Crédito: Arnaldo Sete/MZ.

* Por Myrella Santana

Uma pesquisa realizada pela Alma Preta Jornalismo apontou que grande parte das parlamentares que se autodeclararam pardas em 2018 estão como brancas em 2022. Dizer que tudo é culpa do racismo estrutural e institucional é insuficiente. Precisamos culpabilizar e responsabilizar, principalmente, dando nome aos responsáveis. Hoje, quero falar diretamente para os partidos.

Desde o meu primeiro artigo questiono os partidos de esquerda. Primeiro, porque os de direita e centro não interessam pra gente quando falamos da luta pelo enfrentamento ao racismo e tudo o que ele condiciona. Segundo, porque é inadmissível que partidos que se dizem antirracistas e progressistas não tenham o mínimo de respeito com a luta e a história das mulheres negras que se dispõem a construir esses espaços e colocar seus corpos na disputa eleitoral. Sueli Carneiro fala: entre esquerda e direita, eu continuo sendo uma mulher negra.

Ao longo dos três textos anteriores, destaquei coisas que valem a pena ser rememoradas. Primeiro, é inadmissível que nos condicionem sempre ao lugar de vice. Segundo, não queremos apenas mulheres negras nas Casas Legislativas e no Poder Executivo de todo o Brasil. Queremos mulheres negras comprometidas com a emancipação coletiva da população negra em diáspora. E, por último, se fosse apenas por vontade, o Brasil já teria uma mulher negra travesti presidenta do país. Precisamos de condições e compromissos coletivos para disputar.

No final da semana passada, foram feitos os registros das candidaturas no site do TSE. A partir daí, conseguimos ver foto de urna, CNPJ, grau de instrução, ocupação e autodeclaração racial de todos os candidatos de todos os partidos. Disse que estaríamos atentas e estamos. Aos partidos de esquerda do estado de Pernambuco: até quando vocês vão deixar que mulheres brancas se autodeclarem pardas com a justificativa de tática eleitoral?

Ser antirracista é uma escolha, entre ser ou não ser, ponto. A partir do momento que você se diz antirracista, você não pode escolher qual situação é mais conveniente para que você coloque em prática. Isso não é antirracismo, é conveniência. Parem de achar que isso é um detalhe ou apenas um recorte. Raça é ponto de partida. Chamar isso de estratégia, é a materialização do racismo em uma de suas formas mais perversas e violentas. E aí eu pergunto, a esquerda está interessada em outra coisa, além de derrotar o governo Bolsonaro?

Essa democracia que precisa ser salva, resgatada, nunca existiu para a população negra. Mesmo quando o país estava em suas melhores condições, tinha gente na pior e essas pessoas SEMPRE tiveram cor. Não me interessa a unidade da esquerda, porque o combate ao racismo nunca foi prioridade pra vocês. Sempre temos que celebrar pequenos avanços, fruto de muita luta do movimento negro brasileiro. Sempre pequenos passos dado por nós. Não lembro em toda história um dia se quer que a esquerda esteve em unidade para combater o racismo.

Essa semana eu ouvi que é um absurdo que, nessa altura do campeonato, nós estejamos nos colocando uns contra os outros. A justificativa é que tudo pode ser resolvido no dia 1de janeiro quando o presidente Lula tomar posse, o que eu espero que aconteça. Mas que entendam que espero porque é o que temos e não porque é o ideal. Em todas as eleições temos urgências que a única possibilidade de resolução é a partir de uma pessoa branca. Até a terceira via é o nome de um homem branco que perde mais tempo preocupado com os outros candidatos do que em fazer a autocrítica de como o Brasil, um país que tem a maioria da sua população preta e parda, só pode ser salvo por um homem branco.

Nesses últimos quatro anos, vimos a intensificação gradativa de desigualdades, mas elas sempre existiram para a população negra. Como Mônica Oliveira, da Rede de Mulheres Negras de Pernambuco, falou na leitura da carta compromisso na última sexta-feira (12/08), no “Encontro Mulheres Negras do Nordeste: Enegrecendo os Parlamentos”: nós, mulheres negras, somos parte da solução. Esse encontro reafirmou que o meu compromisso é contribuir no combate ao racismo e lutar para que a população negra viva da melhor forma possível neste país. Dentro do movimento de mulheres negras, ao qual integro, aprendi que as lutas se interseccionam e que não lutamos por um mundo bom apenas para nós, mas para todas as pessoas.

Os partidos precisam se responsabilizar por todas as pedras que também colocam no nosso caminho. É preciso compromisso contínuo e se a branquitude não se constranger, estaremos aqui para dar nome a todas essas estratégias de distribuição do fundo partidário, prioridades, dentre tantas outras, à qual eu chamo de racismo. Desde 1.500 construímos ferramentas para nos mantermos vivas. O encontro de sexta-feira só reafirmou isso. Apesar da fraude autorizada nas cotas e autodeclarações raciais no registro das candidaturas, apesar de toda a violência nas estruturas do partido, apesar do abandono, vamos continuar caminhando.

Hoje começa o período eleitoral, e a certeza que eu tenho é que o movimento de mulheres negras do estado, no qual peço licença para citar a Rede de Mulheres Negras de Pernambuco, tem criado tecnologias e construído junto a mulheres negras não só de Pernambuco, mas de todo o Nordeste, caminhos de possibilidades. Subvertendo toda a ordem, temos várias candidaturas de mulheres negras que fizeram uma pré-campanha linda e farão nesses 45 dias um trabalho valoroso, porque é isso que viemos fazendo durante todos esses anos. Precisamos de mulheres negras nos espaços de poder, porque elas sabem construir e fazer política de forma possível e nunca antes vista. Gostaria de saudar iniciativas como a campanha Eu Voto em Negra, que fez um trabalho lindo e potente de formação e dando condições mínimas para que as candidatas negras do Nordeste pudessem disputar.

E aos partidos, não vamos mais admitir que vocês utilizem o corpo político, história e luta de tantas mulheres negras que estão aí construindo com vocês para falar que não são racistas. Todo mundo tem a sua tarefinha de casa pra fazer e nós estaremos de perto nos certificando que vocês estão fazendo a de vocês. E para todas as mulheres negras candidatas, saúdo a coragem e luta de todas vocês. Como diz Bell Puã: só tu sabe o corre, pretinha, então ouse. Ogunhê!

*  Myrella Santana é graduanda em Ciência Política na Universidade Federal de Pernambuco. Integra a Rede de Mulheres Negras de Pernambuco e a Articulação Negra de Pernambuco. É Diretora Operacional e pesquisadora na Rede Internacional de Jovens LBTQIA+.

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