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	<title>Marco Zero Conteúdo - Jornalismo investigativo que aposta em matérias aprofundadas, independentes e de interesse público.</title>
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	<title>Marco Zero Conteúdo - Jornalismo investigativo que aposta em matérias aprofundadas, independentes e de interesse público.</title>
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		<title>O novo velho secretário de Defesa Social escolhido por Raquel Lyra</title>
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		<dc:creator><![CDATA[Marco Zero Conteúdo]]></dc:creator>
		<pubDate>Mon, 04 Sep 2023 21:03:37 +0000</pubDate>
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					<description><![CDATA[<p>por Jorge Cavalcanti* O próximo secretário de Defesa Social do governo Raquel Lyra (PSDB) é, na verdade, um antigo secretário de Defesa Social de Pernambuco: Alessandro Carvalho. Natural de Salvador (Bahia) e delegado da Polícia Federal, o servidor público comandou, de janeiro de 2014 até outubro de 2016, a pasta&#160;a que estão subordinadas as polícias [&#8230;]</p>
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<p><strong>por Jorge Cavalcanti*</strong></p>



<p>O próximo secretário de Defesa Social do governo Raquel Lyra (PSDB) é, na verdade, um antigo secretário de Defesa Social de Pernambuco: Alessandro Carvalho. Natural de Salvador (Bahia) e delegado da Polícia Federal, o servidor público comandou, de janeiro de 2014 até outubro de 2016, a pasta&nbsp;a que estão subordinadas as polícias militar, civil e científica. Foram dois anos e nove meses no cargo e a presença no primeiro escalão de três governadores do PSB: Eduardo Campos, João Lyra (pai da governadora) e Paulo Câmara, de quem Alessandro foi também assessor especial quando deixou o comando da SDS. </p>



<p>Curiosa escolha de uma governadora eleita com o discurso de que iria quebrar os paradigmas dos 16 anos de gestão do PSB.</p>



<p>O nome de Carvalho foi confirmado por Raquel Lyra na manhã da sexta-feira (1º), durante entrevista ao programa Passando a Limpo, da Rádio Jornal. O governo está resolvendo junto à PF a questão da cessão do servidor. A nomeação em Diário Oficial vai ser publicada nesta semana. O escolhido sucede na função a também delegada da Polícia Federal Carla Patrícia. Na semana passada, ela anunciou que deixava o governo por “motivos pessoais”. O comunicado surpreendeu a cena da política pernambucana; a justificativa do pedido de exoneração não convenceu a todos.&nbsp;</p>



<p>“O que está acontecendo no Palácio do Campo das Princesas? Pergunto isso porque, com a saída de Carla Patrícia, agora são cinco os secretários que já não estão mais lá”, pontuou, nas redes sociais, a deputada Dani Portela (PSOL), líder da bancada da oposição na Assembleia Legislativa.&nbsp;&nbsp;</p>



<p>A agora ex-secretária deixou a função a um mês do prazo para o governo Raquel Lyra apresentar à sociedade o Juntos pela Segurança, seu plano estadual de segurança pública. No dia 28 de setembro, uma quinta-feira, ele será divulgado, conforme calendário estabelecido pela gestão. O Juntos Pela Segurança do governo Raquel Lyra pretende substituir o Pacto Pela Vida das gestões do PSB, duramente criticado na campanha pela então candidata do PSDB.&nbsp;&nbsp;</p>



<p>Carla Patrícia tinha o voto de confiança de setores da sociedade civil que monitoram a gestão da segurança pública, fruto de gestos concretos que foram percebidos como um meio de estabelecer diálogo. Uma das medidas foi a publicação, no dia 11 de março, da portaria da SDS que alterava a forma de disponibilização dos dados sobre violência letal.&nbsp;</p>



<p>Foram, ao menos, duas mudanças: a antecipação dos números para o quinto dia útil do mês subsequente, e não mais no 15º dia útil, e a atualização do conceito de Crimes Violentos Letais Intencionais (CVLIs) para Mortes Violentas Intencionais (MVIs), padronizando os indicadores à nomenclatura utilizada pelo Fórum Brasileiro de Segurança Pública. Isso passou a incluir, por exemplo, também os óbitos decorrentes de intervenção policial.</p>



        <div class="leia-tambem d-flex flex-column py-2 my-4 my-md-5">
            <span class=" d-block mb-2">MAIS SOBRE ESSE ASSUNTO:</span>

            <div class="d-flex flex-column">
                <a href="https://marcozero.org/especialistas-analisam-o-juntos-pela-seguranca-do-governo-raquel/" class="titulo">Especialistas analisam o Juntos Pela Segurança do governo Raquel</a>
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<h2 class="wp-block-heading"><strong>Quedas em meio a crises</strong>&nbsp;</h2>



<p>Se a ex-secretária tinha crédito junto a setores sociais, Alessandro Carvalho já não dispõe desse capital. “Ele não mostrou disposição para o diálogo e, além disso, chegou a dizer numa audiência pública que, se morriam mais pessoas negras de forma violenta em Pernambuco, isso se dava ao fato de que havia mais pessoas negras na composição da população. Uma declaração que evidencia o racismo estrutural”, analisa a cientista social Edna Jatobá, coordenadora executiva do Gabinete de Assessoria Jurídica às Organizações Populares (Gajop), organização que compõe o Conselho Estadual de Segurança Pública.</p>



<p>No Brasil, de acordo com dados do Anuário Brasileiro de Segurança Pública e IBGE, 77% das vítimas dos crimes contra a vida são pessoas negras, enquanto esta mesma população representa 56% da população total do país. Entre os quase 1 milhão de homens e mulheres encarcerados, as pessoas negras somam 68%. As estatísticas revelam uma hiper representação da população negra nos indicadores de MVIs e do sistema prisional.</p>



<p>Antes de comandar a SDS, Alessandro Carvalho fazia parte do governo Eduardo Campos desde junho de 2010, como secretário executivo da pasta. Era auxiliar do então secretário Wilson Damázio e ascendeu com a queda do chefe. Embora dispusesse da confiança do então governador &#8211; à época também presidenciável &#8211; Damázio se viu obrigado a pedir exoneração para preservar politicamente Eduardo, em função das declarações machistas que concedeu em entrevista à repórter Fabiana Moraes, publicadas no Jornal do Commercio.</p>



<p>Alessandro permaneceu no cargo durante os nove meses como governador de João Lyra Neto, pai de Raquel e vice de Eduardo nos dois mandatos. E seguiu com Paulo Câmara, até cair em meio à piora dos indicadores daquele ano (2016). &nbsp;Até o fim de setembro, haviam sido registrados 3.127 homicídios em Pernambuco, uma média de 320 MVIs por mês, aproximadamente.</p>



<p>Na Polícia Federal, Alessandro ocupou o cargo de delegado regional executivo da Superintendência da PF no Rio Grande do Norte e chefe das Delegacias de Juazeiro (Bahia) e Foz do Iguaçu (Paraná). Foi também delegado regional de Combate ao Crime Organizado e executivo da Superintendência da PF na Bahia. Bacharel em Direito pela Universidade Federal da Bahia, foi advogado cível e comercial, antes de entrar na PF em 1999.</p>



<p>*<strong>Jornalista com 19 anos de atuação profissional e especial interesse na política e em narrativas de garantia, defesa e promoção de Direitos Humanos e Segurança Cidadã.</strong></p>



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		<title>Em três meses, governo Raquel Lyra ainda não deslanchou</title>
		<link>https://marcozero.org/em-tres-meses-governo-raquel-lyra-ainda-nao-deslanchou/</link>
		
		<dc:creator><![CDATA[Maria Carolina Santos]]></dc:creator>
		<pubDate>Mon, 03 Apr 2023 21:25:39 +0000</pubDate>
				<category><![CDATA[Direitos Humanos]]></category>
		<category><![CDATA[Principal]]></category>
		<category><![CDATA[Reportagens]]></category>
		<category><![CDATA[Governo de Pernambuco]]></category>
		<category><![CDATA[governo Raquel Lyra]]></category>
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					<description><![CDATA[<p>Depois de 16 anos sob o comando do mesmo grupo político, Pernambuco elegeu no ano passado sua primeira mulher governadora, Raquel Lyra (PSDB). Os primeiros três meses do governo, porém, foram turbulentos para a máquina estadual: em um dos primeiros atos de governo, Raquel Lyra simplesmente exonerou todos os cargos comissionados, sem que houvesse a [&#8230;]</p>
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<p>Depois de 16 anos sob o comando do mesmo grupo político, Pernambuco elegeu no ano passado sua primeira mulher governadora, Raquel Lyra (PSDB). Os primeiros três meses do governo, porém, foram turbulentos para a máquina estadual: em um dos primeiros atos de governo, Raquel Lyra simplesmente<a href="https://marcozero.org/quatro-anos-depois-decreto-de-raquel-repete-pressa-e-erro-do-inicio-do-mandato-de-bolsonaro/" target="_blank" rel="noreferrer noopener"> exonerou todos os cargos comissionados</a>, sem que houvesse a troca imediata por outros profissionais. Até hoje, <a href="https://marcozero.org/saude-mental-em-pernambuco-esta-sem-comando-desde-janeiro/" target="_blank" rel="noreferrer noopener">há cargos que ainda estão vagos</a> e outros que já têm indicação, mas ainda esperam a nomeação.</p>



<p>A Marco Zero conversou com deputados, sindicalistas e analistas para fazer um balanço das primeiras impressões do governo Raquel Lyra. Um ponto recorrente é de que o decreto da exoneração foi um erro que gerou um efeito dominó neste início de governo, que ainda não conseguiu se organizar e dizer qual será o direcionamento para os próximos anos.</p>



<p>Para o presidente do Sindicato dos Servidores de Pernambuco, Renilson Oliveira, os últimos meses passaram os sentimentos de um governo de improviso. “Foram três meses de mandato, mais os dois meses de transição, e um órgão importante como o Departamento de Estradas de Rodagem (DER) só teve o seu presidente nomeado há uns de 15 dias. A Fundação de Amparo à Ciência e Tecnologia do Estado (Facepe) segue sem nomeação”, diz. “<a href="https://marcozero.org/decreto-de-raquel-lyra-paralisa-emissao-de-licencas-ambientais-e-ameaca-deixar-animais-silvestres-sem-comida/" target="_blank" rel="noreferrer noopener">A máquina parou no mês de janeiro</a>. Foi terrível, teve servidor que só recebeu o salário no dia 16 de fevereiro, porque o órgão que trabalhava estava sem ordenador de despesa”, criticou Renilson.</p>



        <div class="leia-tambem d-flex flex-column py-2 my-4 my-md-5">
            <span class=" d-block mb-2">MAIS SOBRE ESSE ASSUNTO:</span>

            <div class="d-flex flex-column">
                <a href="https://marcozero.org/a-ofensiva-bolsonarista-para-controlar-a-politica-sobre-drogas-em-pernambuco/" class="titulo">A ofensiva bolsonarista para controlar a política sobre drogas em Pernambuco</a>
	                    <div class="tags d-flex mt-3 flex-wrap">
                            <a href="https://marcozero.org/formatos/reportagem/" class="btn text-uppercase me-2 mb-2">Reportagem</a>
            
		                    <a href="https://marcozero.org/temas/drogas/" class="btn text-uppercase me-2 mb-2">Drogas</a>
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        </div>

		


<p>O sindicalista afirma que essas atitudes passam a imagem de um desconhecimento da máquina pública e também de uma falta de quadros dentro do grupo político da governadora. “Não estou dizendo como ela deve governar, nem que ela deveria ter mantido os gestores anteriores. A nossa avaliação é de que o governo se comporta como um governo de improviso, como se não conhecesse nada de administração pública. Mas o currículo dela não diz isso. Ela foi deputada, foi secretária de governo, foi prefeita de uma cidade importante de Pernambuco. Ela sabe o que é a máquina pública. Mas uma coisa é gerir um município que tem 10 mil, 15 mil servidores. Outra coisa é um estado com 215 mil servidores. Teria sido mais eficiente exonerar e no dia seguinte sair a nomeação do substituto no Diário oficial, mas houve um delay muito longo”, avalia.</p>



<p>Presidente do Sindicato dos Policiais Civis (Sinpol), Rafael Cavalcanti afirmou que entende que não é fácil mudar de um modelo de governo para outro, ainda mais depois de quatro mandatos consecutivos de um mesmo grupo político. “Há a necessidade de mudar as peças-chaves para implementar as políticas públicas que esse novo governo quer. Mas o que estamos vendo, na verdade, é que os servidores, e os policiais, em especial, estão muito ansiosos para que os compromissos assumidos na campanha, inclusive aqui no próprio sindicato, comecem a sair do papel. Segurança pública é um pilar fundamental de qualquer governo”, diz.</p>



<p>O sindicalista afirma que há péssimas estruturas físicas para a segurança pública em Pernambuco. “Temos também uma categoria completamente adoecida. Viemos de oito anos de um governo que não dialogava praticamente nada com a classe. Na semana passada, mais um policial se suicidou. Isso vem se agravando. O discurso da governadora foi de uma atenção muito forte com a saúde mental do policial e das condições de trabalho. Vamos passar a cobrar mais efetivamente o governo. Tínhamos uma expectativa muito grande com esse governo e ainda estamos aguardando. Precisamos de disponibilidade de diálogo para avançar no médio e longo prazo, e não só com questões emergenciais”, afirmou.</p>



<p>Líder do governo na Assembleia, o deputado Izaías Régis (PSDB) afirma que &#8220;os três primeiros meses do governo Raquel Lyra se assemelham aos três primeiros meses de qualquer pessoa que assume uma responsabilidade executiva em um primeiro mandato”.</p>



<p>Para o deputado, Raquel Lyra tem tido o cuidado para conhecer toda a estrutura do estado, que é complexa. “Esse zelo e responsabilidade que ela apresenta pode fazer com que algumas coisas aconteçam em um ritmo mais lento no início, mas é extremamente necessário para evitar erros de condução. O resultado lá na frente será o de um estado austero, em que os serviços chegarão com mais eficiência a todos os pernambucanos e pernambucanas”.</p>



<p>Izaías Régis também lembrou que não é fácil começar um novo governo depois que o mesmo <a href="https://marcozero.org/raquel-lyra-assume-com-o-desafio-de-superar-heranca-de-16-anos-do-psb-em-pernambuco/" target="_blank" rel="noreferrer noopener">grupo político passou 16 anos no poder</a>. “Um período em que, claro, existiram acertos, mas existiram muitas falhas também, e a governadora está atenta a manter o que deu certo, mas também implantar um novo modelo de gestão para consertar e fazer ser eficiente o que não deu certo. Nós temos o pior estado da federação em termos de segurança pública, um dos piores em saúde pública, e nada disso se resolve em três meses, nem mesmo demandas menores”, afirma.Na área de segurança pública, uma reivindicação da sociedade civil que foi adota pelo novo governo foi a <a href="https://marcozero.org/governo-do-estado-antecipa-data-de-divulgacao-de-estatisticas-de-violencia/" target="_blank" rel="noreferrer noopener">antecipação da data de divulgação de estatísticas de violência</a>.</p>



<p>A MZ tentou falar com a governadora e o presidente da Assembleia Legislativa de Pernambuco (Alepe), Álvaro Porto, do mesmo partido e aliado de Raquel, mas não obteve respostas. </p>



<h2 class="wp-block-heading"><strong>Deputados de oposição criticam transição</strong></h2>



<p>A transição do governo de Paulo Câmara (PSB) para o de Raquel Lyra (PSDB) foi comandada pela vice-governadora Priscila Krause. Ao final, foi apresentado um relatório que apontava 400 obras paralisadas e que seria necessário aproximadamente R$ 5 bilhões para concluí-las. Mas foi uma transição que não aprofundou as alianças políticas, nem fez um diagnóstico da eficiência de cada órgão estadual ou como seriam as trocas de chefias.</p>



<p>O deputado João Paulo (PT) afirmou que, apesar da boa intenção da governadora, o governo começou com o pecado original de não haver uma transição eficiente. “A falta de transição implicou em que até as ações positivas do governo passado não tiveram continuidade&#8221;, afirma. Ele cita a falta de pagamento do 13º estadual para os beneficiários do Bolsa Família. “Um benefício importante para as pessoas mais pobres, principalmente do campo, e não foi pago ainda por falta de ordenador de despesa”, denuncia.</p>



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<p>Líder do PSB na Alepe, o deputado Sileno Guedes, da bancada de oposição, disse que há uma lentidão no governo Raquel Lyra. “Há muita hesitação. Muita coisa que poderia entrar em prática é adiada. Esperamos que o governo comece a governar. Que faça as nomeações, consolide as equipes, consolide as alianças políticas. Infelizmente temos visto muito pouco acontecer”, disse.</p>



<p>Para Rosa Amorim, também do PT, não dá mais para esperar. “Precisamos ver ações. A saúde pede socorro, os profissionais precisam de assistência. É um governo de muitos desafios”, disse a deputada, que faz parte da bancada independente na Alepe.</p>



<p>Deputado pela primeira vez, Eriberto Filho (PSB) ponderou que é um governo que ainda está muito no começo. “Está se organizando. Estamos caminhando a pequenos passos, dando um tempo para ver qual vai ser a cara do governo Raquel Lyra, o que ela vai trazer para Pernambuco”, disse.</p>



<p>Finalizado os três meses de “adaptação”, o deputado João Paulo considera que o atual governo está em uma posição mais favorável do que seu antecessor. “No encontro que os deputados tiveram com Raquel Lyra, eu disse que ela tem muita sorte, pois não está governando com um presidente genocida, que era o Bolsonaro, mas com Lula, que é um republicano.Agora é esperar que Raquel Lyra tome as rédeas do governo”, afirmou.</p>



<h3 class="wp-block-heading"><strong>Aceno para mulheres precisa de medidas concretas</strong></h3>



<p>Nestes três meses de governo, um gesto público marcante com os movimentos sociais foi quando a governadora desceu do palácio do Campo das Princesas e<a href="https://marcozero.org/raquel-lyra-desce-do-palacio-para-receber-feministas/" target="_blank" rel="noreferrer noopener"> recebeu uma comissão de ativistas após a Marcha das Mulheres</a>, no dia 8 de março. Ela também ampliou o horário das delegacias das Mulheres, que passaram a ser 24 horas.</p>



<p>Para a socióloga Carmen Silva, do SOS Corpo, apesar de ser pouco tempo para uma análise, o início do governo ainda não sinalizou ações concretas no enfrentamento da situação das mulheres, da população negra nem da juventude. “Pelo contrário, tivemos sinalizações de que nesse período o governo Raquel Lyra demonstra fortes alianças com o fundamentalismo religioso”, diz a socióloga, citando o episódio da substituição do secretário executivo responsável pela política de drogas.</p>



<p>Ela elogia a ampliação das delegacias e o fato de Raquel ter recebido as reivindicações das feministas, mas lembra que é necessário uma política integrada. “Só uma rede integrada de atendimento às mulheres em situação de violência é capaz de coibir a alta taxa de feminicídio e de transfeminicídio e de possibilitar às mulheres saírem da situação de violência. Isso passa por atendimento psicológico, passa por trabalho e renda, passa por acompanhamento da situação dos filhos. Muitas vezes por problema de moradia, então é preciso uma política integrada, não só fazer as delegacias”, avalia.</p>



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<p>É também preciso que as ações em benefício das mulheres sejam expandidas para além do enfrentamento á violência. Segundo Carmen, quando a governadora anuncia a possibilidade de privatização da Compesa ela faz uma política que prejudica principalmente as mulheres. “São as mulheres que ainda são responsabilizadas socialmente pela execução do trabalho doméstico em suas casas, pelo cuidado com crianças, com idosos. E para tudo isso é necessário água”, diz. “Ao falar de privatizar Compesa, a governadora faz um gol contra não só no desenvolvimento de Pernambuco como contra as mulheres. Sabemos que a privatização vai implicar em aumento de preço e redução do produto, que é a mesma coisa que aconteceu com a privatização da Celpe”, afirma.</p>



<p></p>



<blockquote class="wp-block-quote is-style-large is-layout-flow wp-block-quote-is-layout-flow"><p><strong>Uma questão importante!</strong></p><cite><em>Colocar em prática um projeto jornalístico ousado custa caro. Precisamos do apoio das nossas leitoras e leitores para realizar tudo que planejamos com um mínimo de tranquilidade. Doe para a Marco Zero. É muito fácil. Você pode acessar nossa</em><a href="https://marcozero.org/assine/" target="_blank" rel="noreferrer noopener"><strong>página de doaçã</strong></a><strong><a href="https://marcozero.org/assine/" target="_blank" rel="noreferrer noopener">o</a></strong><em>ou, se preferir, usar nosso</em><strong>PIX (CNPJ: 28.660.021/0001-52)</strong><em>.</em><br><br><strong>Apoie o jornalismo que está do seu lado</strong><em>.</em></cite></blockquote>



<p></p>
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			</item>
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		<title>Direita tradicional volta ao poder em Pernambuco com eleição de Raquel Lyra e Priscila Krause</title>
		<link>https://marcozero.org/direita-tradicional-volta-ao-poder-em-pernambuco-com-eleicao-de-raquel-lyra-e-priscila-krause/</link>
		
		<dc:creator><![CDATA[Maria Carolina Santos]]></dc:creator>
		<pubDate>Mon, 31 Oct 2022 22:32:55 +0000</pubDate>
				<category><![CDATA[Direitos Humanos]]></category>
		<category><![CDATA[Governo de Pernambuco]]></category>
		<category><![CDATA[PSDB]]></category>
		<category><![CDATA[Raquel Lyra]]></category>
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					<description><![CDATA[<p>O hotel Beach Class, onde aconteceu na noite de ontem (30 de outubro) a coletiva de vitória de Raquel Lyra (PSDB), parecia uma volta aos anos 1990. Era como se a diversidade na política nunca tivesse alcançado aquele saguão. A diferença era que todos aqueles homens &#8211; na maioria de direita, na maioria brancos, na [&#8230;]</p>
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<p>O hotel Beach Class, onde aconteceu na noite de ontem (30 de outubro) a coletiva de vitória de Raquel Lyra (PSDB), parecia uma volta aos anos 1990. Era como se a diversidade na política nunca tivesse alcançado aquele saguão. A diferença era que todos aqueles homens &#8211; na maioria de direita, na maioria brancos, na maioria de certa idade &#8211; não estavam ali à espera de outro homem como eles, mas de duas mulheres. Filhas, porém, de políticos como eles. Raquel Lyra e Priscila Krause chegaram juntas e sob aplausos após uma vitória acachapante, muitos pontos percentuais acima do que as pesquisas sugeriam.</p>



<p>A direita tradicional, que parecia combalida com a ascensão da sua versão extremista, fez um <em>rebranding</em> que deu muito certo em Pernambuco: venceu com um discurso de mudança e ares de frescor com duas mulheres à frente, a primeira vez que uma chapa do tipo foi vitoriosa no Brasil.Mas a maioria do séquito de políticos que compareceram à coletiva e subiram ao palco do auditório do Beach Class era de representantes do puro suco da tradicionalíssima política pernambucana de direita e de centro. Com alguns poucos gatos pingados da extrema direita e da esquerda. </p>



<p>Só de ex-governadores-tampão, aqueles que ficam no poder por alguns meses enquanto os governadores eleitos vão em busca de outros cargos, havia três. Mendonça Filho (DEM) é figura bem conhecida dos pernambucanos e que teve uma série de derrotas nas urnas para cargos majoritários. Foi ministro da educação de Michel Temer, quando <a href="https://marcozero.org/fundaj-o-organograma-do-aparelhamento/" target="_blank" rel="noreferrer noopener">aterrorizou servidores públicos na Fundaj</a>. <br><br>Eleito deputado federal neste ano, é amigo de longa data de Priscila Krause e considerado um dos mentores políticos da nova vice. “Não posso falar pelo governo dela, mas acredito que vai mostrar essa amplitude que ela simboliza”, afirmou.</p>



<p>Assim como Mendonça, a carreira de Gustavo Krause também se fez no Partido da Frente Liberal, o PFL, que foi obrigado a passar por uma maquiagem e rebatizado de Democratas até fundir-se ao PSL de Luciano Bivar sob o novo nome de União Brasil. Na linha histórica, uma continuação do Arena, o partido que deu sustentação à ditadura militar no Brasil. Krause chegou feliz, acompanhando a filha, a nova vice. Não quis responder em quem votou no domingo. “A maioria democraticamente optou pelo presidente Lula e espero que ele tenha sabedoria e que o país não seja contaminado com tanto ódio, contradição e ressentimento”, falou à MZ, garantindo que irá manter-se fora do futuro governo. “Sou apenas o pai da vice-governadora, nada mais que isso”.</p>



<p>Quem também estava animado era o deputado estadual Joel da Harpa, do Partido Liberal. À MZ comemorou que, depois de dois mandatos na oposição, finalmente iria para a situação no governo de Raquel Lyra. “Está cedo para falar de secretarias. Mas lógico que o PL, como dizem os militares, está ‘pronto’ e ‘em condições de’ para, se assim precisar, estar em uma secretaria ou fazer algum tipo de trabalho. Nos meses que se aproximam essa articulação deve se dar, e o PL e a minha pessoa vão estar prontos para serem soldados neste processo”, disse.</p>



<p>Evangélico e policial militar, Joel da Harpa faz parte daquele grupo conceitualmente incoerente de cristãos armamentistas. Foi um dos que, em plena pandemia, cercaram uma <a href="https://marcozero.org/parlamentares-evangelicos-atacam-clinica-para-impedir-aborto-legal-e-expoem-crianca-de-10-anos-vitima-de-violencia/">maternidade pública onde a equipe médica realizava o procedimento de aborto legal em uma criança de 10 anos vítima de estupro</a>.</p>



<p>Além de Joel da Harpa, Lyra recebeu também no seu palanque durante a campanha os casais de políticos Michelle e Cleiton Collins e Clarissa e Júnior Tércio, igualmente fundamentalistas evangélicos. Os casais não foram para a coletiva.</p>



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	                                        <p class="m-0">Joel da Harpa. Crédito: Mª Carolina Santos/MZ</p>
	                
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<p>Na entrevista à Marco Zero, Joel da Harpa adotou um discurso mais apaziguador. “A eleição polarizou demais, mas Raquel se mostrou mais de centro. A vitória dela, a meu ver, se deu mais pela posição de neutralidade. E que, na minha opinião, será um benefício que ela vai ter para governar, com as ideologias agora mais moderadas e discutindo a situação do estado”, disse.</p>



<p>Conhecido por ter sido carregado pelos braços tal qual um rockstar na votação do impeachment de Dilma, o presidente nacional do PSDB, Bruno Araújo, comemorou as três vitórias do PSDB no segundo turno, mostrando que o partido segue no jogo. “É uma virada de ciclo geracional”, falou à MZ. “O Brasil começa agora a abandonar os extremismos e a cuidar do que interessa às pessoas, começando a cuidar de baixo pra cima. O primeiro passo da normalidade é acabar com os extremismos”, afirmou, a poucos metros de Joel da Harpa. “O que esperamos é um governo largo. Raquel conseguiu chegar a essa posição sem fazer negociação de espaços, de secretarias, de empresas públicas. Raquel deve fazer uma construção com aliados, dos que acreditaram no projeto, algo em que o critério maior seja fazer entrega à população”, disse.</p>



<p>Para Daniel Coelho, deputado federal não reeleito e que é aposta certa no novo governo, o modelo do PSB estava cansado e Raquel abre um novo ciclo. “Vai ser um governo inclusivo, que vai olhar para quem mais precisa. Agora é construção, temos que esperar um pouco”, respondeu, quando perguntado como seria esse governo com os apoios do segundo turno. </p>



<p>Afastado da &#8220;neutralidade&#8221;, Miguel Coelho (UB), candidato derrotado ao governo, apoiou Bolsonaro e acompanhou a apuração das urnas junto de Raquel e da família dela. Disse à MZ que acredita que Raquel não vai olhar “esquerda ou direita” para montar o governo. Sobre a participação do União Brasil no governo, disse que cabe à governadora eleita decidir. “Mas já ajudei ela no segundo turno e estarei sempre à disposição”. Deputado reeleito para o quinto mandato, Fernando Bezerra Coelho Filho também estava por lá.</p>



<p>Eleito deputado estadual, Jarbas Filho (PSB) chegou à coletiva como um representante do voto “lulaquel”. &#8220;Não vejo a posição dela como neutralidade, mas como independência. Recebeu apoio de quem apoia Lula e de quem apoiou Bolsonaro. O resultado na urna mostra que ela não teve nenhum dano por conta disso, pelo contrário”, afirmou.</p>



<p>Quando faltavam poucos minutos para a chegada da nova governadora, o deputado reeleito Eduardo da Fonte atravessou o saguão com passinhos apressados. Sem parar de andar, falou que ainda é cedo para se avaliar como o partido Progressistas (PP), do centrão raiz, vai se integrar ao governo.</p>



<h2 class="wp-block-heading">Aposta em alinhamento com Lula</h2>



<p>Quando Lula foi confirmado como presidente, Raquel Lyra e Priscila Krause ainda não haviam chegado ao hotel. A vitória quase passou em branco no saguão, sendo comemorada discretamente. Quando Raquel, no palco, parabenizou Lula pela vitória, não foi todo mundo que aplaudiu, mas foi a maioria dos presentes. </p>



<p>Raquel Lyra fez um discurso em que disse que iria governar para todos e todas. Colocou acabar com a fome como prioridade do seu governo. E falou da geração de empregos e da necessidade de melhoria da saúde e da educação. Em entrevista hoje ao Bom dia Pernambuco, na TV Globo, falou em programa de qualificação profissional para a população LGBTI+. E que vai montar um secretariado técnico, com &#8220;sensibilidade política&#8221;. Disse que recebeu o apoio da &#8220;chamada extrema-esquerda&#8221; mandando um beijo para Márcia Conrado (PT), prefeita de Serra Talhada. Não abriu o voto para presidente em momento algum. </p>



<p>Assim como Mendonça e Krause, João Lyra Neto, pai de Raquel, também foi governador-tampão: passou nove meses no poder quando Eduardo Campos saiu para tentar a presidência. Teve uma carreira ligada à defesa do regime democrático. Ele vê o atual momento político como de instabilidade e que Lula vai ter a missão de restabelecer a paz e o respeito aos poderes. “A eleição de Lula foi importante para Pernambuco e para o país inteiro. Acima de tudo, ele vai ter a missão de cuidar de melhorar a vida dos brasileiros”, disse à MZ. Ele não quis responder sobre a neutralidade da campanha de Raquel na disputa nacional.</p>



<p>Para o ex-presidente da OAB-PE e ex-vereador Jayme Asfora, que tentou vaga de deputado estadual neste ano pelo PSDB, Raquel lembra o tio dela, Fernando Lyra, que foi ministro de Fernando Henrique Cardoso. “Raquel tem tudo para dialogar muito bem com Lula. É uma pessoa sensível, progressista&#8221;, disse.</p>



<p>E foi além: “Ela vai dialogar com Lula melhor até do que se fosse Marília&#8221;, apostou. “Prefiro confiar no apoio de Márcia Conrado e de Túlio Gadelha. Raquel é mais parecida com eles do que com os Tércio e Joel da Harpa. Apoio ninguém nega, mas acho que não vão ser incorporados ou direcionar o governo dela”, completou.</p>



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	                                        <p class="m-0">Gadelha e Raquel. Crédito: Américo Nunes</p>
	                
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<p>Se o “governo largo” de Raquel pode deixar a extrema direita de lado, tampouco indica que vai abraçar a esquerda. O único político eleito por um partido de esquerda no evento foi Túlio Gadelha (Rede). Ele fez uma fala de união em entrevista à Marco Zero. “Precisamos dialogar se a gente quer governar. Lula não vai conseguir governar com a bancada de esquerda que foi eleita. Somos só 125 deputados, precisamos abrir diálogo com o PSDB, o MDB, o Cidadania, com partidos que nunca estiveram conosco, mas que, por defender a democracia, devem estar. Todos os gestos de aproximação da esquerda com o centro democrático são necessários neste momento, para que haja governabilidade”, disse.</p>



<p>Mais uma vez, Túlio disse que Raquel votou em Lula, ainda que a futura governadora insista em manter o segredo sobre seu voto. Mas Túlio não tinha dúvidas. “Raquel é brizolista desde criança. Raquel teve sua formação política no partido socialista. A conjuntura política jogou Raquel para o PSDB, mas Raquel não é uma candidata de extrema direita, nem uma bolsonarista”, disse Túlio, afirmando que “com certeza” Raquel votou em Lula. “Eu sei que ela não vota em Bolsonaro, ela me disse isso. Sei também que não vota em branco. Por eliminação, ela votou em Lula”, especulou.</p>



<p>Sobre ser o único político de esquerda no palco de Raquel, que se vende como amplo, Túlio citou os números das urnas. “Se Pernambuco deu quase 70% a Lula e Raquel teve mais de 58% dos votos é porque muita gente votou em Lula e em Raquel. Eu represento esses eleitores. O PSOL me criticou, mas o PT não me criticou. Esse é um voto pedagógico, para um diálogo amplo”, afirmou. Terminou com uma análise bem elástica e uma crítica aos que o condenaram pelo apoio a Raquel. &#8220;Foi a nossa bolha que levou a construção de Bolsonaro e do bolsonarismo. É hora de construir essa abertura, esse gesto de aproximação visa construir essa abertura”.</p>



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		<title>A roupa nova da direita</title>
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		<pubDate>Wed, 24 Jun 2015 00:58:49 +0000</pubDate>
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					<description><![CDATA[<p>Rede de think tanks conservadores dos EUA financia jovens latino-americanos para combater governos de esquerda da Venezuela ao Brasil e defender velhas bandeiras com uma nova linguagem Por  Marina Amaral Da Agência Pública “O corpo é a primeira propriedade privada que temos; cabe a cada um de nós decidir o que quer fazer com ele”, [&#8230;]</p>
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										<content:encoded><![CDATA[
				<em>Rede de think tanks conservadores dos EUA financia jovens latino-americanos para combater governos de esquerda da Venezuela ao Brasil e defender velhas bandeiras com uma nova linguagem</em>

Por  Marina Amaral
Da <a href="http://apublica.org" target="_blank" rel="noopener noreferrer">Agência Pública</a>

“O corpo é a primeira propriedade privada que temos; cabe a cada um de nós decidir o que quer fazer com ele”, brada em espanhol a loirinha de voz firme, enquanto se movimenta com graça no palco do Fórum da Liberdade, ornado com os logotipos dos patrocinadores oficiais – Souza Cruz, Gerdau, Ipiranga e RBS (afiliada da Rede Globo). O auditório de 2 mil lugares da PUC-RS, em Porto Alegre, completamente lotado, explode em risos e aplausos para a guatemalteca Gloria Álvarez, 30 anos, filha de pai cubano e mãe descendente de húngaros.

<div id="attachment_703" style="width: 712px" class="wp-caption alignnone"><a href="http://marcozero.org/wp-content/uploads/2015/06/Direita1.jpg"><img fetchpriority="high" decoding="async" aria-describedby="caption-attachment-703" class="size-large wp-image-703" src="http://marcozero.org/wp-content/uploads/2015/06/Direita1-1024x682.jpg" alt="Gloria Alvarez, a estrela da direita jovem latino-americana. Foto: Fernando Conrado" width="702" height="467" /></a><p id="caption-attachment-703" class="wp-caption-text">Gloria Alvarez, a estrela da direita jovem latino-americana. Foto: Fernando Conrado</p></div>

Gloria ou @crazyglorita (55 mil seguidores no Twitter e 120 mil em sua <em>fanpage</em> do Facebook) ascendeu ao estrelato entre a juventude de direita latino-americana no final do ano passado, quando um vídeo em que ataca o “populismo” na América Latina durante o Parlamento Iberoamericano da Juventude em Zaragoza (Espanha) viralizou na internet. No principal fórum da direita brasileira, Gloria e o ex-governador republicano da Carolina do Sul David Bensley são os únicos entre os 22 palestrantes, brasileiros e estrangeiros, escalados para os <em>keynote</em> – palestras-chave que norteiam os debates nos três dias do evento, batizado de “Caminhos da Liberdade”.

Radialista há dez anos, hoje com um programa na TV, Gloria é uma show-woman cativante. Conduz com desenvoltura a plateia formada majoritariamente por estudantes da PUC gaúcha, uma das melhores e mais caras universidades do Sul do país. “Quem aqui se declara liberal ou libertarista que levante a mão?”, pede ao público, que responde com mãos erguidas. “Ah, ok”, relaxa. Sua missão é ensinar a seus pares ideológicos como “seduzir e enamorar os públicos de esquerda” e vencer “os barbudos de boina de Che”, explica a jovem líder do Movimiento Cívico Nacional (MCN), uma pequena organização que surgiu em 2009 na Guatemala na esteira dos movimentos que pediam – sem êxito – o impeachment do presidente social-democrata Álvaro Colom.

A primeira lição é utilizar nas redes sociais o <em>hashtag</em> criado por ela, “república x populismo”, para superar “a divisão obsoleta entre direita e esquerda”. “Um esquerdista intelectualmente honesto tem de reconhecer que a única saída é o emprego, e um direitista do século 21, que já se modernizou, tem de reconhecer que a sexualidade, a moral, as drogas são um problema de cada um; ele não é a autoridade moral do universo”, continua, sob uma chuva de aplausos. Nada de culpa, nem moral nem social, ensina. A mensagem é liberdade individual, “empoderamento” da juventude, impostos baixos, Estado mínimo – a plataforma da direita liberal (em termos econômicos) no mundo todo: “A riqueza não se transfere, senhores, a riqueza se cria a partir da cabecinha de cada um de vocês”, diz. Da mesma maneira, Gloria rebate programas sociais de assistência aos mais pobres, política de cotas para mulheres, negros, deficientes e até mesmo a existência de minorias: “Não há minorias, a menor minoria é o indivíduo, e a ele o que melhor serve é a meritocracia”.

“Há uma verdade que todo ser humano deve alcançar para ter paz, se não quiser viver como um hipócrita. Todos nós, 7 bilhões e meio de seres humanos que habitamos este planeta, somos egoístas. É essa a verdade, meus queridos amigos do Brasil, todos somos egoístas. E isso é ruim? É bom? Não, é apenas a realidade”, diz, definitiva. “Há pessoas que não aceitam essa verdade e saem com a maravilhosa ideia: ‘Não! [<em>imita a voz de um homem</em>], eu vou fazer a primeira sociedade não egoísta’. Cuidem-se, brasileiros; cuide-se, América Latina! Esses espertinhos são como Stálin, na União Soviética, como Kim Jong-il, Kim Jong-un, na Coreia do Norte, Fidel Castro, em Cuba, Hugo Chávez, na Venezuela.” E por que “seguimos como carneirinhos” atrás desses “hipócritas”? Porque [<em>faz careta e vozinha de velha</em>] “nos ensinam que é feio ser egoísta e que pensar em nós mesmos é pecado. Quantos de vocês já não viram alguém dizer ‘ah, necessitamos de um homem bom, que não pense só em si”, diz, encurvando-se à medida que fala para em seguida recuperar a postura altiva: “<em>Mira, señores</em>, a menos que seja um marciano, esse homem não existe, nunca existiu, nem existirá jamais”. Aplausos frenéticos.

Mas, explica, os “defensores da liberdade” também tem sua parcela de responsabilidade. Eles não sabem comunicar suas ideias, usar a tecnologia para “empoderar os cidadãos” e “libertar” a América Latina. “Se ficarmos discutindo macroeconomia, PIB etc., vamos perder a batalha. Temos que aprender com os populistas a falar o que as pessoas entendem, fazer com que se identifiquem”, ela diz. “E aqui vou lhes dar outro conselho porque dizem que nós, os liberais, somos malditos exploradores”, ironiza. “Encontrei um maneira muito bonita de definir o conceito de propriedade privada. E com esse conceito de propriedade privada os esquerdistas fazem assim: Ôooooo! [<em>inclina o corpo para trás</em>].” A propriedade privada, diz, é o que acumulamos em toda uma vida, a partir de nossas primeiras propriedades: corpo e mente. O passado, afirma, não é igual para ninguém, esse acúmulo é pessoal. “Isso nos humaniza, dá um coraçãozinho a nós, liberais, tão desgraçados.” Risos. Aplausos.

“Há pessoas que querem o direito à saúde, à educação, ao trabalho, à moradia. A ONU agora quer até o direito universal à internet”, desdenha, embora tenha acabado de dizer que a tecnologia é a chave para mudar o mundo. “Imaginem que, nesse auditório, alguns queiram o direito à educação, outros o direito à saúde, outros o direito à moradia. Então, se eu dou a vocês a educação, todos aqui vão pagar por isso, e vocês vão ser VIPs, e eles, cidadãos de segunda categoria. Se eu dou a eles a saúde, todos neste auditório vão pagar pela saúde deles, e eles vão ser VIPs. Se eu dou a esses as moradias, vou ter que tirar de todos vocês para dar moradia a eles, e eles vão ser esses VIPs. Isso não é justiça social, é desigualdade perante a lei”, conclui, novamente sob risos e aplausos.

“Se cada um na América Latina tiver direito à vida, liberdade e propriedade privada, então cada um que vá atrás da educação que queira, da saúde que queira, da casa onde quer morar, sem precisar de super-Chávez, super-Morales, super-Correa”. Ovação. Assobios. Antes de encerrar os 40 minutos de exposição, Gloria convida os presentes a contrapor a visão de mundo que “vitimiza os latino-americanos”, “joga a culpa nos ianques”, mina a “autoestima” e a coragem de assumir riscos que exige o espírito empreendedor. A plateia aplaude de pé.

<strong><a href="http://apublica.org/2015/06/a-direita-abraca-a-rede/" target="_blank" rel="noopener noreferrer">Leia mais: <em>A direita abraça a rede</em></a></strong>
<h3><strong>Neoliberais e libertaristas</strong></h3>
Gloria Álvarez não representa nada exatamente novo. A grande diferença é a linguagem. O MCN (movimento a que ela pertence) recebe “fundos de algumas das maiores empresas da elite empresarial tradicional, conta o jornalista investigativo Martín Rodríguez Pellecer, diretor do site guatemalteco Nómada, parceiro da <strong>Pública</strong>. “Por fontes próximas, soube que uma das indústrias que os apoiam para campanhas de massa e lobby no Congresso é a Azúcar de Guatemala, um cartel poderosíssimo de treze empresas (a Guatemala é o quarto maior exportador mundial de açúcar) e as usinas guatemaltecas têm, inclusive, investimentos em usinas no Brasil.”

O mesmo pode-se dizer em relação a suas ideias. Apesar do título sedutor, os <em>libertarians </em>– libertaristas em português – “são um segmento minoritário entre as correntes que ganharam influência no pós-guerra em oposição às políticas intervencionistas de inspiração keynesiana”, explica o economista Luiz Carlos Prado, da Universidade Federal no Rio de Janeiro.

A partir da crise do petróleo dos anos 1970, economistas pró-mercado como o austríaco Friedrich Hayek (Prêmio Nobel de 1974), monetaristas da Escola de Chicago de Milton Friedman (Prêmio Nobel de 1976) e os novo-clássicos associados a Robert Lucas (Prêmio Nobel de 1995) passaram a dominar o pensamento econômico global e se tornaram conhecidos do grande público sob um único rótulo: “neoliberal”. Seus conceitos foram trazidos para a América Latina pelo setor mais conservador americano, representado principalmente pelos <em>think tanks</em> ligados a Ronald Reagan, que depois de ter perdido as primárias republicanas em 1968 e 1976, se elegeu presidente em 1980, tendo Friedman como principal conselheiro. Também predominaram no governo de Margaret Thatcher (1979-1991) na Inglaterra. “Os defensores do liberalismo clássico eram também defensores da liberdade política, mas a corrente chamada de ‘neoliberal’ defendia essencialmente a não intervenção do Estado na economia sem uma preocupação particular com a questão da liberdade política, chegando, em alguns casos, a apoiar sem constrangimentos governos ditatoriais como o de Pinochet no Chile”, observa Luiz Carlos Prado.

A Guatemala de Gloria Álvarez é um bom exemplo de como as ideias <em>libertarians</em> se traduziram na América Latina. Em 1971,“uma parte muito representativa da elite econômica guatemalteca assumiu como projeto político o libertarismo de direita, quando fundou a Universidade Francisco Marroquín (UFM)”, conta o jornalista Martín Rodríguez Pellecer. “O fundador da universidade, Manuel Ayau, conhecido como El Muso, em alusão a Mussolini, se uniu ao projeto fascista anticomunista da MLN. Desde então, a UFM vem formando quadros políticos e acadêmicos para desacreditar o Estado e a justiça social e converter a Guatemala no país que arrecada menos impostos na América Latina (11% em relação ao PIB) e o que menos redistribui”, explica. Foi nessa universidade que Gloria estudou e “se converteu em uma libertarista um tanto menos conservadora que seus professores, uma mistura de neoliberais e Opus Dei. Álvarez se declara ateia e a favor do aborto e, embora tenha se tornado uma estrela da direita latino-americana, na Guatemala é uma referência menor para a direita, não tem base política nem vai ser candidata. Eu a vejo mais como uma <em>enfant terrible</em> libertarista”, diz Martín.

Os <em>libertarians </em>ressurgiram com força nos Estados Unidos depois da crise de 2008 – e ao clamor subsequente pela regulamentação do mercado – e em decorrência da ascensão do democrata Barack Obama ao poder. Pregam a predominância do indivíduo sobre o Estado, a liberdade absoluta do mercado, a defesa irrestrita da propriedade privada. Afirmam que a crise econômica que jogou 50 milhões de pessoas na pobreza não se deveu à falta de regulação do mercado financeiro, mas pela proteção do governo a alguns setores da economia. E rejeitam enfaticamente os programas sociais do governo Obama. No entanto, uma parte significativa dos libertaristas tem se distanciado do tradicionalismo da direita no campo do comportamento, defendendo posições associadas à esquerda, como a defesa da liberação das drogas e a tolerância aos homossexuais, em nome da liberdade do individual. O senador republicano Rand Paul, pré-candidato à presidência, é um de seus representantes mais conhecidos.

“Os <em>libertarians </em>que estão com os conservadores no Tea Party (a corrente radical de direita no Partido Republicano americano) estão em <em>think tanks</em> como o Cato Institute e compõem a direita pós-moderna, representada, por exemplo, por Cameron, na Inglaterra, que modernizou a agenda da redução do estado do bem-estar social”, resume o professor. Ele acha graça quando falo em <em>libertarians </em>brasileiros, seguidores da escola austríaca de economia de Ludwig von Mises e Friedrich Hayek. “A escola austríaca é uma corrente muito minoritária mesmo na academia”, diz. “Quem são esses <em>libertarians</em>? O que temos no Brasil são economistas sofisticados que seguem correntes como a dos novo-clássicos do prêmio Nobel Robert Lucas e outras similares, políticos de direita pouco elaborados como o Ronaldo Caiado (senador do DEM-GO) e essa classe média conservadora que lê Rodrigo Constantino na <em>Veja</em>”, resume.

<div id="attachment_704" style="width: 610px" class="wp-caption alignnone"><a href="http://marcozero.org/wp-content/uploads/2015/06/direita2.jpg"><img decoding="async" aria-describedby="caption-attachment-704" class="size-full wp-image-704" src="http://marcozero.org/wp-content/uploads/2015/06/direita2.jpg" alt="O senador Ronaldo Caiado (GO), um dos mais aplaudidos em Porto Alegre. Foto: Fernando Conrado" width="600" height="400" /></a><p id="caption-attachment-704" class="wp-caption-text">O senador Ronaldo Caiado (GO), um dos mais aplaudidos em Porto Alegre. Foto: Fernando Conrado</p></div>

Caiado e Constantino são participantes veteranos do Fórum da Liberdade em Porto Alegre. A novidade é que os <em>libertarians</em> do Tea Party mostraram-se enfim capazes de se apresentar como a face convidativa da direita para a juventude brasileira.
<h3><strong>Vem pra rua, ciudadano</strong></h3>
<div id="attachment_705" style="width: 712px" class="wp-caption alignnone"><a href="http://marcozero.org/wp-content/uploads/2015/06/Direita3.jpg"><img decoding="async" aria-describedby="caption-attachment-705" class="size-large wp-image-705" src="http://marcozero.org/wp-content/uploads/2015/06/Direita3-1024x682.jpg" alt="Em palestra no Instituto FHC, Gloria fala para o ex-presidente, sentado à sua frente. Foto: Vinicius Doti/iFHC" width="702" height="467" /></a><p id="caption-attachment-705" class="wp-caption-text">Em palestra no Instituto FHC, Gloria fala para o ex-presidente, sentado à sua frente. Foto: Vinicius Doti/iFHC</p></div>

Na véspera do Fórum, no dia 12 de abril, Gloria Álvarez discursou contra o “populismo maldito” vestida com uma camiseta de lantejoulas formando a bandeira do Brasil para cerca de 100 mil pessoas na avenida Paulista, em São Paulo, na segunda rodada de manifestações “Fora Dilma”. Do alto do caminhão do Vem pra Rua, o líder do movimento, Rogério Chequer, a apresentou à multidão como “uma das maiores representantes da batalha contra o populismo do Foro de São Paulo” e se manteve o tempo todo ao seu lado (<em>veja o vídeo com o discurso de Gloria na Paulista </em><a href="https://www.youtube.com/watch?v=sfvtonYYCbE"><em>aqui</em></a>). Gloria, que havia anunciado antecipadamente sua presença nos protestos em uma entrevista no programa de Danilo Gentili no SBT, tinha dado uma palestra no Instituto Fernando Henrique Cardoso, assistida pelo próprio ex-presidente, três dias antes.

Entre os que lideraram os protestos de março e abril contra o governo, o movimento de Chequer foi um dos últimos a assumir a bandeira do impeachment, o que lhe valeu um pito público do vetusto Olavo de Carvalho, que o acusou de “paumolice tucana”. O Movimento Brasil Livre, conhecido principalmente através da figura de Kim Kataguiri, assumiu desde o início a bandeira do impeachment e rompeu publicamente com Chequer, divulgando fotos dele ao lado do senador José Serra (PSDB-SP) na campanha de Aécio Neves – tachado de “traidor” pela hesitação em pedir o impeachment da presidente eleita. Voltaram às boas depois que a comissão de senadores liderada por Aécio e Ronaldo Caiado (DEM-GO) fez sua controversa expedição a Caracas.

Caiado, aliás, estava no debate de abertura da edição do Fórum deste ano. Sem a graça irreverente de Glorita, o senador ruralista conservador arrancou aplausos da plateia com frases de efeito contra a corrupção do governo (<a href="https://www.youtube.com/watch?v=cFhyyGXmzto">veja aqui o vídeo com sua apresentação</a>), menções ao “Foro de São Paulo”, pedido de “renúncia” à presidente Dilma e ataques ao BNDES. Curiosamente, as acusações de Caiado foram feitas sob os logotipos da Gerdau e Ipiranga – do grupo Ultra –, que estão entre os maiores tomadores de empréstimos do BNDES segundo os <a href="http://www1.folha.uol.com.br/mercado/2010/08/779517-veja-quanto-receberam-os-grupos-mais-favorecidos-pelo-bndes.shtml" rel="lightbox-video-0">dados levantados pela <em>Folha de S.Paulo</em></a>. Ambos obtiveram individualmente mais de R$ 1 bilhão de recursos do banco apenas entre 2008 e 2010.

O empresário gaúcho Jorge Gerdau é um dos idealizadores do Fórum da Liberdade, que surgiu em 1988 com a intenção de promover o debate entre diversas correntes de pensamento. Em suas primeiras edições, o Fórum incluiu o ex-presidente Lula, o ex-ministro José Dirceu e o falecido ex-governador Leonel Brizola entre os debatedores, sem prejudicar sua identidade como principal fórum conservador do país.

<div id="attachment_706" style="width: 712px" class="wp-caption alignnone"><a href="http://marcozero.org/wp-content/uploads/2015/06/Direira4.jpg"><img loading="lazy" decoding="async" aria-describedby="caption-attachment-706" class="size-large wp-image-706" src="http://marcozero.org/wp-content/uploads/2015/06/Direira4-1024x682.jpg" alt="Rodrigo Constantino autografa livro para fãs durante o Fórum. Foto: Felipe Gaieski" width="702" height="467" /></a><p id="caption-attachment-706" class="wp-caption-text">Rodrigo Constantino autografa livro para fãs durante o Fórum. Foto: Felipe Gaieski</p></div>

Foi ali que, em 2006, foi lançado oficialmente o principal <em>think tank</em> da direita no Brasil, o Instituto Millenium. Armínio Fraga (escolhido para ser ministro da Fazenda de Aécio Neves se ele vencesse as eleições) é sua figura mais conhecida no campo econômico. Seus mantenedores são a Gerdau, a editora Abril e a Pottencial Seguradora, uma das empresas de Salim Mattar, dono da locadora de veículos Localiza. A Suzano, o Bank of America Merrill Lynch e o grupo Évora (dos irmãos Ling) também são parceiros. William Ling participou da fundação do Instituto de Estudos Empresariais (IEE) em 1984, que, formado por jovens líderes empresariais, organiza o Fórum desde a primeira edição; seu irmão, Wiston Ling, é fundador do Instituto Liberdade do Rio Grande do Sul; o filho, Anthony Ling, é ligado ao grupo Estudantes pela Liberdade, que criou o MBL. O empresário do grupo Ultra, Hélio Beltrão, também está entre os fundadores do Millenium, embora tenha o próprio instituto, o Mises Brasil.

A rede de <em>think tanks</em> liberais e libertaristas no Brasil se completa com mais duas entidades: o Instituto Ordem Livre – que realiza seminários para a juventude – e o Centro Interdisciplinar de Ética e Economia Personalista, do Rio de Janeiro, ligado ao Opus Dei. O jurista Ives Gandra, autor do controverso parecer sobre a existência de base jurídica para o impeachment da presidente Dilma, faz parte de seu conselho.

<strong><a href="http://apublica.org/2015/06/a-direita-abraca-a-rede/" target="_blank" rel="noopener noreferrer">Leia mais: <em>A direita abraça a rede</em></a></strong>

A exemplo do Millenium, a grande maioria desses institutos foi criada recentemente. A semente original foi o Instituto Liberal, criado em 1983 pelo engenheiro civil carioca Donald Stewart Jr., falecido em 1999. De acordo com a tese de doutorado do historiador Pedro Henrique Pedreira Campos, da Universidade Federal Fluminense (UFF), “A ditadura dos empreiteiros (1964-1985)”, a Ecisa (Engenharia Comércio e Indústria S.A.), empresa de Stewart Jr., foi uma das maiores empreiteiras durante a ditadura militar e Stewart Jr. se associou à construtora norte-americana Leo A. Daly para construir escolas no Nordeste para a Sudene. A participação de companhias dos EUA nas obras era exigência dos financiamentos da Usaid – a agência de desenvolvimento americana que funcionava como braço da CIA durante as ditaduras latino-americanas.

Donald Stewart Jr. também era um velho amigo de um personagem crucial nessa história, o argentino radicado nos Estados Unidos Alejandro Chafuen, 61 anos, ambos membros da seleta Mont Pelèrin Society, fundada pelo próprio Hayek em 1947 na Suíça e sediada nos Estados Unidos, que reúne os mais fiéis <em>libertarians</em>. El Muso, o fundador da universidade onde estudou Gloria Álvarez, foi o primeiro latino-americano a presidir a Mont Pelèrin, e seu atual reitor, Gabriel Calzada, participa da diretoria com a brasileira Margaret Tsé, CEO do Instituto da Liberdade, <a href="http://revistavilanova.com/entrevista-winston-ling/">o suporte ideológico do IEE</a>. O atual presidente da Mont Pelèrin Society é o espanhol Pedro Schwartz Girón, semeador de <em>think tanks</em> vinculados à FAES, a fundação do Partido Popular (PP) presidida por José María Aznar, que promoveu o Parlamento Iberoamericano da Juventude, de onde Gloria Álvarez foi catapultada para a fama. Pedro Schwartz, Alejandro Chafuen e o colombiano Plinio Apuleyo Mendoza, coautor do livro <em>Manual do perfeito idiota latino-americano</em>, um <em>hit</em> da juventude de direita, participaram do painel “América Latina”, no Fórum da Liberdade. Chafuen também participou discretamente dos protestos de 12 de abril em Porto Alegre. Não resistiu, porém, a postar em seu Facebook uma foto em que aparece vestido com a camisa da CBF abraçado ao jovem cientista político Fábio Ostermann, da coordenação do Movimento Brasil Livre – nome que assumiu nas ruas o grupo Estudantes pela Liberdade (EPL).

<div id="attachment_707" style="width: 610px" class="wp-caption alignnone"><a href="http://marcozero.org/wp-content/uploads/2015/06/Direita5.jpg"><img loading="lazy" decoding="async" aria-describedby="caption-attachment-707" class="size-full wp-image-707" src="http://marcozero.org/wp-content/uploads/2015/06/Direita5.jpg" alt="Alejandro Chafuen, da Atlas, com Fábio Ostermann do MBL na manifestação em Porto Alegre. Foto: Reprodução/Facebook" width="600" height="600" /></a><p id="caption-attachment-707" class="wp-caption-text">Alejandro Chafuen, da Atlas, com Fábio Ostermann do MBL na manifestação em Porto Alegre. Foto: Reprodução/Facebook</p></div>

O gaúcho Ostermann, o mineiro Juliano Torres e o gaúcho Anthony Ling são fundadores do EPL, a versão local do Students for Liberty, uma organização-chave na articulação entre os <em>think tanks</em> conservadores americanos – especialmente os que se definem como libertários – e a juventude “antipopulista” da América Latina. Mr. Chafuen, presidente da Atlas Network desde 1991, é o seu mentor.

A Atlas Network (nome fantasia da Atlas Economic Research Foundation desde 2013) é uma espécie de <em>metathink tank</em>, especializada em fomentar a criação de outras organizações libertaristas no mundo, com recursos obtidos com fundações parceiras nos Estados Unidos e/ou canalizados dos <em>think tanks</em> empresariais locais para a formação de jovens líderes, principalmente na América Latina e Europa oriental. De acordo com o formulário 990, que todas as organizações filantrópicas tem de entregar ao IRS (Receita nos EUA), <a href="http://apublica.org/wp-content/uploads/2015/06/Atlas-Network-2013-21.pdf" target="_blank" rel="noopener noreferrer">a receita da Atlas em 2013 foi de US$ 11,459 milhões</a>. Os recursos destinados para atividades fora dos Estados Unidos foram de US$ 6,1 milhões: dos quais US$ 2,8 milhões para a América Central e US$ 595 mil para a América do Sul.

Com exceção do Instituto Fernando Henrique Cardoso, todas as organizações citadas até agora compõem a rede da Atlas Network no Brasil, incluindo o MCN de Gloria Álvarez, a Universidade Francisco Marroquín e o Estudantes pela Liberdade, uma organização que nasceu dentro da Atlas em 2012. Como veremos, além dos recursos citados há projetos bem mais vultosos financiados por outras fundações e executados pela Atlas.
<h3><b>O discreto charme de Mr. Chafuen</b></h3>
Sentado na sala VIP do Fórum da Liberdade, Mr. Chafuen se levantou de um salto para cumprimentar Kim Kataguiri, que apareceu “de surpresa” no Fórum da Liberdade. A alegria indisfarçável desse senhor recatado, um <em>libertarian</em> ligado ao Opus Dei, foi a deixa para pedir a entrevista. Os trechos principais estão transcritos aqui.

<strong>Como o senhor se aproximou do Brasil?</strong>
Comecei a trabalhar com os amigos da Liberdade brasileiros em 1998, com Donald Stewart, e eu sempre me lembro da solidão que ele sentia na batalha pela liberdade. Chegar em Porto Alegre no mesmo dia da manifestação e ver todo esse povo, nem todos <em>libertarians</em>, mas pessoas de diversas camadas da sociedade brasileira, reivindicando coisas que são muito consistentes com a essência da sociedade livre, me fez lembrar esses pioneiros. Porque, sim, era tanta gente na rua, tantas almas, que fiquei agradavelmente surpreso me perguntando o que virá depois, como nós podemos usar esse entusiasmo de tantos jovens para produzir uma mudança mais duradoura no Brasil.

<strong>E que mudança seria essa?
</strong>Vindo de fora é difícil dizer, não é fácil dizer o que fazer, isso é específico de cada país. Veja a Espanha hoje, em que os partidos perderam terreno para os novos movimentos como Podemos, de esquerda, ou seu oposto na Catalunha, o Ciudadanos. Nos Estados Unidos, por exemplo, temos o Tea Party, um movimento espontâneo que, em vez de fundar um partido, preferiu se tornar uma tendência dentro de um partido, e agora todos, com exceção de um dos principais candidatos presidenciais republicanos, se identificam com o Tea Party e buscam apoio no movimento. Rand Paul, Marco Rubio, Ted Cruz, todos vêm do Tea Party e são quase oposição aos republicanos tradicionais. Então, essa não é uma resposta que um estrangeiro possa dar, ainda mais no Brasil, que é um mundo em si mesmo, com tantas culturas diferentes. Nós damos algumas ideias, mas cabe a eles, os que vi na rua, os jovens e os não tão jovens, captar mais gente da sociedade civil para criar essa institucionalização.

<strong>Comento com ele que nos eventos do Fórum se fala muito em falta de liberdade – sem base na realidade – e se compara o país com a Venezuela</strong>.
Sim, aqui a situação é bem diferente da Venezuela, mas vocês têm que se prevenir. Não é assim, de um dia para outro, que a perda da liberdade acontece. A Venezuela era um dos países mais prósperos e veja o que aconteceu. O populismo na América Latina enfraquece as instituições. Eles deixam os empresários se sentirem livres para investir por algum tempo, deixam a liberdade de expressão, até que mais cedo ou mais tarde viram o jogo. As primeiras nacionalizações e expropriações que o Chávez fez foram vários anos depois de ele tomar o poder. Sim, aqui vocês têm uma liberdade considerável. Mas tem uma coisa que perverte a liberdade, que é o não cumprimento da lei, o privilégio, a corrupção, o capitalismo só para os amigos. É uma falsa liberdade. É como pôr a raposa no galinheiro e dizer às galinhas: vocês estão livres agora. Daí começam os problemas [denúncias de propina], os empresários são obrigados a entrar no jogo, e eles que pagam o pato. É preciso dois para dançar um tango, como se diz na Argentina.

<strong>E os meninos do Movimento Brasil Livre têm forças para promover uma mudança social?
</strong>Eu desenvolvi um modelo para explicar como as coisas acontecem, e ele tem quatro elementos: primeiro, ideias, já que os seres humanos pensamos antes de agir ou pelo menos deveríamos; segundo, motivação: economia é motivação; o terceiro é ação, porque ideias sem ação são apenas ideias; e o quarto é a Providência ou, dependendo do que você acredita, sorte. Então, você começa a trabalhar com ideias, alguns líderes emergem, as leis mudam e isso afeta a motivação da sociedade… A mudança típica não vem de um dia para outro. Essa pressão vai se acumulando e de repente alguma coisa acontece. E aqui vem um escândalo, outro escândalo, uma revista com coragem, uns jovens de São Paulo [Kim Kataguiri e Renan Haas, do MBL, anunciaram recentemente a decisão de sair da universidade para se dedicar ao movimento] que decidem: “Vou deixar a universidade e lutar contra isso”. E esse movimento está aí nas ruas. É uma combinação de fatores que temos visto em outras épocas na história. O senhor William Waack [jornalista da Rede Globo], que recebeu um prêmio aqui, disse para nós, em um almoço antes da abertura do Fórum, que o único momento que ele viveu que se comparava a isso foi quando cobriu a queda do Muro de Berlim. Exagerou um pouco, mas não se sabe ainda o que vai ser desse movimento.

<div id="attachment_708" style="width: 610px" class="wp-caption alignnone"><a href="http://marcozero.org/wp-content/uploads/2015/06/direita6.jpg"><img loading="lazy" decoding="async" aria-describedby="caption-attachment-708" class="size-full wp-image-708" src="http://marcozero.org/wp-content/uploads/2015/06/direita6.jpg" alt="William Waack recebe o prêmio “Liberdade de Imprensa”. Foto: Felipe Gaieski" width="600" height="400" /></a><p id="caption-attachment-708" class="wp-caption-text">William Waack recebe o prêmio “Liberdade de Imprensa”. Foto: Felipe Gaieski</p></div>

<strong>Depois da primeira manifestação, em março deste ano, a Atlas <a href="https://www.atlasnetwork.org/news/article/students-for-liberty-plays-strong-role-in-free-brazil-movement">publicou uma matéria</a> em seu site comemorando o papel decisivo dos Estudantes pela Liberdade, parceiro da Atlas, nos protestos brasileiros contra a presidente Dilma Rousseff e o PT. O senhor se sente responsável por esse movimento?
</strong>Nosso papel [em relação aos Estudantes pela Liberdade] é o do poder da nutrição. Esses seres humanos, nós o chamamos de empreendedores intelectuais, pessoas com novas ideias, que enxergam soluções e decidem investir seu capital nisso. É como nos negócios. Então, damos a eles programas de treinamento, tentamos apoiá-los financeiramente, encorajá-los a ser muito sérios, não muito festeiros. Mas a Atlas não apoia partidos. Nós retiramos nosso apoio se houver intenção partidária. Não aceitamos nenhum recurso do governo, mas podemos oferecer algumas diretrizes, novas ideias sobre a sociedade livre, do liberalismo clássico ao libertarismo, de religiosos a ateus, mas cabe a cada pessoa escolher. Muitos na nossa organização achamos muito negativo ter uma aproximação de cima para baixo. Nós tentamos encorajá-los, facilitar os encontros entre eles. Agora, por exemplo, em todos os lugares do mundo, eles devem estar se perguntando: “Podemos copiar os brasileiros?”. Então comemoramos, mas temos que ser muito cuidadosos para não ficar com os créditos do resultado, do que acontece localmente.

<strong>Na Venezuela, o Cedice Libertad, que é uma organização parceira da Atlas, e o Cato Institute, que financia programas da Atlas para estudantes, foram acusados pelo governo Chávez de fomentar a oposição entre os estudantes, associadas a empresários locais.
</strong>Eu sou vice-presidente do Cedice, e a verdade é que não. Em algumas vezes, alguns membros do Cedice podem ter tido alguma participação política. Mas uma coisa é a vida política, a pólis, outra coisa é trabalhar somente com um partido político. Hoje em dia, nós temos trabalhado e recebido no Cedice Leopoldo López [que está preso] com seu partido da Internacional Socialista, [ex-deputada] María Corina Machado, Antonio Ledezma [prefeito de Caracas detido em março por tentativa de golpe de Estado, segundo o governo]. A resposta é: não podemos abandonar a luta pela liberdade, e algumas pessoas vão para a política. Mas a Atlas não se mete em política interna. “<em>The battle is not between left and right but between right and wrong.” </em>E agora a senhora me dê licença porque tenho que me preparar para a minha palestra [e se levanta].

<strong>Uma última pergunta, por favor, só para não fomentar boatos. A ligação das fundações Koch com o Students for Liberty através de financiamento direto e através de outras fundações associadas aos irmãos Koch tem despertado suspeita, já que os Koch são donos de indústrias petroleiras que poderiam ter interesses aqui.
</strong>A Atlas recebe 0,5% de financiamento dos Koch, a Students for Liberty, não sei. Até logo.
<h3><strong>Students For Liberty e o Movimento Brasil Livre</strong></h3>
Juliano Torres, o diretor executivo do Estudantes pela Liberdade (EPL), foi mais claro sobre a ligação entre o EPL e o Movimento Brasil Livre (MBL), uma marca criada pelo EPL para participar das manifestações de rua sem comprometer as organizações americanas que são impedidas de doar recursos para ativistas políticos pela legislação da receita americana (IRS). “Quando teve os protestos em 2013 pelo Passe Livre, vários membros do Estudantes pela Liberdade queriam participar, só que, como a gente recebe recursos de organizações como a Atlas e a Students for Liberty, por uma questão de imposto de renda lá, eles não podem desenvolver atividades políticas. Então a gente falou: ‘Os membros do EPL podem participar como pessoas físicas, mas não como organização para evitar problemas. Aí a gente resolveu criar uma marca, não era uma organização, era só uma marca para a gente se vender nas manifestações como Movimento Brasil Livre. Então juntou eu, Fábio [Ostermann], juntou o Felipe França, que é de Recife e São Paulo, mais umas quatro, cinco pessoas, criamos o logo, a campanha de Facebook. E aí acabaram as manifestações, acabou o projeto. E a gente estava procurando alguém para assumir, já tinha mais de 10 mil <em>likes</em> na página, panfletos. E aí a gente encontrou o Kim [Kataguiri] e o Renan [Haas], que afinal deram uma guinada incrível no movimento com as passeatas contra a Dilma e coisas do tipo. Inclusive, o Kim é membro da EPL, então ele foi treinado pela EPL também. E boa parte dos organizadores locais são membros do EPL. Eles atuam como integrantes do Movimento Brasil Livre, mas foram treinados pela gente, em cursos de liderança. O Kim, inclusive, vai participar agora de um torneio de pôquer filantrópico que o Students For Liberty organiza em Nova York para arrecadar recursos. Ele vai ser um palestrante. E também na conferência internacional em fevereiro, ele vai ser palestrante”, disse em entrevista por telefone na sexta-feira passada.

Remunerado por seu cargo na EPL, Juliano conta que tem duas reuniões online por semana com a sede americana e que ele e outros brasileiros participam anualmente de uma conferência internacional, com as despesas pagas, e de um encontro de lideranças em Washington. O <em>budget</em> do Estudantes pela Liberdade no Brasil deve alcançar R$ 300 mil este ano. “No primeiro ano, a gente teve mais ou menos R$ 8 mil, o segundo foi para R$ 20 e poucos mil, de 2014 para 2015 cresceu bastante. A gente recebe de outras organizações externas também, como a Atlas. A Atlas, junto com a Students for Liberty, são nossos principais doadores. No Brasil, as principais organizações doadoras são a Friederich Naumann, que é uma organização alemã, que não são autorizados a doar dinheiro, mas pagam despesas para a gente. Então houve um encontro no Sul e no Sudeste, em Porto Alegre e Belo Horizonte. Eles alugaram o hotel, a hospedagem, pagaram a sala do evento, o almoço e o jantar. E tem alguns doadores individuais que fazem doação para a gente.”

A fundação da EPL no Brasil veio depois de Juliano ter participado de um seminário de verão para trinta estudantes patrocinado pela Atlas em Petrópolis, em 2012. “Ali mesmo a gente fez um rascunho, um planejamento e daí, depois, a gente entrou em contato com a Students for Liberty para oficialmente fazer parte da rede”, diz.

Depois disso, ele passou por quase todo tipo de treinamento na Atlas. “Tem um que eles chamam de MBA, tem um treinamento em Nova York também, treinamentos online. A gente recomenda para todas as pessoas que trabalham em posições de mais responsabilidade que passem pelos treinamentos da Atlas também.”

Os resultados obtidos pelos brasileiros têm impressionado a sede nos Estados Unidos. “Em 2004, 2005 tinha uma dez pessoas no Brasil que se identificavam com o movimento libertário. Hoje, dentro da rede global do Students for Liberty, os resultados que a gente tem são muito bons. Uma das maneiras de medir o desempenho das regiões é o número de coordenadores locais. Em todas as regiões, contando a América do Norte, a África, a Europa, a gente tem mais coordenadores que qualquer região separadamente. Nos Estados Unidos, a organização existe há oito anos; na Europa, há quatro; aqui, há três anos. Então, a gente está tendo mais resultado em muito pouco tempo que acaba traduzindo em maior influência na organização.”

Há dois brasileiros no International Board do Students for Liberty (entre dez membros), e o relatório deste ano dedica uma página especialmente às manifestações do MBL no Brasil. A brasileira Elisa Martins, formada em Economia na Universidade de Santa Maria (RS), é a responsável pelos programas internacionais de bolsas de estudo e treinamento de lideranças jovens na Atlas Network.

Os programas são realizados em parceria com outras fundações, principalmente o Cato Institute, a Charles G. Koch Charitable Foundation e o Institute of Human Studies – fundações ligadas à família Koch, uma das mais ricas do mundo. Juntas, as 11 fundações dos Koch despejaram 800 milhões de dólares nas duas últimas décadas na rede americana de fundações conservadoras. Outra parceira importante é a John Templeton Foundation, de outro bilionário americano. Essas fundações têm orçamentos bem maiores do que a Atlas e desenvolvem programas de <em>fellowships</em> em que entram com recursos e a Atlas, com a execução. Um exemplo desses projetos é o financiamento da expansão da Rede Students for Liberty com recursos da John Templeton, fechado em 2014 <a href="https://www.templeton.org/what-we-fund/grants/students-for-liberty-international-expansion">com mais de US$ 1 milhão de orçamento.</a>

Por isso, embora apareça em terceiro lugar entre as financiadoras do Students for Liberty, a Atlas levanta um volume bem maior de recursos para a organização através de suas parceiras. Todos os maiores doadores do Students for Liberty também são doadores da Atlas. Nem sempre é possível saber a origem do dinheiro, apesar da obrigação legal de publicar os formulários 990 – entregues ao IRS (Receita). As fundações conservadoras americanas escoam dinheiro por uma grande multiplicidade de canais, o que torna impossível, ao final, saber qual a origem inicial do dinheiro que chega a cada um dos receptores.

Além disso, preocupadas com a vigilância que exercem sobre elas projetos como o <a href="http://conservativetransparency.org/">Transparency Conservative</a> e órgãos de imprensa, que já revelaram uma série de escândalos envolvendo o uso desses recursos <a href="http://www.theguardian.com/world/2013/dec/05/state-conservative-groups-assault-education-health-tax">para lobbies no Congresso e nos governos estaduais</a>, bem como para causas controversas como a <a href="http://www.greenpeace.org/usa/en/campaigns/global-warming-and-energy/polluterwatch/koch-industries/">negação do aquecimento global</a>, em 1999 as fundações criaram dois fundos de investimento filantrópico – Donors Trust e Donors Capital Management – que dispensam os doadores de ter o nome exposto em formulários 990. O Donors Trust é o maior doador do Donors Capital Management (e vice-versa). Como se vê no quadro, o primeiro está entre os maiores doadores da Atlas, e o segundo é o maior doador do Students for Liberty. As fundações Koch <a href="http://www.motherjones.com/politics/2013/02/donors-trust-donor-capital-fund-dark-money-koch-bradley-devos">são as maiores suspeitas de despejar dinheiro</a> nesses fundos.

O relatório <a href="http://studentsforliberty.org/wp-content/uploads/2015/06/sfl-annual-report-2015-web.pdf" target="_blank" rel="noopener noreferrer">2014-2015 da Students for Liberty</a> mostra uma arrecadação de fundos impressionante: US$ 3,1 milhões comparados a apenas US$ 35,768 mil dólares obtidos em 2008<span style="text-decoration: underline;">,</span> quando a organização foi fundada. Desses, US$ 1,7 milhão veio de fundações, segundo o relatório que não detalha o volume doado por cada instituição. O Charles Koch Institute consta no relatório da Students for Liberty, mas, <span style="text-decoration: underline;"><a href="http://apublica.org/wp-content/uploads/2015/06/Chas-Koch-Institute-2013-.pdf" target="_blank" rel="noopener noreferrer">segundo o formulário</a></span>, doa bolsas apenas para estudantes americanos, enquanto a Charles Koch Foundation, que doa bolsas para estudantes em uma série de fundações, não é citada no relatório.  O Institute of Human Studies (IHS) – outra fundação da família Koch – é um dos principais responsáveis pelos programas de Fellowship para estudantes. Só em 2012 foram distribuídos 900 mil dólares em doações <a href="http://apublica.org/wp-content/uploads/2015/06/Institute-for-Humane-Studies-2012-.pdf" target="_blank" rel="noopener noreferrer">de acordo com o formulário entregue ao IRS</a>.

A Atlas é uma das principais parceiras do IHS. O currículo de Fábio Ostermann, por exemplo, coordenador do MBL, diz que ele foi Koch Summer Fellow na Atlas Economic Research Foundation. Ostermann é assessor do deputado Marcel van Hattem (PP-RS), apontado por Kim Kataguiri como o único político a abraçar totalmente as convicções do MBL. O jovem deputado, que foi eleito com doações da Gerdau e do grupo Évora – do pai de Anthony Ling, fundador do EPL –, também participou de cursos na Acton Institute University, a mais religiosa das fundações libertaristas que compõem a rede de <em>fellowship</em> da Atlas e da Koch Foundation. Entre os seus princípios consta o “pecado”, por exemplo, <a href="http://www.acton.org/about/acton-institute-core-principles">relacionado de maneira singular com a necessidade de reduzir o Estado</a>.
<h3><strong>A festa do mate</strong></h3>
O Fórum da Liberdade, afinal, se encerrou como as manifestações de rua que o antecederam: aos gritos de “Fora Dilma”, “Fora PT”. O deputado Marcel van Hattem fez uma apresentação exaltada, depois de ter agradecido ao fórum o cargo – “Se eu sou deputado hoje, devo também ao Fórum da Liberdade” – e fez uma interessante distinção entre as manifestações de 2013 – pluripartidária e desorganizada – e as deste ano – “quando tínhamos pauta”.

<div id="attachment_710" style="width: 712px" class="wp-caption alignnone"><a href="http://marcozero.org/wp-content/uploads/2015/06/Direita8.jpg"><img loading="lazy" decoding="async" aria-describedby="caption-attachment-710" class="size-large wp-image-710" src="http://marcozero.org/wp-content/uploads/2015/06/Direita8-1024x682.jpg" alt="Marcel Van Hattem, deputado do PP-RS, apresenta sua teoria sobre o governo brasileiro. Foto: Fernando Conrado" width="702" height="467" /></a><p id="caption-attachment-710" class="wp-caption-text">Marcel Van Hattem, deputado do PP-RS, apresenta sua teoria sobre o governo brasileiro. Foto: Fernando Conrado</p></div>

O programa foi modificado com a chegada de Kim Kataguiri, que não constava como palestrante. Foi abraçado pelos patrocinadores, como Jorge Gerdau e Hélio Beltrão, posou para fotos com diversos fãs e, com o amigo Bene Barbosa, que lançava um livro pela liberação das armas de fogo para qualquer cidadão, foi para o auditório, novamente lotado de estudantes.

Sentadinho no sofá, Kim esperou Van Hattem desfiar as acusações de praxe – contra o Foro de São Paulo, o poder totalitário do PT e “o maior escândalo de corrupção do universo” –, arrancando aplausos a cada frase de efeito. Também despertou entusiasmo mostrando sua identificação com a plateia: “A vanguarda, hoje, não é esquerdista, é liberal. O jovem bem informado vai para as ruas e pede menos Marx, mais Mises. Curte Hayek, não Lênin. Levanta cartazes <em>hashtag</em> ‘Olavo tem razão’”.

Então, Van Hattem saiu do púlpito e, caminhando pelo palco, foi em direção a Kim. “O próximo passo depende de vocês, mas é difícil. O sistema brasileiro é refratário a novas ideias. Hoje mesmo, Kim, o deputado comunista Juliano Roso te chamou de fascista”, disse. E por fim: “Eu só quero concluir dizendo aquilo que as ruas estão dizendo: ‘Fora PT’. Aplausos, gritos. A plateia canta em coro: “Olê, olê, olê, olê, estamos na rua só pra derrubar o PT”.

Foi a deixa para a entrada de Kim. De tênis, andando pelo palco, Kim conclamou “os institutos liberais “a sair da nossa bolha liberal, da nossa bolha libertária, da nossa bolha conservadora e tomar o país.” E afirmou: “Chegou a hora da gente tirar o monopólio da esquerda da juventude. A gente tem que acabar com essa imagem de que quem defende o livre mercado é aquele tiozão de coturno que defende o regime militar. A oposição é a gente. A gente quer privatizar a Petrobras. A gente quer o Estado mínimo. Brasília não vai pautar o povo. É o povo que vai pautar Brasília”.

<div id="attachment_711" style="width: 712px" class="wp-caption alignnone"><a href="http://marcozero.org/wp-content/uploads/2015/06/Direita9.jpg"><img loading="lazy" decoding="async" aria-describedby="caption-attachment-711" class="size-large wp-image-711" src="http://marcozero.org/wp-content/uploads/2015/06/Direita9-1024x682.jpg" alt="O “herói” do Fórum , Kim Kataguiri, encontra o patrocinador da festa, Jorge Gerdau. Foto: Fernando Conrado" width="702" height="467" /></a><p id="caption-attachment-711" class="wp-caption-text">O “herói” do Fórum , Kim Kataguiri, encontra o patrocinador da festa, Jorge Gerdau. Foto: Fernando Conrado</p></div>

Três dias depois do Fórum, Kim Kataguiri partia para sua Marcha pela Liberdade em direção a Brasília, com minguada adesão, enquanto Gloria Álvarez  empreendia um périplo que a levaria da Argentina a Venezuela noticiado efusivamente em suas redes sociais. Na Argentina, passou por Buenos Aires e pela cidade de Azul, convidada pela Sociedade Rural de Argentina. Em Tucumán, suas palestras na Universidade Nacional foram organizadas pela Fundación Federalismo y Libertad, que tem em seu conselho internacional a Atlas Foundation, a Heritage Foundation, Cato Institute, o Hispanic American Center for Economic Research, o CEDICE Libertad (Venezuela) e o Instituto Ecuatoriano de Economía Política (Equador).

Todas essas organizações fazem parte da Atlas Network, assim como as outras fundações que encomendaram o passeio de Glorita: Estudiantes pela Libertad (Bolívia e do Equador), o Cedice, na Venezuela, e a Fundación Para El Progresso, no Chile.

O episódio mais interessante de sua viagem, porém, não foi registrado em suas redes sociais, nem mesmo nos jornais do Chile. No dia 23 de abril, ela e a blogueira cubana Yaoni Sanchez, encontraram-se com o ex-presidente conservador Sebastián Piñera depois de terem realizado palestras na Universidade Adolfo Ibañez em Viña del Mar.

<div id="attachment_712" style="width: 577px" class="wp-caption alignnone"><a href="http://marcozero.org/wp-content/uploads/2015/06/direita10.png"><img loading="lazy" decoding="async" aria-describedby="caption-attachment-712" class="size-full wp-image-712" src="http://marcozero.org/wp-content/uploads/2015/06/direita10.png" alt="À esquerda, a blogueira cubana, Yaoni Sanchez; ao centro o ex-presidente do Chile Sebastián Piñera, à direita Gloria Alvarez. Foto: Reprodução/Twitter" width="567" height="510" /></a><p id="caption-attachment-712" class="wp-caption-text">À esquerda, a blogueira cubana, Yaoni Sanchez; ao centro o ex-presidente do Chile Sebastián Piñera, à direita Gloria Alvarez. Foto: Reprodução/Twitter</p></div>

O encontro com o ex-presidente – que também é a única foto em que aparecem juntas – foi noticiado pelo twitter do economista Cristián Larroulet, ex-ministro de Piñera com a legenda “O Presidente Piñera com Yoani Sánchez e Gloria Álvarez, dois exemplos de mulheres latino-americanas que lutam pela liberdade”. Larroulet,  é fundador do think tank Libertad y Desarrollo, obviamente parceiro da Atlas Network.

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