Foto: Breno Esaki/Agência Saúde

O dia começou com uma bomba: a repercussão da decisão infundada do Ministério da Saúde, publicada na noite de ontem, de simplesmente suspender a recomendação da vacinação de adolescentes sem comorbidades com mais de 12 anos. Em uma nota técnica com erros de informação, o Ministério da Saúde afirma que, entre outras coisas, a Organização Mundial de Saúde não recomenda a imunização de criança e adolescente e de que os “benefícios (da vacinação nessa faixa etária) não estão claramente definidos”. Como era esperado, houve uma enxurrada de reações contrárias da comunidade médica e científica.

Alagoas, Bahia e Minas Gerais são alguns dos estados que já anunciaram que suspenderam a vacinação de adolescentes. São Paulo afirmou que vai manter. Pernambuco também. A não ser que a Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa) emita um parecer técnico contra a vacinação desse grupo, o que é improvável, já que foi a própria agência quem autorizou a vacina Pfizer para o grupo acima de 12 anos.

Em coletiva nesta quinta-feira, o secretário estadual de Saúde, André Longo, afirmou que foi pego de surpresa com o que chamou de “anúncio infeliz do Ministério da Saúde”. Em seguida, ele anunciou que “vamos aguardar a posição da Anvisa. O próprio Ministério da Saúde afirma que foram vacinados 3,5 milhões de adolescentes no Brasil e em apenas 1,5 mil foram relatados efeitos adversos (o que representa 0,042% do total). A grande maioria de reações leves. Há um caso suspeito de reação mais grave, que ainda não pode ser atribuído à vacina, é preciso ser investigado”, afirmou Longo.

Em Pernambuco, mais de 168 mil adolescentes já foram vacinados com a primeira dose de Pfizer, o que corresponde a apenas 15% do total. A vacina norte-americana é a única autorizada no Brasil para esta faixa etária. Um outro dado do MS é de que 93% das 1,5 mil reações adversas notificadas foram em adolescentes que, por erro, não tomaram Pfizer, mas sim imunizantes de outras marcas.

Em entrevista também realizada durante a tarde, o ministro Marcelo Queiroga não conseguiu justificar tecnicamente a decisão, que vai contra o que a ciência, até agora, evidencia. Ele falou sobre a alta probabilidade crianças e adolescentes não terem agravamento da doença. Mas esqueceu que vacinação é saúde coletiva e de que um a cada dez adolescentes que pegam o coronavírus desenvolvem a chamada “covid longa”, doença debilitante que perdura por meses. Com a variante delta, se calcula que a porcentagem de vacinados deve superar os 80% da população, o que só é possível com a vacinação também dos adolescentes.

Queiroga também vetou a segunda dose para esse público. “Aqueles sem comorbidades, independente da vacina que tomaram, param por aí e não tomam outra, até por uma questão de cautela”, disse.

Atualização: Na live de Bolsonaro na noite desta quinta-feira, Queiroga confirmou que retirou os adolescentes sem comorbidades do Plano nacional de Imunização (PNI) após conversas com o presidente. “O senhor tem conversado comigo sobre esse tema e nós fizemos uma revisão detalhada no banco de dados dos Datasus…”, diz, até ser interrompido por Bolsonaro. O presidente, então, diz que conversas não são imposições. “Eu levo para ele o meu sentimento, o que eu leio, o que eu vejo, o que chega ao meu conhecimento”, disse Bolsonaro.

Secretários pedem explicação à Anvisa

Chamou atenção também o fato de que a suspensão foi uma decisão do Ministério da Saúde e não da Anvisa, que é o órgão técnico que autoriza ou não os imunizantes no Brasil. Para o secretário André Longo, a decisão do Ministério não foi clara ao evidenciar os verdadeiros motivos – que seria uma possível falta de vacinas para começar a dose de reforço dos idosos acima de 70 anos imunossuprimidos.

“O Conselho Nacional de Secretários de Saúde (Conass) e o Conselho Nacional de Secretarias Municipais de Saúde (Conasems) fizeram um documento para a Anvisa, que regulamenta a vacinação, solicitando informações. A vacina da Pfizer tem registro definitivo da Anvisa no Brasil. Pernambuco e a maioria dos estados vão continuar com a vacinação dos adolescentes”, afirmou Longo na coletiva. A Anvisa ainda não se pronunciou.

O médico pediatra Eduardo Jorge da Fonseca Lima, representante da Sociedade Brasileira de Imunizações em Pernambuco, também estava presente na coletiva e pediu tranquilidade às famílias e responsáveis. Ele reforçou que não existe recomendação técnica da OMS contra a aplicação de vacinas em adolescentes. Na verdade, seria uma questão moral: de que idosos e adultos tenham prioridade, em locais em que não há vacinas para todos.

“A segunda dose é fundamental e todos os adultos acima de 18 anos devem tomar as duas doses e os idosos devem completar o reforço. Se houver vacinas disponíveis, da Pfizer, é autorizada pela Anvisa a aplicação em adolescentes. E pelos Estados Unidos e por grande parte dos países da Europa. Como todo medicamento, podem ocorrer reações, a grande maioria leve. Hoje, a orientação é que de que a vacina da Pfizer é segura para adolescentes. Estamos aguardando a Anvisa e a reunião amanhã do comitê (de imunização de Pernambuco), mas com tranquilidade do que estamos falando. Há evidências de bases sólidas: a vacina da Pfizer foi testada e aprovada para adolescentes”, afirmou.

Atraso nas segundas doses de AstraZeneca

Completando oito meses do início da campanha de vacinação contra a covid-19 o Brasil ainda não tem nem 37% da população imunizada. Apesar dos números de mortes e internações terem caído, o patamar segue alto, com cerca de 600 mortes por dia. Antes da pandemia, o Brasil tinha uma média de 14 mortes diárias por Síndrome Respiratória Aguda Grave (SRAG).

Atrelada à lentidão, o Brasil vive uma inconsistência na distribuição de doses. Hoje, 40 cidades de Pernambuco estão sem a vacina AstraZeneca para serem aplicadas em quem já passou do (longo) prazo de 90 dias até a segunda dose. A falta, que acontece em diversos estados, se deu pela falta de insumo farmacêutico na Fiocruz, que produz as vacinas.

A lacuna de cerca de dez dias na produção gerou um efeito de bola de neve. Hoje, Pernambuco recebeu 47 mil doses da Fiocruz, mas não é suficiente para zerar a fila. Deve receber mais doses ainda nesta semana, já que hoje a Fiocruz entregou mais um lote de 2,3 milhões de doses para serem dividas pelos estados. O secretário afirmou que 740 mil pessoas, segundo o ministério, estão com a segunda dose em atraso em Pernambuco, mas não especificou quantas pessoas esperam pela vacina da AstraZeneca.

Os municípios pactuaram com o estado a realização de um grande mutirão para diminuir o número de pessoas sem segunda dose na semana que vem. O “Dia D” será o sábado, 25 de setembro. “Caso a vacina da AstraZeneca chegue em quantidade razoável até lá, quem recebeu a primeira dose com AstraZeneca vai completar o esquema com a mesma vacina. Se não, usaremos a Pfizer como segunda dose, a partir da próxima semana. De todos os esquemas heterólogos (quando se usa mais de uma marca de vacina), o que tem mais pesquisa e comprovada eficácia é primeira dose de AstraZeneca e a segunda de Pfizer. Não temos a menor dúvida de que esse esquema é seguro e eficaz”, disse.

Ministério da Saúde não envia vacinas para a 3ª dose

A vacinação da terceira dose de idosos maiores de 70 anos, que receberam a segunda dose há mais de seis meses, e de imunossuprimidos deveria ter começado ontem. Porém, o Ministério da Saúde não enviou nenhum novo lote de vacinas. Algumas cidades, com doses a mais, iniciaram a vacinação, como foi o caso do Recife. Outras, como Petrolina, ainda esperam mais vacinas.

“Havia expectativa de doses adicionais, mas não tivemos esse envio”, disse Longo, na coletiva. De acordo com ele, a decisão do Ministério da Saúde de suspender a vacinação de adolescentes pode ter relação com o receio de que não haja doses suficientes para o reforço dos idosos.

“Algumas pessoas passaram atribuir o movimento do Ministério da Saúde (de suspender a vacinação dos adolescentes) ao de falta de vacina. É preciso que haja clareza: suspender de adolescentes, para ter doses para o reforço, mas isso tem que ser feito às claras. Esse ruído na comunicação acaba gerando um ambiente que não contribui para o avanço da vacinação”, afirmou.