Em 2019, Amanda venceu o Prêmio Comunique-se na categoria “mídia escrita”. Crédito: reprodução/Instagram

Por Rosiane Correia de Freitas*

Neste primeiro dia de março o Plural está publicando uma extensa reportagem sobre uma mulher que denunciou um estupro e acabou proibida pela Justiça de falar sobre o assunto. A mulher, no caso, é a jornalista Amanda Audi, atual diretora-executiva do Congresso em Foco.

A reportagem contou com o apoio e a republicação de oito veículos em todo país.

Amanda registrou em 6 de outubro de 2019 um Boletim de Ocorrência por estupro acusando o economista Alexandre Andrada, professor da Universidade de Brasília (UnB). A investigação sobre o caso foi arquivada a pedido do promotor de Justiça Fábio Barros de Matos às 14h37 do dia 9 de julho de 2020.

Conheci Amanda muito antes de 2019, quando ela foi colega de trabalho do Rogerio Galindo na Gazeta do Povo. Nos anos seguintes nos encontramos vez ou outra em eventos de jornalismo na cidade, eu como professora de jornalismo na Universidade Positivo, ela como palestrante.

Esse histórico, de início, me manteve longe do caso. Apurar situações como esta é difícil. Mais difícil ainda quando envolve pessoas que conhecemos. Há ainda a chance real do Plural ser acionado judicialmente pela decisão de realizar e publicar este material.

A decisão de apurar e eventualmente publicar uma reportagem sobre o caso veio quando a Justiça determinou que a Amanda não se manifestasse sobre o caso e quando, logo depois, a Folha de São Paulo publicou um artigo de Andrada com sua versão dos fatos.

Em quase todo caso de denúncia de estupro supostamente cometido por um conhecido da vítima há uma situação em que não há testemunhas do fato e o relato se dá somente pela perspectiva de quem acusa e de quem nega o crime.

Só Amanda e Alexandre sabem o que aconteceu no apartamento dela em 29 de setembro de 2019. E é perfeitamente possível que cada um tenha uma versão diferente do que aconteceu. Mas a Folha permitiu que apenas ele tivesse espaço para contar a dele sem edição, sem filtro (diferente da reportagem que o jornal havia publicado sobre o caso), sem ponderações.

Como jornalista e como cidadã vejo com preocupação o uso da Justiça para silenciar pessoas e jornais. Um juiz toma tal decisão para evitar o risco de danos ao acusado. Mas e o dano para a busca da verdade?

Melhor do que calar quem acusa não seria dar ao caso uma chance real de ser investigado? É nisso que o Plural – e eu – acreditamos. Não é fácil. É doloroso para os envolvidos. Mas em algum momento chegaremos mais perto da verdade.

Isso não é possível se só uma das versões pode se tornar pública. Se só tiver direito de se manifestar. É esse o caminho que percorremos aqui, em reportagem de Jéss Carvalho. E que o Plural irá percorrer sempre, todo dia. Porque a vida é complexa, mas não há melhor caminho do que o revelado pela luz do Sol.

* Rosiane Correia de Freitas é jornalista formada pela UFPR e fundadora do PLURAL.

Como Amanda Audi denunciou um estupro e perdeu o direito à própria voz