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	<title>Arquivos desigualdade - Marco Zero Conteúdo</title>
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	<description>Jornalismo investigativo que aposta em matérias aprofundadas, independentes e de interesse público.</description>
	<lastBuildDate>Fri, 10 Oct 2025 15:07:39 +0000</lastBuildDate>
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	<title>Arquivos desigualdade - Marco Zero Conteúdo</title>
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		<title>Como chuvas intensas e escolas precárias agravam a desigualdade na educação</title>
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		<dc:creator><![CDATA[Marco Zero Conteúdo]]></dc:creator>
		<pubDate>Fri, 10 Oct 2025 15:07:36 +0000</pubDate>
				<category><![CDATA[Socioambiental]]></category>
		<category><![CDATA[desigualdade]]></category>
		<category><![CDATA[Educação]]></category>
		<category><![CDATA[Meio Ambiente]]></category>
		<category><![CDATA[mudanças climáticas]]></category>
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					<description><![CDATA[<p>por Giovanna Carneiro* Imagine estar em uma mesma escola há, pelo menos, dez anos. Uma escola grande, com quadra, área verde, uma segunda casa onde você se sente acolhido durante um longo período de sua vida. Essa escola apresenta alguns problemas em sua estrutura, as salas estão sucateadas, não há ar-condicionado nas amplas salas espaçosas [&#8230;]</p>
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<p><strong>por Giovanna Carneiro*</strong></p>



<p>Imagine estar em uma mesma escola há, pelo menos, dez anos. Uma escola grande, com quadra, área verde, uma segunda casa onde você se sente acolhido durante um longo período de sua vida. Essa escola apresenta alguns problemas em sua estrutura, as salas estão sucateadas, não há ar-condicionado nas amplas salas espaçosas e arejadas. Mas você já está tão imerso naquele lugar que aprendeu a minimizar alguns problemas estruturais porque, afinal, aquela é a sua escola, seu espaço seguro.</p>



<p>Porém, ao longo dos anos, o que antes eram apenas falhas na estrutura começa a ruir. Nos períodos chuvosos há goteiras, algumas salas já não são mais possíveis de serem utilizadas e aulas precisam ser realizadas na biblioteca. Vários corredores são tomados por água da chuva e o alagamento que, antes ficava apenas nas ruas, é uma realidade também dentro da escola. E tudo começa a ficar cada vez mais frágil, sem nenhuma previsão de reparo, até que, no meio de uma aula, o teto começa a desmoronar na cabeça dos alunos e do professor e essa é a gota d’água.</p>



<p>Agora aquela escola não é mais sua, pelo menos não por enquanto, ela é apenas um prédio abandonado, esperando por um reparo para que haja vida em seus corredores e salas novamente.</p>



<p>A “sua escola” vira a “antiga escola”. E você agora convive com os mesmos professores, que você tanto admira e gosta, e com apenas alguns dos mesmos colegas &#8211; porque muitos outros não quiseram permanecer na “nova escola” &#8211; em um outro prédio, agora menor, com menos e menores salas, sem área verde, sem quadra. Se a falta de ar-condicionado já era uma questão difícil a ser superada, agora é quase impossível se concentrar nas aulas porque os ventiladores não dão conta da superlotação.</p>



<p>Foi isso que Mateus Felipe e de Axl Gabriel da Silva, ambos jovens de 17 anos, viveram junto com muitos outros alunos e alunas da Escola Estadual Senador Novaes Filho, no bairro da Várzea, na zona oeste do Recife.</p>



<p>Em maio de 2022, Pernambuco enfrentou um dos maiores desastres socioambientais de sua história, causado pelas fortes chuvas combinadas à ausência de planejamento urbano e às profundas vulnerabilidades sociais e econômicas. O resultado trágico foi a morte de 133 pessoas, mortes provocadas por enchentes, deslizamentos de barreiras e choques elétricos. Na ocasião, a Escola Senador Novaes Filho foi designada pela Prefeitura do Recife como um dos espaços para funcionar como abrigo temporário. No mesmo período, 25 escolas se tornaram abrigos temporários, cinco estaduais e 20 municipais.</p>



<p>“Quando a comunidade ocupou a escola durante as cheias de 2022 ficou muito perceptível como a escola estava com uma estrutura precária, muitas salas com o teto caindo, laboratórios sem funcionar, tudo realmente muito perigoso. Depois disso, houve a reforma de três salas e nós conseguimos retomar a rotina com os estudantes”, conta a professora Milena Wanderley. Porém, isso não foi suficiente para garantir a segurança dos alunos, professores e demais funcionários.</p>



<p>Em 2024, após um dos tetos da sala de aula cair durante uma aula, o corpo docente decidiu não ter mais aulas no prédio. “O setor de engenharia já estava indo na escola avaliando essa problemática, mas sem apresentar nenhuma solução. A gente teve que sair do prédio, porque ele oferecia risco de vida aos funcionários e aos estudantes. Então, a gente ficou remoto, híbrido, na verdade, durante o ano de 2024”, completa Milena.</p>



<p>“Doeu muito porque não podíamos ir para a escola, que para mim sempre foi um abrigo. Depois que o teto desabou, tivemos aulas híbridas, mas eu não conseguia acompanhar as online por não ter celular, e muitos colegas também tinham essa dificuldade. A escola foi compreensiva, mas ficou a insegurança, que ainda pesa no Enem e vestibulares, já que esse tempo comprometeu nosso ensino.”, relembra o aluno Axl Gabriel.</p>



<p>As aulas presenciais ocorriam uma ou duas vezes por semana em salas disponibilizadas nas escolas João Pernambuco e Cândido Duarte, também na Várzea. Para os alunos, o modelo híbrido dificultou bastante o processo de aprendizagem, já que muitos deles não tinham acesso a dispositivos eletrônicos ou à internet em suas casas. “Uma aula por semana não é o suficiente de jeito nenhum. Nos prejudicou bastante porque a gente estava muito atrasado em relação aos conteúdos do segundo ano, a gente não sabia de tudo que era para a gente aprender. As provas não foram como os professores planejaram para gente porque todo mundo precisava se adaptar”, conta o aluno Mateus Felipe.</p>



<p>Cansados da situação, em março deste ano, os alunos realizaram um protesto em frente ao antigo prédio da escola pedindo a retomada das aulas presenciais. Durante a manifestação, os adolescentes carregavam cartazes com as afirmações: “Salve o Novaes”, “Luto pelo Novaes”, “Mais de 365 dias com a escola interditada” e “Defenda a escola pública”. Só então a Secretaria de Educação de Pernambuco alugou um outro prédio, localizado no mesmo bairro, para que os alunos pudessem estudar presencialmente.</p>



        <figure class="wp-block-image my-5 ">
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                <img decoding="async" src="https://marcozero.org/wp-content/uploads/2025/10/Escolas-2-Credito_-SINTEPE.jpg" alt="Um grupo grande de pessoas, formado por estudantes e educadores, participa de um protesto em frente a um prédio público identificado por uma placa azul com a palavra “Educação”. Os manifestantes ocupam a calçada e seguram faixas e cartazes coloridos. As faixas trazem mensagens como “Salve o Novaes”, “Defenda a escola pública” e “Sauna de aula, não dá! Cadê o ar-condicionado?”. Muitos participantes levantam os braços e demonstram entusiasmo. O céu está claro e há árvores verdes ao fundo, sugerindo um dia ensolarado." class="w-100" loading="lazy" >
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	                                        <p class="m-0">Escola passou um ano interditada por causa das chuvas
</p>
	                
                                            <span>Crédito: Divulgação/Sintepe</span>
                                    </figcaption>
                    </figure>

	


<p>No entanto, a estrutura da nova escola ainda não é adequada e apresenta outros desafios para a comunidade escolar, como explica a professora Milena: “Temos apenas nove salas para doze turmas pela manhã, todas lotadas, o que gera um grande desgaste para alunos e professores”.</p>



<p>A falta de climatização nas salas de aula também é outro problema que dificulta a rotina escolar dos alunos. A gestão da escola, junto com os alunos, está mobilizada para tentar garantir que os ar condicionados sejam instalados o quanto antes, mas ainda não há previsão. Também não há previsão de quando o antigo prédio da escola será reformado. De acordo com Milena Wanderley, o processo licitatório para as obras está em andamento, com uma verba de R$ 13 milhões para melhorias e reparos no prédio já liberada.</p>



<p>Diante de tantas dificuldades para manter uma rotina escolar segura, uma das consequências imediatas é a evasão escolar, como deixa evidente em seu depoimento o aluno Axl Gabriel: “Já senti muita vontade de sair da escola devido a tudo que nós já passamos. Quando eu entrei na escola nós não tínhamos aula porque faltava professores em algumas disciplinas, às vezes os próprios professores tinham que levar ventiladores de suas casas para a escola. Mas também vivi momentos lindos com pessoas incríveis. A união de alunos e professores pelo bem da comunidade escolar me cativa.”.</p>



<p>Essa união citada por Axl diz respeito a um projeto desenvolvido por professores e gestores da Escola Estadual Senador Novaes Filho que realiza ações integradoras entre a comunidade e a escola para criar uma rede e ampliar o debate sobre os impactos socioambientais e a Justiça Climática.</p>



<h2 class="wp-block-heading">Salas de aula alagadas</h2>



<p>Localizado em uma área que margeia o rio Capibaribe, a Várzea é um dos bairros do Recife mais suscetíveis aos impactos das mudanças climáticas. Com um grande número de famílias vivendo em áreas ribeirinhas, alagamentos e enchentes se tornaram uma realidade comum para a população.</p>



<p>Por isso, outras da escola do bairro sofrem os impactos do clima. É o caso também da Escola Municipal Doutor Rodolfo Aureliano.</p>



<p>Um relatório divulgado em 2024 pelo Instituto para a Redução de Riscos e Desastres (IRRD), da Universidade Federal Rural de Pernambuco (UFRPE), revelou que 44% do território do Recife apresenta alto risco de inundações. De acordo com o levantamento, os casos de alagamentos e os pontos críticos na cidade se intensificaram nos anos de 2021, 2022 e 2023.</p>



<p>“No Recife vivenciamos chuvas torrenciais cada vez mais frequentes, o que torna urgente discutir adaptação climática. Essa adaptação deve considerar não apenas a infraestrutura, mas também a realidade das pessoas, já que nossos estudantes enfrentam dificuldades. As enchentes que invadem casas e as doenças causadas pela água contaminada nos levam a debater com os alunos não só a adaptação climática, mas também o racismo ambiental, sobretudo porque a rede pública do Recife é formada majoritariamente por estudantes negros diretamente afetados pelos impactos do clima”, destacou Gabriel Augusto, professor da Escola Doutor Rodolfo Aureliano.</p>



<p>Nesse cenário, até o caminho para a escola se torna um desafio para os estudantes. As rotas não são iguais para todos, como relata Ryan Miguel, de 13 anos, aluno da Escola Doutor Rodolfo Aureliano: “A maior dificuldade quando chove é passar pela comunidade onde moro, porque alaga muito e fica difícil chegar na escola”.</p>



<p>Davi Lucas, de 12 anos, também estudante da mesma unidade de ensino, complementa: “Quando chove, muita gente falta porque a cidade fica alagada, e um dos motivos é o lixo que entope as canaletas”.</p>



<p>Os relatos foram colhidos durante uma feira de conhecimentos sobre meio ambiente realizada na escola municipal, com o objetivo de fortalecer o diálogo entre a comunidade escolar e o território onde ela está inserida.</p>



<p>“É essencial que as escolas incentivem o aprendizado sobre o meio ambiente, porque as crianças se tornam multiplicadoras desse conhecimento e, por meio delas, a comunidade também se conscientiza”, destaca Sandra Vital, mãe de um aluno presente na atividade.</p>



<h2 class="wp-block-heading"><strong>“Escola Viva e Sustentável”</strong></h2>



<p>Diante dos grandes desafios impostos pela crise climática, iniciativas da sociedade civil organizada buscam amenizar os impactos nas comunidades mais vulneráveis. Esses esforços têm como foco ampliar o acesso à informação, fortalecer a mobilização social e estimular tanto a cobrança por políticas públicas quanto a realização de ações autônomas que garantam um mínimo de segurança para as famílias.</p>



<p>Compreendendo a importância de um processo educativo que ultrapasse os muros da escola, professores da Escola Senador Novaes Filho criaram o projeto “Escola Viva e Sustentável”, que articula o conhecimento ambiental com a vivência cotidiana dos estudantes e suas comunidades.</p>



<p>&#8220;Pensamos na construção de um espaço escolar que ajudasse os alunos a compreenderem o território e os impactos ambientais, especialmente após as enchentes de 2022 e a negligência do Estado. Discutimos com alunos e comunidade questões ligadas ao racismo ambiental: por que as escolas periféricas não recebem a atenção que deveriam receber? Quem é o público dessa escola? O que o sistema impõe para o público dessa escola e de que forma a gente pode resistir?&#8221;, conta a professora Milena Wanderley.</p>


	<div class="informacao mx-md-5 px-5 py-4 my-5" style="--cat-color: #7BDDDD;">
		<span class="titulo text-uppercase mb-3 d-block">O que é racismo ambiental?</span>

		<p><!-- wp:paragraph -->O termo &#8220;Racismo Ambiental&#8221; foi criado em 1981 por Benjamin Franklin Chavis Jr., importante líder afro-americano dos direitos civis nos Estados Unidos. A expressão surgiu a partir de suas investigações sobre como violações e irregularidades ambientais afetavam desproporcionalmente comunidades negras no país. Segundo Chavis, o racismo ambiental consiste na “discriminação racial na formulação de políticas ambientais, na aplicação de leis e regulamentos, no direcionamento deliberado de comunidades negras para a instalação de resíduos tóxicos, na sanção oficial da presença de substâncias venenosas e poluentes com risco de vida nessas áreas e na exclusão de pessoas negras da liderança dos movimentos ecológicos&#8221;. FONTE:<a href="https://www.politize.com.br/racismo-e-injustica-ambiental/"> <u>https://www.politize.com.br/racismo-e-injustica-ambiental/</u></a></p>
<p><!-- /wp:paragraph --><!-- wp:paragraph -->Para o Centro Brasileiro de Justiça Climática, “o racismo é um sistema de opressão em sua dimensão política e social. Portanto, discutir justiça climática é enfrentar o racismo ambiental.” FONTE:<a href="https://cbjc.com.br/pt/"> <u>https://cbjc.com.br/pt/</u></a></p>
<p><!-- /wp:paragraph --></p>
	</div>



<p></p>



<p>O projeto “Escola Viva e Sustentável” é desenvolvido em parceria com outras organizações e iniciativas da sociedade civil, especialmente aquelas com atuação na região da Várzea. Essa articulação tem possibilitado a realização de atividades conjuntas na Escola Senador Novaes Filho, como a primeira conferência do meio ambiente promovida pela instituição neste ano. “A ideia é que a gente consiga fazer esse pensamento socioambiental chegar de forma prática na vida dos estudantes, para que eles comecem a repensar e a entender os territórios que eles ocupam e quais são as soluções viáveis. Então, a gente tem lido muito Ailton Krenak, a gente tem lido também Antônio Bispo dos Santos, o livro <em>A Terra dá, a Terra quer”</em>, explicou a professora Milena Wanderley.</p>



<p>Os alunos reconhecem a importância do projeto, garante Mateus: “eu não sabia muito sobre o racismo ambiental. É bom saber que ele é uma realidade que reforça a desigualdade social. E saber também que é uma discriminação, porque o racismo ambiental tem muito a ver com a discriminação e a injustiça social enfrentadas pela população vulnerável”.<br><br>Axl Gabriel tem opinião semelhante: “é muito importante o ensino da Justiça Socioambiental e do Racismo Ambiental porque nós temos que entender que nós somos sempre desvalorizados, nós pessoas pretas, que viemos de favela, que moramos em áreas vulnerabilizadas. Entender isso é como um choque de realidade para nós”.</p>



<h3 class="wp-block-heading">Falta de saneamento causa ainda mais transtornos</h3>



<p>A precariedade do saneamento básico é mais um obstáculo enfrentado por estudantes da rede pública em dias de chuva, especialmente nos bairros periféricos. A ausência de infraestrutura adequada agrava os impactos das chuvas e torna o trajeto até a escola um verdadeiro desafio.</p>



<p>“Nossa escola está em uma comunidade sem saneamento básico, o que agrava os transtornos das chuvas, com esgotos a céu aberto e canaletas insuficientes. Muitos alunos têm dificuldade de se deslocar, e a própria escola sofre com os alagamentos”, relata Eliza Azevedo, professora da Escola Municipal Edson Cantarelli, no bairro do Jordão, Recife., zona sul do Recife.</p>



        <figure class="wp-block-image my-5 ">
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	                        <figcaption class="legenda-credito mx-md-5">
	                                        <p class="m-0">Recife está entre as 20 cidades com pior cobertura de saneamento básico do país
</p>
	                
                                            <span>Crédito: Giovanna Carneiro</span>
                                    </figcaption>
                    </figure>

	


<p>O cenário relatado pela professora reflete a realidade do saneamento na Região Metropolitana.</p>



<p>Recife e Jaboatão dos Guararapes aparecem entre as 20 cidades com pior cobertura no <a href="https://tratabrasil.org.br/a-vida-sem-saneamento-para-quem-falta-e-onde-mora-essa-populacao/"><u>Ranking do Saneamento 2022, elaborado pelo Instituto Trata Brasil a partir de dados do Sistema Nacional de Informações sobre Saneamento (SNIS)</u></a>. O levantamento aponta que Pernambuco é o terceiro estado com maior número de municípios nas piores posições, atrás apenas do Rio de Janeiro e do Pará. </p>



<p>No Recife, menos da metade da população (44,01%) tem acesso à rede de esgoto, e o município está entre os que menos avançaram em novas ligações de esgoto (0,57%) e de água (4,28%). Em Jaboatão, apenas 21,78% da população é atendida por coleta de esgoto, e apenas 16,15% do esgoto coletado recebe tratamento. Além das duas maiores cidades da região, também aparecem no ranking Olinda, Paulista, Caruaru e Petrolina, revelando a extensão do problema em todo o estado.</p>


    <div class="infos mx-md-5 px-5 py-4 my-5">
        <span class="titulo text-uppercase mb-2 d-block"></span>

	    <p><strong>*Esta </strong>r<strong>eportagem foi produzida no âmbito do Programa de Fellowship para Jornalistas Negros e Negras do Centro Brasileiro de Justiça Climática (CBJC) — iniciativa que fortalece a cobertura jornalística antirracista sobre justiça climática e populações negras no Brasil.</strong></p>
    </div>
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			</item>
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		<title>“Norte e Nordeste sofrem mais fortemente os efeitos das desigualdades existentes no país“, diz economista</title>
		<link>https://marcozero.org/norte-e-nordeste-sofrem-mais-fortemente-os-efeitos-das-desigualdades-existentes-no-pais-diz-economista/</link>
		
		<dc:creator><![CDATA[Marco Zero Conteúdo]]></dc:creator>
		<pubDate>Mon, 05 Sep 2022 18:34:00 +0000</pubDate>
				<category><![CDATA[Entrevista]]></category>
		<category><![CDATA[Agricultura Familiar]]></category>
		<category><![CDATA[desigualdade]]></category>
		<category><![CDATA[desigualdade social]]></category>
		<category><![CDATA[fome]]></category>
		<category><![CDATA[programas sociais]]></category>
		<category><![CDATA[segurança alimentar]]></category>
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					<description><![CDATA[<p>Por Verônica Almeida* O economista Francisco Menezes, ex-presidente do Conselho Nacional de Segurança Alimentar e Nutricional, avalia, nessa entrevista a Marco Zero Conteúdo, por que 58% dos brasileiros estão vivendo com algum grau de insegurança alimentar e como a desigualdade que se perpetua historicamente no Brasil encontrou acolhimento no desmonte de programas criados ao longo [&#8230;]</p>
<p>O post <a href="https://marcozero.org/norte-e-nordeste-sofrem-mais-fortemente-os-efeitos-das-desigualdades-existentes-no-pais-diz-economista/">“Norte e Nordeste sofrem mais fortemente os efeitos das desigualdades existentes no país“, diz economista</a> apareceu primeiro em <a href="https://marcozero.org">Marco Zero Conteúdo</a>.</p>
]]></description>
										<content:encoded><![CDATA[
<p><strong>Por Verônica Almeida</strong>*</p>



<p>O economista Francisco Menezes, ex-presidente do Conselho Nacional de Segurança Alimentar e Nutricional, avalia, nessa entrevista a Marco Zero Conteúdo, por que 58% dos brasileiros estão vivendo com algum grau de insegurança alimentar e como a desigualdade que se perpetua historicamente no Brasil encontrou acolhimento no desmonte de programas criados ao longo dos anos. Ele atualmente é analista de políticas púbicas na organização ActionAid, que integra a Rede Brasileira de Pesquisa em Soberania e Segurança Alimentar e Nutricional (Rede Penssan), responsável pelo 2º Inquérito Nacional sobre Insegurança Alimentar no Contexto da Pandemia da Covid-19 no Brasil, divulgado em junho desse ano, mostrando avanço da fome entre as famílias.</p>



<p><strong>MZ – A recente pesquisa divulgada pela Rede Penssan aponta que voltamos à década de 1990 em matéria de fome, com um aumento de 60% em relação aos últimos quatro anos de pessoas vivendo algum grau de insegurança alimentar. Como os 125,2 milhões de brasileiros (58%) e os 15% passando fome foram parar nessa situação?</strong></p>



<p><strong>FRANCISCO MENEZES</strong> &#8211; É importante lembrar que a pesquisa realizada pelo IBGE, utilizando a mesma metodologia adotada pela Rede Penssan, mostrou que em 2013 eram 22,9% dos brasileiros em insegurança alimentar, ou seja, bem menos da metade dessa proporção e que 4,2% passavam fome. Naquele momento as Nações Unidas consideraram o Brasil fora do Mapa da Fome. O que causou tamanho retrocesso? Certamente as grandes tragédias não têm nunca uma única causa. Não é correto atribuir exclusivamente à crise econômica ou à pandemia a responsabilidade sobre onde chegamos. Foram feitas escolhas políticas, que prevaleceram com a crise e durante a pandemia e que determinaram os resultados agora constatados pela pesquisa. Tais escolhas geraram desemprego, forte empobrecimento da população e o desmonte de políticas públicas, incluindo as de segurança alimentar. Isso começa em 2016 e se intensifica sobremaneira na vigência do atual governo. É evidente que a pandemia aguçou esse processo, mas também por conta da forma como foi enfrentada.</p>



<p><strong>MZ &#8211; Por que sempre o Norte e o Nordeste se destacam negativamente?</strong></p>



<p><strong>FRANCISCO MENEZES</strong> &#8211; A insegurança alimentar, sobretudo em suas modalidades moderada e grave, está intimamente relacionada com a pobreza e a extrema pobreza. As regiões Norte e Nordeste sofrem mais fortemente os efeitos das desigualdades existentes no país, concentrando a pobreza. Com as escolhas políticas aqui mencionadas, esse quadro se agravou. Assinale-se que no caso da Amazônia não é de menor importância a política anti-ambiental que vem sendo praticada, criando dificuldades crescentes para a produção da pequena agricultura. E no Nordeste, a falta de prioridade para a população pobre da região, supostamente por razões políticas.</p>



<p><strong>MZ &#8211; É possível fazer um recorte por Estado nesse inquérito? Qual seria a situação de Pernambuco?</strong></p>



<p>O inquérito fez um recorte por estado e, em breve, será lançado um suplemento específico a respeito.</p>



<p><strong>MZ &#8211; O senhor presidiu o Consea. Que falta o Conselho fez e faz num momento como esse?</strong></p>



<p><strong>FRANCISCO MENEZES </strong>&#8211; Faz muita falta. O Consea foi responsável pela criação ou avanço de algumas das principais políticas de segurança alimentar que o país estabeleceu entre 2003 e 2015. Na sua relação com os Conseas estaduais captava a realidade vivida nos diferentes territórios, encontrando denominadores comuns para as políticas públicas. Mas não acredito que fosse possível sua atuação no contexto de um governo que despreza a participação social.</p>



<p><strong>MZ &#8211; Segundo o Inquérito da Rede Penssan, a fome atinge principalmente famílias formadas por mulheres e crianças, pretas e pardas, sem acesso à água e emprego e curiosamente do campo, onde são gerados alimentos. Por quê?</strong></p>



<p><strong>FRANCISCO MENEZES</strong> &#8211; Porque a fome é uma das manifestações mais explícitas das desigualdades. Só poderá ser eliminada, de fato, com radical redução dessas desigualdades e, muito, importante, com ampla participação de representação de movimentos desses grupos sociais na definição das políticas voltadas para seu atendimento.</p>



<p><strong>MZ &#8211; Que políticas de Estado precisam ser urgentemente retomadas no Brasil antes que as novas gerações de crianças morram de fome?</strong></p>



<p><strong>FRANCISCO MENEZES</strong> &#8211; O enfrentamento da fome exige medidas urgentes com capacidade de trazerem resultados imediatos, ao lado daquelas que propiciem mudanças estruturais para de fato eliminar de forma definitiva a fome. A transferência de renda oferece resultados muito rápidos para o acesso aos alimentos. No quadro atual precisa-se substituir o Auxílio Brasil, que é um programa com muitos problemas de concepção por algo semelhante ao que era o Bolsa Família, mas com os valores da linha de ingresso e do repasse corrigidos acentuadamente. Outro programa de imediato impacto é o da Alimentação Escolar, que atende aproximadamente 41 milhões de alunos, com repercussões muito positivas para eles e, também suas famílias, que conseguem reduzir o custo da alimentação no domicílio. Além do que representa de mercado para a Agricultura Familiar e camponesa. Para este, é necessária uma correção significativa do per capita repassado pelo governo federal a municípios e estados. Vale dizer que a fome que hoje atinge a população mais jovem traz consequências no presente, mas também severos comprometimentos físicos e cognitivos dessa geração para o futuro.</p>



<p><strong>LEIA MAIS:</strong></p>



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<p><strong><a href="https://marcozero.org/tragedia-humanitaria-com-impacto-a-partir-da-gestacao/" target="_blank" rel="noreferrer noopener">Tragédia humanitária com impacto a partir da gestação</a></strong></p>



<p><strong><a href="https://marcozero.org/pobreza-como-causa-e-complicador/" target="_blank" rel="noreferrer noopener">Pobreza como causa e complicador: prematuridade e bebês de baixo peso</a></strong></p>



<p><strong><a href="https://marcozero.org/reducao-da-mortalidade-infantil-desacelera/" target="_blank" rel="noreferrer noopener">Redução da mortalidade infantil desacelera</a></strong></p>



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<p><strong><a href="https://marcozero.org/sem-creche-maesdeixam-de-trabalhar-e-criancas-tornam-se-mais-vulneraveis/" target="_blank" rel="noreferrer noopener">Sem creche, mães deixam de trabalhar e crianças tornam-se mais vulneráveis</a></strong></p>



<p><strong><a href="https://marcozero.org/prefeityura-alega-queconstruiu-2-mil-novas-vagas/" target="_blank" rel="noreferrer noopener">Prefeitura do Recife alega que abriu 2 mil novas vagas em creches e quer chegar a 7 mil</a></strong></p>



<p><strong><a href="https://marcozero.org/suplementacao-de-ferro-e-vitamina-para-criancas/" target="_blank" rel="noreferrer noopener">Suplementação de ferro e vitamina para crianças</a></strong></p>



<p><a href="https://marcozero.org/desenvolvimento-na-primeira-infancia-e-tema-de-pesquisa-nacional/" target="_blank" rel="noreferrer noopener"><strong>Desenvolvimento na Primeira Infância é alvo de pesquisa nacional</strong></a></p>



<p>* <strong><em>Este conteúdo integra a série Eleições 2022: Escolha pelas Mulheres e pelas Crianças. Uma ação do Nós, Mulheres da Periferia, Alma Preta Jornalismo, Amazônia Real e Marco Zero Conteúdo, apoiada pela Fundação Maria Cecília Souto Vidigal</em></strong></p>



<blockquote class="wp-block-quote is-layout-flow wp-block-quote-is-layout-flow"><p><strong>Uma questão importante!</strong></p><p><em>Colocar em prática um projeto jornalístico ousado como esse da cobertura das Eleições 2022 é caro. Precisamos do apoio das nossas leitoras e leitores para realizar tudo que planejamos com um mínimo de tranquilidade. Doe para a Marco Zero. É muito fácil. Você pode acessar nossa</em><a href="https://marcozero.org/assine/" target="_blank" rel="noreferrer noopener">página de doação</a><em>ou, se preferir, usar nosso</em><strong>PIX (CNPJ: 28.660.021/0001-52)</strong><em>.</em></p><p><strong>Nessa eleição, apoie o jornalismo que está do seu lado.</strong></p></blockquote>
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		<title>Não basta ser candidata, é preciso ter condições concretas de disputar a eleição</title>
		<link>https://marcozero.org/nao-basta-ser-candidata-e-preciso-ter-condicoes-concretas-de-disputar-a-eleicao/</link>
		
		<dc:creator><![CDATA[Marco Zero Conteúdo]]></dc:creator>
		<pubDate>Tue, 02 Aug 2022 19:44:14 +0000</pubDate>
				<category><![CDATA[Direitos Humanos]]></category>
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					<description><![CDATA[<p>Por Myrella Santana* Discutir eleições não deve ser limitado aos 45 dias do período eleitoral e do dia de votar. Se pensarmos o sistema eleitoral como um jogo (podendo ser futebol, xadrez, basquete, vôlei ou qualquer outro que seja), observamos que ele está dentro de uma estrutura, que funciona de uma determinada forma, que possui [&#8230;]</p>
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<p><strong>Por Myrella Santana</strong>*</p>



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<p class="has-text-align-left">Discutir eleições não deve ser limitado aos 45 dias do período eleitoral e do dia de votar. Se pensarmos o sistema eleitoral como um jogo (podendo ser futebol, xadrez, basquete, vôlei ou qualquer outro que seja), observamos que ele está dentro de uma estrutura, que funciona de uma determinada forma, que possui regras e o mais importante: alguém ganha e alguém perde.</p>



<p class="has-text-align-left">Como também sabemos, todo jogo exige uma preparação prévia, como treinamento, organização, preparação, estruturação, etc. E da mesma forma que consideramos injusto que uma pessoa tenha vantagens materiais ou imateriais na disputa e, principalmente, na preparação para disputar (basta ver as grandes discussões e minuciosas observações quando se tem jogos de futebol), por que não defendemos o mesmo quando se trata do jogo eleitoral? Ou nos atentamos aos mínimos detalhes dos processos que vão apontar para quem vai ou não ganhar?</p>



<p class="has-text-align-left">É importante destacar que o sistema eleitoral e o sistema partidário são jogos diferentes, porém, o jogo no sistema partidário é um reflexo do jogo no sistema eleitoral, que, por sua vez, reflete como os jogos funcionam no Estado brasileiro. Nesta última semana se iniciou as convenções partidárias, um momento importantíssimo para aqueles que estão se colocando como pré-candidatas e pré-candidatos a algum cargo nesta eleição, pois, é onde será decidido pelos partidos internamente quem vai ou não de fato disputar.</p>



<p class="has-text-align-left">Por entender que esse também é um momento de demonstração de força, nesse último final de semana, cinco candidatos ao governo do estado de Pernambuco lotaram o Clube Português e o Classic Hall, na tentativa de espelhar uma possibilidade de ida para o segundo turno. Cinco candidaturas foram homologadas, colocando mais de 10 mil pessoas nesses espaços para mostrar que são candidaturas competitivas. O que é atípico para o nosso histórico. Nas últimas eleições para governo, a possibilidade se mantinha sempre nos dois candidatos mais fortes. No máximo, uma possibilidade de terceira via, mas com baixa expectativa. O que não vai acontecer esse ano. Esse final de semana foi um breve <em>spoiler </em>de como será a partir do dia 16 de Agosto.</p>



<p class="has-text-align-left">As convenções não apenas legitimam os candidatos a majoritária, mas também as chapas proporcionais. Só pode ser candidato quem tiver sua pré-candidatura homologada. Só é possível eleger bancadas de mulheres negras LBT+ e de periferia, se essas mulheres tiverem suas candidaturas legitimadas dentro do partido. E quando estamos falando dessa etapa no jogo partidário, estamos falando exatamente de condições para fazer com que a bola gire, condições para correr atrás dela e fazer acontecer no jogo eleitoral, que é a próxima etapa. Esse é o período das negociações, dos acordos e das prioridades.</p>



<p class="has-text-align-left">Nos últimos anos, podemos observar um aumento significativo e gradativo na candidatura de pessoas negras. O que é uma surpresa quando olhamos a fotografia da Assembleia Legislativa de Pernambuco. Isso é um exemplo de que apenas dizer que essas candidaturas podem entrar no jogo não é suficiente se não são dadas condições pelos partidos para que de fato essas candidaturas disputem. Olhar as eleições como um jogo não é uma das coisas mais coerentes de se fazer quando se trata de uma República Federativa Democrática e quando estamos falando de representação, mas se vivemos no mesmo país da democracia racial, esta contradição não é uma das piores.</p>



<p class="has-text-align-left">Apenas homologar candidaturas não é suficiente. É importante, mas não apenas. Para mulheres negras a disputa eleitoral é um dos processos mais violentos que vão passar em suas vidas, isso se dá principalmente pela falta de prioridade e condições que não são dadas nas negociações neste período de pré-campanha. Falamos muito de quem senta nas cadeiras das casas Legislativas e no Executivo de todo o Brasil, mas eu pergunto, quem está sentado nas cadeiras das executivas e diretórios partidários? Quem está presidindo os partidos? Quem está nas tesourarias? Quem está com a caneta na mão decidindo quanto cada uma dessas candidaturas vai receber do FEFC (Fundo Especial de Financiamento de Campanha)?</p>



<p class="has-text-align-left">O baixo financiamento nas candidaturas de mulheres, principalmente mulheres negras, é o reflexo do descompromisso e da falta de interesse em que essas mulheres sejam eleitas. Mulheres negras nos espaços de poder nunca foi um sonho distante ou inexistente, pelo contrário, sempre estivemos lá, sempre estivemos mobilizando e nos organizando. </p>



<p class="has-text-align-left">Sempre estivemos prontas. Podemos não estar com a caneta na mão, mas somos nós que fazemos o Brasil real acontecer. E por saber desse potencial transformador, é que não há interesse de se investir em uma mudança de estruturas que os beneficiam. Claro, salve as exceções, se essa candidatura puder trazer voto o suficiente para ajudar o partido a bater a cláusula de barreira… ótimo, mas também não pode crescer tanto a ponto de ofuscar quem de fato é prioridade e tá no seu milésimo mandato. </p>



<p class="has-text-align-left">Os partidos políticos têm um papel fundamental na construção democrática, eles são um espelho que reflete a sociedade, e precisam, antes de tudo, estar comprometidos com a mudança dela. É necessário que os partidos, e digo os progressistas, de esquerda, que se dizem antirracista, feministas, antiLGBTQIA+fóbicos, coloquem isso na prática, não apenas garantindo que pessoas negras, mulheres, LGBTQIA+, etc, se candidatem, mas dando condições para que essas candidaturas de fato se tornem competitivas.</p>



<p class="has-text-align-left">Tenho dito, desde o meu primeiro texto, que priorizar e dar condições para que mulheres negras candidatas possam de fato chegar lá tem que ser um compromisso de toda a sociedade. As regras do jogo não funcionam igual para todos, além de condições de estar, é necessário condições para disputar. Importante que estejamos atentas e atentos em todas as etapas. O período eleitoral começa dia 16 de Agosto, mas as eleições começaram desde o início do ano.</p>



<p>* <strong>Myrella Santana é graduanda em Ciência Política na Universidade Federal de Pernambuco. Integra a Rede de Mulheres Negras de Pernambuco e a Articulação Negra de Pernambuco. É Diretora Operacional e pesquisadora na Rede Internacional de Jovens LBTQIA+.</strong></p>



<blockquote class="wp-block-quote is-style-large is-layout-flow wp-block-quote-is-layout-flow"><p><strong>Uma questão importante!</strong></p><p>Colocar em prática um projeto jornalístico ousado como esse da cobertura das Eleições 2022 é caro. Precisamos do apoio das nossas leitoras e leitores para realizar tudo que planejamos com um mínimo de tranquilidade. Doe para a Marco Zero. É muito fácil. Você pode acessar nossa<a href="https://marcozero.org/assine/" target="_blank" rel="noreferrer noopener">página de doação</a>ou, se preferir, usar nosso<strong>PIX (CNPJ: 28.660.021/0001-52)</strong>.</p><p><strong>Nessa eleição, apoie o jornalismo que está do seu lado.</strong></p></blockquote>
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		<title>Renda básica, salário mínimo estadual e ações afirmativas: três medidas possíveis para reduzir as desigualdades em Pernambuco</title>
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		<dc:creator><![CDATA[Marco Zero Conteúdo]]></dc:creator>
		<pubDate>Thu, 19 May 2022 19:38:48 +0000</pubDate>
				<category><![CDATA[Destaque]]></category>
		<category><![CDATA[Diálogos]]></category>
		<category><![CDATA[desemprego]]></category>
		<category><![CDATA[desigualdade]]></category>
		<category><![CDATA[desigualdade social]]></category>
		<category><![CDATA[fome]]></category>
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					<description><![CDATA[<p>por Tiago Paraíba* É bastante perceptível o aumento da fome e da pobreza nos últimos anos no Brasil. Andarpelas ruas de qualquer cidade brasileira é suficiente para perceber o crescimento do número de pessoas em situação de rua ou do número de favelas. Uma ida ao supermercado também é suficiente para perceber o quanto as [&#8230;]</p>
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										<content:encoded><![CDATA[
<p><strong>por Tiago Paraíba*</strong></p>



<p>É bastante perceptível o aumento da fome e da pobreza nos últimos anos no Brasil. Andar<br>pelas ruas de qualquer cidade brasileira é suficiente para perceber o crescimento do número de pessoas em situação de rua ou do número de favelas. Uma ida ao supermercado também é suficiente para perceber o quanto as coisas têm aumentado e que está cada vez mais difícil comprar o básico. Desde o golpe de 2016, a vida da população brasileira tem piorado e piorou de forma ainda mais dramática depois da eleição de Bolsonaro em 2018.</p>



<p>Todo trabalhador e toda trabalhadora brasileira sabem que seu salário é capaz de comprar cada vez menos produtos, e, assim, se vê cada vez mais obrigado a substituições. Em razão disso, tem se tornado comum o/a trabalhador/a cortar itens essenciais da cesta básica, caracterizando a chamada insegurança alimentar, que ocorre justamente quando a falta de dinheiro impede as pessoas de terem acesso a uma alimentação adequada para satisfazer suas necessidades, seja em termos de quantidade, qualidade ou ambos.</p>



<h2 class="wp-block-heading">A volta da fome</h2>



<p>A insegurança alimentar hoje já atinge mais da metade da população brasileira. Segundo dados da da Rede Brasileira de Pesquisa em Soberania e Segurança Alimentar (<a href="https://www.redebrasilatual.com.br/cidadania/2021/04/pessoas-com-fome-19-milhoes-inseguranca-alimentar-dispara-no-brasil/" target="_blank" rel="noreferrer noopener">Rede Penssan</a>), ao final de 2020, 116,8 milhões de brasileiros e brasileiras conviviam com alguma forma de insegurança alimentar, o que equivale dizer que 55,2% dos lares brasileiros estavam nesta situação. Em 2018, esse percentual era 36,7%.</p>



<p>Desse total, quase 20 milhões viviam uma situação ainda pior e passavam fome. Isso significa que 19,1 milhões de brasileiros/as, quase 10% de toda a população, não consegue se alimentar. Números que fizeram o Brasil voltar ao Mapa da Fome da ONU.</p>



<p>Além da fome, o empobrecimento geral de nossa população também é perceptível e sentido por todas e todos. <a href="https://www.correiobraziliense.com.br/economia/2022/03/4994327-renda-do-brasileiro-caiu-97-em-um-ano.html" target="_blank" rel="noreferrer noopener">Segundo dados da PNAD do IBGE</a>, apenas entre janeiro de 2021 e janeiro de 2022 a renda média do trabalhador/a brasileiro/a caiu 9,7%.</p>



<h3 class="wp-block-heading">O aumento da pobreza e das desigualdades sociais</h3>



<p>Para se ter ideia do tamanho do empobrecimento da população brasileira a renda média das famílias brasileiras, em janeiro de 2013, era de R$ 2.558,00. Em janeiro de 2022, ela foi registrada em R$ 2.489,00. Ou seja, mesmo em valores brutos, o trabalhador e a trabalhadora brasileiros empobreceram consideravelmente nesse período de quase uma década. Se considerada a inflação do período, esse empobrecimento é muito maior.</p>



<p>Ainda mais alarmante é a situação dos 40% mais pobres da população brasileira, que, segundo o <a href="https://jc.ne10.uol.com.br/economia/2022/04/14989939-pobreza-grande-recife-tem-40-da- populacao-sobrevivendo-com-rs-275-per-capita.html" target="_blank" rel="noreferrer noopener">Boletim Desigualdades nas Metrópoles</a>, vivem com uma renda média per capita de apenas 239 reais. Segundo a mesma pesquisa, o Grande Recife é a região metropolitana do país onde os pobres são<br>mais pobres. Os 40% mais pobres da população vivem com uma renda média per capita de R$ 104,00;<br>essa renda era de R$ 155,00 em 2019.</p>



<h3 class="wp-block-heading">O desemprego</h3>



<p>O aumento da pobreza e da fome tem relação direta com o desemprego. O Brasil encerrou 2021 com<br><a href="https://agenciadenoticias.ibge.gov.br/agencianoticias/ 2012-agencia-de-noticias/noticias/33041-desemprego-cai-para-11-1-no-quarto-trimestre-etaxa- media-anual-e-de-13-2" target="_blank" rel="noreferrer noopener">taxa média anual de desemprego em 13,2%</a>, o que equivale a 13,9 milhões de pessoas desempregadas. Como<br>comparação, <a href="https://g1.globo.com/economia/noticia/2016/03/taxa-media-de-desemprego-ficou-em-85-em-2015- diz-ibge.html" target="_blank" rel="noreferrer noopener">em 2015, último ano antes do golpe</a>, a taxa média anual de desemprego foi de 8,5%. Depois do golpe, permaneceu sempre na casa de dois dígitos.</p>



<p><a href="https://jc.ne10.uol.com.br/economia/2022/02/14951807-pernambuco-liderataxa- de-desemprego-do-pais-com-maior-indice-desde-2012.html" target="_blank" rel="noreferrer noopener">Em Pernambuco, o resultado foi ainda pior</a>. O estado fechou o ano de 2021 com 19,9% de taxa média<br>anual de desemprego. Assim, o estado terminou o ano passado com o pior índice de desemprego<br>médio anual do Brasil. Além do alto índice de desemprego, Pernambuco também registrou uma taxa de informalidade em 2021 de 51,1% . Ou seja, mais da metade das pessoas que conseguiram trabalhar no ano de<br>2021 tiveram que recorrer à informalidade, índice também <a href="https://www.redebrasilatual.com.br/economia/2022/02/brasil-2021-mais-informalidade-quedarecorde- renda/" target="_blank" rel="noreferrer noopener">acima da média nacional, que foi de 40,1%</a>.</p>



<p>Todos esses números comprovam o que o PSOL, demais partidos de esquerda e movimentos sociais<br>vêm denunciando há muito tempo: o golpe de 2016 tinha o objetivo de destruir direitos e serviu para<br>piorar as condições de vida da classe trabalhadora. A eleição de Bolsonaro veio para aprofundar ainda<br>mais tudo isso.</p>



<p>Ao mesmo tempo em que piorou as condições de vida da população mais pobre, o governo Bolsonaro<br>contribuiu para que os ricos ficassem ainda mais ricos. Prova disso é que só em 2021, enquanto a<br>fome e a miséria explodiam, <a href="https://economia.uol.com.br/noticias/redacao/2021/08/27/40-novos-bilionarios-brasileirosforbes. htm" target="_blank" rel="noreferrer noopener">o Brasil ganhou 42 novos bilionários</a>. A concentração de renda aumentou durante o governo Bolsonaro. Em 2020, o 1% mais rico da população concentrou 49,6% da renda nacional. Em 2019 esse mesmo <a href="https://www.cnnbrasil.com.br/business/desigualdade-no-brasil-cresceu-de-novo-em-2020-efoi- a-pior-em-duas-decadas/" target="_blank" rel="noreferrer noopener">1% concentrava 46,9% da renda</a>.</p>



<p>Em Pernambuco, como os dados acima demonstram, as condições de vida da população mais pobre<br>também pioraram durante o governo Paulo Câmara (PSB). O estado regrediu nesses últimos anos.</p>



<h3 class="wp-block-heading">Renda básica</h3>



<p>Para acabar com a fome e reduzir as desigualdades sociais no Brasil e em Pernambuco, é necessário<br>retomar o investimento público com a finalidade de gerar emprego e renda para a população, além de<br>fortalecer as políticas sociais.</p>



<p>Neste sentido, o PSOL e diversos movimentos sociais vêm defendendo a criação de uma renda básica<br>nacional para garantir a toda a população o direito à segurança alimentar e outras necessidades básicas. A experiência do auxílio emergencial provou que isso é possível, e, ao contrário do que diz o discurso oficial do governo, não falta dinheiro.</p>



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	                                        <p class="m-0">Tiago Paraíba. Crédito: Tom Cabral</p>
	                
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                    </figure>

	


<p>É possível e necessário também criar uma renda básica estadual em Pernambuco que sirva de complemento à nacional, a exemplo do modelo de transferência de renda adotado pela Prefeitura de Belém/PA, administrada pelo PSOL, que garante um auxílio de até 450,00 para as famílias que vivem em extrema pobreza. Os atuais indicadores sociais desastrosos de Pernambuco exigem que o governo estadual também aja nesse sentido.</p>



<p>As experiências das políticas sociais no país nas últimas décadas, especialmente do Bolsa Família, comprovam que este tipo de política pública, além de possuir eficácia no combate às desigualdades sociais, é capaz também de alavancar o desenvolvimento econômico e possui efeito multiplicador na geração de renda e emprego. A recuperação do poder aquisitivo das famílias beneficiadas por esse tipo de programa faz girar a economia local, criando o efeito de um círculo virtuoso de geração de emprego e renda.</p>



<h3 class="wp-block-heading">Salário mínimo estadual</h3>



<p>A Lei Complementar 103/2000 autorizou os Estados e o Distrito Federal a implementarem pisos salariais regionais acima do salário mínimo nacional. Atualmente, somente RJ, SP, RS, SC e PR adotam esse modelo e conseguem garantir maiores reajustes aos trabalhadores e trabalhadoras da iniciativa privada que não possuem pisos definidos em acordos ou convenções coletivas.</p>



<p>Diferentemente da renda básica, que se destina aos mais necessitados, o salário mínimo estadual tem como objetivo reduzir as desigualdades das categorias profissionais que enfrentam dificuldades de organização no mundo sindical, a exemplo das empregadas domésticas, e que pode representar mais uma medida a ser adotada por Pernambuco na recomposição da renda de parcela importante da população.</p>



<p>Em 2022, por exemplo, o Estado do Paraná reajustou os salários mínimos desses setores para: a) R$ 1.617,00 (faixa I &#8211; trabalhadores agropecuários, florestais e da pesca); b) R$ 1.680,80 (faixa II &#8211; trabalhadores de serviços administrativos, vendedores do comércio, reparação e manutenção; c) R$ 1.738,00 (faixa III &#8211; trabalhadores da produção de bens e serviços industriais); e d) de R$ 1.870,00 (faixa IV &#8211; técnicos de nível médio).</p>



<p>A instituição do salário mínimo estadual não eleva as despesas com o funcionalismo público e depende da iniciativa do Poder Executivo e aprovação da Assembleia Legislativa, destacando que essa proposta precisa ser articulada com outras ações econômicas e sociais de curto, médio e longo prazo.</p>



<h3 class="wp-block-heading">Ações afirmativas</h3>



<p>Somadas às propostas de renda básica e salário mínimo estadual, precisamos também enfrentar distorções estruturais na dinâmica do trabalho que atingem grupos sociais historicamente discriminados da população, que é o caso de mulheres, negros/as e indígenas, especialmente após a redução dos investimentos sociais pelo Governo Federal e os efeitos da pandemia em Pernambuco.</p>



<p>As famosas e escandalosas fotografias em que preponderam homens brancos no comando político nos governos Temer e Bolsonaro se repetem, infelizmente, em Pernambuco, mesmo com a maioria da população brasileira e pernambucana sendo de mulheres e de negros e negras. O mesmo acontece no retrato dos cargos de chefia nas empresas. Some-se a isso a supressão de indígenas e da população LGBTQIA+ desses espaços.</p>



<p>É dever do constitucional do Estado combater essa desigualdade. Além do compromisso com a diversidade nos cargos políticos, cabe ao poder público promover a equidade nos mais diversos espaços da sociedade. Para isso, as políticas de cotas, que já se mostraram efetivas, por exemplo, para o ingresso de jovens nas universidades, podem e devem ser estendidas para o mercado de trabalho, sobretudo para os cargos de chefia, garantindo espaço e voz de comando para as populações historicamente discriminadas.</p>



<p>Há, ainda, outras formas de incentivo à diversidade que não podem ser negligenciadas, como a promoção de incentivos, por meio de políticas públicas, a práticas inclusivas no mercado de trabalho. Em Pernambuco, por exemplo, vê-se um<a href="https://jc.ne10.uol.com.br/pernambuco/2022/02/14952644-dificil-recomeco-para-os-imigrantes.html" target="_blank" rel="noreferrer noopener"> aumento considerável de imigrantes</a>, e pouco se faz para que essas pessoas sejam incluídas de fato na sociedade. Da mesma forma, a situação de pessoas com deficiência também se mostra como uma questão a ser enfrentada pelo poder público, que tem a obrigação de lhes proporcionar oportunidade de acesso à qualificação profissional e a garantia de espaço de trabalho.</p>



<h4 class="wp-block-heading">Conclusão</h4>



<p>O conjunto de ações aqui apresentadas, que partem da transferência direta de recursos para os mais pobres através da renda básica associado à recomposição financeira de parcela dos trabalhadores da iniciativa privada por meio do salário mínimo estadual e à inclusão das ações afirmativas na política de incentivos fiscais, têm a capacidade de contribuir na redução das desigualdades sociais, raciais e de gênero em Pernambuco.</p>



<p>Ao contrário do mantra liberal presente no país e em Pernambuco nos últimos anos, que impõe a redução de direitos dos/as trabalhadores/as e se mostra alheio às distorções sociais proveniente de desigualdades historicamente estabelecidas, deve-se ter em mente que é justamente o processo de inclusão e a presença do poder público que poderá promover a dignidade financeira da classe trabalhadora.</p>



<p>*<strong> Presidente do PSOL em Pernambuco</strong></p>



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			</item>
		<item>
		<title>“A relação da política com a periferia sempre foi marcada por vidas sacrificadas&#8221;, diz integrante do Coque (R)Existe</title>
		<link>https://marcozero.org/entrevista-com-cleiton-barros/</link>
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		<dc:creator><![CDATA[Marco Zero Conteúdo]]></dc:creator>
		<pubDate>Sun, 17 May 2020 19:00:00 +0000</pubDate>
				<category><![CDATA[Direitos Humanos]]></category>
		<category><![CDATA[coque r(existe)]]></category>
		<category><![CDATA[coronavírus]]></category>
		<category><![CDATA[desigualdade]]></category>
		<category><![CDATA[periferia]]></category>
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					<description><![CDATA[<p>Por Chico Ludermir, parceria entre a Marco Zero Conteúdo e o Programa Entre da Rádio Universitária Paulo Freire Instigados pelo momento, mergulhados na crise e à beira do colapso o Programa Entre, em parceria com a Marco Zero Conteúdo, volta, nesse regime de urgência, para, em entrevistas, pensar possibilidades e reinvenções para o presente e [&#8230;]</p>
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										<content:encoded><![CDATA[
<p><strong>Por Chico Ludermir</strong>, parceria entre a Marco Zero Conteúdo e o Programa Entre da Rádio Universitária Paulo Freire<br> <br> Instigados pelo momento, mergulhados na crise e à beira do colapso o Programa Entre, em parceria com a Marco Zero Conteúdo, volta, nesse regime de urgência, para, em entrevistas, pensar possibilidades e reinvenções para o presente e para o amanhã.  </p>



<p>Nessa primeira edição da temporada que chamamos <em><strong>Reflexões sobre o agora e o porvir</strong></em> conversamos com o professor e pesquisador Cleiton Barros. Integrante do Coque (R)Existe, Cleiton é doutor em Educação e ensina na Universidade de Pernambuco, no campus da Mata Norte. Pesquisa temas relacionados à periferia e pobreza a partir da educação não formal e popular. Além disso, Cleiton é educador do Neimfa, associação que atua nas fronteiras entre educação e espiritualidade há mais de três décadas, na comunidade.  </p>



<p>A
conversa passa por assuntos como bio e necropolítica, gestão da
crise, perseguição às periferias e perspectivismo ameríndio. Com
um pé fincado no agora e outro projetando o futuro, Cleiton denuncia
o sacrifício de vidas periféricas, o estigma que recai sobre os
mais pobres e a nossa dificuldade para parar de produzir e consumir.
“A relação da política com a periferia sempre foi marcada por
vidas sacrificadas”, afirma em um trecho.</p>



<p>Para o
pesquisador, as mudanças estruturais dependem de um trabalho
intencional e articulado: “Desconfio de que há um excesso de
esperança de que algo vai se transformar automaticamente em função
da pandemia. Como se não dependesse mais de nenhum trabalho ou
esforço nosso”. Leia abaixo a entrevista completa. O Programa
Entre é transmitido nas sextas-feiras nas rádios Universitária FM
99,9MH e Paulo Freire 820KH. Todos os programas estão disponíveis
no spotify <em>programaentre</em></p>



<p><strong>Como
você tem vivido nessa quarentena? Como tem rearranjado seu cotidiano
e que reflexões e <em>insights</em> tem tido a partir desse seu lugar
de leitura do mundo?</strong></p>



<p> Eu tenho lido bastante. E tenho conseguido escrever também um bocado, porque eu estou me sentindo bastante provocado por essa situação de pandemia e de isolamento que a gente está sendo obrigada a fazer. O que eu estou tentando observar nisso tudo é o que se mantém e o que é novo. O que está aparecendo como coisa nova, o que está continuando a se reproduzir, a se perpetuar nos nossos comportamentos, nos discursos políticos, nossos modos de resistência. Eu estou observando isso com muita atenção porque estou um pouco desconfiado de que há certo excesso de esperança, digamos assim, de que algo vai se transformar quase que automaticamente em função da pandemia. Como se não dependesse mais de nenhum trabalho ou esforço nosso. Como se, necessariamente, nós fôssemos ser diferentes do que a gente vinha sendo. Eu acredito que essas alterações só serão possíveis se a gente puder fazer um trabalho intencional e articulado a partir de outros modos de articulação – já que o encontro presencial nesse momento não é possível. Mas eu acredito que isso depende de como a gente vai conseguir articular esses desejos de mudança, desejos de outro mundo e não o isolamento em si, a pandemia em si provocando mudanças significativas. O capital – essa inteligência que vinha comandando os nossos modos de viver, nossa maneira de fazer política – é muito hábil em capturar esses momentos e usá-los ao seu próprio favor. É o que eu vejo acontecendo nesse momento. Se a gente não tiver cuidado, se os movimentos sociais – se os espaços educativos como as universidades, os espaços de educação popular, os movimentos culturais não tiverem esse cuidado – a gente vai acabar simplesmente retomando, a partir, talvez, de outros princípios, de outras ações, a lógica do capital. Eu acho que esse é um cuidado importante que a gente deveria ter.</p>



        <figure class="wp-block-image my-5 img-center text-center">
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	                                        <p class="m-0">Professor e pesquisador Cleiton Barros. Crédito: Katarina Scervino/Divulgação</p>
	                
                                    </figcaption>
                    </figure>

	


<p><strong>Vou
te fazer uma provocação a partir de uma passagem do texto de Paul
Preciado publicado na N-1, </strong><em><strong>Aprendendo do Vírus</strong></em><strong>.
Ele escreve: “Fale-me como sua sociedade constrói soberania
política e eu lhe direi quais formas tomarão suas epidemias e como
você as enfrentará”. Queria que você, a partir dessa frase e com
os recortes que você quiser dar, me dissesse o que essa epidemia e o
enfrentamento brasileiro a ela revela sobre a nossa política?</strong> 
</p>



<p>Eu acho
que pensar sobre isso passa por um pensamento sobre a forma como a
grande política, essa biopolítica maior, a política institucional,
lida com os espaços e sujeitos periféricos por fora da experiência
da pandemia. A relação dos governos, historicamente, com os
sujeitos periféricos de uma maneira geral – as favelas, as
comunidades indígenas, quilombolas, ribeirinhas, a comunidade LGBT,
a comunidade negra – sempre foi uma relação de distanciamento, de
seleção biopolítica mesmo sobre as vidas que importam e aquelas
vidas que são deixadas e abandonadas sem mais. Para mim é muito
difícil imaginar que uma relação política que sempre foi baseada
nesse desprezo pela vida de alguns sujeitos, ela pudesse se alterar
significativamente nesse momento de pandemia e de isolamento
necessário que a gente tá passando, especialmente se a gente fala
do atual governo federal. Eu não consigo me surpreender com nenhuma
das falas (é quase um gênero textual hoje em dia, o gênero: o
presidente disse, qual foi a última do presidente). O “e daí?”
o “eu não sou coveiro”. Essas são frases corriqueiras, comuns,
banais, que a gente acaba ouvindo, às vezes de outras formas, em
relação à vida na periferia. Eu lembro que durante as lutas do
Coque (R)existe, em 2013, quando a gente estava naquele embate mais
direto com o Governo do Estado, um secretário, que hoje faz oposição
ao governo Bolsonaro, disse para nós que isso era normal. O contexto
do Coque (R)existe era o de que 58 casas iriam ser demolidas para
ampliar a via de acesso ao terminal integrado [de Joana Bezerra] e
quase 200 pessoas iriam ficar sem ter onde morar. E a gente
questionava isso, a possibilidade de redesenhar [o projeto de
viário]. Ele dizia que não podia redesenhar e que o governo estava
muito tranquilo naquele momento, porque ele sabia que para beneficiar
alguns a gente tinha que passar por cima de outros. Isso ficou na
minha cabeça até hoje. Ele disse: “Eu sei que para a gente
beneficiar muitas pessoas, a gente precisa passar por cima da vida de
alguns”. Então, essa relação política com a periferia e com os
periféricos sempre foi uma relação marcada por essa
característica. Vidas que são sacrificadas normalmente quando se
quer beneficiar esse espectro maior. E aí, a palavra “espectro”
para mim é muito cara, porque ela remete ao fantasma. Para
beneficiar essa ideia fantasmal, que, no Brasil, é a ideia de povo,
de cidadão no nosso país&#8230; Para beneficiar esse fantasma, chamado
Brasil, o governo diz que precisa passar por cima da vida de
alguns.<br>
<br>
<strong>Segundo Achille Mbembe, criador do conceito de
necropolítica, a expressão máxima da soberania reside no poder e
na capacidade de ditar quem pode viver e quem pode morrer. Ou, dito
de outra forma, o poder de matar, deixar viver ou expor a morte. Como
você leria esse conceito no contexto da gestão da nossa pandemia?</strong></p>



<p>Eu acho
que esses dois conceitos, como um par conceitual, servem muito bem
para analisar a situação da gestão da pandemia no nosso país. Com
muita clareza, a gente está vivendo um laboratório experimental,
vendo isso [a necropolítica] ser aplicada no nosso cotidiano. Deixar
chegar a esse limite [na gestão da pandemia] é uma opção de
governo, política. Não tem exatamente a ver com o vírus ou reação
a ele, mas como uma maneira de governar diante de várias situações.
O vírus é, digamos, a situação-limite atual, mas a gente vive o
tempo inteiro muitas outras situações-limite em que o governo toma
pra si essa tarefa de dizer quem vive, quem morre, quem é
beneficiado.</p>



<p><strong>O
vírus, a doença, segundo Derrida, é sempre o estrangeiro, o outro
por assim dizer. No caso da sífilis, a alteridade perseguida foi a
prostituta, acusada de infectar os homens. Foram elas, protegendo a
moral do heteropatriarcado, que foram confinadas e deixadas para
morrer. No caso do HIV-Aids, os apontados eram homossexuais, usuários
de drogas injetáveis, os hemofílicos e, outra vez, as prostitutas.
No caso da Covid-19, quem você enxerga que é essa alteridade
atacada na gestão da pandemia? </strong>
</p>



<p>Essa
pergunta me remete à ideia de estigma, como sendo essa marca que
alguns carregam no próprio corpo. No comecinho da quarentena, eu
estava escrevendo um texto, justamente tentando observar como esses
estigmas, durante a pandemia da covid-19, estavam se alterando –
porque a doença chega no Brasil através de pessoas da classe média,
classe alta, pessoas ricas, que viajaram para fora do país. Por um
breve momento parecia que aquelas pessoas seriam estigmatizadas,
quase como uma inversão no estigma. O pobre é estigmatizado como
causa de todos os males sociais. Da violência, do desemprego&#8230; tudo
de ruim que existe no nosso país, o pobre é acusado de ser o
responsável. Mas, lá no comecinho da pandemia, parecia que isso
estava se invertendo. Parecia que os ricos é que seriam
estigmatizados por terem, digamos, trazido o vírus para o nosso
país. Mas rapidamente isso se altera, quando ocorre a primeira morte
registrada no nosso país –  que foi uma empregada doméstica que
trabalhava no Leblon. Quando morre a empregada doméstica a gente
percebe que, na verdade, os estigmatizados vão continuar sendo os
mesmos no nosso país. Quem tá carregando o estigma da covid-19, da
proliferação do vírus no país, continua sendo o pobre. Continuam
sendo aqueles que não têm a opção de fazer quarentena porque
precisam trabalhar, continuam sendo aqueles que moram em situações
extremamente precárias nas favelas, como é o caso da comunidade que
a gente vive, que é o Coque. Continuam sendo essas
pessoas.<br>
<br>
<strong>Pensando em como a sociedade tem enxergado e
se reorganizado diante do isolamento, tínhamos alguns caminhos –
claro que para aqueles sujeitos a quem resta alguma possibilidade de
escolha: ou um momento para desacelerar, cuidar de si, silenciar,
refletir, ou manter, a todo custo, a lógica da produtividade. Se por
um lado, não paramos de produzir, por outro – ou talvez por isso
mesmo – também não paramos de consumir. A Amazon, como símbolo
disso, registrou um aumento de 26% em suas vendas. Como você tem
lido esse impulsionamento à produtividade e ao consumo? Como você
tem visto essa possibilidade de parar? </strong>
</p>



<p>Eu acho que essa coisa do consumo e da produtividade tem a ver com o desejo de volta ao normal, de manutenção do que a gente vinha sendo e da possibilidade de voltar a ser o mais rápido possível o que sempre fomos. A gente desejar o retorno a uma experiência que era e sempre foi uma experiência muito dura, muito adoecedora, muito violenta, frustrante, uma experiência extremamente desigual, mas que a insegurança representada pela pandemia e a incerteza que a gente tem sobre a volta, a saída dessa situação, fazem a gente desejar um retorno àquilo que a gente é, aquilo que a gente sempre foi, sem que a maioria de nós se dê conta de que retornar a isso seria manter uma situação de dominação e de violência que é histórica no nosso país, e que é histórica no próprio mundo. Por outro lado, é curioso ver como essa situação toda deu a ver também uma série de outras maneiras de viver que normalmente estavam fora do nosso campo de visão. Essa coisa da generosidade, do compartilhamento, já é uma potência que as periferias, os sujeitos periféricos, já experimentam há muitos anos. Eu lembro também de uma das intervenções do Ailton Krenak no “Ideias para adiar o fim do mundo” em que ele diz: “nós indígenas, a gente já vem resistindo, já vem cultivando outras maneiras de viver por fora desses esquemas do consumo, por fora desses esquemas da produtividade há, pelo menos, quinhentos anos.” Eu acho que a visibilidade que esses povos têm ganhado nesse momento é importante. Quando eu falo de potência, eu não estou falando da reação a uma situação que se coloca, eu estou falando de uma maneira de viver que é o que nos mantém vivendo num país tão desigual como é o Brasil. Essas outras possibilidades de viver não são uma novidade que a pandemia trouxe. A gente tá conseguindo ver melhor agora, talvez, mas ela é o que faz as favelas continuarem existindo. Se não fosse a generosidade, se não fossem os laços de proximidade entre os vizinhos nas comunidades periféricas, nas comunidades pobres, essas comunidades já teriam desaparecido há muito tempo. Eu acho que a gente pode deslocar os nossos olhares até essas experiências e aprender com elas. Ir ampliando a existência desses outros mundos que já existem, que já estão, são acessíveis e que a gente pode fazê-los se expandir, se espalharem em outras experiências.<br> <br> <strong>Podemos pensar que os tempos de crise e ruptura são tempos de reinvenção e reconfigurações em larga escala. Pensando a palavra </strong><em><strong>entre</strong></em><strong> como a </strong><em><strong>relação</strong></em><strong> e também como um imperativo, essa pergunta é uma provocação sobre que projeto de mundo temos – ou que é possível de se ter, a partir do que estamos vivendo hoje. Que mundo devemos criar – ou aos moldes do nosso programa, o quê e quem pode/precisa entrar?</strong></p>



<p>Eu tenho me sentido muito provocado pelas relações entre a vida nas favelas, entre a origem das favelas no nosso país e as populações e comunidades afro-indígenas. Pensando do ponto de vista das pessoas comuns daqui da comunidade do Coque especificamente, é uma história que praticamente está apagada para nós: da origem afro-indígena da nossa comunidade, que é muito fácil perceber. Basta conversar com qualquer pessoa mais velha das nossas famílias e a gente descobre que veio de alguma cidade do interior de Pernambuco que tem algum histórico quilombola, indígena, mas que isso no nosso dia a dia praticamente acaba desaparecendo. Esse é um tema que tem me provocado muito: essas conexões das lutas indígenas e da comunidade negra e as lutas específicas dentro das favelas, dentro do Coque especificamente. Acho que nos dois casos são invocados elementos que os processos de resistência política mais clássicos e tradicionais, digamos assim, não dão conta, que é  justamente de que há essa dimensão do vínculo, há essa dimensão da conexão, essa dimensão mágica da energia. Essa dimensão do que eles chamam de espírito, do que eles chamam de mundo. Dessa habilidade que os povos indígenas e os povos africanos têm de reconhecer nos elementos e nas forças da natureza, seres, vidas. Esse é um debate muito importante para nós, porque ele ativa outras possibilidades de organização e de conexão com o planeta, com a terra por fora desse esquema estrito do consumo e da produtividade, ou seja, da predação da terra. Se a gente tem respeito por esses outros seres que são os rios, o chão, o céu, as estrelas, as árvores, as plantas, se a gente tem respeito a esses seres como seres, a gente consegue ativar e trazer outros elementos para a luta política, para a luta social e que podem nos ajudar a reinventar esses outros modos de viver juntos. Tentando responder diretamente quem precisa entrar nesse momento: são esses outros seres, essas outras inteligências, esses outros sujeitos que essas populações de onde a gente vem, que são a nossa origem, sempre falaram para nós. São esses outros que precisam estar nesses lugares da política, nesses lugares da sociedade. </p>
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			</item>
		<item>
		<title>O Deus Mercado e a força do discurso liberal na periferia brasileira</title>
		<link>https://marcozero.org/o-deus-mercado-e-a-forca-do-discurso-liberal-na-periferia-brasileira/</link>
					<comments>https://marcozero.org/o-deus-mercado-e-a-forca-do-discurso-liberal-na-periferia-brasileira/#respond</comments>
		
		<dc:creator><![CDATA[Laércio Portela]]></dc:creator>
		<pubDate>Wed, 10 Apr 2019 15:00:58 +0000</pubDate>
				<category><![CDATA[Diálogos]]></category>
		<category><![CDATA[desigualdade]]></category>
		<category><![CDATA[Fundação Perseu Abramo]]></category>
		<category><![CDATA[governo Lula]]></category>
		<category><![CDATA[mercado]]></category>
		<category><![CDATA[periferia]]></category>
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					<description><![CDATA[<p>Texto publicado originalmente em 7 de abril de 2017. Até que ponto percepções cristalizadas na elite política e formadora de opinião, incluindo aí a esquerda acadêmica, partidária e de classe média, têm base na realidade das periferias brasileiras? O mundo dividido em direita e esquerda, a crítica absoluta à meritocracia e ao consumo, a associação [&#8230;]</p>
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]]></description>
										<content:encoded><![CDATA[<p><strong>Texto publicado originalmente em 7 de abril de 2017.</strong></p>
<p>Até que ponto percepções cristalizadas na elite política e formadora de opinião, incluindo aí a esquerda acadêmica, partidária e de classe média, têm base na realidade das periferias brasileiras? O mundo dividido em direita e esquerda, a crítica absoluta à meritocracia e ao consumo, a associação dos valores da família e da religião ao conservadorismo político&#8230;</p>
<p>Algumas respostas a essa pergunta incômoda vieram à tona na pesquisa <em>Percepções e Valores Políticos nas Periferias de São Paulo</em>realizada pela Fundação Perseu Abramo, ligada ao Partido dos Trabalhadores. Nela, foram realizadas entrevistas em profundidade e com grupos focais formados por moradores de bairros da periferia da cidade de São Paulo que ganham até 5 salários mínimos. Moradores que votaram no PT entre 2000 e 2012, mas não votaram em Dilma Rousseff para presidente em 2014, nem em Fernando Haddad para prefeito em 2016.</p>
<p>O resultado mostrou uma realidade muito distante daquela que tem constituído o eixo principal do discurso da esquerda no Brasil. E pode ajudar a explicar porque muitas vezes parece que a esquerda brasileira fala para as paredes e não é entendida pelo “povo”. Coloca em xeque também a máxima, às vezes dita abertamente e às vezes subentendida, de que é necessário “educar” esse mesmo povo. Muito antes disso é preciso enxergá-lo, entender suas motivações e como constrói identidade em meio à violência e à falta de oportunidades.</p>
<p><strong>Nem esquerda nem direita. Empregados e patrões no mesmo barco</strong></p>
<p>O discurso maniqueísta do ativismo sindical e da análise acadêmica que divide o campo político em direita e esquerda não tem ressonância na periferia. As opiniões dos entrevistados mudavam de posições mais progressistas ou conservadoras dependendo do assunto abordado. Saem, portanto, do esquema de ser de “direita” ou ser de “esquerda”. Não há essa polarização. Termos como “coxinha”, “reaça”, “conservador” ou “progressista”, que povoam o vocabulário da classe média engajada, não fazem parte do imaginário daqueles que moram na periferia.</p>
<p>A divisão do mundo entre trabalhadores e burguesia, outro ponto fundamental do discurso tradicional da esquerda, também não tem o mesmo nível de aderência entre os moradores da periferia de São Paulo. Não há a noção de luta de classe, não da forma direta como é colocada na ação sindical. “Trabalhador e patrão são diferentes, mas não existe no discurso a relação de exploração: um precisa do outro, estão no ‘mesmo barco’”, diz o relatório da pesquisa.</p>
<p>Uma concepção no mínimo desconcertante para a esquerda que prega o antagonismo entre o capital e o trabalho como o eixo sobre o qual gira toda a disputa política nacional.</p>
<p><a href="http://marcozero.org/wp-content/uploads/2017/04/Direita-e-esquerda.png"><img fetchpriority="high" decoding="async" class="alignnone size-full wp-image-4588" src="http://marcozero.org/wp-content/uploads/2017/04/Direita-e-esquerda.png" alt="Direita e esquerda" width="1122" height="709"></a></p>
<p><strong>O Estado como inimigo: </strong><strong>ineficaz e incompetente</strong></p>
<p>E esses patrões e empregados que “estão no mesmo barco” têm um adversário em comum, ou um inimigo: o Estado, cobrador de impostos extorsivos que não se revertem em serviços de qualidade. Para os entrevistados, a grande disputa em jogo na sociedade não se dá entre ricos e pobres, entre donos de grandes corporações e os trabalhadores assalariados, entre capital e trabalho. O confronto real coloca em lados opostos os cidadãos e o Estado, “ineficaz e incompetente”. Está posto entre os cidadãos e seus governantes. Abrindo espaço para a defesa de um certo “liberalismo popular” que defende menos presença do Estado em suas vidas.</p>
<p><em>“Há solidariedade com os empresários: muitos assumem o discurso propagado pela elite e pelas classes médias apontando a burocracia e os altos impostos como empecilhos para o empreendedorismo”.</em></p>
<p>Assim, é comum que moradores da periferia reproduzam uma visão de mundo projetada por aqueles grupos aos quais eles querem ascender. Daí muitas vezes nasce um sentimento de solidariedade maior com os patrões do que com os integrantes do seu mesmo grupo social. <em>“Nesse sentido, a resiliência, mais do que a resistência é um valor positivo”</em>, avalia o relatório.</p>
<p>O empreendedorismo é para muitos o caminho para a liberdade. O caminho para se tornar dono do seu próprio negócio, “dono do seu próprio nariz”, de não dever satisfação a ninguém e construir por seu próprio esforço sua história de distinção e sucesso pessoal.</p>
<p><strong>Ascensão social por mérito </strong><strong>e esforço próprios</strong></p>
<p>A ascensão social é uma chave importante no processo de construção da identidade e da diferenciação em relação ao outro. Todos jogam suas fichas em crescer na vida e deixar de ser “pobre”. Essa atitude tem a ver com coragem e força de vontade para enfrentar todo tipo de barreira.</p>
<p>Se é verdade que eles reconhecem que algumas políticas públicas podem ajudar neste percurso, abrindo mais oportunidades, entendem que, no fundo, a ascensão vem por mérito e esforço próprios. Citam em destaque três figuras públicas que, vindo de baixo, teriam trilhado esse caminho de superação com o qual se identificam: Lula, Silvio Santos e João Dória Jr. Um espelho a refletir o sucesso que eles mesmos almejam alcançar.</p>
<p>Tantas vezes motor de uma crítica à esquerda ao governo do ex-presidente Lula, o incentivo ao consumo das classes populares e o posicionamento desse consumo como uma marca da inclusão social no Brasil é respaldada pela pesquisa. Ela indica que o consumo é sim um fator importante na construção da identidade e da significação da ascensão social nas periferias. Mas a ascensão que aumentou a capacidade de consumo do morador dos bairros mais pobres não é vista como o resultado apenas da gestão de governo e sim, essencialmente, do esforço pessoal e familiar.</p>
<p>Não confundir consumo com consumismo: <em>“</em><em>Embora o consumo seja uma dimensão presente e valorizada, o consumismo não ocupa posição central na vida dos entrevistados: o dinheiro é escasso e, portanto, é preciso traçar prioridades”.</em></p>
<p><a href="http://marcozero.org/wp-content/uploads/2017/04/ascensão-social-e-Deus.png"><img decoding="async" class="alignnone size-full wp-image-4589" src="http://marcozero.org/wp-content/uploads/2017/04/ascensão-social-e-Deus.png" alt="ascensão social e Deus" width="1119" height="709"></a></p>
<p><strong>A valorização do mercado,</strong><strong>a desqualificação do que é público</strong></p>
<p>Se o Estado é apontado recorrentemente como um obstáculo a ser transposto, o mercado, por outro lado, é uma referência positiva em detrimento desse mesmo Estado. <em>“Há pouca valorização do público, tanto que quando podem acessar, querem colocar filho na escola particular, ou pagar convênio médico. A política pública, em alguns casos, pode ser lida como um desvalorização individual. Os ideais comunitários e coletivistas praticamente não aparecem nas narrativas e, quando aparecem, restringem-se à dimensão da família, da vizinhança e da igreja”.</em></p>
<p>Há uma distorção na noção da coisa pública, que tem menos relação com algo que pertence a todos e passa a ser vista como algo que é de graça e que, justamente por isso, não tem qualidade. A escola e o posto de saúde públicos, por exemplo. <em>“A própria relação com a esfera pública está mediada por interpretações mercantis”.</em></p>
<p>Os moradores da periferia ouvidos pela pesquisa <em>“querem ter sua singularidade e valores reconhecidos dentro da competitividade capitalista, mostrando que, apesar das limitações impostas pela condição social, também são capazes”</em>. Por isso há uma certa rejeição a políticas públicas que parecem duvidar da capacidade dos menos favorecidos de crescer por seus próprios meios. A meritocracia, tão atacada pela esquerda, tem espaço cativo no imaginário da periferia. <em>“</em><em>A dimensão da vida privada é central para a constituição da subjetividade do indivíduo”</em>.</p>
<p>A visão que se tem da escola se encaixa nessa lógica de supervalorização do mérito. Ela é considerada uma das principais portas para a mobilidade social. Apesar de reconhecerem todas as dificuldades de infraestrutura e recursos humanos das escolas públicas e viverem divididas entre o ensino e o mundo do trabalho (nem sempre dá para se dedicar exclusivamente aos estudos sem levar dinheiro para casa), eles são muito autocríticos e, por vezes, atribuem o insucesso e o abandono da sala de aula à falta de capacidade pessoal de estudar, à falta de esforço pessoal.</p>
<p><a href="http://marcozero.org/wp-content/uploads/2017/04/A-desvalorização-do-público.png"><img decoding="async" class="alignnone size-full wp-image-4590" src="http://marcozero.org/wp-content/uploads/2017/04/A-desvalorização-do-público.png" alt="A desvalorização do público" width="1122" height="719"></a></p>
<p><em>“A lógica mercantil está presente mesmo na interpretação dos direitos trabalhistas e benefícios sociais. As pessoas confiam mais nos programas que ofertam imediatamente recursos financeiros (Bolsa Família/Passe Livre) do que nas leis que orientam direitos”.</em></p>
<p><strong>Grande mídia agenda o debate.</strong><strong>Pode muito, mas não pode tudo</strong></p>
<p>Num ponto a análise crítica da esquerda parece fazer todo o sentido. O papel ainda significativo da mídia hegemônica na construção ou alimentação desse imaginário liberal na medida em que, segundo a pesquisa, ela ainda pauta de forma relevante a agenda de discussões e as informações que circulam nas periferias. <em>“Assuntos debatidos com mais frequência são aqueles que estão na pauta da grande mídia, que continua sendo umas das principais fontes de informação da maioria, como casos de escândalo de corrupção, operação lava jato ou debates sobre as recentes eleições municipais”</em>, diz o relatório.</p>
<p>Mas há uma alerta a considerar: <em>“</em><em>Embora a mídia tradicional ainda paute os temas que geram mais atenção da população e tente disputar os sentidos da experiência vivida em relação às políticas públicas, ela consegue ser exitosa em reproduzir sua visão de mundo especialmente onde existe um sentimento de ‘vazio’ de políticas públicas na experiência da vida prática e cotidiana”.</em></p>
<p>Essa constatação nos leva a outro ponto: <em>“Q</em><em>uando as pessoas acessam determinadas políticas de forma efetiva e satisfatória em relação a expectativas e necessidades, como por exemplo os CEU`s no caso da gestão Marta Suplicy, elas tendem a fazer avaliações independentes e não permeáveis aos valores e discursos construídos pela imprensa tradicional”</em>. Ou seja, a grande mídia pode muito, mas não pode tudo. Não pode quando o que diz entra em contradição com a experiência pessoal vivida pelo telespectador.</p>
<p><strong>Avanço estável:</strong><strong>contra o caos e as rupturas</strong></p>
<p>Há um valor arraigado na periferia que também ajuda a explicar porque o discurso incendiário e de confrontação aberta com o sistema sofre resistência e nem sempre mobiliza os mais pobres. Existe entre os mais pobres uma percepção de que numa situação de ruptura eles são os que mais perdem. Para poderem trilhar o caminho da ascensão social é preciso estabilidade. <em>“Riscos de rupturas, de caos e ameaças incomodam e tendem a ser rejeitados”</em>.</p>
<p>Esse sentimento já havia sido detectado pelo cientista político e jornalista André Singer em seu livro <em>Os Sentidos do Lulismo</em> (Companhia das Letras, 2012) ao definir como “pacto conservador” a aliança construída pelo governo do ex-presidente Lula com as camadas de baixa renda, garantindo-lhes mais renda e emprego sem romper com o sistema, com o grande capital. Assegurando, portanto, estabilidade política para a ascensão social da periferia.</p>
<p>Fator de estabilidade também mencionado pelos entrevistados é a família, vista como “um porto seguro, o que mantém a gente na linha”. Um alicerce importante para garantir que os filhos sejam pessoas corretas e não sigam uma vida de desvios. Neste sentido, a tão propalada crise ética do Brasil não é percebida como algo sistêmico, da nossa estrutura política, mas como desvio individual, de falta de educação familiar. Reforçando o viés liberal no modo de ver o mundo.</p>
<p><a href="http://marcozero.org/wp-content/uploads/2017/04/Família.png"><img loading="lazy" decoding="async" class="alignnone size-full wp-image-4595" src="http://marcozero.org/wp-content/uploads/2017/04/Família.png" alt="Família" width="1123" height="718"></a></p>
<p><strong>Igreja acolhe e dá sentido </strong><strong>de pertencimento</strong></p>
<p>Junto à família, a religião é considerada fator central na vida dos entrevistados. Ela se constitui como <em>“o </em><em>principal espaço de sociabilidade, que dá sentido de comunidade, de pertencimento e acolhimento, constituindo uma rede de apoio e solidariedade”</em>. Não é pouco, considerando a situação de vulnerabilidade social nas periferias das grandes cidades brasileiras. Estar na igreja agrega valor na periferia, mostra que você tem bons valores, é uma pessoa honesta.</p>
<p><em>“A igreja aparece menos na sua dimensão teológica e mais como instituição de apoio para minimizar ou evitar o risco de seguir pelo caminho errado da desocupação e da criminalidade”.</em></p>
<p>Antes que a esquerda levante a voz para bradar o discurso da religião como ópio do povo e raiz do conservadorismo político que tomou conta da agenda nacional, é preciso ter em conta que, na prática, o nível de tolerância apresentado pelos entrevistados evangélicos é bem maior do que o discurso atribuído às elites das igrejas.</p>
<p><a href="http://marcozero.org/wp-content/uploads/2017/04/O-dízimo.png"><img loading="lazy" decoding="async" class="alignnone size-full wp-image-4591" src="http://marcozero.org/wp-content/uploads/2017/04/O-dízimo.png" alt="O dízimo" width="1120" height="715"></a></p>
<p><em>“Diferente do que supõe o senso comum, surgem vozes em defesa da autonomia das mulheres, em defesa do respeito às várias identidades e orientações sexuais, entre outros. Jovens apresentam tendências ainda mais liberais que mais velhos. Os discursos religiosos não são absorvidos em blocos monolíticos e rígidos, havendo espaços de permeabilidade a outras visões narrativas em circulação na sociedade”.</em></p>
<p><strong>Proximidade com fiéis vale mais</strong><strong>do que ideologia conservadora</strong></p>
<p>A pesquisa também aponta que a preferência pelas igrejas neopentecostais está diretamente relacionada à forma como elas se organizam. Mais próximas e abertas aos fiéis e à comunidade do que a Igreja Católica.</p>
<p><em>“Nas igrejas neopetencostais se estabelecem relações mais próximas, menos mediadas. Todos acreditam que a conexão com Deus se faz de forma direta, íntima, individual e personalizada. As igrejas neopetencostais oferecem um ambiente de conhecimento e reflexão que favorece esta conexão. Além disso, estas igrejas possuem uma rede de pastores e obreiros que tentam se colocar próximos e disponíveis para dar apoio aos fiéis e, com isso, adentram a casa e a vida das pessoas. Relatos dos católicos desenham uma igreja mais impessoal, menos íntima, com menos conexão com a comunidade”.</em></p>
<p>O tão temido voto evangélico (temido e dogmatizado, leia-se, no discurso da velha e da nova esquerda católica não-praticante), ao contrário do que se supõe, aparenta ser menos orientado por uma visão ideológica conservadora do que pela construção de uma relação de proximidade com a igreja e os outros fiéis. Um voto para alguém conhecido, que divide o mesmo espaço, que tem uma identidade comum, um sentido comum de pertencimento, comunga dos valores da meritocracia e do desejo de prosperidade. Não necessariamente um “voto conservador”.</p>
<p>Em outras palavras, <em>“ser adepto de uma religião não necessariamente se reverte na adesão plena a um conjunto específico de valores conservadores religiosos que irão, automaticamente, orientar ou se fazer refletir nas escolhas eleitorais”.</em></p>
<p><em>“O sucesso neopetencostal se daria mais por questões organizacionais, seu papel acolhedor e de sociabilidade na comunidade do que por questões de conteúdo ideológico. Política também é vínculo, acolhimento e identidade – as igrejas nas periferias proporcionam isso”</em>, diz o relatório da pesquisa.</p>
<p><strong>O descrédito na política e</strong><strong>a solução moralizadora</strong></p>
<p>A política vive um intenso processo de perda de legitimidade, chegando inclusive a ser criminalizada. É considerada “suja”, tomada por gente “mau caráter”. Os políticos são vistos como mentirosos, que ludibriam os eleitores prometendo trabalhar por eles, quando, na verdade, defendem apenas seus próprios interesses com vistas a obter ganhos pessoais.</p>
<p>A corrupção dos governantes é apontada como o maior problema do Brasil e responsável por todas as outras mazelas que atingem os brasileiros: desemprego, violência, péssima qualidade dos serviços públicos, como educação e saúde. A pesquisa não diz, mas podemos intuir que a cobertura da grande mídia tem um parcela grande de responsabilidade na deslegitimação da política.</p>
<p><a href="http://marcozero.org/wp-content/uploads/2017/04/desmoralização-da-política.png"><img loading="lazy" decoding="async" class="alignnone size-full wp-image-4594" src="http://marcozero.org/wp-content/uploads/2017/04/desmoralização-da-política.png" alt="desmoralização da política" width="1121" height="720"></a></p>
<p>A solução apontada pelas pessoas ouvidas na pesquisa qualitativa realizada pela Fundação Perseu Abramo é “moralizar” o Brasil. Colocar no poder gente de caráter e comprometida com a sociedade. A partir dessa perspectiva surge uma ideia que mostra como as categorias ideológicas de “esquerda” e “direita” falam pouco aos moradores da periferia: criar um único partido integrado pelos melhores e mais honestos políticos para governar o país, juntando o que há de melhor em cada legenda, eliminando as brigas pelo poder e unindo todos os que estão comprometidos com o bem estar da população.</p>
<p>Fica mais fácil entender essa lógica quando percebemos que para a maioria dos participantes da pesquisa os partidos políticos são entidades montadas unicamente para lançar candidatos e governar. Entidades que têm um caráter eminentemente prático. Foram poucos os entrevistados que relacionaram os partidos a projetos políticos baseados em disputas ideológicas. Muitos sequer conseguem distinguir as diferenças entre os partidos existentes no país.</p>
<p><strong>Liberalismo popular: </strong><strong>oportunidades iguais, mérito como diferença</strong></p>
<p>Mais uma vez o discurso da eficiência do mercado é colocado em contraposição à ineficiência do Estado. Os entrevistados defenderam uma maior integração entre setor público e setor privado, para que o setor público adquira a eficiência do setor privado e possa garantir um atendimento melhor às demandas da sociedade. Essa posição pode ajudar a compreender a abertura dos setores de baixa renda a parcerias público-privadas e até às terceirizações.</p>
<p><em>“Há menos a presença de um neoliberalismo enraizado ou de um conservadorismo no sentido estrito e mais de um liberalismo particular das classes populares, que precisa ser melhor compreendido. Tem a igualdade de oportunidades como ponto de partida e a defesa do mérito como linha de chegada. Trata o mercado como instituição mais crível que o Estado, a esfera privada mais relevante que a pública e cultiva mais o individualismo que a solidariedade. Tem como valores prioritários o sucesso, a concorrência, o utilitarismo e mercantilização da vida”.</em></p>
<p>Mas, é importante que se diga, <em>“reconhece a importância de um Estado eficaz em reverter impostos em serviços de qualidade e em reduzir desigualdades”</em>.</p>
<p><strong>Periferia: a vida vivida que</strong><strong>não pode ser ignorada</strong></p>
<p>O descrédito na política, com a sobrevalorização do mercado em detrimento do Estado e o entendimento de que os políticos tradicionais são todos corruptos contribui, segundo a conclusão da pesquisa, para a vitória de candidatos como João Dória Jr., atual prefeito de São Paulo. Visto como alguém rico e bem-sucedido, que veio de baixo, e, por isso, não precisa se envolver em roubalheiras.</p>
<p>O relatório faz uma ressalva: <em>“os entrevistados seguem acreditando em saída democráticas, falam em fortalecimento dos processos de transparência e participação. No processo de formação de opinião, as condições materiais de vida e do cotidiano são preponderantes.”</em></p>
<p>A pesquisa é um ponto de partida para reflexões que não podem ser mais desprezadas pela esquerda brasileira. Discursos reducionistas que, quando não ignoram, fazem pior e desmerecem a experiência da vida vivida nas periferias das grandes cidades brasileiras, precisam ser revistos.</p>
<p>Negar o mérito pessoal na ascensão social é uma forma de invisibilizar o indivíduo, sua especificidade e criatividade próprias. Ser “beneficiário de programa social” não define ninguém. Pode ser um ponto de partida para avançar na vida, não é o ponto de chegada. A pesquisa evidencia que o mérito é um elemento forte na construção da identidade nas periferias, como é também na classe média, de esquerda ou de direita.</p>
<p>“<em>O campo democrático-popular precisa produzir narrativas contra-hegemônicas mais consistentes e menos maniqueístas ou pejorativas sobre as noções de indivíduo, família, religião e segurança”.</em></p>
<p>O caso das igrejas neopentecostais é emblemático. Visto pela esquerda como o espaço onde germina o mais tosco conservadorismo, as igrejas têm sido um anteparo importante na cotidiano de milhões de brasileiros das classes de mais baixa renda, ofertando aquilo que o discurso “maniqueísta e pejorativo” das esquerdas não pode dar: proximidade, acolhimento, sentido de pertencimento.</p>
<p>Antes de perguntarmos por que a periferia não está em peso nas ruas defendendo o Estado Democrático de Direito talvez devêssemos perguntar por que a esquerda não está na periferia?</p>
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		<title>Estudo confirma ociosidade de imóveis no bairro de Santo Antônio</title>
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		<dc:creator><![CDATA[Luiz Carlos Pinto]]></dc:creator>
		<pubDate>Fri, 06 Apr 2018 09:20:40 +0000</pubDate>
				<category><![CDATA[Reportagens]]></category>
		<category><![CDATA[Uncategorized]]></category>
		<category><![CDATA[arquitetura e urbanismo]]></category>
		<category><![CDATA[centro]]></category>
		<category><![CDATA[desigualdade]]></category>
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		<category><![CDATA[pobreza]]></category>
		<category><![CDATA[Políticas Públicas]]></category>
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					<description><![CDATA[<p>Um estudo inédito revela que há 42 imóveis desocupados ou menos da metade ocupados no bairro de Santo Antônio. O espaço disponível é correspondente a 2.106 unidades habitacionais. Para isso, seria necessário um investimento estimado de R$ 252.781.694,85. A área ociosa significa pouco mais de 14% do total de área construída em todo o bairro [&#8230;]</p>
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										<content:encoded><![CDATA[<p>Um estudo inédito revela que há 42 imóveis desocupados ou menos da metade ocupados no bairro de Santo Antônio. O espaço disponível é correspondente a 2.106 unidades habitacionais. Para isso, seria necessário um investimento estimado de R$ 252.781.694,85. A área ociosa significa pouco mais de 14% do total de área construída em todo o bairro – incluindo igrejas, conventos, palácios e sobrado.</p>
<p>O levantamento foi feito pela Organização não-governamental <a href="https://habitatbrasil.org.br/">Habitat para a Humanidade Brasil</a>, em parceria com a ONG FASE, o coletivo <a href="https://www.facebook.com/groups/1670804096527012/">A Cidade Somos Nós</a>, o MTST Brasil e o <a href="https://www.facebook.com/CAUSUFPE">Coletivo Arquitetura, Urbanismo e Sociedade (CAUS)</a>. O objetivo do trabalho foi identificar imóveis ociosos e vazios no centro do Recife.</p>
<p>O trabalho será divulgado hoje pela manhã, na sede da Habitat, e em seguida haverá um debate com a participação de Betina Guedes, Promotora de Habitação e Urbanismo; Antônio Alexandre, Secretário de Planejamento Urbano da Prefeitura de Recife, e o vereador Ivan Moraes, Vice-Presidente da Comissão de Direitos Humanos da Câmara Municipal do Recife.</p>
<p>&#8220;Nosso objetivo com esse levantamento é provocar o debate para promoção de habitação de interesse social em áreas centrais da cidade. Estamos em um momento essencial para essa discussão uma vez que o Plano Diretor da cidade está em processo de revisão e é justamente nele que estes mecanismos devem estar contemplados”, explica Mohema Rolim, Gerente de Programas da Habitat para a Humanidade Brasil e responsável pela coordenação do estudo.</p>
<p><strong>Estudo</strong></p>
<p>Desde 2016 o coletivo A Cidade Somos Nós vem realizando o que chamamos de Rolês da Função Social, um evento para observar e mapear de forma colaborativa a ociosidade de imóveis dos bairros do Centro do Recife”, afirma Leonardo Cisneiros, professor da UFRPE e integrante do coletivo A Cidade Somos Nós. “O objetivo, além de fazer esse levantamento, era o de realizar um debate ao vivo sobre soluções e sensibilizar as pessoas para o potencial de transformação da cidade que poderia vir de um aproveitamento desses imóveis para a moradia popular”, explica</p>
<p>Para o levantamento que será apresentado hoje, apenas edificações com 5 pavimentos ou mais foram analisadas. Essa estratégia foi usada para filtrar as edificações com maior potencial de reabilitação para habitação. Dos 1.002 lotes do bairro de Santo Antônio, cadastrados na base do <a href="http://www2.recife.pe.gov.br/servico/informacoes-geograficas-do-recife-esig">Sistema de Informações Geográficas (ESIG)</a>, 155 possuem edificações com 5 ou mais pavimentos.</p>
<p>Esta base inicial de 155 lotes foi atualizada após as idas a campo, essenciais para confirmar a informação e identificar distorções. A partir da análise de campo, um lote foi acrescido e outros 44 excluídos. Os edifícios foram excluídos pela diferença entre as informações contidas no cadastro da prefeitura e a observação em campo. Em alguns casos, o número de pavimentos do cadastro não correspondia com a realidade, ou eram imóveis históricos/institucionais em que não seria possível a produção de habitação, como no Teatro de Santa Isabel ou no Palácio da Justiça. Isso totalizou um número final de 112 lotes analisados.</p>
<p><strong>Resultado</strong></p>
<p>Dos 112 lotes, 42 estão totalmente desocupados ou com menos da metade de sua área ocupada. Isso quer dizer que 37,5% dos imóveis analisados estão ociosos. Dos 30 imóveis identificados como menos da metade da área ocupada, 26 concentravam a maioria da ocupação no térreo e/ou na sobreloja.</p>
<p>&#8220;É um número muito alto e pode ser ainda maior. A maior parte tem uma boa conservação”, afirma Mohema Rolim. Os imóveis foram classificados como Bom (74) e Regular (33), com apenas 4 apresentando conservação Ruim e 1 sem opção assinalada.</p>
<p>O nível de ociosidade no bairro pode ser ainda maior. Dos 243 domicílios particulares permanentes recenseados pelo IBGE em 2010, 100 aparecem como não ocupados, totalizando 41,15% do total de domicílios do bairro. O número apresenta um crescimento considerável em relação aos 7,49% no censo anterior (2000), onde 20 dos 267 domicílios particulares permanentes recenseados estavam vagos.</p>
<p>Os dados do estudo confirmam informações da reportagem <a href="http://marcozero.org/dividas-de-r-346-milhoes-de-iptu-expoem-abandono-e-cobica-no-centro-do-recife/">Dívidas de R$ 346 milhões de IPTU expõem abandono e cobiça no Centro do Recife</a>, que publicamos recentemente. Em particular, a mancha da inadimplência em IPTU no bairro de Santo Antônio é mais densa, revelando por sua vez a relação entre abandono de imóveis, falta de politicas habitacionais e déficit habitacional.</p>
<p>Para a professora de arquitetura e urbanismo da Unicap, Clarissa Duarte, as políticas públicas precisam destinar recursos tanto&nbsp; para o fomento do uso habitacional quanto para a reabilitação das ruas de acesso às habitações. “Esse é um caminho para intensificar a densidade habitacional, que hoje no centro é insustentável”, afirma. “O ideal se aproxima de uma densidade entre 300 a 350 habitantes por hectare&nbsp; e temos na área trechos com menos de 20 habitantes por hectare ”, completa Clarissa.</p>
<p>“Nenhum lugar do mundo se sustenta sem ser habitada, nem economicamente, nem culturalmente, muito menos do ponto de vista da segurança e da cidadania”, afirma a professora. “Serviços complementares à habitação, como creches, supermercados, farmácias e mercadinhos precisam ser simultaneamente oferecidos. Habitar é muito mais do que ter uma habitação&#8221;, afirma.</p>
<p>Espera-se com ansiedade saber como o poder público em geral e a administração municipal atual podem sinalizar melhoras nesse sentido. O debate que ocorre na sede da Habitat, depois da apresentação do estudo, uma boa oportunidade para o representante da gestão atual indicar possíveis ações que beneficiem o bem público. A ver.</p>
<p><strong>Veja o mapa com os 142 imóveis apontados no estudo. Clique sobre os pontos para informações detalhadas sobre as edificações<br />
</strong></p>
<div class="embed-container"><small><a style="color: #0000ff; text-align: left;" href="//marcozero.maps.arcgis.com/apps/Embed/index.html?webmap=bf6fe6a902b347129e1afa8aefde4860&amp;extent=-34.8904,-8.0699,-34.868,-8.0587&amp;zoom=true&amp;scale=true&amp;disable_scroll=true&amp;theme=light" target="_blank" rel="noopener noreferrer">Visualizar mapa grande</a></small><br />
<iframe loading="lazy" title="Predios desocupados" src="//marcozero.maps.arcgis.com/apps/Embed/index.html?webmap=bf6fe6a902b347129e1afa8aefde4860&amp;extent=-34.8904,-8.0699,-34.868,-8.0587&amp;zoom=true&amp;previewImage=false&amp;scale=true&amp;disable_scroll=true&amp;theme=light" marginwidth="0" marginheight="0" scrolling="no" width="800" height="700" frameborder="0"></iframe></div>
<p><strong>Veja o mapa de calor com os resultados do mapa acima<br />
</strong></p>
<div class="embed-container"><small><a style="color: #0000ff; text-align: left;" href="//marcozero.maps.arcgis.com/apps/Embed/index.html?webmap=d2f4c35d92c3437a83285d0427eb171b&amp;extent=-34.8904,-8.0699,-34.868,-8.0587&amp;zoom=true&amp;scale=true&amp;disable_scroll=true&amp;theme=light" target="_blank" rel="noopener noreferrer">Visualizar mapa grande</a></small><br />
<iframe loading="lazy" title="Predios desocupados-Calor" src="//marcozero.maps.arcgis.com/apps/Embed/index.html?webmap=d2f4c35d92c3437a83285d0427eb171b&amp;extent=-34.8904,-8.0699,-34.868,-8.0587&amp;zoom=true&amp;previewImage=false&amp;scale=true&amp;disable_scroll=true&amp;theme=light" marginwidth="0" marginheight="0" scrolling="no" width="800" height="700" frameborder="0"></iframe></div>
<blockquote><p><strong>Raio X da ociosidade dos espaços no Recife</strong></p>
<p><strong>62 mil</strong> unidades é o déficit habitacional do Recife</p>
<p><strong>Universo da pesquisa:</strong> Bairro de Santo Antônio/1.002 lotes/</p>
<p>Edificações com 5 pavimentos ou mais: 112 lotes</p>
<p><strong>Resultados:</strong><br />
<strong>42</strong> completamente desocupados<br />
<strong>30</strong> com menos da metade da área ocupado</p>
<p><strong>(37,5% dos imóveis analisados estão ociosos)</strong></p>
<p><strong>16</strong> com mais da metade da área ocupada<br />
<strong>52</strong> com a maioria ou totalmente ocupado<br />
<strong>2</strong> imóveis que não tiveram situação de ocupação assinalada<br />
<strong>105.325,71</strong> m² de área construída desocupada<br />
<strong>14,37%</strong> do total de área construída em todo o bairro<br />
<strong>2.106</strong> unidades habitacionais</p>
<p>Para isso, seria necessário um investimento estimado de <strong>R$252.781.694,85</strong></p></blockquote>
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		<title>Brasília Teimosa, periferia de Havana</title>
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		<dc:creator><![CDATA[Laércio Portela]]></dc:creator>
		<pubDate>Fri, 19 Jun 2015 15:00:02 +0000</pubDate>
				<category><![CDATA[Reportagens]]></category>
		<category><![CDATA[Brasil]]></category>
		<category><![CDATA[Brasília Teimosa]]></category>
		<category><![CDATA[criatividade]]></category>
		<category><![CDATA[Cuba]]></category>
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					<description><![CDATA[<p>O ano era 1996. O lugar, o Centro de Desenvolvimento das Artes Visuais, em Havana. O designer Ernesto Oroza havia decidido expor, pela primeira vez, o resultado do casamento entre a escassez econômica e a inventividade do povo cubano. Em outras palavras, entre a pobreza crônica e as táticas de sobrevivência de quem tinha que [&#8230;]</p>
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										<content:encoded><![CDATA[<p>				</p>
<p>O ano era 1996. O lugar, o Centro de Desenvolvimento das Artes Visuais, em Havana. O designer <strong>Ernesto Oroza</strong> havia decidido expor, pela primeira vez, o resultado do casamento entre a escassez econômica e a inventividade do povo cubano. Em outras palavras, entre a pobreza crônica e as táticas de sobrevivência de quem tinha que se virar com pouco, muito pouco, para garantir o mínimo de conforto doméstico.</p>
<p><iframe loading="lazy" width="560" height="315" src="https://www.youtube.com/embed/tUikSEMyJQk" frameborder="0" allowfullscreen></iframe></p>
<p>Estavam ali, à mostra, todo tipo de peças insólitas: antenas de TV feitas de bandejas de alumínio encontradas nos refeitórios das escolas e das oficinas de trabalhadores; buzinas de bicicletas fabricadas com bonecas; lamparinas feitas com latas de refrigerante e fragmentos de tubos de pasta de dentes; partes de motores de uma máquina de lavar transformada em ventilador; cadeiras fabricadas a partir das sobras de outras cadeiras.</p>
<p>Oroza não tinha certeza de qual seria a reação da classe média cubana– formada em sua maioria por funcionários públicos. Sabia que Fidel via com maus olhos aquele mundo de invencionices populares porque o associava ao fracasso industrial da Revolução. Para sua surpresa, várias pessoas se emocionaram ao perceberem que elas compartilhavam em seus lares do mesmo mundo precário de seus concidadãos: ventiladores, fogões, refrigeradores, sofás e TVs reinventados dos escombros de outros equipamentos.</p>
<p>A escassez era generalizada. Estavam todos, afinal, no mesmo barco sobre a mesma maré vazante desde o embargo norte-americano à ilha, no início dos anos 60, agravado nos anos 90 pela queda do Muro de Berlim e o fim da União Soviética, principal aliado comercial e político de Cuba.</p>
<p>O trabalho de inventividade que começou nas fábricas, como política de Estado, foi incorporado na vida cotidiana das pessoas como tática de sobrevivência, à margem das políticas públicas.</p>
<p>Se as pessoas se emocionaram, em 1996, ao ver a precariedade de suas vidas exposta daquela forma numa galeria pública, o mundo intelectual cubano classificou aqueles objetos – a palavra mais apropriada é desqualificou – como arte kitsch, de mau gosto.</p>
<h2>Desobediência tecnológica</h2>
<p>Para desconstruir a crítica, Oroza estudou a fundo a relação da escassez com a produção de objetos pelos cubanos e construiu o conceito-chave do seu trabalho: <strong>desobediência tecnológica</strong>. “De tanto abrir corpos o cirurgião insensibiliza-se com a estética da ferida, com o sangue e com a morte. E esta é a primeira expressão de desobediência dos cubanos em sua relação com os objetos: um desrespeito crescente pela identidade do produto, bem como pela verdade e pela autoridade que essa identidade impõe. De tanto abri-los, repará-los, fragmentá-los e usá-los à sua conveniência, terminaram desfazendo-se dos signos que tornam os objetos ocidentais uma unidade fechada”.</p>
<p><div id="attachment_603" style="width: 1187px" class="wp-caption aligncenter"><a href="http://marcozero.org/wp-content/uploads/2015/06/IC050615_pq-21.jpg"><img loading="lazy" decoding="async" aria-describedby="caption-attachment-603" class="size-full wp-image-603" src="http://marcozero.org/wp-content/uploads/2015/06/IC050615_pq-21.jpg" alt="Ernesto Oroza. Foto: Inês Campelo" width="1177" height="786" /></a><p id="caption-attachment-603" class="wp-caption-text">Ernesto Oroza. Foto: Inês Campelo</p></div></p>
<p>Na base deste fenômeno criativo está a acumulação. Literalmente, nada se perde para a população cubana. Tudo que quebra ou fica velho vai sendo amontoado num canto da casa ou embaixo da cama para se reinventar em outro produto quando for necessário.</p>
<h2>Brasília Teimosa</h2>
<p>Andando pelas ruas do bairro de Brasília Teimosa, no Recife, há 15 dias, 19 anos depois da exposição no Centro de Desenvolvimento das Artes Visuais, Oroza se sentiu em Havana. “As ruas, a fisionomia das pessoas, o som da música vindo de algum lugar a indicar como ela é tão presente na vida das pessoas&#8230; Tudo lembra Havana”. O povo e os objetos também. “Encontrei em Brasília Teimosa a mesma relação das pessoas com os objetos e a moradia, recriando-os, reinventando-os a seu modo, como acontece em Cuba. A desobediência tecnológica pertence à cultura de toda a América Latina. Por isso está tão presente em Recife. São práticas sociais contemporâneas vinculadas à desigualdade.”.</p>
<p>Se os anos 60 e 70 foram marcados pela escassez crônica em Cuba, nos anos 1980, com uma base mais profunda na relação com a então União Soviética, novos produtos chegaram à ilha vindos do Leste Europeu por meio do intercâmbio internacional realizado pelo Conselho para Assistência Econômica Mútua (Comecon).</p>
<p><div id="attachment_616" style="width: 209px" class="wp-caption alignright"><a href="http://marcozero.org/wp-content/uploads/2015/06/Oroza-170.jpg"><img loading="lazy" decoding="async" aria-describedby="caption-attachment-616" class="wp-image-616 size-medium" src="http://marcozero.org/wp-content/uploads/2015/06/Oroza-170-199x300.jpg" alt="Havana. Foto: Ernesto Oroza/Penelope De Bozzi " width="199" height="300" /></a><p id="caption-attachment-616" class="wp-caption-text">Havana. Foto: Ernesto Oroza/Penelope De Bozzi</p></div></p>
<p>Havia produtos novos, mas não havia diversidade. Todos os cubanos conheceram apenas um tipo de geladeira (Minsk), dois tipos de TV (Caribe e Krim), um único ventilador (Orbita) e duas gerações de apenas uma máquina de lavar (Aurika). Sete tipos de embalagens sustentavam o intercâmbio econômico com a Europa comunista.</p>
<p>Convivendo com os mesmos produtos domésticos, os cubanos encontraram caminhos comuns para reinventá-los, misturando peças de produtos distintos, como ao adaptar o motor de uma lavadora a uma bicicleta para transformá-la numa moto. Reparo, reconstrução ou invenção podiam ser partilhados por todos porque todos tinham acesso aos mesmos tipos de equipamentos, das mesmas e escassas marcas.</p>
<h2>Arquitetura da necessidade</h2>
<p>O que acontecia no mundo da utilidade dos objetos se reproduzia também na arquitetura das moradias. Famílias se amontoando em casarões antigos, dividindo cômodos e incômodos. Uma casa nascendo por sobre outra casa, vãos, varandas, janelas, portas e uma infinidade de escadas externas vão sendo montadas como uma espécie de lego, em resposta às demandas da vida: a família que cresce, a divisão dos mesmos cômodos com novos vizinhos, a abertura de espaços para os pequenos comércios clandestinos. Mais e mais puxadinhos.</p>
<p>A essa incessante adaptação da moradia às circunstâncias da vida, por meio do reaproveitamento de vários materiais, Ernesto Oroza deu o nome de <strong>arquitetura da necessidade</strong>. Ele viu muitas semelhanças entre alguns bairros de Havana e Brasília Teimosa. “Há coisas muito similares ao que acontece na ilha. Há pessoas que têm poucos recursos e que estão usando azulejo para fazer as paredes da casa e o fazem para economizar na pintura. Mas também sabem que aquilo remete a um tipo de construção que é mais valorizada”.</p>
<p>Bairros que crescem projetados não pelo poder público ou pela fome insaciável do grande capital. Cidades que se espalham desenhadas pela necessidade de seus moradores de baixa renda. Quem desenha as cidades nas periferias é a necessidade. Nestas periferias, no olhar atento de Oroza, seja em Cuba ou no Brasil, há uma cidade que se atualiza permanentemente e que não pode esperar pelo ritmo do planejamento urbano.</p>
<h2>Miséria não é solução</h2>
<p><div id="attachment_633" style="width: 810px" class="wp-caption aligncenter"><a href="http://marcozero.org/wp-content/uploads/2015/06/Recife-Pina-5-Oroza-2.jpg"><img loading="lazy" decoding="async" aria-describedby="caption-attachment-633" class="size-full wp-image-633" src="http://marcozero.org/wp-content/uploads/2015/06/Recife-Pina-5-Oroza-2.jpg" alt="Brasília Teimosa/Pina. Foto: Ernesto Oroza" width="800" height="600" /></a><p id="caption-attachment-633" class="wp-caption-text">Brasília Teimosa/Pina. Foto: Ernesto Oroza</p></div></p>
<p>Aos que buscam o caminho fácil de contrapor a inventividade popular cubana como um ideal alternativo ao mercado de produtos supérfluos do alto capitalismo, Oroza faz um alerta: é preciso não romantizar essa produção das classes populares ou ver ali um modelo para a sociedade. “Eu não trato essa produção de forma romântica. Há muita dureza por trás dela. A miséria não é uma solução e não deve ser vista como uma possibilidade”.</p>
<p>Descrever a maneira autônoma como os cubanos reconstroem os objetos – ressignificando-os e ampliando sua vida útil &#8211; nos remete de imediato, em contrapartida, ao mundo do consumo exacerbado e descartável que se vive fora do país caribenho, onde o produto e o seu significado original são cultuados e inviolados. “O iphone parece um deus. Você não pode atravessá-lo num olhar. Não há onde abri-lo. A verdade é que todos os iphones são iguais, mas eles manejam de uma forma para que em dois anos algumas coisas já não funcionem mais e você tenha que comprar outro. É tudo um grande mentira. Mas há poucas possibilidades reais de você não participar dela”, fala o designer cubano que vive desde 2007 em uma das mecas do capitalismo, a cidade de Miami, nos Estados Unidos.</p>
<p>Ao viajar pelo mundo expondo os produtos frutos da escassez e da inventividade cubana, Oroza alerta os incautos de que não se trata de um trabalho artístico: “Para mim o que estou fazendo não é arte. A mim interessa o debate, a discussão sobre a arte. Analisar outras práticas, contaminar esse contexto. Mas não digo que sou um escultor, que estou fazendo escultura ao reproduzir o que vi em Cuba. É uma investigação pra comunicar as ideias essenciais dessa produção. E fazer uma crítica à produção industrial é também fazer uma crítica ao Estado e à própria arte”.</p>
<p>Ernesto Oroza passou dez dias em Recife no começo de junho, foi a primeira vez que esteve no Brasil. Daqui retornou a Miami. Seu trabalho está exposto na Caixa Cultural até o dia 28. A mídia local divulgou a exposição em jornais e portais, mas sem destaque.</p>
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