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Sem ação de governos, mudança climática vai provocar novas tragédias no Grande Recife

Maria Carolina Santos / 29/11/2022
Dois carros brancos passam por avenida em frente a uma grande barreira coberta por lonas plásticas prestas rasgadas, com algumas casas em risco na beira da barreira.

Seis meses atrás, depois de um dia e uma noite de chuva pesada, boa parte do litoral e da Zona da Mata de Pernambuco estava debaixo de lama e de água. Foi a maior tragédia nos últimos cem anos, com mais de 130 mortos e dezenas de milhares de desabrigados no estado. O que aconteceu naqueles últimos dias de maio e início de junho foi consequência direta das mudanças climáticas. Um aviso aterrador de que não se trata mais de uma crise para o futuro. Já começou. E pode piorar.

Na época daquelas chuvas, a parte do oceano Atlântico perto da costa de Pernambuco estava três graus acima do usual, de acordo com dados da Agência Pernambucana de Águas e Clima (Apac). Isso ocasionou uma forma mais extrema dos Distúrbios Ondulatórios de Leste (Dol), um fenômeno bem conhecido entre meteorologistas. É atribuída ao Dol também as fortes chuvas em Palmares, em 2010, que destruíram a cidade. E também às chuvas torrenciais em Natal, no Rio Grande do Norte, em plena Copa do Mundo de 2014.

Como está em uma zona quente, perto da linha do Equador, o litoral nordestino está mais propício às chuvas e secas extremas, explica o oceanógrafo Ronaldo Christofoletti, professor da Universidade Federal de São Paulo (Unifesp). Para entender o que aconteceu em Pernambuco em maio, e que pode se repetir, ele explica que é preciso entender o papel do oceano no clima.

“O oceano é responsável por absorver a irradiação solar. Por consequência, nas áreas mais tropicais essa água fica mais quente, porque tem mais sol por mais tempo e mais calor”, explica Christofolleti.

O aumento da temperatura global tem alterado o ciclo das correntes oceânicas, que vêm do Caribe para a costa brasileira. “É o mesmo ciclo que faz com que tenha muita evaporação. Nas regiões tropicais mais quentes, que têm muita irradiação, o próprio oceano vai evaporando água e essa água forma as nuvens, que levam ao ciclo de chuvas. Quando temos uma alteração dessa relação oceano e clima, com o aumento da temperatura, o oceano não consegue transportar muito bem todo esse calor. Isso pode levar a ter muito mais evaporação. E também pode ter uma alteração nas correntes de vento no momento”, diz.

É a capacidade do oceano de retirar e transportar o calor das águas que vai determinar esse ciclo de evaporação e, consequentemente, de chuvas. “ A mudança do clima não é algo para o futuro, ela já acontece agora. Momentos de chuva extrema ou de seca sempre existiram. O que é, então, um resultado da mudança climática? A intensidade. Esses eventos estão ocorrendo em um espaço de tempo cada vez mais curto. Temos primeiro entender que, infelizmente, vai ser cada vez mais frequente e cada vez mais forte”, lamenta.

E é extremo para chuvas e para secas. “Uma hora essa alteração da relação oceano-clima pode fazer, como foi esse ano, que haja uma chuva extrema, mas o desbalanceio dessa relação pode levar a que evapore menos na região e haja uma seca mais extrema”, afirma.

Parte do litoral brasileiro e do Oceano Atlântico, com poucas nuvens, vistos do espaço.

Aquecimento do oceano provoca secas e tempestades no litoral. Crédito: Centro Espacial Lyndon B. Johnson/Wikimedia Commons

Mangue é proteção para cidades costeiras

Vegetação símbolo do Recife, o mangue pode ajudar a amenizar as catástrofes de forma imediata e a médio prazo. “Os manguezais retiram bastante carbono da atmosfera, o que ajuda a evitar o aumento da temperatura. A médio prazo, o manguezal em pé ajuda para que haja menos eventos extremos de chuvas. Isso sem contar todos os benefícios que ele traz de biodiversidade, de filtração de água etc”, diz.

A curto prazo, os manguezais absorvem o impacto imediato de ondas fortes que chegam do oceano e da elevação mais rápida da quantidade de água. “Eles são uma franja que absorvem a água, vão proteger muito desse impacto hidrodinâmico. Não só as populações ribeirinhas, mas das cidades como um todo. É como os cílios. a gente não dá atenção, mas eles impedem que o suor entre nos olhos. O manguezal tem uma dupla importância: protege a costa e retira o carbono”, explica.

Governos devem se preparar para eventos extremos

É possível evitar essas tragédias? Christofoletti lembra que o planeta ainda não chegou ao “ponto de não retorno”, quando nenhuma medida mais vai funcionar para impedir o avanço do aquecimento global. Ainda há tempo para mudanças. E elas têm que ser imediatas e também de médio e longo prazo.

Para o agora, é urgente aprender a viver com as mudanças climáticas que já se impõem. É preciso que as cidades tenham sistemas de prevenção e monitoramento da temperatura do oceano. “Temos que ter modelos de previsão mais claros, que permitam que se saiba a temperatura do oceano daqui a 15 dias. Não entender o oceano dificulta prever quando vai ter uma chuva muito forte”, diz.

O pesquisador cita a cidade de Santos, onde mora, como um modelo na previsão dessas urgências climáticas. Ele lembra que os investimentos na ciência precisam vir junto com a implantação de políticas públicas. “O dado científico é o que vai ajudar no plano de adaptação, mas os governos têm que estar preparados para receber esse dado científico e tomar uma decisão imediata. Não é só o monitorar”, diz. “A Defesa Civil de Santos, por exemplo, já tem uma rede de alerta por grupos de WhatsApp, principalmente para as comunidades mais atingidas, aquelas que estão na zonas de vulnerabilidades”, exemplifica.

Para que os governos se preparem para as mudanças climáticas, e para que elas não avancem ainda mais, é preciso fazer o que todo mundo já sabe há décadas: proteger a natureza e reduzir as emissões de carbono na atmosfera. “Temos que diminuir a previsão que estipula o aumento da temperatura em 1,5 a 2 graus até 2050. Ao fazer isso, o oceano tem menos calor para absorver, as florestas têm menos carbono para retirar. Com isso, pelo menos vamos parar de aumentar a intensidade e a frequência dos eventos extremos e dar um respiro para que os governos e as pessoas tenham seus planos de adaptação. Não vai fazer ainda voltar ao que era, mas pelo menos vai fazer com que a gente consiga se planejar e entender o futuro”, diz.

As decisões, claro, passam pela política. Christofoletti lembra que a Lei do mar tramita há dez anos e nunca é prioridade. Projetos que dão garantias para as comunidades tradicionais pesqueiras e proteção para as áreas onde elas ficam também estão parados. Mas o contrário não ocorre. O professor da Unifesp alerta para dois projetos de lei que avançam rápido e podem ser extremamente prejudiciais para a saúde do oceano: um é o que extingue os terrenos da Marinha, o que, na prática, privatiza parte da costa brasileira. Outro é o que autoriza a privatização de 10% das praias brasileiras.

“Acabamos de eleger um novo legislativo. A sociedade precisa estar mais próxima e cobrando aqueles que elege. Seja por meio de uma organização, seja por um contato direto com o gabinete, esses mecanismos de aproximação existem. O nosso papel de um voto consciente não é só no momento da urna. É também acompanhando, monitorando e cobrando o que a esperamos daqueles que estão tomando decisões que impactam na nossa vida depois”, finaliza.

interior de manguezal, com árvores e raízes aéreas se erguendo das águas.

Proteção de manguezais pode ajudar a proteger cidades. Crédito: Inês Campelo/MZ Conteúdo

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AUTOR
Foto Maria Carolina Santos
Maria Carolina Santos

Jornalista pela UFPE. Fez carreira no Diario de Pernambuco, onde foi de estagiária a editora do site, com passagem pelo caderno de cultura. Contribuiu para veículos como Correio Braziliense, O Globo e Revista Continente. Ávida leitora de romances, gosta de escrever sobre tecnologia, política e cultura. Contato: carolsantos@gmail.com