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O ano da Marco Zero: o jornalismo foi uma trincheira da resistência democrática

Sérgio Miguel Buarque / 31/12/2019

Última sexta-feira de 2019, nossa coordenadora de imagem, Inês Campelo, estava fotografando um evento quando foi abordada por uma colega cinegrafista.

– Você trabalha em jornal?

– Sou da Marco Zero.

– Que massa! A resistência do jornalismo pernambucano!

De forma espontânea, a colega de Inês sintetizou o que foi 2019 para a Marco Zero. Em um cenário de ataques explícitos à liberdade de expressão e à democracia, publicar 356 reportagens (30% a mais do que em 2018) foi mais do que um grande esforço de jornalismo independente: foi um ato de resistência.

No último dia do ano, publicamos aqui uma breve “prestação de contas”, com quatro pontos que foram fundamentais para o fortalecimento da Marco Zero em um 2019 tão adverso.

1)
Uma reportagem por dia

Este foi o ano em que mais produzimos conteúdo, com uma média de quase uma matéria por dia. Além do aumento da quantidade e da frequência de publicação, tivemos, em 2019, uma maior diversidade nos temas abordados e nas fontes consultadas. Ampliamos nossa área de cobertura, com muito mais reportagens sobre o campo e o Semiárido Nordestino (20 reportagens).

Abrimos
mais espaço para questões relacionadas ao meio ambiente (34) e
mantivemos nossa pegada editorial nos temas relacionados aos direitos
humanos (65), direito à cidade (65) e assuntos ligados à
diversidade, questões de gênero ou identitárias (53). Estes três
eixos centrais da política editorial da Marco Zero estavam em mais
da metade do que publicamos em 2019.

Em
2019, viajamos mais. Assim, podemos contar as seguintes histórias:

Entre duas águas, quatro quilombos (Betânia/PE)

Menos Médicos onde mais precisa (Manari/PE, Tupanatinga/PE e Itaíba/PE)

De Margaridas a Marielles: a luta camponesa no interior da Paraíba (Remigio/PB)

A batalha dos jumentos (Salvador/BA, Amargosa/BA e Carpina/PE)

À margem da lei e junto do povo, rádios comunitárias resistem e crescem na América Central (El Salvador)

Margaridas marcham em Brasília por direitos no campo, autonomia das mulheres e democracia (Brasília/DF)

Qual a importância do Centro Paulo Freire? Fomos à Normandia para entender (Caruaru/PE)

Lula “paz e tesão” quer ir às ruas e liderar oposição a Bolsonaro (Santo André/SP)

Também
investimos na cobertura aprofundada de assuntos que foram relevantes
em 2019, buscando sempre um olhar plural e comprometido com uma
política editorial cidadã, com os direitos humanos e com o
interesse público. Destaque para as coberturas da camarotização do
Carnaval, da demolição dos armazéns do Cais José Estelita, do
racismo policial contra o Passinho e do crime ambiental causado pelo
derramamento de óleo no Nordeste.

Finalizando o ano, publicamos o especial Suape pelo avesso, talvez o trabalho que requereu o maior esforço de reportagem, consumindo meses de apuração e contando com recursos do edital de Jornalismo Investigativo do Fundo Brasil de Direitos Humanos.

Aonde a Marco Zero quer chegar?

Por Carol Monteiro *

A convite de Juliano Domingues fui na turma do 1º período de Jornalismo da Unicap falar sobre jornalismo independente e a Marco Zero Conteúdo. Conheci uma turma incrível, com gente interessante e interessada em fazer um jornalismo diferente, a partir dos seus territórios de origem, com foco na promoção e defesa dos Direitos Humanos.

Lá pelas tantas das perguntas que os alunos faziam sobre modelos de negócios, como funciona a redação etc, Daniel Paixão pede a palavra e diz que passou a acreditar no sonho de fazer jornalismo depois que a Marco Zero foi até a sua comunidade, a Vila Jacaré, em Maranguape I, numa matéria de Wilfred Gadêlha, para mostrar a realidade não da violência ou dos problemas sociais, mas para falar de cultura.

A matéria era sobre a resistência do rock pesado nas comunidades periféricas e Daniel foi um dos personagens. Ele lembra que, na saída da equipe de reportagem, ele e outras pessoas choraram de emoção pela atenção que receberam e pela possibilidade de serem retratados por um jornalismo que não olha para aqueles territórios como espaços de falta, de sofrimento, mas como local de produção e resistência cultural.

Depois desse relato, ele pergunta: Qual o sonho da Marco Zero? Aonde vocês querem chegar? Respondi a ele o que transcrevo aqui: Nosso sonho Daniel Paixão tinha acabado de realizar. Queremos exatamente isso: fazer a diferença na vida das pessoas, inspirar, mostrar realidades possíveis…

Sobre aonde queremos chegar, respondi que queria que a Marco Zero continuasse a existir mesmo quando não estivéssemos mais aqui e, quem sabe, ele não seria o próximo presidente da MZ daqui a alguns anos?

Mas, agora, complemento a resposta por aqui: Aonde a Marco Zero quer chegar? Até a Vila Jacaré, em Maranguape I, já tá bom!

* Carol Monteiro é presidenta do Conselho Diretor da Marco Zero Conteúdo

Leia também: 2019 em fotos

2)
Mais próximo do público

Em 2019, realizamos uma série de ações para aumentar o diálogo e a interação com nossos leitores e assinantes.

Newsletter semanal

Os assinantes da newsletter passaram a receber, toda sexta-feira, um resumo com tudo aquilo que foi publicado pela Marco Zero na semana, informes sobre nossas campanhas, eventos ou ações. Já chegamos à vigésima edição.

Rede de transmissão

Criamos
uma rede de transmissão no WhatsApp que possibilita aos inscritos
receberem, em primeira mão, os links das nossas reportagens.

Foco nas redes sociais

Agora temos uma repórter focada nas nossas redes sociais (Twitter, Instagram, Facebook e WhatsApp). Com isso, aumentamos nossa presença no mundo virtual, interagindo mais com nosso público. Em 2019, crescemos significativamente no Twitter, passando de 2.632 seguidores, no início do ano, para 6.006 no dia 30 de dezembro. Isso representou um crescimento de 128%.

No Instagram o crescimento foi ainda maior, passando de 2.442 para 13.816. Um aumento de 465%.

Novo site

Em dezembro, depois de quatro anos e meio no ar, mudamos nosso site. Atualizamos algumas funções, melhoramos a navegabilidade (principalmente nos celulares), aperfeiçoamos as ferramentas de SEO, criamos novas sessões, entre outros ajustes. Tudo com um design mais limpo e funcional. O novo site foi desenvolvido pela InspirAda na Computação, um coletivo formado só por mulheres e que realizam um trabalho muito legal.

3)
Digas com quem andas

A Marco Zero manteve-se firme, em 2019, na defesa do preceito de que o conhecimento deve ser uma construção compartilhada e colaborativa. Mantivemos as já existentes e estabelecemos novas parcerias estratégicas. Nos juntamos com muita gente boa para tirar do papel projetos incríveis. Dos frutos dessas parcerias, destacamos:

Ocupa Política

Depois de passar por Belo Horizonte e São Paulo, o encontro Ocupa Política chegou ao Recife entre os dias 29 de agosto e 1 de setembro. O Ocupa Política é uma articulação nacional que parte de uma ideia de democracia radical: que as forças sociais, já mobilizadas, sejam seus próprios representantes na política institucional. A ideia do evento no Recife foi inspirar novas candidaturas e trocar experiências entre os 16 mandatos já existentes que fazem parte da articulação. A Marco Zero, além da cobertura jornalística, participou do processo de captação e gestão dos recursos para a realização do evento.

Festival 3i

Passamos a fazer parte do conselho curador do Festival 3i – Jornalismo Inovador, Inspirador e Independente. O conselho, que já contava com sete organizações, agora é composto por 13 veículos nativos digitais brasileiros. Além de nós, ((o)) eco, Congresso em Foco, ÉNois, Poder360 e Projeto #Colabora juntaram-se a Agência Lupa, Agência Pública, Jota, Nexo, Nova Escola, Ponte e Repórter Brasil para organizar o festival. Neste ano, o Festival 3i aconteceu nos dias 18, 19 e 20 de outubro no Rio de Janeiro.

Que pais é esse?!

O seminário Que País é esse – Comunicação e Política em uma Democracia em Crise, que aconteceu entre 1 e 3 de outubro, no auditório do Centro de Ciências Sociais Aplicadas da Universidade Federal de Pernambuco, foi uma realização dos programas de pós-graduação em Comunicação (PPGCOM) e de Sociologia (PPGS) da UFPE, do Programa Fora da Curva e da Marco Zero Conteúdo. No seminário, foram abordadas as implicações políticas, midiáticas e jurídicas da Vaza Jato, a proliferação do discurso de ódio e os desafios postos à comunicação pública e ao jornalismo independente.

Jornalismo e Periferia

O projeto foi uma iniciativa da Associação Brasileira de Jornalismo Investigativo (Abraji) e, no Recife, a parceria foi com a gente e com o coletivo Caranguejo Uçá. Os participantes do curso, que aconteceu entre os dias 4 e 6 de outubro, puderam compartilhar técnicas e ferramentas de jornalismo para fortalecer o trabalho de reportagem nas periferias e áreas de maior vulnerabilidade.

O projeto Intercâmbios Latinos – Jornalismo e Direitos Humanos

A
iniciativa – construída pelo Coletivo Papo Reto e pelo projeto
Aurora Notícias sobre Direitos Humanos na América Latina – levou,
em maio, um grupo de jornalistas brasileiros, do qual a jornalista
Débora Britto participou como integrante da Marco Zero Conteúdo,
para conhecer a realidade de El Salvador e, de lá, observar o
panorama da comunicação comunitária centroamericana.

4)
Siga o dinheiro

A exemplo do que vem acontecendo desde 2017, quando nos tornamos sustentáveis financeiramente, nossa principal fonte de receitas veio do apoio institucional da Fundação OAK, uma organização internacional que tem como missão apoiar questões de interesse global, social e ambiental. O balanço detalhado, com todas as receitas e despesas, será publicado no nosso site no início de 2020. Quem quiser, pode ver nossos balanços anteriores aqui.

AUTOR
Foto Sérgio Miguel Buarque
Sérgio Miguel Buarque

Sérgio Miguel Buarque é Coordenador Executivo da Marco Zero Conteúdo. Formado em jornalismo pela Universidade Católica de Pernambuco, trabalhou no Diario de Pernambuco entre 1998 e 2014. Começou a carreira como repórter da editoria de Esportes onde, em 2002, passou a ser editor-assistente. Ocupou ainda os cargos de editor-executivo (2007 a 2014) e de editor de Política (2004 a 2007). Em 2011, concluiu o curso Master em Jornalismo Digital pelo Instituto Internacional de Ciências Sociais.