Crédito: Equipe HBL

Foi um fim de semana de caos no Hospital Barão de Lucena, uma das três emergências de porta aberta especializadas em pediatria no Recife. Em certo momento, a área de observação e de linha vermelha, que tem capacidade para 15 crianças, contava com 33, algumas em estado grave, todas dividindo o mesmo ambiente.

A gota d’água foi a morte de um bebê de pouco mais de dois meses, que já chegou em estado grave. Não havia UTI de imediato e o bebê faleceu antes da solicitação por um leito ser atendida. A equipe da pediatria reagiu. Cansados das cobranças sem sucesso feitas à direção do hospital, foram para a imprensa. Várias matérias em sites e canais de televisão mostraram a situação alarmante do hospital, referência para Síndrome Respiratória Aguda Grave (SRAG) e covid-19 em crianças.

Alertada desde o final do ano passado sobre o risco de colapso por causa da mistura explosiva da sazonalidade das doenças respiratórias mais o recrudescimento da pandemia da covid-19, a Secretaria Estadual de Saúde só conseguiu abrir mais 10 leitos de UTI pediátrica no Instituto Materno Infantil (IMIP) na segunda-feira, 15 de março, logo após o fatídico fim de semana. Poucos dias depois, a ocupação já beira a metade.

No mesmo dia, chegaram também alguns insumos e medicamentos que estavam em falta no Hospital Barão de Lucena. E a Secretária de Saúde emitiu uma nota afirmando que Pernambuco conta com 143 leitos voltados para bebês e crianças acometidas com síndrome respiratória aguda grave (SRAG), sendo 51 leitos de UTI. “As estratégias para ampliação de leitos para crianças têm sido implementadas desde o final do ano passado, com abertura de vagas e reestruturação da rede, além de diálogo permanente com as entidades de classe sobre o cenário epidemiológico do novo coronavírus”, diz a nota, que também orienta à população a procurar as UPAs em casos leves.

A equipe do hospital novamente reagiu. Médicas, enfermeiras e técnicas de enfermagem emitiram uma nota, que soa mais como um desesperado desabafo, que deixa transparecer a exaustão da equipe: “Falta medicação e insumo sim, principalmente os de maior necessidade na hora de uma emergência. E só sofrem reparos pontuais quando passamos por situação de risco para o paciente e a equipe GRITA pedindo ajuda! O HBL não funciona de forma adequada. Ele tem padrão de tapar o sangramento com o dedo… ou tapar o sol com a peneira como diz o dito popular! “, afirma a nota.

Fechamento da urgência pediátrica da Maternidade Barros Lima sobrecarregou HBL (Crédito: equipe HBL)



Um dos pontos levantados pelos profissionais é o fechamento da urgência pediátrica da Maternidade Barros Lima para dar lugar a leitos de covid-19 para adultos. A Covid-19, por ora, parece não ter tanta demanda pediátrica. A SES diz que “dos 164 pacientes pediátricos com sintomas respiratórios atendidos no mês de fevereiro, apenas 6,5% teve resultado confirmado para Covid-19”.

A equipe, porém, rebate: “Não importa se é virose da época ou covid-19, o problema é ficar grave, morrer ou não! Os indicadores expressam números totais. Na vida real, esses números se concentram em picos de atendimento que, pelo espaço físico pequeno, material e insumos – há anos defeituosos e antigos e com manutenção precária e insuficientes para a demanda – , esses 143 leitos voltados para bebês e crianças não estão dando conta! E nunca deram conta nesse período específico sazonal do ano, não só agora com a pandemia, não! As estratégias para ampliação de leitos para crianças desde o ano passado não tem sido suficiente nessa nova fase da pandemia”, diz a nota.

Uma médica pediátrica que dá plantão no HBL relata uma situação de superlotação, com falta ou má qualidade dos insumos, entre eles monitores e tubos de entubação orotraqueal. “Só temos as máscaras não reinalantes para as crianças porque a equipe de pediatras já fez duas cotas e comprou. “, diz.

Como todo paciente que chega com sintomas respiratórios é considerado suspeito para covid-19, ficam todos juntos no mesmo espaço. “Esse período sempre temos crises de asma e começam as viroses da época, sendo mais comuns os vírus sincicial respiratório e H1n1, porque ainda temos uma parcela das crianças não vacinadas. Essa lotação que estamos vendo traz vários riscos. Com um leito em cima do outro aumentam as chances de contaminação entre os pacientes e seus acompanhantes, além de expor a equipe de funcionários também”, denuncia.

Com as UPAS cheias e o fechamento da Barros Lima – seus profissionais foram remanejados para o Hospital Helena Moura sem que houvesse adaptação ou extensão física daquele local – o HBL está concentrando a maioria dos casos. “Estão chegando alguns casos mais graves, mas é o normal dessa época do ano, mas agora todo estado manda pra um hospital só. Aumentaram de fato um andar, com 20 leitos, mas desde o começo da pandemia esse andar já está lotado. Então, sobra para o pronto socorro. Resumo: o mesmo hospital que virou referência em covid-19, mesmo tendo condições precárias para isso, abre a boca pra dizer que não deixa de atender ninguém, mas a um custo grave na qualidade desse atendimento, colocando as pessoas em risco. E continua recebendo os recém nascidos que vem do interior que não são respiratórios e que precisam de vaga de UTI neonatal”, reclama a médica, cujo nome será preservado essa reportagem.

Temporada de gripes e infecções

De março a junho é comum que vírus respiratórios – como influenza, adenovírus e vírus sincicial – circulem entre crianças. E é comum e esperado que uma parte delas seja sintomática e precise de atendimento hospitalar. É por isso que, há anos, as emergências nesse período fiquem cheias e os atendimentos operem no limite.

Em 2019, por exemplo, foram 6 mil atendimentos de crianças nas emergências da rede estadual por mês. Em 2020, o primeiro ano da pandemia, ocorreu uma situação atípica. Sem aulas e com a mobilidade reduzida exatamente quando seria o início da circulação dos vírus respiratórios, os atendimentos a crianças com problemas respiratórios despencaram: Foram apenas 600 por mês, apenas 10% do total do ano anterior.

Mas 2021 também está sendo um ano atípico. A pandemia da covid-19 elevou o número de crianças em atendimento hospitalar em torno de 20%, como calcula o Sindicato dos Médicos de Pernambuco (Simepe). No Barão de Lucena, a equipe médica estima que apenas 5% dos casos de sintomas respiratórios sejam de covid-19. É um aumento não tão expressivo, mas importante em uma situação que já estava no limite do esgotamento.

Outra diferença está no período em que se iniciaram os atendimentos respiratórios. É sim, em março, que tem início. Mas é um início devagar, com ainda poucos casos. O maior número de atendimentos começa mesmo em abril e se estende até junho. “Por razões que ainda não sabemos, nesse ano começou um mês antes. O que nos deixa bastante preocupados. Estamos neste grau de dificuldade e ainda estamos no começo”, afirma o pediatra intensivista Walber Steffano, vice-presidente do Simepe.

Um dano colateral da pandemia da covid-19 é a dificuldade de abrir novos leitos, seja para qual especialidade for. Um ponto crítico é que, na pediatria, há uma histórica falta de profissionais especializados tanto na equipe médica quanto na de enfermagem e auxiliares. “Estamos com equipes de enfermagem que nunca foram treinadas para parada cardíaca. É desesperador num momento de gravidade não ter a equipe funcionando preparada”, diz uma médica do HBL.

Steffano comenta que para o trabalho em UTIs essa deficiência é ainda mais severa: “Após as denúncias que fizemos à imprensa, o Governo do Estado providenciou medicações e materiais para o Barão de Lucena e conseguiu colocar os 10 leitos do IMIP para funcionar. Mas já havia cinco crianças intubadas esperando esses leitos. E acredito que até semana que vem já estarão lotados. E não temos profissionais capacitados para uma ampliação muito maior de leitos. Os profissionais estão exaustos, sem ânimo nem condições para pegar mais plantões”.

As UPAS, que deveriam ser a primeira escolha também para casos pediátricos, estão lotadas. “O que temos visto no Barão de Lucena também é um dano colateral do colapso da saúde no estado, por conta da pandemia do coronavírus”, relata Steffano.

Ele afirma que os bebês com menos de seis meses estão apresentando quadros respiratórios mais graves e alerta para as medidas de prevenção para o coronavírus – e que servem também para os demais vírus respiratórios. “Bebês abaixo de seis meses vão para as escolas? Ou saem andando pela cidade? Não, mas os pais se deslocam. Estamos tendo no máximo 20% de casos de covid-19 entre crianças com quadros respiratórios graves internadas em Pernambuco. Mas no meio do caos pediátrico, esses 20% fazem muita diferença”, diz o médico.

Variantes parecem não agravar covid-19 em crianças

Na quarta-feira (17), a Sociedade Brasileira de Pediatria emitiu uma nota técnica para tranquilizar sobre a situação da covid-19 em crianças e adolescentes. “Desde o começo da pandemia falamos que a covid-19 é em sua grande maioria de quadros assintomáticos ou leves em crianças. Esse levantamento da Sociedade Brasileira de Pediatria (SBP) mostra que a situação não mudou, mesmo com as novas variantes circulando pelo Brasil”, explica Walber Steffano.

De acordo com os dados da SBP, a letalidade da doença em crianças está em queda. Quando se comparam as taxas de hospitalizações e de mortes por covid-19 em crianças e adolescentes de 0 a 19 anos (grupos etários que representam mais de 25% da nossa população) no ano de 2020, com as respectivas taxas registradas no ano de 2021, observa-se que em 2020 o grupo de crianças e adolescentes de 0 a 19 anos representou 2,46% do total de hospitalizações (14.638/594.587) e 0,62% de todas as mortes (1.203/191.552).

Em 2021, até o dia 1º de março, o percentual de hospitalizações e mortes em crianças e adolescentes foi respectivamente de 1,79% (2.057 de um total de 114.817 hospitalizações) e 0,39% (121 de um total de 30.305 mortes).
A ciência ainda não tem respostas sobre a proteção imunológica que as crianças têm. Mas para Steffano a queda nos índices reflete o conhecimento que se acumulou neste um ano de pandemia. “O manejo melhorou, sabemos tratar melhor os pacientes com a doença”.

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