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O prefeito João Campos (PSB) assinou nesta quinta-feira (12) o início da construção da ponte que vai ligar os bairros do Cordeiro e de Casa Forte. Foi um ato em ritmo de campanha, cercado por vereadores, deputados, o vice-prefeito, Victor Marques, e secretários de várias pastas. Antes de começar o evento, moradores dos dois bairros haviam decidido fazer um protesto com cartazes. Para a construção da ponte e dos sistema viário, serão pelo menos três desapropriações totais na comunidade de Santana e mais de 100 na comunidade de Cocheira, no Cordeiro.
Mas, lá dentro do futuro canteiro de obras, só os representantes da Zona Norte mostraram seus cartazes.
Antes do evento começar os dois grupos foram abordados por funcionários da prefeitura. Os moradores da Cocheira desistiram de protestar por conta da promessa de uma reunião na prefeitura. “Disseram pra gente ficar quieto, porque aí a gente iria ser recebido pelo presidente da URB (Autarquia de Urbanização do Recife). Se a gente fizesse algazarra não iriam nos receber, aí cancelamos o nosso protesto”, contou um morador, que não quis se identificar.
Acordo semelhante foi oferecido aos moradores de Santana, com a promessa de serem recebidos pelo prefeito João Campos, mas eles preferiram levantar os cartazes. Do lado da zona norte, a principal reclamação é que o projeto da ponte foi todo feito sem incorporar as reivindicações e sugestões da população.
“A gente não está dizendo aqui que a gente não teve nenhuma tratativa com a URB nem com a Prefeitura do Recife. Mas nenhum desses diálogos a gente considera produtivo. A gente tem um saber na comunidade, temos uma equipe de jurídico, de arquitetos e engenheiros de tráfego que nos auxiliam e que leram o projeto da ponte e apontaram gravidades nele”, afirma a historiadora Rosely Bezerra da Silva, moradora da comunidade de Santana. “Mas isso não foi escutado nem pela Prefeitura do Recife, nem muito menos pela URB. O que a gente continua escutando é que o prefeito quer fazer e vai fazer a obra. Desde 2024 a gente luta para que a gente possa participar e colaborar nesse projeto, principalmente quando a gente soube que o único mercadinho dentro da comunidade seria afetado”, acrescentou Rosely.
Ao discursar, João Campos afirmou que existe uma comissão permanente liderada pelo vice-prefeito Victor Marques – que deve assumir a prefeitura em abril quando Campos renunciar para concorrer ao Governo do Estado – e pela URB “para dialogar, para quem quiser questionar as desapropriações, renegociar valores, judicializar” e que é “ fundamental a gente construir sempre ouvindo as pessoas, mas jamais deixar de fazer algo que a cidade espera e sonha, porque um ou outro pode ser contra, inclusive politicamente”. O prefeito também falou que não tem “medo de cara feia”.
Para a comunidade de Santana, que há dois anos busca sem sucesso participar e ser ouvida sobre o projeto da obra, o discurso não caiu bem. “Me senti hostilizada, porque aqui, enquanto moradora da comunidade Santana, acredito que devo ter voz e diálogo. E isso não aconteceu, e não vai acontecer pelo que ele (João Campos) falou hoje. E o mais difícil é ver pessoas que estão trabalhando para a prefeitura operando para que a gente não exerça nem mesmo o nosso direito de se manifestar, nossa liberdade de expressão. Pediram para a gente abaixar o cartaz, que não precisava ficar aqui na frente e expor. Isso mostra a gravidade do silenciamento, que é constante”, criticou Rosely.
Do outro lado do rio, a luta é para que as indenizações dêem para comprar uma casa digna em outro lugar. Ocupação que começou a ganhar fôlego de dez anos para cá, quando já se falava na construção de uma ponte no local, Cocheira vai praticamente sumir do mapa: são 107 desapropriações totais para a construção da ponte e mais 13 para o sistema viário.
A construção da ponte tem um valor total inicial de R$ 236,4 milhões. A pretensão inicial da Prefeitura do Recife é gastar um valor estimado de R$ 5.657.549,15 com as desapropriações. Ou seja, o valor das indenizações corresponde a apenas 2,3% do valor inicial do projeto. Quando dividido pelo número de desapropriações, dá cerca de R$ 50 mil para cada família — valor insuficiente para comprar um imóvel escriturado no mesmo bairro, onde a média do metro quadrado é de R$ 5 mil.
O projeto da nova ponte faz parte do complexo viário da III Perimetral. A ponte Cordeiro-Casa Forte terá 380 metros de extensão e cerca de 11 metros de altura. A expectativa é de que fique pronta no prazo previsto de 38 meses.
Segundo a prefeitura, serão requalificadas 17 vias do entorno, totalizando 7,3 quilômetros de extensão, incluindo 2 quilômetros que hoje não são pavimentados. Também haverá melhorias de drenagem, iluminação pública, construção de calçadas acessíveis e implantação de ciclofaixa de 1,2 quilômetros, além da recuperação da Praça Flor de Santana.
A prefeitura justifica a necessidade da obra como complemento à ponte Jaime Gusmão – que liga os bairros do Monteiro e Iputinga – para desafogar o trânsito na área e encurtar as distâncias entre zona norte e zona sul, já que o acesso para bairros como Boa Viagem ficará mais fácil pela avenida San Martin – a prefeitura afirma que a nova ponte vai reduzir em até 63% o tempo de deslocamento entre as avenidas Dezessete de Agosto e San Martin.
No discurso, o prefeito João Campos (PSB) afirmou que novas linhas de ônibus serão criadas com a inauguração da ponte. Mas a Associação Metropolitana de Ciclistas do Recife (Ameciclo) denunciou ao Ministério Público de Pernambuco (MPPE) que a ponte e seu sistema viário não prevêem faixa exclusiva para o transporte público e o projeto traz ciclofaixas mais estreitas do que o recomendado pela própria lei municipal.
Mas há grande disparidade nos valores oferecidos pela prefeitura. Há moradores felizes com suas indenizações, outros que lutam para aumentar o valor e outros que aceitaram porque se sentiram pressionados. Este último é o caso da moradora Vitória Carolaine, que mora lá há aproximadamente dez anos. “Fui na URB e disseram que minha indenização iria ser de R$ 59 mil, reclamei e me disseram assim “rabo de cavalo só cresce para baixo”. Estão querendo dizer o que com isso? Que vão diminuir o valor só porque a gente está reclamando? E foi o que aconteceu comigo! Na outra semana, disseram que a indenização iria ser de R$ 57 mil. Por quê baixou? Ninguém sabe explicar, só dizem que seguem uma tabela, só têm essa conversa”, reclama.
Em outro caso, uma reforma de apenas R$ 600 fez quase dobrar o valor inicial da avaliação da URB, como aconteceu com um morador que não quis se identificar. “Tive que aceitar na pressão, porque disseram que iam colocar na Justiça. Depois de eu chorar bem muito, fecharam nos R$ 80 mil. A indenização dobrou da oferta inicial porque eu chorei e tive que fazer uma reforma na minha casa”, contou. “A URB disse que não ia reavaliar porque eles já vinham avisando que não era para mexer mais na casa. Mas como é que a gente não vai mexer se o valor que eles ofereceram de primeira era injusto? A gente vai morar onde com R$ 40 mil? Aí eu tive que fazer uma reforma. Eles reavaliaram e aumentaram o valor”, disse.
Também moradora da Cocheira, Danielle Luiz está na comissão que vai discutir as indenizações com a URB. Disse que falou rapidamente com o vice-prefeito e com o presidente da URB antes do evento e que ambos disseram desconhecer a situação dos moradores do Cordeiro. Uma reunião foi marcada para ainda esta semana.
“Minha casa tem 13,9 metros de comprimento, toda no PVC, toda na laje, toda na cerâmica. O banheiro também é todo na cerâmica. O que vieram dizer pra gente é que a parte molhada – no caso, o banheiro – não é contabilizada. Mas quando a gente chegou lá no armazém para comprar cerâmica, a gente não disse “é para banheiro, tem que ser de graça”. A gente não está brigando, a gente só quer realmente o nosso direito”, afirmou.
Em resposta a um pedido via Lei de Acesso à Informação (LAI) feito pela Marco Zero, a prefeitura do Recife afirmou que os imóveis são avaliados considerando sua tipologia, condições, tempo de construção e área, “aplicando-se a isso os índices estabelecidos pelas tabelas oficiais de engenharia e as normas da ABNT”. De acordo com a resposta à LAI, nos imóveis escriturados também é avaliado o valor do terreno.
Comunidade da Cocheira irá praticamente sumir do mapa com obra da ponte
Crédito: Arnaldo Sete/Marco ZeroJornalista pela UFPE. Fez carreira no Diario de Pernambuco, onde foi de estagiária a editora do site, com passagem pelo caderno de cultura. Contribuiu para veículos como Correio Braziliense, O Globo e Revista Continente. Contato: carolsantos@marcozero.org