Crédito: Armazém Memória

A campanha eleitoral de 2018 ainda nem tinha começado quando comecei a ler os ensaios do livro O que resta da ditadura, uma coletânea de artigos de vários autores organizada pelos professores de Filosofia Edson Teles e Vladimir Safatle. O título do livro é quase autoexplicativo: a obra se propõe a analisar como tantas ferramentas de repressão se mantiveram e se fortaleceram sob a democracia reinstaurada em 1985 e, principalmente, mesmo após várias experiências de governos federais e estaduais de esquerda e centro-esquerda.

Há um capítulo específico sobre a Polícia Militar. Lembro que comecei a leitura por ele. Meu interesse pelo assunto existe desde que, na primeira metade dos anos 1990, vivi uma das minhas primeiras e mais ricas experiências como jornalista como repórter da editoria de polícia em um jornal de São Paulo.

Aos vinte e poucos anos de idade, acompanhando episódios de violência policial e a investigação de homicídios de homens jovens, negros ou pardos cujos responsáveis eram policiais fardados, percebi o abismo entre a dinâmica vida social “civil” e a engessada visão de mundo dos policiais.

Em 2021, como editor da Marco Zero, ao entrevistar o pesquisador da USP, Adilson Paes, tenente-coronel reformado da PM paulista, fiquei sabendo que existe um nome para o abismo que enxergava no início da vida profissional: é a subcultura policial.

Em quase três décadas, pouca coisa mudou nas Polícias Militares brasileiras. Os recursos tecnológicos em comunicação e armamento não mudam o fato de que a formação intelectual e psicológica dos policiais é praticamente não só do início dos anos 1990. Mais grave: é a mesma desde o AI-5, que legalizou a mais sanguinária fase da ditadura e consolidou a militarização da segurança pública.

Invariavelmente, episódios de violência levantam vozes que mencionam “despreparo” dos policiais envolvidos. Esses críticos não poderiam ser mais ingênuos, pois a verdade está no pólo oposto: a PM é preparada para atuar contra seus inimigos. Nós, os civis, preferencialmente os pretos, mas também os diferentes, os que teimam em expressar inconformismo. Tais episódios de violência são, quase sempre, justificados pelos comandantes como sendo “fatos isolados”. Eles mentem e a sociedade aceita, fingindo acreditar.

Os governos de Fernando Henrique, Lula e Dilma Rousseff aceitaram esse estado das coisas como se fosse algo natural ou imutável. No âmbito estadual, os cursos de “direitos humanos” oferecidos aos policiais são tão folclóricos como inúteis, pois não há registro de propostas ou tentativas de reformar e renovar profundamente os conceitos que norteiam a formação dos policiais.

A questão nunca foi enfrentada, agora governadores e democratas se vêem diante de um monstro que foi alimentado pela própria omissão.