Crédito: ilustração Hana Luzia

Em março de 1982, um crime chocou o Brasil e levou ao noticiário nacional as cidades de Floresta e Serra Talhada, no sertão de Pernambuco. O procurador da República Pedro Jorge de Melo e Silva foi assassinado com três tiros de espingarda, à queima-roupa, saindo de uma padaria em Olinda, após comprar pão e leite. Um pistoleiro e três capangas o aguardavam com a encomenda de morte. 

O motivo? Em plena ditadura militar, Pedro Jorge desafiou gente poderosa demais para aquela época investigando o famoso Escândalo da Mandioca. O intrincado esquema de fraude desviou mais de um bilhão e meio de cruzeiros do Banco do Brasil em Floresta, o equivalente hoje a aproximadamente R$ 100 milhões.

Esse crime foi um ponto de inflexão para o Ministério Público Federal (MPF) e marcou o processo de redemocratização do país, ajudando a compor o ambiente em que iria ser eleita e se formar a Assembleia Constituinte, alguns anos depois, em 1987. Pedro Jorge virou um mártir, uma espécie de patrono do MPF. 

Para contar essa história, que, em 2022, completa 40 anos, a Associação Nacional dos Procuradores da República (ANPR) e a Fundação Pedro Jorge lançaram, nesta semana, o podcast Morto pela Causa, uma produção da Trovão Mídia

Quem narra a série, com formato jornalístico em seis episódios semanais, sempre às quintas-feiras, é o jornalista Tonico Ferreira. Ele cobriu o caso na época para a TV Globo, instigado pelo cineasta e documentarista Eduardo Coutinho, já falecido. Tonico foi premiado com uma estatueta do Vladimir Herzog, um dos mais importantes prêmios do jornalismo brasileiro, graças à cobertura do julgamento dos acusados pelo assassinato. O podcast mistura narração e entrevistas atuais com passagens da reportagem feita por Tonico em 1982.

O roteiro é de Raíssa Ebrahim, repórter da Marco Zero. A edição, mixagem e música-tema são de Victor Oliveira, gravado no Estúdio Trampolim, em São Paulo. Quem assina a ilustração da capa é Hana Luzia.

Morto pela Causa está disponível em todas as plataformas de áudio. Clique aqui para acessar todos os links.

Tonico Ferreira gravando o podcast no Estúdio Trampolim (SP). crédito: Estúdio Trampolim

O Escândalo da Mandioca envolveu banco, políticos, militares, advogados, rixas entre famílias e matadores de aluguel em cidades historicamente à violência política e crimes de pistolagem. Com documentos falsos, terras e agricultores fantasmas, os ladrões conseguiam vultuosos empréstimos no Banco do Brasil dizendo que era para plantar mandioca. Mas não existia plantação alguma.

Depois eles ainda diziam que a seca havia destruído as supostas lavouras e assim conseguiam o dinheiro do seguro agrícola federal, o Programa de Garantia da Atividade Agropecuária (Proagro). O ganho então era duplo. Um dos envolvidos era o famoso e temido Major Ferreira, ligado à repressão e conhecido pela violência. Ao todo, 240 pessoas foram indiciadas em um inquérito policial e sete foram acusadas pela morte do procurador.

Ex-seminarista, Pedro Jorge foi assassinado aos 35 anos, deixou esposa, Maria das Graças Viegas, e duas filhas pequenas, Roberta Viegas e Silva, na época com quatro anos, e Marisa Viegas e Silva, com três anos.