Anamaria Faria Carneiro diz que o atendimento psicológico a pacientes com HIV em Pernambuco está basicamente restrito ao momento do diagnóstico e que falta pessoal para o acompanhamento sistemático, individual e em grupo. Crédito: Arquivo Pessoal

Nos últimos cinco anos, Pernambuco registrou 14.538 novos casos de infecção por HIV, sendo 65% em pessoas com idades entre 20 e 39 anos, segundo dados da Secretaria Estadual de Saúde. No mundo, aponta a Unaids, só em 2019 foram mais de 1,7 milhão de novos infectados pelo vírus que pode provocar a Aids.

A velocidade com que esse contingente vem crescendo é acompanhada pela ciência, que cada vez mais tem oferecido tratamentos medicamentosos eficazes para reduzir e, na maioria dos casos, suprimir a letalidade do vírus. No entanto, o cuidado com a saúde mental não segue o mesmo ritmo e o resultado tem sido desastroso para os soropositivos.

Sem o apoio necessário, muitas pessoas que convivem com o HIV deixam de buscar o tratamento médico por medo de sofrer discriminação, como mostrou o Índice de Estigma e Discriminação em relação às pessoas vivendo com HIV/Aids. O estudo inédito no Brasil foi feito no Recife e em mais seis capitais pela Unaids, Gestos e PUC-RS com o apoio do Pnud.

“Há uma insuficiência de recursos humanos na rede de atenção à saúde mental das pessoas vivendo com HIV/Aids. Nos serviços especializados, o quantitativo [de psicólogos] é pequeno, não suporta a demanda”, afirma a psicóloga Anamaria Faria Carneiro.

Em entrevista à Marco Zero Conteúdo, Anamaria, que é conselheira do Conselho Regional de Psicologia de Pernambuco 2ª Região (CRP-02), também explica como a pandemia de Covid-19 poderia ter sido uma oportunidade para o fortalecimento da rede de saúde mental, mas expôs ainda mais a precariedade do sistema.

Qual a sua avaliação em relação às ações de prevenção ao HIV e à Aids, e ao cuidado aos pacientes infectados pelo vírus?

Uma das estratégias para a diminuição de novos casos de infecção pelo HIV e de Aids, e também dos estigmas e preconceitos que essa população sofre, é a informação. Quanto mais falamos do assunto, seja relacionado à medicação, formas de prevenção, saúde mental ou qualquer outro tema correlato, melhor. Mas o que a gente vem acompanhando é a diminuição das campanhas públicas que falam sobre o HIV para além do mês de dezembro. Quando há alguma, ela fica restrita para grupos específicos, o que é muito problemático. Pesquisas já comprovaram que para o HIV/Aids não existe mais grupo de risco, o que vemos é o aumento de casos em mulheres, heterossexuais em relacionamento estável.

Então na sua opinião além de menos campanhas de prevenção e incentivo ao tratamento dos infectados as que ainda são feitas erram na estratégia?

Campanhas limitadas a períodos como o Carnaval e a públicos específicos como aconteciam nas décadas de 1980 e 1990 só reforçam o estigma, enquanto o restante da população que, de fato, tem visto crescer o número de casos ano após ano, fica sem informação adequada.

Estudo inédito divulgado este mês pela Unaids, Gestos, PUC-RS e Pnud mostrou que quase 65% das pessoas vivendo com HIV/Aids sofreram discriminação e boa parte delas deixaram de procurar o tratamento por medo do estigma. O que esses dados revelam sobre a rede pública de saúde mental?

O que nós profissionais da psicologia percebemos é que há uma insuficiência de recursos humanos na rede de atenção à saúde mental das pessoas vivendo com HIV/Aids. Nos serviços especializados, o quantitativo [de psicólogos] é pequeno, não suporta a demanda. Sabemos que mais de 50% dessas pessoas desejam o acompanhamento psicológico, mas na ponta elas não vão encontrar. O que há, falando aqui de Pernambuco, são psicólogos fazendo um serviço de acompanhamento pontual, muitas vezes restrito àquele primeiro momento do diagnóstico. O que esses pacientes necessitam é de um atendimento constante, semanal, seja individual ou em grupo, e há muitos anos apontamos essa deficiência.

Estigma contra pessoas com HIV compromete tratamento e expõe rede pública de saúde

Os governos Federal, Estadual e os municipais alegam que têm uma rede de saúde mental com centros especializados. Não é suficiente?

Nos anos 2000, de fato, houve uma ampliação da rede multidisciplinar e interdisciplinar para atender pacientes com HIV ou doentes de Aids a partir de uma série de cuidados, inclusive aqui no Recife. A estrutura pode até existir ainda, mas está sem equipe suficiente. Enquanto categoria profissional que trabalha diretamente com a saúde mental, o que nós reforçamos é que o sistema de saúde carece de uma rede mais robusta e completa.

A pandemia do novo coronavírus enfraqueceu ainda mais essa rede?

[A pandemia] era uma oportunidade para incrementar a rede de saúde mental, pois essas pessoas estão ainda mais em risco. São pacientes duplamente marcados em seus corpos, primeiro pelo HIV, que sem tratamento retira as defesas do corpo e, segundo, pela Covid-19. E o que o poder público fez? Nada. Não aconteceram investimentos nessa área de apoio. Era preciso pelo menos dobrar a capacidade de profissionais de psicologia e o que vimos foi uma redução nos quadros com o afastamento dos psicólogos do grupo de risco ao coronavírus sem a reposição. Mais uma vez, os soropositivos e pessoas com outras condições de saúde precisaram recorrer às faculdades que oferecem atendimento, inclusive, on-line a preços baixos. Em outros casos, as entidades da sociedade civil que militam nessa área acabaram tendo que cobrir de novo a ausência do Estado.

Qual o impacto da falta da rede de saúde mental na vida de uma pessoa vivendo com HIV/Aids? E como cada um pode ajudar a minimizar esse problema?

As pessoas diagnosticadas com HIV, assim como pacientes vítimas de doenças crônicas, lidam com um processo de luto, pois há a morte do antigo corpo. Esse processo de perda precisa ser vivenciado e só um trabalho de saúde mental pode devolver o chão a essa pessoa. O diagnóstico vem acompanhado de muitas informações sobre o vírus, tratamento, riscos, enfim uma gama de assuntos, durante esse processo o indivíduo precisa elaborar seus sentimentos para retomar a vida. A palavra para todos, sociedade, poderes públicos e famílias é acolhimento. É preciso acolher essa pessoa, o que significa não julgar, respeitá-la e ajudá-la a fortalecer os vínculos familiares e comunitários. Ao mesmo tempo, fica para todos nós assumirmos a luta pelo fortalecimento do Sistema Único de Saúde (SUS), que vem sendo tão atacado nos últimos tempos. Que a gente não desista e ajude a ecoar essas vozes que têm seus direitos e precisam ser respeitados.