemos mais diversidade de mídia: são 3 vídeos, um artigo de opinião (de Reinaldo Azevedo!) e um meme. Tirando o meme, são conteúdos que exigem muito mais atenção do que um punho verde-amarelo levantado e uma frase de efeito.

O mais compartilhado é um vídeo do jornalista Paulo Henrique Amorim, do blog Conversa Afiada. Teve 20 mil compartilhamentos, menos da metade que o post de direita mais compartilhado e seis mil a menos que o quinto post mais compartilhado da direita. São quase seis minutos de vídeo, além de um texto com 11 frases. O vídeo tem várias edições, mostrando os trechos vazados e fazendo um breve histórico de outros vazamentos e de opiniões de Moro.

Em segundo lugar, com 18 mil compartilhamentos, está um trecho de uma entrevista de Pedro Bial com Sérgio Moro em que ele diz “o problema não era a captação do diálogo, o problema era o diálogo em si”, em referência à conversa grampeada e vazada entre Dilma e Lula em 2016. Este mesmo programa serviu para o post do quarto lugar do ranking, da página deputa Jandira Feghali, que teve 13 mil compartilhamentos. O vídeo, no entanto, já foi retirado do ar por violar direitos de imagem – é, afinal, da Rede Globo.

O terceiro mais compartilhado é da página do presidente Lula, um link para um post do jornalista Reinaldo Azevedo em que é questionada a lisura do processo contra o ex-presidente Lula, baseado nas evidências do vazamento divulgado pelo Intercept. Finalmente, no quinto temos o primeiro meme da lista: com 13 mil compartilhamentos, é uma imagem de Dilma risonha e os dizeres “o mundo dá voltas”.

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