Nunca duvide do povo brasileiro

Marco Zero Conteúdo / 26/10/2026
A imagem mostra uma grande manifestação política em uma avenida lotada, com milhares de pessoas reunidas ao redor de um veículo de campanha onde está o presidente Lula segurando uma bandeira do Brasil. Diversas bandeiras, cartazes e faixas nas cores vermelha, verde e amarela são visíveis entre a multidão, incluindo mensagens de apoio e o número “13” estampado em materiais de campanha. A cena é capturada de um ponto elevado, destacando a densidade do público e o caráter coletivo do evento.

Crédito: Ricardo Stuckert

O povo brasileiro tomou contas das ruas e das redes para, pela primeira vez na história das eleições presidenciais brasileiras, virar o resultado negativo no primeiro turno e reeleger Lula para seu quarto mandato, o que, aliás também é inédito.

Foi uma vitória construída de baixo para cima. Primeiro, os estudantes assumiram à frente das manifestações de rua e superaram o baixo astral causado pelo susto da votação do dia 4 de outubro.

Depois, mais de 10 milhões de mulheres, homens e crianças se uniram em canal de whatsapp coordenado por um deputado federal mineiro, André Janones, e, sem pedir licença aos marqueteiros e especialistas, viraram de cabeça para baixo a comunicação da campanha.

Por fim, na última semana da campanha, milhões de pessoas lotaram desde a avenida Paulista e a praia de Copacabana até as pracinha das pequenas cidades do Nordeste. Agora, Lula tem o desafio de governar com as ruas e em conexão com as mais de 64 milhões povo que o elegeram.

A carreira de Lula

Luiz Inácio Lula da Silva, de 80 anos, começou a construir sua carreira política a partir do movimento sindical do ABC paulista. Presidente do Sindicato dos Metalúrgicos de São Bernardo do Campo e Diadema, liderou importantes greves operárias do fim dos anos 1970, participou da fundação do PT, em 1980, e da CUT, em 1983. Perdeu sua primeira eleição em 1982, quando disputou o governo de São Paulo. Em 1986, foi eleito deputado federal constituinte por São Paulo com mais de 650 mil votos, a maior votação do país, e participou da elaboração da Constituição de 1988. Foi derrotado nas disputas presidenciais de 1989, 1994 e 1998 e venceu na quarta tentativa: em 2002, aos 57 anos, elegeu-se presidente no segundo turno com quase 53 milhões de votos, contra José Serra (PSDB). Sempre foi do Partido dos Trabalhadores (PT).

Reeleito em 2006 com mais de 58 milhões de votos, contra Geraldo Alckmin, governou até 1º de janeiro de 2011, quando passou a faixa a Dilma Rousseff. Em 2018, foi preso após condenação na Lava Jato e ficou 580 dias na cadeia. O STF anulou as condenações ao reconhecer a incompetência e a parcialidade do juiz responsável. Em 2022, venceu Jair Bolsonaro com 50,9% dos votos válidos e voltou à Presidência pela terceira vez.

No primeiro governo, Lula lançou o Fome Zero e, em outubro de 2003, criou o Bolsa Família por medida provisória, convertida na Lei 10.836, de 2004. O programa unificou benefícios anteriores, como Bolsa Escola, Bolsa Alimentação e Auxílio Gás. Também são de 2003 o Luz para Todos, que leva energia elétrica a áreas rurais, e de 2004 o Farmácia Popular e o ProUni, de bolsas em universidades privadas. Em 2009, já no segundo mandato, criou o Minha Casa, Minha Vida. No governo Dilma, vieram o Brasil sem Miséria (2011), o Pronatec (2011) e o Mais Médicos (2013).

Crédito: Ricardo Stuckert

No terceiro mandato, Lula recriou o Bolsa Família em 2023, com piso de R$ 600 por família e adicional de R$ 150 por criança de até 6 anos. Em 2025, segundo dados do Ministério do Desenvolvimento Social, o programa atendia mais de 20 milhões de famílias. O governo também relançou o Minha Casa, Minha Vida, com novas faixas de renda, ampliou o Farmácia Popular e criou o Desenrola Brasil (2023), de renegociação de dívidas, e o Pé-de-Meia (2024), poupança para estudantes do ensino médio público.

Sob governos do PT, o Brasil saiu duas vezes do Mapa da Fome da FAO, agência da ONU para alimentação, que lista os países em que mais de 2,5% da população está subalimentada. A primeira saída foi em 2014, durante o governo Dilma, após mais de uma década de políticas de segurança alimentar iniciadas por Lula. O país voltou ao mapa no triênio 2018-2020. Em julho de 2025, o relatório SOFI 2025 da FAO registrou a segunda saída: na média de 2022 a 2024, a subalimentação caiu para menos de 2,5% da população.

Na educação, os governos petistas promoveram a maior expansão da rede federal. Segundo o MEC, foram criadas 14 universidades federais nos governos Lula, de 2003 a 2010. Com as instituições criadas por Dilma, o total chega a 18. O número de universidades federais passou de 45, em 2002, para 63 em 2014, e o de municípios atendidos foi de 114 para 237 até 2011. Na educação profissional, foram criados 38 institutos federais a partir dos antigos Cefets e escolas técnicas. Entre 1909 e 2002, o país havia construído 140 escolas técnicas federais. Entre 2003 e 2016, o MEC entregou mais de 500 novas unidades, e a rede chegou a 644 campi em funcionamento.

A virada da campanha no segundo turno

Derrotado no primeiro turno por uma margem de quase dois pontos percentuais (45,16% contra 47,03% de Flávio Bolsonaro), o presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) reformulou a campanha para o segundo turno. O núcleo estratégico teve mudanças, com reforço na comunicação digital com vídeos em formato selfie. O ministro da Secom, Sidônio Palmeira, tirou férias para se dedicar à campanha e reposicionou o discurso em temas populares, como o fim da escala 6×1 e a disputa em torno dos sigilos dos dois candidatos. A coordenação política ficou com o senador Camilo Santana e o presidente do PT, Edinho Silva, e o governador do Piauí, Rafael Fonteles, assumiu a comunicação estratégica.

A principal novidade nestas três semanas foi o “Exército do Lula”, canal de WhatsApp comandado pelo deputado André Janones (Rede-MG), reeleito em 4 de outubro. Com linguagem militar (“missão”, “tropa”, “soldados”), Janones distribuiu vídeos, áudios e orientações para ampliar o alcance dos conteúdos nas plataformas digitais. O canal chegou a mais de dez milhões de participantes e ganhou o reforço espontâneo de fã-clubes de artistas pop.

A exitosa mobilização do canal virou disputa judicial. A pedido da campanha de Flávio Bolsonaro, o presidente do TSE, Kassio Nunes Marques, indicado ao STF por Jair Bolsonaro, suspendeu o canal. Segundo o Poder360, o corregedor-geral eleitoral, Villas Bôas Cueva, restabeleceu o “Exército” menos de quatro minutos depois de receber o pedido do PT. O próprio Kassio Nunes liberou o canal depois que a campanha petista registrou seu endereço na Justiça Eleitoral.

Os debates eleitorais no 2º turno

Nos dois debates do segundo turno, as agências de checagem encontraram mais informações falsas nas falas de Flávio Bolsonaro do que nas de Lula. Na Band, em 18 de outubro, a Agência Lupa registrou que o senador repetiu a informação falsa de que Lula gastou R$ 7 bilhões em viagens com a primeira-dama: o valor se refere a despesas de toda a estrutura do governo federal entre 2023 e 2025. O Aos Fatos classificou como falsas as afirmações de Flávio de que Lula foi aos Estados Unidos defender organizações criminosas e de que condenados do Mensalão integram o governo, e apontou como distorcido o dado de que 73% dos presos votaram no petista. O debate motivou uma petição, com mais de 790 mil assinaturas, e um pedido formal do PT para que a Globo fizesse checagem ao vivo no confronto seguinte.

Na Globo, em 23 de outubro, a Lupa verificou 43 afirmações, 27 de Flávio e 16 de Lula. Segundo a agência, Flávio repetiu acusações já desmentidas, como a de que Lula seria o “pai do Tigrinho” e a de que teria defendido o roubo de celulares para “tomar uma cervejinha”, frase que, segundo o Aos Fatos, distorce declarações do presidente. O Aos Fatos apontou ainda que o Auxílio Brasil de R$ 600 citado por Flávio só foi pago no fim do governo Bolsonaro e que o número de obras paradas é 4.215, não 11.500. Lupa, Aos Fatos e Estadão Verifica, que seguem os critérios da rede internacional de checadores IFCN, convergiram em apontar mais problemas nas falas do senador.

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