Crédito: Débora Britto/MZ Conteúdo

Costuma-se dizer que as mulheres negras estão na base da pirâmide social – desde a colonização, são exploradas por quem está acima e sustentam uma complexa e engenhosa estrutura que beneficia, desde a época das casas grandes até agora, com os apartamentos em condomínios de luxo, uma elite que é branca, em grande parte masculina, e pouco criativa.

Em 2016, nas últimas eleições municipais, as mulheres negras eram mais de 27% da população brasileira, segundo dados do PNAD Contínua. Para 2020, podemos contar que essa estatística deve crescer. À medida que mais mulheres passam a se reconhecer como negras, a projeção das vozes e necessidades dessa parcela significativa e base da sociedade brasileira ganha força. Não é a toa que não apenas teremos mais eleitoras, como nesse pleito municipal já temos um aumento de candidaturas de mulheres negras.

Só em Pernambuco, são 3.997 negras concorrendo para as vagas de vereança e prefeita. Os dados do Tribunal Superior Eleitoral (TSE) ainda contam outra história: entre as mulheres autodeclaradas pretas o crescimento foi maior: de 440 no pleito anterior, agora são 668. Entre as pardas, o salto foi de 2.893 para 3.3.29.

Esse fenômeno é acompanhado de uma série de ações, entre elas a determinação do STF de que os incentivos para candidaturas negras devem valor ainda neste ano, mas não podemos cair em uma análise apressada e superficial. As mulheres negras vêm se organizando, sistematicamente, para ocupar a política há pelo menos cinco anos. Desde a eleição de Marielle Franco, no Rio de Janeiro, um vibrante geração de mulheres negras ativistas formadas politicamente em organizações territoriais, feministas e movimentos sociais de base vem construindo os caminhos para disputar e ocupar espaços casas legislativas. Muitas dessas mulheres foram eleitas vereadoras em 2016, outras compõem mandatos conquistados nas eleições de 2018 e outras estiveram do lado dos movimentos sociais durante todo este tempo.

Agora, em 2020, mais fortalecidas, elas estão em maior número concorrendo ao executivo municipal. É o caso de Benedita da Silva (PT) e Renata Souza (Psol), que concorrem à prefeitura do Rio de Janeiro, Áurea Carolina (Psol), em Belo Horizonte, e Kátia Cunha (Psol), em Goiana, município que pela primeira vez tem uma candidata mulher concorrendo ao cargo.

O fato é que passamos a ver mais mulheres negras na política, em palanques, dentro de espaços institucionais que muitas e muitos de nós sequer reparávamos. A instituição “políticos” brasileiros vem acompanhada de uma imagem difusa, padronizada, branca, de terno e distante da realidade de grande parte da população. As mulheres, especialmente as mulheres negras, colocam nas telas, em alta definição, de que são feitas as casas legislativas: dentro dos espaços anestesiados, as cores e os corpos dessas mulheres criam um ruída naquela estrutura e mudaram a percepção de que dentro daquelas paredes também há lugar para nós. É o que a pesquisadora e articuladora política em gênero e raça Ingrid Farias chama de “mudança da estética política” no Brasil.

Os desafios para confirmar a candidatura, chegar às urnas e ser eleita ainda são muitos – vão desde os partidos ao racismo institucional, e serão abordados em reportagens que publicaremos no Adalgisas. Mas os aprendizados de construção coletiva, solidária, feminista e antirracista das mulheres negras ensinam a todos e todas.

Elas seguem os passos de quem veio antes e já estão construindo um futuro com justiça para todos. Por isso, convidamos você a conhecer uma candidata negra na sua cidade.