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	<title>Arquivo de Cultura - Marco Zero Conteúdo</title>
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	<description>Jornalismo investigativo que aposta em matérias aprofundadas, independentes e de interesse público.</description>
	<lastBuildDate>Tue, 21 Jul 2026 20:35:00 +0000</lastBuildDate>
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	<title>Arquivo de Cultura - Marco Zero Conteúdo</title>
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		<title>A final da Copa na comunidade do Poço da Panela</title>
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		<dc:creator><![CDATA[Samarone Lima]]></dc:creator>
		<pubDate>Tue, 21 Jul 2026 20:33:55 +0000</pubDate>
				<category><![CDATA[Jornalismo Crônico]]></category>
		<category><![CDATA[Copa do Mundo]]></category>
		<category><![CDATA[crônica]]></category>
		<category><![CDATA[Espanha 1 x 0 Argentina]]></category>
		<category><![CDATA[poço da panela]]></category>
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					<description><![CDATA[<p>Meia hora antes do jogo, Boy me ligou. “Vem pra cá, assistir a Argentina perder”. Fui lá. Fica a dois minutos da minha casa. Quando cheguei, nem de longe lembrava o jogo infame da seleção brasileira, contra o escrete a Noruega. Tinha umas trinta pessoas, de todos os tamanhos e idades, num terreiro ventilado, uma [&#8230;]</p>
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<p>Meia hora antes do jogo, Boy me ligou. “Vem pra cá, assistir a Argentina perder”. Fui lá. Fica a dois minutos da minha casa. </p>



<p>Quando cheguei, nem de longe lembrava o jogo infame da seleção brasileira, contra o escrete a Noruega. Tinha umas trinta pessoas, de todos os tamanhos e idades, num terreiro ventilado, uma TV de responsa, cerveja e cachaça rolando pra todo lado, Bode mandando bem no controle de tudo que pudesse ser assado e mastigado, um monte de crianças se divertindo, e aquela esperança de um bom futebol. Foi uma frustração total, consolado apenas com o som na maior altura, com Priscila Sena cantando <em>O choro é livre</em>.<br><br>No derradeiro jogo da Copa, o cenário era de umas dez pessoas, todas torcendo ardorosamente pela Espanha. Destaque para o Mago, cachorro, de raça incerta, apaixonado por Boy, e vice-versa, que tem 11 anos.</p>



<p>“Estou com saudade é do Arruda”, me segredou Boy, se recuperando da bicada que tomou na hora do almoço. Passamos a falar de Naná, o nosso amado gorducho.</p>



<p>O jogo não rendia uma crônica, e Nina lembrou: “ano que vem, quero é ver as meninas jogando”,se referindo à Copa do Mundo das mulheres, no Brasil, em 2027.</p>



<p>O melhor momento do jogo foi o show do intervalo, com a aparição da cantora Shakira. “Ela descobriu a gaia num pote de geléia”, comentou alguém. Bode percebeu que eu estava com fome e passou a me trazer pedaços de assado, despertando olhares gulosos do Mago.</p>



<p>Com o Brasil fora da Copa, restou a famosa “greia” do recifense: “Esse Cucureia, se jogasse aqui, seria apelidado de Cabeleira do Zezé”. </p>



<p>Ninha, de vez em quando soltava a sua felicidade: “Adivinha quem não vai trabalhar amanhã?” Ela mesma levantava o dedo. “Ela tá assim porque está de férias do trabalho”, comentou Boy.”</p>



<p>“Esse Lamine tá é mal”´.</p>



<p>Na prorrogação, o Mago preferiu largar Boy e foi curtir uma “siesta”espanhola.</p>



<p>“Oxe, só na metade do segundo tempo, o locutor falou no nome de Messi”.</p>



<p>“Quem tá mal é o Náutico. Se bobear, vai cair de divisão”, diz Boy, com um sorriso de felicidade.</p>



<p>A maresia foi sacudida com o gol da Espanha, na prorrogação. Parecia que estávamos em Madri. Gritaria, fogos, nos arredores. A raiva que estava engasgada, pelos insultos recorrentes de “macaquitos”, por parte dos argentinos, em jogos contras o Brasil. A criançada embicou na piscina, para comemorar. “São 12 mil litros”, disse Boy, orgulhoso.</p>



<p>O título da espanha foi embalado por pelo brega esfuziante de Priscila Senna.</p>



<p>Voltando pra casa, lembrei que morava no Poço, na conquista do Penta. Foi uma farra gigantesca, no Pátio da Igreja, ao lado de Naná. Lembrei dos vários amigos argentinos, que tenho em Buenos Aires, e de como estariam tristes. Mas os hermanos resolveram imitar o Brasil, no último jogo. Não jogaram nada.</p>
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		<title>Por que nunca é só futebol</title>
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		<dc:creator><![CDATA[Samarone Lima]]></dc:creator>
		<pubDate>Thu, 16 Jul 2026 23:05:28 +0000</pubDate>
				<category><![CDATA[Direitos Humanos]]></category>
		<category><![CDATA[Sem categoria]]></category>
		<category><![CDATA[Argentina 2 x 1 Inglaterra]]></category>
		<category><![CDATA[Argentina x Espanha]]></category>
		<category><![CDATA[Copa 2026]]></category>
		<category><![CDATA[final da Copa do Mundo]]></category>
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					<description><![CDATA[<p>por Sebas Miquel* (com introdução de Samarone Lima) Depois da eliminação vergonhosa do Brasil, fiquei com raiva. De fato, a seleção perdeu a alma, e quando a alma vai embora, nada resta. Só corpos inúteis, errando pelo mundo. E me veio a Argentina, para mostrar o que é a identidade de um povo. Pedi ao [&#8230;]</p>
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										<content:encoded><![CDATA[
<p><strong>por Sebas Miquel* (com introdução de Samarone Lima)</strong></p>



<p><strong>Depois da eliminação vergonhosa do Brasil, fiquei com raiva. De fato, a seleção perdeu a alma, e quando a alma vai embora, nada resta. Só corpos inúteis, errando pelo mundo. E me veio a Argentina, para mostrar o que é a identidade de um povo. Pedi ao velho amigo e grande fotógrafo argentino, <a href="https://www.instagram.com/sebasmiquel/">Sebas Miquel</a> um texto sobre a a vitória de ontem, contra a Inglaterra. Ele respondeu rápido, no calor da vitória.</strong></p>



<p><strong>***</strong></p>



<p>&#8220;É só futebol&#8221;, expressou Scaloni antes da partida, o mesmo diziam Maradona e Carlos Bilardo em 1986. Mas todos sabemos que nunca é só futebol. Colonialismo, subdesenvolvimento, história, patriotismo, guerra, ditadura, Milei ou neoliberalismo (é a mesma coisa), tudo se entremeia em uma partida, tudo faz parte.</p>



<p>O orgulho argentino vem desde a colônia; por volta de 1800, os ingleses tentaram invadir Buenos Aires e nós os expulsamos com óleo quente e guerra de guerrilhas. As Malvinas depois foram controladas e habitadas pelos ingleses até hoje, com guerra incluída. Então, nunca é só futebol.</p>



<p>O futebol é a nossa última esperança, é o nosso orgulho, a nossa alegria, é pela única coisa pela qual fazemos um país parar. Não voa nem uma mosca, não há uma única alma enquanto joga a seleção, o país para. Talvez a nossa última fronteira de representação, talvez o nosso último vislumbre de identidade em um país devastado pelo imperialismo, onde os que traem estão dentro e fora. É a nossa história.</p>


    <div class="infos mx-md-5 px-5 py-4 my-5">
        <span class="titulo text-uppercase mb-2 d-block"></span>

	    <p><strong>*Fotógrafo e professor de Filosofia Política na Universidade de Buenos Aires e na Universidade Nacional de La Matanza e de Jornalismo Gráfico na jornalismo gráfico na Universidade Nacional de La Plata. Venceu diversos prêmios internacionais de fotojornalismo.</strong></p>
    </div>
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		<title>Aos 80 anos, pescador que virou artesão reproduz barcos em miniatura no Recife</title>
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		<dc:creator><![CDATA[Maria Carolina Santos]]></dc:creator>
		<pubDate>Tue, 14 Jul 2026 19:19:09 +0000</pubDate>
				<category><![CDATA[Diversidade]]></category>
		<category><![CDATA[artesão]]></category>
		<category><![CDATA[barcos]]></category>
		<category><![CDATA[Brasília Teimosa]]></category>
		<category><![CDATA[fenearte]]></category>
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					<description><![CDATA[<p>Todas as manhãs, o pescador aposentado Rosiélio Pereira de Paula, 80 anos, trabalha na sede da Colônia de Pescadores Z1, em Brasília Teimosa, Zona Sul do Recife. Mesmo aos domingos e feriados, fica até umas 11h em uma salinha sem lâmpadas perto do estacionamento. Ali, ninguém o chama por outro nome que não seja Carpinteiro. [&#8230;]</p>
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]]></description>
										<content:encoded><![CDATA[
<p>Todas as manhãs, o pescador aposentado Rosiélio Pereira de Paula, 80 anos, trabalha na sede da Colônia de Pescadores Z1, em Brasília Teimosa, Zona Sul do Recife. Mesmo aos domingos e feriados, fica até umas 11h em uma salinha sem lâmpadas perto do estacionamento. Ali, ninguém o chama por outro nome que não seja Carpinteiro. Por muitos anos, construiu barcos que iam para o alto mar atrás de cavalas, ciobas, arabaianas, sirigados. Hoje, os barcos que faz são de decoração: jangadas, navios, lagosteiros, escunas, tudo em tamanho diminuto. Usa lixadeira e serra, mas o grosso do trabalho é feito “na pontinha da faca”, ou seja, à mão.</p>



<p>As peças impressionam. Carpinteiro faz tudo no seu tempo, caprichando em buscar na memória as cores e formas originais. São peças cheias de pequenos detalhes, como portinhas que se abrem no navio de cruzeiro com piscina. “Eu tenho um dom que Deus me deu: eu vi esse navio passar no cais do Porto do Recife. Eu estava lá quando ele entrou, aí eu olhei para ele e disse &#8216;vou fazer um igual'&#8221;, conta, sobre a memória fotográfica que o faz reproduzir os barcos em escala reduzida.</p>



<p>A boa memória vem desde os tempos de pescaria. “O pescador tem uma cabeça que vai além do GPS. Porque o GPS marca um lugar e às vezes você perde o GPS. E se o pescador botou cem covos (armadilhas de pesca) em um lugar no mar, ele encontra os cem, só marcando pela posição na terra”, diz ele, que começou a pescar ainda criança, no Rio Grande do Norte.</p>



        <figure class="wp-block-image my-5 ">
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                <img decoding="async" src="https://marcozero.org/wp-content/uploads/2026/07/55373152840_42668978b7_c.jpg" alt="A imagem mostra um modelo de navio à vela exposto em um ambiente interno. O navio tem três mastros com velas brancas e cordas pretas que formam a armação. O casco é pintado de branco, com uma faixa vermelha e detalhes verdes e azuis na parte inferior. Ele está apoiado sobre um suporte azul. Ao fundo, há uma porta escura com uma placa indicando “W.C. Funcionários” e uma abertura que dá para outro cômodo. A foto destaca o trabalho artesanal e o cuidado nos detalhes do modelo." class="w-100" loading="lazy" >
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	                                        <p class="m-0">Rosiélio reproduz de memória os barcos que já viu no mar, como esta escuna
</p>
	                
                                            <span>Crédito: Arnaldo Sete/Marco Zero</span>
                                    </figcaption>
                    </figure>

	


<p>&#8220;Meu pai fazia barcos, mas eu só queria pescar. Eu vivia na beira da praia, eu via os peixes, o povo chegando do mar, eu me animei para aquilo. Eu quis ser pescador, aí fui pescar”, lembra. Foi se acostumando aos pouquinhos com o balanço do mar e dominando os fortes enjoos das primeiras idas.</p>



<p>Na fase mais intensa da vida na pesca, chegava a passar 12 dias direto no mar, em barcos de 12 metros com seis pessoas. Mal dormia. &#8220;Você não sai para o mar para dormir. A gente chama, “bora para a dormida”. Ali só é para acomodar o corpo, só para descansar, para começar de novo, tirar um cochilo. Mas dormir mesmo, você só dorme em casa”, diz.</p>



<p>Carpinteiro amava a independência da vida de pescador, confiando apenas na própria habilidade para o seu sustento. &#8220;Para ser pescador não precisa de gravata, nem terno, nem sapato. É só ele botar um calçado, uma camisa, uma faca nos quartos e ir embora trabalhar. A faca é a caneta do pescador&#8221;, afirma. Mas o que Carpinteiro gostava mais da vida no mar era algo bem mais comezinho: a caldeirada que fazia no barco, com peixe fresco. &#8220;Pega o peixinho na hora assim, mata ele e faz aquele pirão. Eu adorava&#8221;, lembra, com água na boca.</p>



<p>Ele perdeu a conta de quantos tubarões viu e também de quantos comeu. Não tem medo, nunca teve. “Se o pescador tivesse medo do tubarão, não tinha pescador no mar”, afirma. Diz que o medo que o pescador artesanal tem no mar é o de navio. De noite ou de dia, é preciso estar atento para não entrar na rota dos navios, altos e gigantescos, e sofrer uma colisão.</p>



<p>Há outra situação de temor que Carpinteiro lembra, mas foi algo entre o medo e o deslumbre: o encontro com uma baleia, a várias milhas da costa do Recife. &#8220;A gente estava em um barco pequeno de oito metros, quatro homens em cima dele. E a gente viu a baleia lá longe: ela veio, veio, chegou perto do barco. Aí ela mergulhou. Chegou mais perto do barco, assim de banda do barco, e então ela subiu, pulou&#8221;, descreve.</p>



<h2 class="wp-block-heading">Da pesca em alto mar às miniaturas de barcos</h2>



<p>Os barquinhos de decoração não existiriam sem os barcos de verdade. &#8220;Eu comecei a construir embarcação por intermédio do meu pai&#8221;, diz. “Ele tinha o maior prazer de, quando morresse, ter um filho para representar ele. Mas os seis filhos não queriam nem ser pescador nem trabalhar de carpintaria. Lá de casa, o pescador que veio foi só eu mesmo”, conta.</p>



<p>Aprendeu a fazer barco vendo o pai fazer, mas foi só depois que o pai morreu, na casa dos 90 anos, que Carpinteiro seguiu sua segunda vocação. Já estava aposentado pelo INSS e, aos 60 anos, passou a construir embarcações. &#8220;Minha esposa disse: ‘mas rapaz, como é que tu vai fazer barco se tu nunca trabalhou nem de ajudante’, aí eu disse: ‘mas eu vi meu pai fazendo’&#8221;. A primeira embarcação foi para ele próprio: passou mais de 10 anos no mar com ela. Depois, ainda fez 13 embarcações para outros pescadores de Brasília Teimosa e do Pina, algumas com mais de 12 metros de comprimento.</p>



        <figure class="wp-block-image my-5 img-center text-center">
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                <img decoding="async" src="https://marcozero.org/wp-content/uploads/2026/07/55372934939_922b6e3ee7_c.jpg" alt="A foto mostra pequenos modelos de jangadas artesanais dispostos sobre uma prateleira. Cada jangada é feita de madeira rústica, com velas triangulares coloridas — branca, verde e amarela — presas por cordas e fios. Os detalhes incluem bancos, mastros e amarras feitos à mão, com fios azuis e brancos enrolados nas estruturas. O fundo é simples, com uma parede bege, destacando o trabalho manual e o cuidado nos detalhes dessas miniaturas." class="" loading="lazy" >
            </picture>

	                        <figcaption class="legenda-credito mx-md-5">
	                                        <p class="m-0">Jangadas feitas com cabos de vassoura velhos
</p>
	                
                                            <span>Crédito: Arnaldo Sete/Marco Zero</span>
                                    </figcaption>
                    </figure>

	


<p>A idade foi avançando e também não conseguia mais encontrar madeiras como a do mulungu, boa para se fazer jangadas. Um dia estava em casa, olhou um cabo de vassoura e viu que dava para fazer uma pequena jangada com ele. Cortou a madeira, fez as tábuas, o mastro, modelou os bancos. Hoje, raramente compra madeira. Passou a reciclar para fazer seus trabalhos em miniatura. Se alguém tem um armário velho em casa, doa para Carpinteiro fazer um barco. Também segue usando cabos de vassouras velhas.</p>



<p>Uma jangada pequena leva umas três manhãs para ficar pronta. Em um quartinho contíguo ao ateliê, lugar que tem a única lâmpada do imóvel, há uma réplica de um navio lagosteiro. Carpinteiro já pescou em um desses, de verdade, com uns 15 metros de comprimento, que lançava armadilhas entre quatro e dez milhas da costa do Recife. “Tem pedra no mar, tem lagosta”, vaticina. Das lembranças do mar, fez a miniatura do lagosteiro de 1,20 metro, toda detalhada. “Essa grade que ele tem aqui atrás é para carregar os covos para pescar a lagosta&#8221;, explica. O barco tem cabine com portinha que abre e fecha dos dois lados. Está à venda por R$ 1 mil e levou três meses de trabalho para ser feito. As jangadas menores saem por R$ 200.</p>



<p>Apesar do talento, Carpinteiro não pensa em participar da <a href="https://fenearte.com/" target="_blank" rel="noreferrer noopener">Fenearte, a maior feira de artesanato da América Latina,</a> que se encerra neste domingo (19) no Centro de Convenções. Como tudo é feito à mão do começo ao fim, diz que iria levar anos para ter uma quantidade suficientemente boa para participar da feira. Prefere trabalhar do jeito que sempre fez, em terra ou em mar: no seu ritmo, no seu tempo.</p>



        <div class="leia-tambem d-flex flex-column py-2 my-4 my-md-5">
            <span class=" d-block mb-2">MAIS SOBRE ESSE ASSUNTO:</span>

            <div class="d-flex flex-column">
                <a href="https://marcozero.org/aos-86-anos-funcionario-mais-antigo-da-cepe-recicla-fragmentos-de-papel-fazendo-arte/" class="titulo">Aos 86 anos, funcionário mais antigo da Cepe recicla fragmentos de papel fazendo arte</a>
	                    <div class="tags d-flex mt-3 flex-wrap">
                            <a href="https://marcozero.org/formatos/reportagem/" class="btn text-uppercase me-2 mb-2">Reportagem</a>
            
		                    <a href="https://marcozero.org/temas/cultura/" class="btn text-uppercase me-2 mb-2">Cultura</a>
			        </div>
	            </div>
        </div>

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			</item>
		<item>
		<title>Quando o Brasil perdia, a gente chorava. Hoje, tem raiva</title>
		<link>https://marcozero.org/quando-o-brasil-perdia-a-gente-chorava-hoje-tem-raiva/</link>
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		<dc:creator><![CDATA[Samarone Lima]]></dc:creator>
		<pubDate>Tue, 07 Jul 2026 19:40:25 +0000</pubDate>
				<category><![CDATA[Sem categoria]]></category>
		<category><![CDATA[Brasil 1 x 2 Noruega]]></category>
		<category><![CDATA[crônica]]></category>
		<category><![CDATA[futebol]]></category>
		<category><![CDATA[seleção brasileira]]></category>
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					<description><![CDATA[<p>Era o glorioso ano de 1982, eu tinha 12 anos, meu irmão, Tonho, tinha 13. Antes da Copa da Espanha começar, os amigos se juntaram para pintar a rua e contar nos dedos os dias para o primeiro jogo do Brasil, no Monte Castelo, bairro de classe média de Fortaleza. Foi tudo lindo. A cada [&#8230;]</p>
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]]></description>
										<content:encoded><![CDATA[
<p>Era o glorioso ano de 1982, eu tinha 12 anos, meu irmão, Tonho, tinha 13. Antes da Copa da Espanha começar, os amigos se juntaram para pintar a rua e contar nos dedos os dias para o primeiro jogo do Brasil, no Monte Castelo, bairro de classe média de Fortaleza.</p>



<p>Foi tudo lindo. A cada jogo, Zico, Sócrates, Éder, e uma constelação de craques embalavam o nosso sonho de ganhar o tetra. Eles pareciam bailar, em campo.</p>



<p>No final do jogo, era correr para a calçada e ficar rindo da vida, com o sambinha maroto feito pelo jogador Júnior, que meu pai detestava: “Voa, canarinho voa/mostra para a Espanha que és um rei\Voa Canarinho voa\ mostra na Espanha o que já sei.”</p>



<p>Até que veio o jogo contra a Itália, quando o miserável Paolo Rossi, o finado Paolo Rossi, acabou com a gente, fazendo os três da vitória. Que Deus o tenha.</p>



<p>Foi a minha primeira grande dor futebolística. Minha e do Tonho.</p>



<p>Fomos para a calçada e começamos a chorar.</p>



<p>Depois de um certo tempo, meu pai percebeu nosso penar, e começou a falar dos jogadores, que ganhavam milhões, e não estavam nem aí, uma coisa tão sem sentido, que pensei em mandar meu pai tomar naquele lugar. Se tivesse feito isso, teria levado uma pisa acompanhada do castigo de ficar uma hora em pé, num canto da sala.</p>



<p>Chorei muito, porque eles eram os melhores, e nos encantavam a cada jogo.</p>



<p>De repente, o fim.</p>



<p>Ontem, no jogo horroroso contra a Noruega, na casa de Boy, no Poço da Panela tinha umas 25 pessoas, entre crianças, adolescentes e adultos. Churrasco e cerveja era boia (perdão pelo trocadilho).</p>



<p>A cada vacilo dos jogadores brasileiros, que pareciam ter medo da bola, mais insultos e impaciência. Escutei o famoso e pernambucaníssimo “vai, miséria!” umas trinta vezes.</p>



<p>Ao final do jogo, não vi nenhuma criança ou adolescente chorando. Havia um descontentamento com a falta de raça, vontade, ousadia, destemor, vontade de vencer.</p>



<p>A imagem de Neymar, um ídolo decadente, discutindo com o goleiro adversário, após fazer um gol que de nada valia, me lembrou das avaliações do meu pai, de 1982.</p>



<p>Eles não estão mais nesta <em>vibe</em> de entregar tudo em campo, em busca da vitória &#8211; ou de uma derrota digna.</p>



<p>Este papel coube ao apaixonante escrete de Cabo Verde, que deu um sufoco tremendo até na poderosa Argentina.</p>



<p>Eles foram a minha alegria, nesta Copa.</p>
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		<title>&#8220;Clamor&#8221;, livro sobre rede de apoio a refugiados de ditaduras será adaptado para o cinema</title>
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		<dc:creator><![CDATA[Inácio França]]></dc:creator>
		<pubDate>Sat, 23 May 2026 22:32:32 +0000</pubDate>
				<category><![CDATA[Direitos Humanos]]></category>
		<category><![CDATA[Augusto Madeira]]></category>
		<category><![CDATA[ditadura militar]]></category>
		<category><![CDATA[livro sobre a ditadura]]></category>
		<category><![CDATA[Marjorie Estiano]]></category>
		<category><![CDATA[Mouhamed Harfouch]]></category>
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					<description><![CDATA[<p>A atuação de uma rede de apoio que ajudava refugiados da repressão dos países sul-americanos que, na segunda metade dos anos 1970, fugiram para o Brasil é uma história dos tempos da ditadura ainda a ser descoberta pelo público brasileiro. Agora, uma das poucas obras que trata desse tema, o livro-reportagem Clamor, do jornalista Samarone [&#8230;]</p>
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<p>A atuação de uma rede de apoio que ajudava refugiados da repressão dos países sul-americanos que, na segunda metade dos anos 1970, fugiram para o Brasil é uma história dos tempos da ditadura ainda a ser descoberta pelo público brasileiro. Agora, uma das poucas obras que trata desse tema, o livro-reportagem <em>Clamor</em>, do jornalista Samarone Lima, está sendo adaptado para o cinema.</p>



<p>O filme será dirigido por Malu de Martino, cujo trabalho mais marcante foi o longa-metragem <em>Como esquecer</em>, e filmado em Santos e em Valparaíso, no Chile. A produção ainda está nas fases iniciais, com o elenco sendo montado.</p>



<p>A atriz <a href="https://www.instagram.com/estianomarjorie/">Marjorie Estiano</a> (da série <em>Sob pressão</em> e do filme <em>Ainda estou aqui</em>) foi a primeira a ser anunciada; ela fará o papel da jornalista inglesa Jan Rocha, ex-correspondente no Brasil da BBC durante a ditadura, uma das criadoras do grupo Clamor. Seu marido, o brasileiro Plauto, será interpretado por <a href="https://www.instagram.com/mouhamedh/">Mouhamed Harfouch</a>, que atuou em novelas globais como <em>Cordel Encantado</em> e <em>Verdades Secretas</em>. O ator, de ascendência síria por parte de pai, é ativista em organizações de solidariedade a refugiados sírios no Brasil.</p>



<p>A jornalista britânica, que, até hoje, vive no Brasil, é a figura central na história do Clamor.</p>



<p>Em razão do seu trabalho como correspondente estrangeira, era constantemente procurada por militantes exilados que fugiam da máquina repressiva das ditaduras da Argentina, Chile, Paraguai e Uruguai ou por parentes de desaparecidos nesses países. Na época, pressionados internamente e pela opinião pública internacional, os militares brasileiros iniciavam a &#8220;abertura&#8221; política do regime, o que tornou o país um refúgio próximo de casa para os perseguidos vindos do Cone Sul.</p>



        <figure class="wp-block-image my-5 img-center text-center">
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                <source media="(max-width: 799px)" srcset="https://marcozero.org/wp-content/uploads/2026/05/clamor-marjorie-estiano-254x300.jpeg">
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                <img decoding="async" src="https://marcozero.org/wp-content/uploads/2026/05/clamor-marjorie-estiano.jpeg" alt="A imagem mostra uma mulher sentada em uma poltrona cinza clara, em um ambiente interno elegante. Ela veste um vestido longo de cetim marrom e sapatos de salto alto amarelos, que criam um contraste marcante. Usa colar e pulseira dourados, e tem o cabelo curto e ondulado, penteado de forma descontraída. Está com uma expressão confiante e um leve sorriso, com uma das mãos apoiada na cabeça. Ao lado, há uma mesa redonda de madeira com um abajur dourado e branco e um telefone preto, compondo um cenário sofisticado e acolhedor." class="" loading="lazy" width="503">
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	                        <figcaption class="legenda-credito mx-md-5">
	                                        <p class="m-0">Marjorie Estiano será a protagonista do filme
</p>
	                
                                            <span>Crédito: Reprodução/Instagram @estianomarjorie</span>
                                    </figcaption>
                    </figure>

	


<p>Junto com o advogado Luiz Eduardo Greenhalgh e o pastor presbiteriano Jaime Wright, ela criou o Clamor. Sob a proteção de dom Paulo Evaristo Arns, o grupo passou a ter como sede uma sala na Cúria Metropolitana de São Paulo, ora prestando assistência jurídica aos refugiados, ora articulando uma rede para ajudá-los a encontrar casa, trabalho e alimento. No entanto, a atividade do grupo de maior impacto eram os boletins com relatos de casos e fotos de prisioneiros ou desaparecidos.</p>



<p>Graças ao boletim publicado em três idiomas (português, espanhol e inglês), o Clamor chegou aos personagens que protagonizaram o fato detalhado por Samarone Lima no livro e que será recontado no cinema: a localização de Anatole e Victoria, duas crianças uruguaias desaparecidas. Anos após o sumiço dos irmãos, o grupo descobriu que o menino e a menina foram abandonados por militares argentinos no meio da rua em Valparaíso, a mais de 1.400 quilômetros de Buenos Aires, onde seus pais tinham sido assassinados pela repressão.</p>



<h2 class="wp-block-heading">Solidariedade brasileira</h2>



<p>Aos 86 anos e vivendo no Brasil desde 1969, <a href="https://marcozero.org/ao-falar-que-a-amazonia-e-nossa-bolsonaro-diz-que-a-amazonia-e-do-crime-afirma-jornalista-britanica/" target="_blank" rel="noreferrer noopener">Jan Rocha </a>acredita que o filme será importante ao tratar de um aspecto da história do Brasil pouco conhecido do público do país. &#8220;Sei que um filme nunca consegue captar tudo, sei que serão necessárias licenças poéticas para melhor condensar a história, mas será uma oportunidade para que o Clamor alcance uma audiência maior do que a do livro&#8221;, afirma a jornalista, autora de um livro sobre o grupo, <em>A solidariedade não tem tem fronteiras,</em> expressão usada pelo cardeal Arns para justificar seu apoio.</p>



<p>Ela acredita que, além da própria história do grupo, &#8220;também não é muito conhecido o fato de o Brasil ter recebido milhares de refugiados de toda a América do Sul naqueles anos em que o Brasil vivia uma fase diferente da ditadura, a partir de 1977, principalmente&#8221;. O processo de reabertura permitiu, por exemplo, a instalação de dois escritórios do Alto Comissariado das Nações Unidas para Refugiados (Acnur) no Rio de Janeiro e em São Paulo.</p>



<p>Os brasileiros foram muito generosos e acolhedores com esses refugiados. Essa é a impressão que, quase meio século depois, permanece na memória de Jan Rocha. &#8220;A solidariedade brasileira vai chegar às telas do cinema; espero que o filme consiga mostrar isso&#8221;, diz a inglesa.</p>



<p>Na sala cedida pela Cúria Metropolitana ao Clamor chegavam pessoas vivendo situações dramáticas, a exemplo de esposas com maridos desaparecidos e pais cujos filhos foram assassinados ou presos em locais desconhecidos. Mesmo assim, Jan Rocha recusa o rótulo de &#8220;heroísmo&#8221; à atuação do grupo. &#8220;Fazíamos o que precisava ser feito diante de tanto desespero&#8221;, garante.</p>



<h3 class="wp-block-heading">Direitos sem fronteiras</h3>



<p>No final dos anos 1990 e início dos 2000, quando trabalhava no jornal da Arquidiocese de São Paulo, Samarone Lima teve acesso ao acervo de documentos, recortes de jornais de vários países, depoimentos e fotografias armazenados nos arquivos do Clamor, desativado em 1991, logo após o fim da última ditadura sul-americana, a de Pinochet, no Chile. A pesquisa municiou a dissertação de mestrado do jornalista na Universidade de São Paulo (USP), base para o livro publicado e m 2005.</p>



<p>&#8220;O maior legado do Clamor é a ideia de que solidariedade não tem fronteiras geográficas, étnicas, religiosas, de crenças. É a grande lição para todos os grupos de direitos humanos que, por vezes, atuam solitários tentando alguma pequena conquista&#8221;, resume o autor do livro.</p>



<p>Samarone ressalta que o posicionamento de dom Paulo Evaristo vinha da convicção de que a luta contra a violação dos direitos humanos é universal: &#8220;Dom Paulo tinha conexões com igrejas em todo o mundo, e, com isso, o Clamor recebeu financiamento do Conselho Mundial de Igrejas, que bancou sua estrutura, custeou a viagem secreta para o Chile em busca de Anatole e Vicky&#8221;.</p>



<p>No filme, o arcebispo de São Paulo será interpretado por Augusto Madeira, que atuou na novela <em>Três Graças</em> e na série <em>A menina que matou os pais</em>.</p>



        <figure class="wp-block-image my-5 ">
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                <img decoding="async" src="https://marcozero.org/wp-content/uploads/2026/05/Clamor-sebas-miquel-1024x675.jpeg" alt="A imagem mostra um chão de asfalto coberto por desenhos e palavras feitas com giz branco e azul. No centro, lê-se “FUE GENOCIDIO”, expressão em espanhol que significa “foi genocídio”. O texto está dentro de um contorno que lembra um lenço triangular, símbolo das Mães da Praça de Maio, movimento argentino que denuncia os desaparecimentos durante a ditadura militar. Dois pares de pés com tênis escuros aparecem caminhando sobre ou perto dos desenhos, sugerindo uma cena de rua, possivelmente durante um ato de memória ou protesto. No canto inferior direito, há a assinatura “@sebastianmiquel”." class="w-100" loading="lazy" >
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	                        <figcaption class="legenda-credito mx-md-5">
	                                        <p class="m-0">O grupo Clamor deu apoio a perseguidos das ditaduras na América do Sul
</p>
	                
                                            <span>Crédito: Reprodução/Instagram @sebasmiquel</span>
                                    </figcaption>
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<p></p>
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		<title>Plataformas de streaming não garantem conteúdo acessível para pessoas com deficiência</title>
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		<dc:creator><![CDATA[Marco Zero Conteúdo]]></dc:creator>
		<pubDate>Tue, 12 May 2026 18:32:31 +0000</pubDate>
				<category><![CDATA[Direitos Humanos]]></category>
		<category><![CDATA[deficiência auditiva]]></category>
		<category><![CDATA[deficiência visual]]></category>
		<category><![CDATA[pessoas com deficiência]]></category>
		<category><![CDATA[streaming]]></category>
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					<description><![CDATA[<p>por Larissa Pontes, publicado originalmente no site Eficientes Nas últimas décadas o streaming se consolidou como uma das principais portas de entrada para o audiovisual no mundo. As plataformas digitais passaram a ocupar um lugar central na forma como as pessoas consomem cultura, acompanham lançamentos, constroem repertório e participam do debate público através de filmes, [&#8230;]</p>
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										<content:encoded><![CDATA[
<p><strong>por Larissa Pontes, publicado originalmente no site <a href="https://eficientes.org.br/2026/05/08/o-streaming-no-brasil-privando-o-direito-a-cultura-de-pessoas-com-deficiencia/" target="_blank" rel="noreferrer noopener">Eficientes</a></strong></p>



<p>Nas últimas décadas o <em>streaming </em>se consolidou como uma das principais portas de entrada para o audiovisual no mundo. As plataformas digitais passaram a ocupar um lugar central na forma como as pessoas consomem cultura, acompanham lançamentos, constroem repertório e participam do debate público através de filmes, séries e documentários. Mas, se o <em>streaming</em> passou a disputar o espaço com o cinema, a televisão e até as políticas de acesso à cultura, o que acontece quando 14,4 milhões de brasileiros com deficiência sequer conseguem acessar plenamente esse conteúdo?</p>



<p>Nesse contexto, discutir acessibilidade no <em>streaming</em> deixou de ser apenas uma questão técnica. Para especialistas e ativistas, trata-se de debater quem consegue, ou não, participar plenamente da vida cultural contemporânea. Mas, enquanto as plataformas disputam audiência com discursos sobre inovação, personalização e democratização do acesso, uma parcela significativa da população continua encontrando barreiras para exercer esse direito básico à cultura.</p>



<p>“O audiovisual não é apenas imagem; é emoção que precisa ser lida e sentida”, afirma o arquiteto e produtor cultural, Marcelo Pedrosa. Surdo desde a infância, ele transformou sua barreira pessoal na campanha &#8220;Legenda para quem não ouve, mas se emociona&#8221;, que há duas décadas luta pelo direito de acessar os conteúdos do audiovisual com autonomia e acessibilidade. No entanto, em 2026, a realidade das plataformas de<em> streaming</em> no Brasil o fez esbarrar mais uma vez na ausência de acessibilidades comunicacionais para pessoas com deficiência.</p>



<p>Essas inquietações fez com que Marcelo criasse o Observatório de Acessibilidade da Legenda Nacional, iniciativa construída para monitorar de forma sistemática os recursos de acessibilidade nas principais plataformas de <em>streaming </em>do país. O estudo analisou cerca de 1.800 obras em seis das maiores plataformas do país (Netflix, Disney+, Prime Video, Globoplay, Max/HBO e MUBI), e identificou um cenário de privações onde a acessibilidade, um direito garantido na Lei Brasileira de Inclusão (LBI), é tratada como um acessório opcional e mal sinalizado. “A análise começou a partir de uma percepção acumulada ao longo de décadas de atuação na pauta da acessibilidade audiovisual. As pessoas reclamavam das plataformas, mas quase sempre no campo da experiência individual. O problema é que uma empresa grande não responde uma reclamação subjetiva. Ela responde quando existem dados, padrão e comparação”, explica Marcelo.</p>



<p>A metodologia do Observatório combinou coleta amostral, monitoramento contínuo e organização padronizada de evidências. Foram analisadas aproximadamente 300 obras por plataforma, em um processo manual realizado obra por obra. O primeiro grande entrave identificado não está no filme em si, mas antes mesmo de dar <em>play</em>, com a ausência de metadados de acessibilidade. Metadados são as informações que descrevem o conteúdo, ou seja, se tem legenda, se é dublado ou qual a classificação indicativa. Para uma pessoa com deficiência, saber se uma obra possui Legenda Descritiva (LSE) ou Audiodescrição (AD) é critério básico de escolha.</p>



        <figure class="wp-block-image my-5 img-center text-center">
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                <img decoding="async" src="https://marcozero.org/wp-content/uploads/2026/05/Legenda-Nacional.jpg" alt="Quatro pessoas posam lado a lado em frente a uma parede clara. Da esquerda para a direita: um homem de barba grisalha e três mulheres de cabelos escuros. Todos vestem camisetas pretas com a frase “Legenda para quem não ouve, mas se emociona!” escrita em diferentes cores (Laranja, verde, rosa e branca). Eles fazem com as mãos o sinal de “eu te amo” em Libras e sorriem para a câmera. Fonte: Acervo Legenda Nacional" class="" loading="lazy" >
            </picture>

	                        <figcaption class="legenda-credito mx-md-5">
	                                        <p class="m-0">Integrantes da Legenda Nacional reforçam defesa da acessibilidade no audiovisual
</p>
	                
                                            <span>Crédito: Divulgação</span>
                                    </figcaption>
                    </figure>

	


<p>A análise constatou que plataformas como MUBI impõem uma barreira abusiva, onde o usuário precisa contratar e pagar pelo serviço para só então descobrir que quase nada no catálogo é acessível. &#8220;A plataforma obriga que o consumidor compre o serviço para, depois, dar-se conta de que não tem acessibilidade&#8221;, aponta Pedrosa. Nas demais interfaces, como Disney+ e Netflix, o usuário é obrigado a abrir título por título, pois não existem filtros de busca eficientes para esses recursos.</p>



<p>Os dados quantitativos do dossiê expõem o abismo entre o marketing da diversidade e a realidade técnica. A LSE (Legenda para Surdos e Ensurdecidos), que ao contrário da legenda comum, descreve ruídos, trilhas sonoras e tons de voz, é escassa. Na MUBI, ela aparece em 1,3% das obras. Na Netflix e Disney+, os índices orbitam de 18% a 19%, o que significa que mais de 80% do catálogo permanece sem acessibilidade para as pessoas com deficiência auditiva.</p>



<p>A situação da Audiodescrição (AD), recurso que traduz em palavras o que é visual para pessoas cegas, é ainda mais crítico. Na Prime Vídeo, apenas 5% das obras contam com o recurso. Na MUBI, o índice é zero. A Língua Brasileira de Sinais (Libras), fundamental para a comunidade surda sinalizante, é praticamente inexistente, com uma presença residual de 1,66% apenas na plataforma Max.</p>



        <figure class="wp-block-image my-5 img-center text-center">
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                <source media="(max-width: 799px)" srcset="https://marcozero.org/wp-content/uploads/2026/05/legenda-tabela-300x169.jpeg">
                <source media="(min-width: 800px)" srcset="https://marcozero.org/wp-content/uploads/2026/05/legenda-tabela-1024x576.jpeg">
                <img decoding="async" src="https://marcozero.org/wp-content/uploads/2026/05/legenda-tabela-1024x576.jpeg" alt="A imagem apresenta uma tabela comparativa sobre recursos de acessibilidade disponíveis em cinco plataformas de streaming: Disney+, Netflix, Max/HBO, Prime Video e MUBI. As colunas indicam três tipos de acessibilidade — Legenda Descritiva (LSE), Audiodescrição (AD) e Libras — com seus respectivos percentuais. A Disney+ lidera em LSE (19,33%) e AD (16,66%), seguida por Netflix (18,21% e 14,56%) e Max/HBO (18,33% e 7,6%), sendo esta última a única com conteúdo em Libras (1,66%). Prime Video apresenta 10,6% de LSE e 5% de AD, enquanto MUBI tem apenas 1,3% de LSE e nenhum dos outros recursos. A tabela evidencia diferenças significativas na oferta de acessibilidade entre as plataformas, destacando o baixo investimento geral em Libras." class="" loading="lazy" >
            </picture>

	                        <figcaption class="legenda-credito mx-md-5">
	                                        <p class="m-0">
</p>
	                
                                            <span>Crédito: Divulgação</span>
                                    </figcaption>
                    </figure>

	


<p>Um dos pontos da investigação é a descoberta de mecanismos que impedem a fiscalização pública. Ao testar a acessibilidade digital dos portais com a ferramenta AMAWeb (desenvolvida pela UNIFESP e IFRS), o estudo revelou que Netflix e Prime Video utilizam camadas de segurança e <em>firewalls</em> que bloqueiam validadores automáticos de acessibilidade. &#8220;Essa configuração impede a fiscalização direta por órgãos de defesa do consumidor, criando uma &#8216;zona de exclusão&#8217; onde o cumprimento da Lei Brasileira de Inclusão (LBI) não pode ser verificado&#8221;, diz o relatório técnico. Mesmo em plataformas que permitem o teste, como a Max, o desempenho de acessibilidade foi de apenas 5.4 em uma escala de 0 a 10. A análise identificou falhas consideradas básicas para navegação acessível, como a ausência de &#8220;links de salto&#8221;, recurso que permite a usuários de teclado ou leitores de tela pular menus repetitivos e acessar diretamente o conteúdo principal.</p>



<p>O estudo de Marcelo Pedrosa sustenta que a exclusão não é uma falha pontual, mas o resultado de uma quebra em toda a cadeia de responsabilidade compartilhada, afinal, a acessibilidade deveria nascer na produtora, ser garantida pela distribuidora e licenciadores em contrato, e ser devidamente entregue e sinalizada pela plataforma de <em>streaming</em>.</p>



<h2 class="wp-block-heading">Cenário</h2>



<p>Dados da Agência Nacional do Cinema (Ancine) mostram que 86% dos conteúdos disponíveis nas principais plataformas de <em>streaming</em> são estrangeiros, enquanto o audiovisual brasileiro representa apenas 14% dos catálogos. O cenário evidencia a concentração de produções internacionais e também a dependência crescente dessas plataformas como principal meio de acesso ao audiovisual.</p>



<p>O crescimento do setor transformou o Brasil em um dos maiores mercados consumidores de<em> streaming</em> do mundo. Segundo o relatório de Streaming Global do Finder de 2021, o país ocupa a segunda posição global em consumo de plataformas de vídeo sob demanda, atrás apenas da Nova Zelândia. Pelo menos 65% dos adultos brasileiros possuem acesso a algum serviço de <em>streaming</em>, índice acima da média global de 56%.</p>



<p>A mudança também aparece nos hábitos de consumo. Atualmente, 49% dos brasileiros assistem entre duas e quatro horas diárias de conteúdo por<em> streaming</em>, enquanto 6% ultrapassam as seis horas por dia. Mesmo diante do aumento constante das assinaturas, 25% dos consumidores afirmaram não ter cancelado nenhum serviço ao longo de 2024, demonstrando o quanto essas plataformas passaram a ocupar um espaço central na rotina cultural do país. “Os avanços dessas plataformas no Brasil ajudam a explicar por que a discussão sobre acessibilidade envolve diretamente direitos culturais e cidadania”, reforça Marcelo Pedrosa.</p>



<h3 class="wp-block-heading">Regulação</h3>



<p>Legalmente, o Brasil possui uma estrutura de sustentação sólida garantida na Convenção da ONU sobre Direitos das Pessoas com Deficiência, a Lei Brasileira de Inclusão (Lei 13.146/2015) e o Código de Defesa do Consumidor. O artigo 63 da LBI diz que sites e serviços de empresas com sede no país devem ser acessíveis. No entanto, a falta de padronização por parte da ANCINE e a ausência de fiscalização rigorosa, permitem que as empresas ignorem essas normas sem consequências imediatas.</p>



<p>Após a conclusão do levantamento, Marcelo Pedrosa protocolou representações formais em três esferas na terça-feira, 5 de maio. São elas:</p>



    <div class="lista mx-md-5 px-5 py-4 my-5" style="--cat-color: #EBEB01;">
        <span class="titulo text-uppercase mb-3 d-block"></span>

                    <div class="lista__item">
                <p class="m-0"><span>1. </span>Ministério Público Federal (MPF): denunciando a violação de direitos sociais fundamentais e da Convenção da ONU.</p>
            </div>
                    <div class="lista__item">
                <p class="m-0"><span>2. </span>Ancine: cobrando a regulamentação dos metadados e a obrigatoriedade de recursos acessíveis em 100% dos catálogos.</p>
            </div>
                    <div class="lista__item">
                <p class="m-0"><span>3. </span>Ministério da Justiça (Senacon): apontando práticas abusivas e oferta de serviço impróprio ao consumo</p>
            </div>
            </div>



<p>O conjunto de petições requer que as plataformas apresentem cronogramas de adequação e que sejam intimadas a garantir a transparência total de seus catálogos antes da contratação. “A exclusão digital não é apenas um problema de lazer; é uma negação de autonomia e cidadania. Quando uma pessoa com deficiência é impedida de assistir a um documentário ou a um filme, ela é privada de participar da conversa pública e da cultura de seu tempo”, reflete.</p>



<p></p>
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		<item>
		<title>O Agente Secreto tratou o Recife como se fosse Paris</title>
		<link>https://marcozero.org/o-agente-secreto-tratou-o-recife-como-se-fosse-paris/</link>
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		<dc:creator><![CDATA[Marco Zero Conteúdo]]></dc:creator>
		<pubDate>Mon, 16 Mar 2026 19:45:22 +0000</pubDate>
				<category><![CDATA[Direito à Cidade]]></category>
		<category><![CDATA[Avenida Guararapes]]></category>
		<category><![CDATA[cinema]]></category>
		<category><![CDATA[O Agente Secreto]]></category>
		<category><![CDATA[Recife]]></category>
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					<description><![CDATA[<p>por Silvia Macedo* Existe uma ferida específica que as cidades do interior do Brasil &#8211; e Recife, que insiste em ser metrópole e ao mesmo tempo carrega dentro de si toda a intimidade de uma cidade pequena, sabe bem disso &#8211; carregam há décadas. Não é a ferida da pobreza, embora ela exista e doa. [&#8230;]</p>
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]]></description>
										<content:encoded><![CDATA[
<p><strong>por Silvia Macedo*</strong></p>



<p>Existe uma ferida específica que as cidades do interior do Brasil &#8211; e Recife, que insiste em ser metrópole e ao mesmo tempo carrega dentro de si toda a intimidade de uma cidade pequena, sabe bem disso &#8211; carregam há décadas. Não é a ferida da pobreza, embora ela exista e doa. É outra coisa, mais difícil de nomear: é a ferida de não ser levada a sério. De ter seus ritmos, suas lendas, seu sotaque, sua maneira torta e generosa de estar no mundo tratados como curiosidade folclórica, como exotismo para consumo alheio, nunca como matéria-prima para a arte mais alta. O Recife aprendeu cedo, e a contragosto, que as coisas que importavam &#8211; as coisas que mereciam câmera, atenção, eternidade &#8211; aconteciam em outro lugar.</p>



<p>O cinema pernambucano chegou e desfez esse ensinamento. Não suavemente.</p>



<p>Em <em>O Agente Secreto</em>, Kléber Mendonça Filho não fez uma carta de amor à cidade no sentido piegas da expressão. Fez algo mais violento e mais verdadeiro: tratou o Recife como se fosse Paris. Com a mesma exigência, a mesma seriedade, a mesma convicção de que cada ângulo de uma rua, cada letreiro gasto, cada fachada marcada pela umidade do mar continha dignidade suficiente para a tela grande. O Recife virou um personagem a mais no filme, assim como o seu elenco. E quando uma cidade se vê tratada assim, quando percebe que sua existência cotidiana foi considerada arte, algo se move nela que não é apenas orgulho. É uma espécie de reparação.</p>



<p>O que aconteceu nas ruas depois não foi só entusiasmo. Foi reconhecimento. E reconhecimento, quando ocorre numa cidade que foi sistematicamente ensinada a se diminuir, tem a textura de um abalo sísmico que ninguém vê mas todos sentem.</p>



<p>O sotaque local, vários rostos conhecidos, expressões populares e os espaços onde a vida acontecia &#8211; e ainda acontece &#8211; ocuparam um lugar nas telonas que, para o público mais amplo, cabia apenas a cidades como Paris, Nova York ou Londres. Isso pode parecer uma observação simples. Não é. Há décadas de subalternidade cultural acumulada nessa constatação. Há uma geração inteira de recifenses que cresceu acreditando &#8211; não conscientemente, mas nas fibras mais fundas do que se acredita sem saber que se acredita &#8211; que o lugar onde nasceu era provisório. Que a vida de verdade acontecia em outro eixo geográfico. Que o sotaque era coisa a ser perdida, a frase longa e sinuosa do nordestino, coisa a ser encurtada, a referência à Perna Cabeluda, à La Ursa, ao frevo de bloco, coisas íntimas demais para o espaço público da cultura nacional.</p>



<p>O filme devolveu tudo isso. Não como museu. Como urgência.</p>



<p>Ao ver sua cidade, seus costumes e sua cultura projetados para o mundo, parte do público reagiu com orgulho e entusiasmo, é o orgulho recifense, como se costuma dizer, em linha reta. Mas havia, por baixo desse orgulho em linha reta, algo mais complexo &#8211; uma torção, uma perturbação, como quem encontra numa gaveta antiga uma fotografia de si mesmo que não sabia que existia e precisa parar para reconhecer o próprio rosto. O encantamento dos pernambucanos estava ligado a um sentimento de pertencimento e orgulho.</p>



<p>A crítica internacional identificou no filme uma obra capaz de articular história, tensão e ironia sem perder o contato com a realidade que representa &#8211; e reconheceu nele uma forma própria, insubstituível, de falar sobre violência, repressão e território. O mundo olhando para o Recife e dizendo: isto aqui é universal. Não porque o Recife deixou de ser particular. Ao contrário, porque foi particular o suficiente para se tornar universal. Porque foi fundo o bastante na sua própria especificidade para tocar o que é de todos. Uma produção que atingiu um contingente mais amplo, não os cinéfilos de sempre, mas o motorista de aplicativo, a funcionária dos Correios, o rapaz que vende mingau na avenida Guararapes, que estava de repente torcendo para um filme como quem torce para o Santinha, Sport ou Náutico.</p>



        <figure class="wp-block-image my-5 img-center text-center">
            <picture>
                <source media="(max-width: 799px)" srcset="https://marcozero.org/wp-content/uploads/2026/03/Silvinha-4-300x200.jpeg">
                <source media="(min-width: 800px)" srcset="https://marcozero.org/wp-content/uploads/2026/03/Silvinha-4-1024x683.jpeg">
                <img decoding="async" src="https://marcozero.org/wp-content/uploads/2026/03/Silvinha-4-1024x683.jpeg" alt="A foto mostra uma equipe de filmagem trabalhando em uma rua. Em primeiro plano, aparecem dois carros antigos: um Fusca azul e outro carro vermelho com pneus marcados com “Cooper Cobra”. Ao redor deles, várias pessoas da produção estão em ação — um homem agachado ao lado do Fusca, uma mulher de camisa rosa e calça branca, e outro homem com fones de ouvido. Acima, vê-se um microfone de boom captando o som. Mais ao fundo, há equipamentos e membros da equipe sob guarda-sóis azuis, compondo o ambiente típico de bastidores de um set de filmagem." class="" loading="lazy" >
            </picture>

	                        <figcaption class="legenda-credito mx-md-5">
	                                        <p class="m-0">Abordagem de Kléber Mendonça Filho levou recifenses a redescobrirem o que já conheciam
</p>
	                
                                            <span>Crédito: Divulgação</span>
                                    </figcaption>
                    </figure>

	


<p>O público pernambucano passou a torcer pelo filme como quem torce por um time ou por um bloco de Carnaval. A comparação não é retórica. É sociológica. No Recife, a identidade coletiva se forja nas disputas: o bloco contra o outro bloco, o time contra o outro time, a cidade contra o descaso do sul. Quando o filme entrou nessa estrutura afetiva &#8211; quando passou a ser “o nosso” filme, não um filme sobre nós, mas nosso &#8211; ele se tornou veículo de algo que a cidade precisava e não encontrava espaço para expressar. A certeza de que existir aqui é suficiente. Que não é preciso ir embora para ser levado a sério.</p>



<p>E então aconteceu uma coisa estranha e linda: as pessoas começaram a redescobrir o que já conheciam.</p>



<p>Os lugares que serviram como cenário para o longa passaram a ser procurados por turistas e pela própria população local, que tem redescoberto a história da cidade. A avenida Guararapes, o Cinema São Luiz voltaram a ficar nos olhos e na boca do povo. Voltaram &#8211; essa palavra importa. Não chegaram. Voltaram. Como se tivessem estado sempre ali, na periferia do que se vê, esperando que alguém os olhasse com atenção suficiente para que os outros também vissem. Isso é o filme funcionando como espelho, não o espelho liso que reflete o que já sabemos, mas o espelho levemente torto que mostra o que estava ali e não víamos porque era óbvio demais para ser visto.</p>



<p>O Ginásio Pernambucano, fundado em 1825, teve como alunos ilustres Clarice Lispector e Ariano Suassuna. Clarice Lispector, que nasceu na Ucrânia e veio para o Recife quando ainda não tinha dois meses de vida, que aprendeu a ler português nessas ruas antes de partir para o Rio e de lá para a língua &#8211; Clarice, que talvez seja a escritora brasileira que mais visceralmente escreveu sobre o que significa pertencer a um lugar que não se pode explicar. Ela foi aluna do Ginásio Pernambucano. O mesmo Ginásio que Kleber usou como cenário. A cidade que a fez está na cidade que ele filmou. Não é saudade. É continuidade. É a prova de que há uma linha subterrânea que conecta todas as formas de amor por esse lugar específico, e que esse amor, quando encontra expressão pública à altura de sua intensidade, produz nos que o reconhecem uma espécie de tremor.</p>



<p>A socióloga e folclorista Rúbia Lóssio diz que cidade portuária, ponto de passagem de diferentes povos, o Recife absorveu influências judaicas, portuguesas, africanas e indígenas — um caldeirão de efervescência criativa cuja construção social é pautada pela manifestação do fantástico. O fantástico que Kleber trouxe para a tela &#8211; a Perna Cabeluda como alegoria do medo de Estado, a lenda urbana que o jornalismo de 1975 inventou e amplificou até que virasse verdade coletiva &#8211; não é exotismo. É arqueologia. É ir fundo o suficiente numa cidade para encontrar onde sua psicologia coletiva se formou, e mostrá-la sem pudor e sem condescendência.</p>



<p>No Carnaval de 2026, a imagem que ficará não será a do presidente no desfile do Galo da Madrugada, nem o coração de Dom Helder Câmara na escultura da Boa Vista. Será a camisa retrô da Pitombeira, a mesma que Wagner Moura veste no filme, produzida em série, copiada aos milhares, transformada em brinde, vestida por milhares de pessoas na torcida pelo Oscar. Uma camisa de troça carnavalesca fundada em 1947, patrimônio vivo de Pernambuco, virando símbolo de uma disputa global de cinema. Há nisso uma dignidade que nenhum planejamento cultural inventaria: ela surge quando uma cultura que sempre foi rica e nunca foi suficientemente reconhecida finalmente encontra o canal por onde pode transbordar.</p>



<p>Mesmo não recebendo as estatuetas do Oscar, o filme fez história. Os debates urbanos que dele eclodem e os sentimentos de apropriação da cidade talvez sejam conquistas ainda mais duradouras do que qualquer prêmio.</p>



<p>Sim. Porque o que <em>O Agente Secreto</em> fez não se guarda numa prateleira. Guarda-se no gesto do recifense que parou na frente do Cinema São Luiz e o olhou como se o visse pela primeira vez &#8211; sendo que o havia passado por ele 300 vezes sem ver. Guarda-se na criança que foi levada aos passeios pelas locações e perguntou ao pai o que era aquele prédio, e o pai soube responder, e os dois ficaram um pouco em silêncio depois. Guarda-se em tudo o que uma cidade descobre de si mesma quando alguém, finalmente, decide olhá-la com o sério e o terno que ela sempre mereceu.</p>



<p>Há coisas que uma cidade carrega por décadas sem saber que carrega.<em> O Agente Secreto</em> foi a mão que abriu a gaveta.</p>


    <div class="infos mx-md-5 px-5 py-4 my-5">
        <span class="titulo text-uppercase mb-2 d-block"></span>

	    <p><strong>*</strong>Arquiteta formada na UFPE, mestre em Teoria da Arquitetura e Urbanismo e PhD em Film Studies na Universidade de Reading (Reino Unido). No Brasil, trabalhou como diretora de arte no audiovisual, teatro e televisão. Atualmente vive na Inglaterra, onde finaliza seu documentário UK-Ukrainians — sobre a presença ucraniana no Reino Unido — e investiga as relações entre cinema e cidade em sua pesquisa de pós-doutorado no King&#8217;s College London.</p>
    </div>
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			</item>
		<item>
		<title>Carnaval de Olinda em crise, risco para festa e para o patrimônio</title>
		<link>https://marcozero.org/carnaval-de-olinda-em-crise-risco-para-festa-para-o-patrimonio/</link>
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		<dc:creator><![CDATA[Marco Zero Conteúdo]]></dc:creator>
		<pubDate>Sun, 01 Mar 2026 14:34:27 +0000</pubDate>
				<category><![CDATA[Direito à Cidade]]></category>
		<category><![CDATA[Carnaval]]></category>
		<category><![CDATA[urbanismo]]></category>
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					<description><![CDATA[<p>por Bruno Firmino* Quando vai chegando o fim do carnaval, ouvimos com mais frequência os versos que Lídio Macacão compôs em 1957 para a troça Donzelinhos dos Milagres: “Adeus, carnaval de Olinda/Cidade tradicional”. Além da particularidade de ser um frevo regresso, aquele que as agremiações tocam quando finalizam seus desfiles, o termo “cidade tradicional” também [&#8230;]</p>
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]]></description>
										<content:encoded><![CDATA[
<p><strong>por Bruno Firmino*</strong></p>



<p>Quando vai chegando o fim do carnaval, ouvimos com mais frequência os versos que Lídio Macacão compôs em 1957 para a troça Donzelinhos dos Milagres: “Adeus, carnaval de Olinda/Cidade tradicional”. Além da particularidade de ser um frevo regresso, aquele que as agremiações tocam quando finalizam seus desfiles, o termo “cidade tradicional” também traz um peso poético, apontando para o cruzamento entre o patrimônio material — arrumamento, igrejas e sobrados, e patrimônio imaterial — e manifestações culturais.</p>



<p>É desse cruzamento que são geradas belas imagens do multicolorido de céu azulado, casarios, telhados, quintais, pessoas, adereços e toda a sorte de elementos que o olho consegue captar ou imaginar. Descendo e subindo as ladeiras fantasiados de euforia e embebidos pelo desejo de festejar, forma-se um mar de gente onde o poeta descansa o olhar, uma paisagem em movimento que alimenta os sonhos em forma de folia.</p>



<p>Porém, todo esse mundo de animação não consegue esconder os sofrimentos a que estão submetidos os patrimônios edificados e as manifestações culturais, que, ultimamente correm risco e ainda não sucumbiram pela teimosia e paixão de quem faz.</p>



<p>Os riscos são negligenciados por uma gestão pública que tem como projeto asfixiar nossa principal vitrine pro mundo, que nos define enquanto povo, que é o carnaval. Afinal de contas, não fazer e não cuidar é uma escolha, portanto é um projeto.</p>



        <figure class="wp-block-image my-5 img-center text-center">
            <picture>
                <source media="(max-width: 799px)" srcset="https://marcozero.org/wp-content/uploads/2026/02/WhatsApp-Image-2026-02-26-at-11.28.26-300x225.jpeg">
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                <img decoding="async" src="https://marcozero.org/wp-content/uploads/2026/02/WhatsApp-Image-2026-02-26-at-11.28.26-1024x768.jpeg" alt="A foto mostra uma rua estreita de paralelepípedos à noite, iluminada por postes de luz. À direita, há uma grande quantidade de lixo acumulado na calçada, com caixas, plásticos e outros objetos descartados junto a um muro coberto de plantas. Do lado esquerdo, aparece uma parede pintada de verde. Mais ao fundo, um grupo de pessoas se reúne perto de barracas ou quiosques sob guarda-sóis, criando um contraste entre o ambiente festivo ao longe e a cena de descuido urbano em primeiro plano." class="" loading="lazy" width="688">
            </picture>

	                        <figcaption class="legenda-credito mx-md-5">
	                                        <p class="m-0">Lixo acumulado nas ruas foi uma constante no carnaval de Olinda. 
</p>
	                
                                            <span>Crédito: Bruno Firmino</span>
                                    </figcaption>
                    </figure>

	


<p>Quem brinca no carnaval olindense há tempos vem acompanhando a degradação devido à ausência de planejamento urbano e gestão urbana. Essas duas escalas do urbanismo são fundamentais para uma boa convivência entre patrimônio edificado, patrimônio imaterial, interesses comerciais, alto fluxo de pessoas e uma festa dinâmica. <a href="https://marcozero.org/previas-de-olinda-planejamento-urbano-para-a-salvaguarda-da-folia-e-do-patrimonio/" target="_blank" rel="noreferrer noopener">Conforme já abordei em texto para esta Marco Zero</a>, a ausência também é sentida no período de prévias.</p>



<p>Na virada entre os anos 90 e 2000 a folia olindense também sofria com uma série de dinâmicas que colocavam em risco suas práticas. Para coibir essas ações foi criada a Lei do Carnaval (Lei Municipal nº 5.306, de 28 de dezembro de 2001) que buscou assegurar a manutenção das manifestações culturais proibindo o uso de som mecânico, seja de agremiações ou em imóveis, casas camarotes e polos não oficiais. A lei assegurava cachês e o protagonismo para as manifestações culturais nos palcos e a criação de uma comissão permanente do carnaval.</p>



<p>Anos depois, mais especificamente a partir da gestão do Professor Lupércio, todo esse esforço foi colocado por água abaixo e sendo minado pela omissão. Hoje, o cenário nas ladeiras é pior do que aquele encontrado na virada do século. Há uma degradação e arruinamento da parte edificada, enquanto que as manifestações culturais sofrem diversos ataques que dificultam a sua atividade em plenitude.</p>



<p>Não é difícil circular e ver casas, estabelecimentos comerciais e comerciantes informais com caixas de som interferindo no percurso das agremiações, seja por abafar as orquestras, seja por gerar pontos de aglomeração como polos informais.</p>



        <div class="leia-tambem d-flex flex-column py-2 my-4 my-md-5">
            <span class=" d-block mb-2">MAIS SOBRE ESSE ASSUNTO:</span>

            <div class="d-flex flex-column">
                <a href="https://marcozero.org/a-farra-dos-caches-do-carnaval-de-olinda-na-gestao-de-mirella/" class="titulo">A farra dos cachês do Carnaval de Olinda na gestão de Mirella</a>
	                    <div class="tags d-flex mt-3 flex-wrap">
                            <a href="https://marcozero.org/formatos/reportagem/" class="btn text-uppercase me-2 mb-2">Reportagem</a>
            
		                    <a href="https://marcozero.org/temas/cultura/" class="btn text-uppercase me-2 mb-2">Cultura</a>
			        </div>
	            </div>
        </div>

		


<p>O som mecânico também aparece como problema nos grupos percussivos que fazem uso de paredões de som que funcionam com verdadeiros minitrios elétricos: interrompem o som e o percurso de agremiações tradicionais que fazem uso de orquestras e gerando um nível de vibração fora de contexto que põe em risco o casario. Tudo isso utilizando como passarela principal a prefeitura e com a anuência da atual gestora Mirella Almeida que posa com a roupa de um desses grupos.</p>



<p>A mesma negligência de controle urbano acontece com os imóveis que se disfarçam de <em>day use</em>, mas funcionam como casas camarotes, gerando segregação social, interferindo na rua com o som mecânico dos seus shows, tudo isso capturando o capital simbólico do verdadeiro carnaval e se beneficiando da infraestrutura pública montada para o período.</p>



<p>Convive-se no carnaval de Olinda com o avanço predatório das propagandas que agora ocupam espaços públicos, fachadas dos imóveis, dificultando a leitura do patrimônio por quem está na folia, e pela distribuição desmedida de brindes que no final do dia fortalece o acúmulo de lixo. Há uma batalha pela atenção de quem está nas ruas que transforma o folião em um ativo de alcance, custe o que custar.</p>



<p>A Velha Olinda, que também é reconhecida pela sua produção nas artes plásticas, teve seu legado deixado para trás com uma decoração carnavalesca genérica e que não traz diálogo com a paisagem e o acontecimento da folia, transformando o espaço em mero outdoor. A vista de quem caminha nas ruas era atravessada apenas por publicidade de bets, bebidas ou alimentos ultraprocessados, restando a decoração para um conjunto esteticamente pobre de fitas coloridas, que no final das contas atrapalha as evoluções dos estandartes e bonecos gigantes, ou pelos banners alocados na fachada da prefeitura sem nenhum cuidado compositivo e material. Além da ausência de decoração, somou-se à falta de sinalização adequada de equipamentos, serviços, banheiros e pontos de interesse que facilitariam a locomoção no meio das ladeiras.</p>



        <div class="leia-tambem d-flex flex-column py-2 my-4 my-md-5">
            <span class=" d-block mb-2">MAIS SOBRE ESSE ASSUNTO:</span>

            <div class="d-flex flex-column">
                <a href="https://marcozero.org/com-prefeitura-omissa-moradores-de-olinda-sofrem-com-desequilibrio-entre-festas-e-preservacao/" class="titulo">Com prefeitura omissa, moradores de Olinda sofrem com desequilíbrio entre festas e preservação</a>
	                    <div class="tags d-flex mt-3 flex-wrap">
                            <a href="https://marcozero.org/formatos/reportagem/" class="btn text-uppercase me-2 mb-2">Reportagem</a>
            
		                    <a href="https://marcozero.org/temas/bem-viver/" class="btn text-uppercase me-2 mb-2">Bem viver</a>
			        </div>
	            </div>
        </div>

		


<p>Um ponto sensível e que vem chamando bastante atenção nos últimos anos é a insuficiência de banheiros que, para testar o amor do folião que vai brincar nas ruas, ficam durante todo o período do carnaval sem receber limpeza e sem uma sinalização adequada que ajude a encontrá-los. O resultado é uma série de banheiros impróprios para uso e que logo nos primeiros dias são abandonados e utilizados como amparo para que as necessidades fisiológicas sejam feitas nas ruas, promovendo um ambiente insalubre e gerando poças que botam a saúde de visitantes e moradores em risco.</p>



<p>Os dias de festa representam uma oportunidade de renda e trabalho para uma parcela da população. É na intensidade de circulação de pessoas e consumo de produtos que faz com que o carnaval seja convertido em um montante financeiro. No espírito que junta necessidade e vontade, centenas de vendedores informais ocupam as ruas, antes dos dias de folia já estão dormindo nas calçadas ao relento e sem lugar adequado para higienização, muitas vezes famílias inteiras, para garantir o local físico de trabalho ou a segurança das mercadorias.</p>



<p>Parte desses trabalhadores pagam uma taxa à Prefeitura para receber autorização de comercialização e treinamentos, que não se refletem na realidade. São chamados pelos gestores municipais de “empreendedores”: uma tentativa neoliberal de escamotear a verdadeira face de população vulnerabilizada que é esquecida à própria sorte e que serve apenas como soleira para a empresa de bebida patrocinadora fazer lucro, afinal de contas, são os únicos que saem realmente ganhando.</p>



<p>Além da situação degradante que são jogados, não há qualquer tipo de ordenamento ou de estudo prévio de localização para os ambulantes, promovendo riscos para quem está trabalhando ou brincando. A falta de ordenamento também cria atritos com moradores, que para resguardar seus espaços e cientes do desamparo da Prefeitura no controle urbano, cercam suas calçadas como pequenos camarotes que espremem mais as já estreitas ruas e põem em risco quem está passando pelo tipo de estrutura utilizada.</p>



<p>Os catadores, trabalhadores que também são fundamentais, mais uma vez enfrentaram situações degradantes sem a distribuição de equipamentos de proteção individual, espaço para descanso ou pernoite e pontos de apoio para hidratação, banheiro ou chuveiro. Como de costume, foram invisibilizados enquanto indivíduos, mas o trabalho fruto dos seus esforços foi utilizado pela prefeita nas redes sociais para enaltecer a enorme quantia recolhida de latas de alumínio.</p>



<p>Na entrevista coletiva do balanço de carnaval, a gestão atual trouxe números de redução de circulação de veículos graças ao adesivo chipado, similar àqueles utilizados em acesso livre de pedágios, que reconhecem de imediato os veículos.</p>



<div class="wp-block-media-text is-stacked-on-mobile" style="grid-template-columns:40% auto"><figure class="wp-block-media-text__media"><img fetchpriority="high" decoding="async" width="576" height="1024" src="https://marcozero.org/wp-content/uploads/2026/02/WhatsApp-Image-2026-02-26-at-11.35.31-576x1024.jpeg" alt="" class="wp-image-74742 size-full" srcset="https://marcozero.org/wp-content/uploads/2026/02/WhatsApp-Image-2026-02-26-at-11.35.31-576x1024.jpeg 576w, https://marcozero.org/wp-content/uploads/2026/02/WhatsApp-Image-2026-02-26-at-11.35.31-169x300.jpeg 169w, https://marcozero.org/wp-content/uploads/2026/02/WhatsApp-Image-2026-02-26-at-11.35.31-768x1365.jpeg 768w, https://marcozero.org/wp-content/uploads/2026/02/WhatsApp-Image-2026-02-26-at-11.35.31-864x1536.jpeg 864w, https://marcozero.org/wp-content/uploads/2026/02/WhatsApp-Image-2026-02-26-at-11.35.31-150x267.jpeg 150w, https://marcozero.org/wp-content/uploads/2026/02/WhatsApp-Image-2026-02-26-at-11.35.31.jpeg 900w" sizes="(max-width: 576px) 100vw, 576px" /></figure><div class="wp-block-media-text__content">
<p>Só que a realidade foi outra, em todos os dias e horários foi comum ver carros e motos cortando as ruas, com ou sem adesivo, interrompendo o fluxo das agremiações e colocando as pessoas em risco. Vários desses carros e motos estavam transportando produtos para abastecer o comércio de bebidas, trazendo um risco adicional pelo somatório de excesso de peso e ladeiras escorregadias.</p>



<p></p>
</div></div>



<p>Também foram vistos vários veículos estacionados nos corredores e folia. Importante observar que não eram de moradores que costumeiramente retiram os seus dias antes da festa e levam para fora do Sítio Histórico, estes veículos estavam sendo utilizados por comerciantes e visitantes que sem o menor pudor circulavam e estacionavam de maneira livre. Alguns estavam adesivados, demonstrando que a burocracia e a tecnologia computacional também precisam vencer a tecnologia social de quem quer burlar. Também virou uma cena comum, principalmente à noite, motos de aplicativos circulando livremente pela área que deveria ser restrita.</p>



<p>A ausência da zeladoria também ficou latente: buracos, bueiros sem tampas ou entupidos, fossas transbordando, postes provocando choques, fiações caídas, ruas escuras; foram cenas cotidianas para quem vivenciou as ladeiras de olindenses. A crise da coleta de lixo que já vinha se arrastando encontrou seu ponto alto nos dias de festa, formando montanhas de lixo que se acumulavam de um dia para outro. O cenário se agravou com a junção da lama de urina que escorria pelo calçamento e bueiros entupidos, transformando o desfile carnavalesco em corrida de obstáculos para testar o apego à nossa cultura de quem saiu de casa.</p>



<h2 class="wp-block-heading">O carnaval como chave para conservação do Patrimônio</h2>



<p>Apesar do cenário desolador do carnaval olindense, há caminhos que podem reverter a situação. Para que isso ocorra é necessário investimento contínuo em corpo técnico capacitado, educação patrimonial e escuta permanente. A Lei do Carnaval, por exemplo, institui a necessidade de instalação de uma Comissão Permanente do Carnaval que serviria como um grupo que permitiria o diálogo constante entre população, fazedores de cultura e gestores públicos.</p>



<p>A partir de boas práticas urbanas implementadas em outras cidades e a vivência acumulada entre folião e carnavalesco, é possível apontar alguns caminhos preliminares que podem trazer novos cenários para a folia olindense.</p>



<p>A primeira delas pede um planejamento que crie um plano de ocupação, levando em contas as necessidades de algumas atividades e os espaços que carregam potenciais de resolução.</p>



<p>Um bom começo seria levar parte das atividades para a borda do Sítio Histórico, instalando palcos na parte próxima à beira mar, a exemplo da Praça do Fortim, Praça do Jacaré e Praia dos Milagres. O primeiro foi um polo nos início dos anos 2000, enquanto o segundo era um tradicional palanque nos anos 70 e 80. Com essa medida, diminuiria presença ostensiva de público nas ladeiras, dinamizaria outras áreas e permitiria que os espaços atuais utilizados para palcos fossem voltados para alamedas de serviço, com comercialização de comidas e bebidas.</p>



<p>Por exemplo, seria possível transformar a Praça do Carmo em um espaço para essa finalidade. Além de outros espaços menores, com a Laura Nigro, Largo de São Bento e Praça João Alfredo. Todos esses espaços também poderiam servir como pontos de hidratação. Esse ano havia dois pontos de hidratação e que estavam sempre com extensas filas, demonstrando a necessidade da solução.</p>



<p>Levar os palcos para as bordas do Sítio Histórico também contribuiria para retomar o circuito carnavalesco da avenida Sigismundo Gonçalves, induzindo a passagem das agremiações com um palco-passarela, e com isso interromper a passagem de veículos na avenida, que mesmo no carnaval possuía um tráfego intenso. Enquanto que o controle de veículos dentro do perímetro do Sítio Histórico poderia ser induzido com horários de carga e descarga definidos e um maior controle para obtenção da licença de livre acesso.</p>



<p>A medida de transformar alguns espaços em alameda de serviços poderia ser complementada com a alocação de trabalhadores informais nas ruas transversais, liberando espaços nas ruas que servem com passarelas naturais do carnaval. Esses trabalhadores poderiam ter sua presença reduzida em número e escolhida por sorteio, para que recebessem um aporte de infraestrutura para que migrassem dos isopores para espaços maiores que trariam mais rentabilidade, além de priorizar a mão-de-obra do entorno a partir de um cadastro prévio, mantendo a circulação de renda concentrada mais na população local. Assim como é preciso dotar esses trabalhadores com treinamentos de boas práticas e instalar fábricas de insumos como gelo, garantindo a segurança sanitária de quem consome.</p>



<p>Outra medida diz respeito ao uso do som mecânico. É preciso atualizar a Lei do Carnaval incorporando a portabilidade que a tecnologia trouxe e as novas práticas, como os grupos percussivos que desfilam nas ladeiras. Limitando o uso de som mecânico, puxado ou não por veículo motorizado. Vetar som em quintais ou limitá-los a um padrão de decibéis que não atrapalhe as manifestações nas ruas ou que acumule pessoas como pólos alternativos e dificulte a passagem das agremiações. Soluções que são muito simples e pedem mais a presença de agentes de controle urbano na rua do que grandes medidas.</p>



        <figure class="wp-block-image my-5 ">
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	                        <figcaption class="legenda-credito mx-md-5">
	                                        <p class="m-0">Em pleno carnaval, veículos disputavam espaço com agremiações e foliões
</p>
	                
                                            <span>Crédito: Xirumba Amorim/Cortesia</span>
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                    </figure>

	


<p>Parte da questão do som mecânico com os grupos percussivos também é passível de resolução, levando-os para desfilar na Avenida Sigismundo Gonçalves ou criando um novo circuito na beira-mar, incrementando o movimento nos estabelecimentos dessa área e mantendo as manifestações tradicionais que funcionam de maneira acústica salvaguardadas.</p>



<p>Dentro desse plano de ocupação os banheiros seriam instalados em partes das áreas atuais, nas bordas das alamedas de serviço e em quintais alugados. Além da limpeza periódica para garantir um uso adequado, viabilizar o aluguel de quintais e evitar riscos sanitários — medidas óbvias e básicas — há a possibilidade de banheiros em cabines onde os dejetos são bombeados para a rede de saneamento básico, tornando-se uma solução mais adequada ecologicamente do que os banheiros químicos e fazendo uso da infraestrutura já presente no local para que os resíduos sejam tratados da maneira correta. Essa solução já é utilizada em diversos festivais de músicas em capitais brasileiras. A área externa dos banheiros também poderia ser utilizada para exploração publicitária, ajudando a mitigar os custos da iniciativa.</p>



<p>É preciso desenvolver um plano de zeladoria urbana que integre Compesa, Neoenergia e a secretaria de infraestrutura para vistorias e manutenção complementar por equipes de plantão para que urgência fossem sanadas, evitando riscos de choques, entupimento sanitário e de pontos de acúmulo de lama e pequenos alagamentos. Dentro dessas iniciativas, estaria um protocolo de limpeza urbana com lavagem das ruas e calçadas nas madrugadas com escovação e coleta seletiva com os demais materiais descartáveis, garantindo uma destinação adequada e ainda com a possibilidade de gerar renda para cooperativas de catadores.</p>



<p>Escolas poderiam servir como área de acolhimento temporário para catadores de materiais recicláveis ou para realização de atividades recreativas e de creche com os filhos desses trabalhadores, garantindo um ambiente seguro para essa população tão especial. Outros equipamentos como o Mercado Eufrásio Barbosa e o Clube Atlântico serviriam também como alameda de serviços, centro de venda de adereços e fantasias, centro de atendimentos para secretarias públicas ou praças de alimentação. Mantendo um uso ativo nos dias de folias e servindo de suporte para a população.</p>



<p>E para servir de ponte entre essas diversas iniciativas, a decoração traria o diálogo entre o estético e o funcional, combinando arte com um sistema informacional que indicaria os espaços e onde estariam alocados serviços (banheiros, pontos de carros de aplicativo, centro de atendimento ao folião, alameda de serviços, etc), facilitando a navegação no meio da folia. É importante retomar o caráter artístico de Olinda, incorporando a produção de seus artistas na decoração com elementos que trazem um brilho de beleza, sem que comprometa a evolução de um estandarte ou a dança de um boneco gigante.</p>



<p>Finda a festa, parte desse material poderia ganhar nova vida, transformando lonas dos banners em bolsas e utensílios, garantindo circularidade para o material, renda e trabalho para a mesma população que costura a beleza das fantasias do carnaval. Do mesmo modo que alguns equipamentos poderiam ser reutilizados em outras situações, como já aconteceu com o Pavilhão Louisiana Hamlet em Nairobi (Quênia) que, depois das funções artísticas, se converteu em espaço escolar. Ou o material da expografia da 34º Bienal de Arquitetura de São Paulo que, passada a exposição, foi reutilizado com cobertura de quadra na Ocupação 9 de Julho do Movimento Sem Teto do Centro.</p>



<p>Todo o caminho trilhado nesse texto só foi possível por um cruzamento de vivências entre a prática profissional e a prática foliã, a prática foliã e a prática de fazedor de cultura e a prática de fazedor de cultura e a profissional. Esses caminhos tornam-se encruzilhada na leitura do fenômeno carnavalesco numa cidade histórica, uma paisagem patrimonial e cultural que muito nos ensina.</p>



<p>Mesmo assim, as ideias são passíveis de questionamentos e aprimoramentos, principalmente porque todo o arcabouço de soluções precisam estar embasadas no diálogo constante entre todos os atores envolvidos. Arriscaria dizer que os atributos das soluções dialogariam diretamente com Ítalo Calvino e suas seis propostas de arte para o novo milênio (leveza, rapidez, exatidão, visibilidade, e multiplicidade). Essas categorias literárias oferecem lentes analíticas potentes para interpretar dinâmicas urbanas, transformando a cidade, uma das mais belas e complexas invenções humanas, em um texto vivo cujas estruturas e fluxos revelam toda a riqueza que só os dias de folias podem transvestir, ignorando toda a aspereza do dia a dia.</p>


    <div class="infos mx-md-5 px-5 py-4 my-5">
        <span class="titulo text-uppercase mb-2 d-block"></span>

	    <p><strong>*Bruno Firmino</strong> é arquiteto e urbanista, mestre e doutorando. É pesquisador e professor universitário, diretor do Instituto de Arquitetos do Brasil e do Clube Carnavalesco Misto Elefante de Olinda.</p>
    </div>
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		<title>Pás e Vassourinhas explicam como frevo nasceu do suor dos trabalhadores</title>
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		<dc:creator><![CDATA[Jeniffer Oliveira]]></dc:creator>
		<pubDate>Fri, 13 Feb 2026 20:13:15 +0000</pubDate>
				<category><![CDATA[Diversidade]]></category>
		<category><![CDATA[carnaval de Pernambuco]]></category>
		<category><![CDATA[Carnaval do Recife]]></category>
		<category><![CDATA[Clube das Pás]]></category>
		<category><![CDATA[frevo]]></category>
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					<description><![CDATA[<p>A história de dois dos clubes carnavalescos mais antigos do Brasil, o Clube das Pás e o Vassourinhas, ajudam a entender como o ritmo que é a marca registrada do carnaval pernambucano foi criado por trabalhadores negros de bairros da periferia do Recife. Criadas no final do século XIX como associações que representavam categorias profissionais, [&#8230;]</p>
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										<content:encoded><![CDATA[
<p>A história de dois dos clubes carnavalescos mais antigos do Brasil, o Clube das Pás e o Vassourinhas, ajudam a entender como o ritmo que é a marca registrada do carnaval pernambucano foi criado por trabalhadores negros de bairros da periferia do Recife. Criadas no final do século XIX como associações que representavam categorias profissionais, as duas agremiações seguem varrendo o tempo como guardiãs da cultura popular.</p>



<p>Mais conhecido por seus bailes notunos e pela tradicional gafieira em seu salão de dança no coração de Campo Grande, bairro da zona norte do Recife, o Clube das Pás é bem mais do que um espaço para dançar. O que muitos recifenses talvez não saibam é que ele é o clube carnavalesco mais antigo em atividade na capital pernambucana, que desfila desde 1988 como clube pedestre nos desfiles oficiais organizados pelo poder público.</p>



<p>Fundado em 19 de março de 1888, uma segunda-feira de carnaval, antes mesmo da abolição da escravatura no Brasil, o clube nasceu após um grupo de carvoeiros, trabalhadores que faziam carregamento de carvão, abastecerem um navio durante um período de greve de portuários e escravos de ganho &#8211; pessoas escravizadas que trabalhavam nas ruas fazendo diferentes serviços ou vendendo mercadorias, obrigados a dar parte dos seus rendimentos aos “senhores”.<br><br>Os trabalhadores fizeram o serviço e foram comemorar, com suas pás nas costas, o salário recebido no Clube dos Caiadores, no bairro de São José. Com alguns trocados no bolso e em pleno carnaval, eles tinham motivos para festejar, tanto que decidiram criar o Clube Carnavalesco Misto das Pás.</p>



<div class="wp-block-media-text is-stacked-on-mobile" style="grid-template-columns:44% auto"><figure class="wp-block-media-text__media"><img decoding="async" width="533" height="799" src="https://marcozero.org/wp-content/uploads/2026/02/55087217389_25e8aee7d0_c.jpg" alt="" class="wp-image-74620 size-full" srcset="https://marcozero.org/wp-content/uploads/2026/02/55087217389_25e8aee7d0_c.jpg 533w, https://marcozero.org/wp-content/uploads/2026/02/55087217389_25e8aee7d0_c-200x300.jpg 200w, https://marcozero.org/wp-content/uploads/2026/02/55087217389_25e8aee7d0_c-150x225.jpg 150w" sizes="(max-width: 533px) 100vw, 533px" /></figure><div class="wp-block-media-text__content">
<p>“O clube passa, em todos os momentos históricos e políticos do Brasil, 1888, 19 de março, em 13 de maio, a libertação dos escravos. Depois vem a república, o estado novo, a ditadura militar em 64, vem a redemocratização e em todos os momentos, o Clube das Pás participa efetivamente aqui no estado de Pernambuco”, conta Álvaro Melo, diretor de promoções e eventos do Clube das Pás, que é apaixonado pelo clube desde quando o conheceu, há 30 anos. </p>
</div></div>



<p></p>



<p>Hoje, o clube continua desfilando e ganhando prêmios com suas apresentações no grupo especial do Recife. Todos os preparativos acontecem na sede da agremiação, em um espaço acima do famoso salão de dança, com uma equipe de dez pessoas que começa a se preparar até seis meses antes do carnaval. Lá são confeccionadas roupas e adereços.</p>



<p>Os carros alegóricos também são construídos pela própria equipe do Clube das Pás, que, este ano, desfilará no domingo à noite, na passarela da avenida Dantas Barreto concorrendo com outros cinco clubes de frevo &#8211; Reizado Imperial, Amante das Flores, Guaiamum na Vara, Girassol da Boa Vista e o já mencionado Vassourinhas.</p>



<p>Carnavalesca e administradora do barracão, Gislaine Cordeiro, está na função há dois anos e é a pessoa que comanda o espaço e comanda o desenho dos desfiles. “É muita luta, a gente corre muito, a gente tem aquela dinâmica de chegar cedo pra terminar cedo, o mais breve possível. Mas sabe onde é que a gente sente alegria? Quando bota na avenida, até as apresentações pela prefeitura são gratificantes, você se sente feliz é uma emoção, porque você sabe que aquele trabalho saiu de todo um conjunto de pessoal”, conta.</p>



<p>Já quem cuida dos figurinos é Hilário da Silva, carnavalesco responsável pela parte de criação e confecção dos figurinos e adereços, também participa de todos os processos. Na função há 11 anos, ele conta que existe um processo do tema ao protótipo para chegar na confecção e que todos eles são feitos com muita dedicação. “Eu amo, adoro fazer carnaval. Quando eu começo, dedico minha vida, porque se você não se dedicar de corpo e alma, a coisa não sai. Então, quando a gente gosta de carnaval, a gente tem o sangue na veia mesmo, a gente já está pensando no próximo trabalho”, diz.</p>



<p>Mas o clube não é feito apenas por essa equipe, existem centenas de pessoas envolvidas para que as apresentações aconteçam, são entre 250 e 300 pessoas que vão para a avenida em dia de desfiles.</p>



        <figure class="wp-block-image my-5 img-center text-center">
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                <source media="(max-width: 799px)" srcset="https://marcozero.org/wp-content/uploads/2026/02/Pas-2-300x171.jpeg">
                <source media="(min-width: 800px)" srcset="https://marcozero.org/wp-content/uploads/2026/02/Pas-2-1024x582.jpeg">
                <img decoding="async" src="https://marcozero.org/wp-content/uploads/2026/02/Pas-2-1024x582.jpeg" alt="A cena mostra um desfile carnavalesco cheio de cores e detalhes. No centro, há um grande estandarte ornamentado com franjas douradas e símbolos de pás cruzadas, trazendo inscrições que remetem a um clube fundado em 1888. Ao redor do estandarte, pessoas vestem fantasias elaboradas, em tons vivos de amarelo, com enfeites de estrelas e flores nas cabeças. Ao fundo, espectadores assistem sentados diante de uma parede multicolorida." class="" loading="lazy" >
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	                        <figcaption class="legenda-credito mx-md-5">
	                                        <p class="m-0">Clube das Pás e Vassourinhas desfilam na avenida Dantas Barreto, no domingo de Carnaval.
</p>
	                
                                            <span>Crédito: Acervo Clube das Pás</span>
                                    </figcaption>
                    </figure>

	


<h2 class="wp-block-heading">“O frevo não é uma brincadeira inocente”</h2>



<p>Um ano depois do surgimento do Clube das Pás, em 1889, um outro grupo de trabalhadores decidiu criar o Vassourinhas, tão importante para a história do frevo por ter como o hino a Marcha nº 1.<br><br>Entre as várias versões que existem sobre o surgimento do grupo, a que mais apresenta evidências históricas, segundo o diretor Thomás Ricardo, conta que um grupo de amigos se reuniu após o trabalho, próximo à Igreja de Nossa Senhora do Carmo, no bairro de São José, na festa do Dia de Reis, em 6 de janeiro, a primeira depois da abolicão.<br><br>“O Clube Vassourinhas vai surgir justamente no final do século XIX, início do século XX num contexto pós-abolição, num contexto de proclamação da república, onde os populares vão cada vez mais, apesar ainda de muitas restrições impostas, mas esses dois condicionantes, esse contexto vai favorecer para que o clube surja, assim como outras agremiações também vão surgir”, conta Thomás.</p>



<p>Diferente do Clube das Pás, todos os trabalhadores não necessariamente eram varredores de rua, apesar de também existirem em bom número no grupo. Thomás afirma que eles exerciam diferentes funções, mas como era uma tendência da época nomear um clube carnavalesco com o nome de algum instrumento de trabalho ou então com o nome de alguma categoria profissional, assim o fizeram.</p>



<p>“É muito importante a gente sempre reverenciar e destacar que o frevo, ele não é uma brincadeira inocente. O surgimento desse clube não vai ser uma brincadeira pura e simplesmente inocente, não”, reforça Thomás. “As elites não queriam que os populares tivessem direito de acesso às ruas, só que os populares não vão aceitar, assim como também os fundadores do Vassourinhas, eles vão cada vez mais conquistando as ruas, cada vez mais conquistando adeptos, até se transformar no grande clube carnavalesco que vai surgir e que vai justamente conquistar o Brasil”, continua.</p>



<p>Durante o século XX, o clube consolidou sua força. Em 1909, Joana Batista e Matias da Rocha, ambos negros e vindos das periferias do Recife, compuseram o hino que se tornaria quase um sinônimo de frevo, a Marcha nº1.</p>


    <div class="box-explicacao mx-md-5 px-4 py-3 my-3" style="--cat-color: #1E69FA;">
        <span class="titulo"><+></span>

        <div class="int mx-auto">
	        <p>Clique <a href="https://www.youtube.com/watch?v=fRPS-Ud-DpU" target="_blank" rel="noreferrer noopener">aqui para escutar uma gravação de 1945</a> ou <a href="https://www.youtube.com/watch?v=5pLhkCBo1fY" target="_blank" rel="noreferrer noopener">aqui para a versão antológica que levanta multidões</a> já nos primeiros acordes.</p>
        </div>
    </div>



<p>Nos anos 1950, em uma viagem ao Rio de Janeiro para se apresentar oficialmente, a excursão que reuniu aproximadamente 60 músicos da banda da Polícia Militar de Pernambuco, além de fantasias e estandartes, fez uma escala em Salvador que transformou o percurso em um momento histórico.</p>



<p>Segundo Thomás Ricardo, “a cidade de Salvador realmente enlouqueceu com aquela apresentação. Eles nunca tinham visto o frevo, nunca tinham visto um carnaval sendo feito daquela forma”. A multidão se reuniu para assistir ao espetáculo, e o impacto foi tão grande que alguns músicos se machucaram em meio à aglomeração. Para garantir a segurança, surgiu a ideia de colocar os músicos sobre um carro, como solução improvisada que inspiraria Dodô e Osmar na criação do trio elétrico.</p>



<p>Esse detalhe mostra como o Vassourinhas não apenas consolidou o frevo como expressão pernambucana, mas também influenciou diretamente o carnaval baiano. “O Clube Vassourinhas realmente possui uma história muito bonita, que se confunde com a história do Carnaval do Brasil”, resume Tomás, reforçando o papel da agremiação como ponte entre tradições regionais e como catalisadora de novas formas de festa popular.</p>



<h3 class="wp-block-heading"><strong>Próximo objetivo é retomar as ruas</strong></h3>



<p>Hoje, assim como o Clube das Pás, o Vassourinhas de Recife desfila no Grupo Especial do Concurso de Agremiações do Carnaval do Recife, mas o desejo da diretoria é retomar os desfiles de rua que, outrora, foram a marca desses clubes.</p>



<p>Historicamente, os clubes centenários realizavam arrastões pelas ruas da cidade, mas com o tempo, ao migrarem para sedes próprias nas periferias do Recife, ficaram mais restritos a bailes e concursos oficiais. Ele defende que essa prática precisa ser retomada: “eu acho que é muito importante que as agremiações do Recife tenham (seus arrastões). Não só o Vassourinhas, mas eu queria que os Lenhadores, o Clube das Pás também tivessem seus arrastões, porque se a gente for ver nos jornais antigos, essas agremiações faziam arrastão.”</p>



<p>Tomás cita exemplos de Olinda, onde os Lenhadores e o Vassourinhas mantêm seus arrastões, e reforça que o Vassourinhas do Recife, o original, fundado em 1889, deveria seguir essa tradição. Para ele, os arrastões são uma forma de devolver os clubes às ruas, aproximando-os dos foliões e reafirmando sua identidade popular.</p>



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                <img decoding="async" src="https://marcozero.org/wp-content/uploads/2026/02/55078594301_fa543fb2fc_c.jpg" alt="A imagem mostra Thomás Ricardo, um homem em pé, de braços cruzados, diante de dois estandartes festivos e ornamentados. Ele veste uma camiseta amarela com desenhos que combinam com os símbolos dos estandartes, indicando ligação com o grupo representado. Os estandartes são ricamente decorados em cores vivas como dourado, azul e vermelho, trazendo inscrições que mencionam “Vassourinhas” e “Recife”, além de figuras e emblemas. O conjunto transmite orgulho cultural e celebração de tradições locais." class="" loading="lazy" >
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</p>
	                
                                            <span>Crédito: Arnaldo Sete/Marco Zero</span>
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<h3 class="wp-block-heading"><strong>Agremiações pedestres que contam a história de um tempo</strong></h3>



<p>Luiz Vinícius Maciel, historiador e coordenador de memória do Paço do Frevo, conta a importância da existência desses clubes até hoje. São agremiações pedestres que contam a história de um tempo e que permanecem resistindo aos desafios enfrentados ao longo dos anos.</p>



<p>“Essa trajetória longa que esses clubes têm, que diante de muitos desafios continua existindo até hoje, é valiosa não só para um lugar de salvaguarda e cuidado com a tradição do que é o frevo, de muitos elementos que vêm do passado, de recontar essas histórias, de transmitir essas histórias, esses saberes de como geriam a agremiação e como é que a manifestação acontece na rua, da dança, da música”, aponta o historiador.</p>



<p>Maciel também aponta a importância desses clubes para as comunidades que estão inseridas até hoje. “São agremiações que nasceram no centro do Recife, mas que por mil motivos, ao longo da história da cidade, foram se espalhando para as periferias. Você tem o Clube das Pás está em Campo Grande, o Vassourinhas está em Afogados, os Lenhadores estão na Mustardinha. E são espaços que muitas vezes vai ter o brega do fim de semana, vai ter a festa da terceira idade, vai ter o velório de alguém, tem situações, às vezes, da escola quebrou o ar-condicionado, a turma vai ter aula no clube. Então, são espaços importantes também para aquelas comunidades de troca social, de sociabilidade, até hoje, em 2026”, reflete.</p>
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		<title>O regresso das multidões do Elefante de Olinda</title>
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		<dc:creator><![CDATA[Raíssa Ebrahim]]></dc:creator>
		<pubDate>Thu, 12 Feb 2026 20:06:02 +0000</pubDate>
				<category><![CDATA[Diversidade]]></category>
		<category><![CDATA[Carnaval]]></category>
		<category><![CDATA[Carnaval de Olinda]]></category>
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<p>Era domingo de Carnaval, há mais de dez anos, quando o minguado — porém, ainda vivo — Elefante de Olinda passou pouco aclamado pelo povo e sem nenhum ardor pela avenida Joaquim Nabuco, no Varadouro. Com quase nenhum esplendor, mas ainda exaltando suas tradições, a agremiação desfilava ao som de apenas dois clarins, uma faixa de tecido desgastado, uma orquestra de dez músicos, um pequeno grupo de foliões e desfilantes com fantasias velhas. Com no máximo 25 pessoas, aquele era o retrato do declínio do clube carnavalesco fundado em 1952 que, por muito tempo, arrastou multidões e cujo hino se confunde com o hino do Carnaval de Olinda.</p>



<p>Alguns anos depois dessa cena, o gigante acordou e, no Carnaval de 2026, e se prepara para, mais uma vez, arrastar uma multidão de 30 mil desfilando seu recorde: seis alas de fantasias, abre-alas, faixa, dois porta-estandartes, duas companhias de dança, vários clarins e duas orquestras. Nesta quinta-feira, 12 de fevereiro, o clube comemora 74 anos com uma nova diretoria que atuou para revibrar corações de amor a sonhar, numa Olinda sem igual. Atualmente o Elefante realiza quatro desfiles carnavalescos: o Trote, o Baile Encarnado, o Elefantinho e o desfile oficial, sempre aos domingos.</p>



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                <img decoding="async" src="https://marcozero.org/wp-content/uploads/2026/02/WhatsApp-Image-2026-02-12-at-16.18.50-2-1024x682.jpeg" alt="Essa imagem mostra uma celebração noturna de rua, provavelmente ligada ao carnaval ou a um festival cultural. No centro, há um grande estandarte bordado com a inscrição “Elefante de Olinda”, destacando os anos 1952 e 2023, em referência aos 71 anos desse grupo tradicional. O estandarte é colorido e ornamentado com desenhos de sol, palmeiras e paisagem. Abaixo dele, uma multidão de pessoas festeja com braços erguidos, enquanto confetes ou espuma caem sobre elas. As ruas estão enfeitadas com fitas coloridas e iluminadas, criando um ambiente alegre e vibrante de comemoração coletiva." class="" loading="lazy" >
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	                                        <p class="m-0">Elefante de Olinda desfila a frente de 30 mil pessoas no Carnaval de Olinda. Crédito: Hugo Muniz
</p>
	                
                                            <span>Crédito Hugo Muniz</span>
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                    </figure>

	


<p>“Estávamos na calçada, na casa da minha sogra, quando, de repente, vi a faixa ‘Elefante de Olinda’. Eu gritei &#8216;minha gente, corre, é o Elefante de Olinda&#8217;. E sai desfilando com meu companheiro, Anax Botelho”. Quem revive essa história em detalhes é Juliana Serretti, 36 anos, que hoje compõe a diretoria do clube.</p>



<p>“Como pode a gente passar o Carnaval todo cantando o hino do Elefante, que virou até um grande clichê, e a agremiação estar desse jeito? Precisamos fazer alguma coisa”, pensou Juliana. Foi quando ela e Anax — cujos pais se conheceram e se apaixonaram durante um desfile do Elefante — começaram a buscar quem estava à frente da agremiação.</p>



<p>“Aí conhecemos seu João, já falecido e um dos homenageados do Elefante no Carnaval 2026. Ele foi, por muitos anos, presidente e carregou o clube nas costas. É graças à teimosia de seu João que ainda estamos aqui”, relembra ela. O Elefante, mesmo à míngua, nunca deixou de desfilar um só Carnaval. “Depois começamos a chamar várias pessoas que sabíamos que têm amor pela folia e algum vínculo com o Elefante, sempre frisando para seu João que a gente não queria cachê nem tomar o poder dele. Nosso desejo era realmente levantar o clube”, detalha.</p>



<p>Uma dessas pessoas é Rafael Antônio, 36 anos, neto de Élcio, um dos fundadores da agremiação, e que hoje também faz parte da diretoria e é porta-estandarte. “Minha família sempre alugou casa em Olinda no Carnaval e, quando eu era pequeno e vinha uma troça muito grande, as pessoas lá de casa colocavam as crianças e as cadeiras para dentro. O Elefante, quando chegou uma vez, minha avó, ainda viva, ficou muito triste porque, na época, o clube passou já muito pequeno. Não passou gigante como era antes, quando as fantasias, inclusive, eram feitas na casa dela”, recorda ele, dizendo que, depois disso, nunca mais viu a agremiação passar novamente.</p>



<p>Rafael também relembra o motivo do nome “Elefante”: “Antigamente, havia as festas que o pessoal chamava de assustado. As pessoas entravam na casa dos outros, que ofereciam comes e bebes. Num desses assustados, Chuquinha, um dos fundadores, pegou um pequeno elefante de biscuit em cima da geladeira e guardou no bolso. A turma comeu, bebeu e foi embora. Quando chegaram nos Quatro Cantos de Olinda, Chuquinha colocou o elefantinho na cabeça e começou a dançar”.</p>



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                <img decoding="async" src="https://marcozero.org/wp-content/uploads/2026/02/WhatsApp-Image-2026-02-12-at-16.18.50-1024x643.jpeg" alt="Essa imagem mostra uma festa popular realizada à noite em uma rua cheia de pessoas. A multidão veste roupas festivas, muitas em vermelho, e duas bandeiras grandes e ornamentadas se destacam no centro. Uma delas traz o nome “Cariri” com bordados em azul e dourado; a outra celebra os 70 anos do grupo “Elefante de Olinda”, com bordados coloridos e a figura de um elefante sob o sol. Acima da rua, há fitas verdes e amarelas penduradas, e também um letreiro em forma de coração com a palavra “Paz”. O clima é alegre, vibrante e transmite a energia de uma celebração cultural tradicional brasileira." class="" loading="lazy" >
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	                                        <p class="m-0">Elefante e Cariri juntos no Carnaval de Olinda. Crédito: Hugo Muniz
</p>
	                
                                            <span>Crédito: Hugo Muniz</span>
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                    </figure>

	


<p>E as cores? “O Elefante usa vermelho e branco porque, no seu primeiro desfile, o grupo jogava no Bonfim Futebol Clube, em que meu tio era goleiro. As cores do time eram vermelho e branco e o pessoal saiu para desfilar vestindo as camisas do Bonfim”.</p>



<p>A reportagem também perguntou sobre a rivalidade com a Pitombeira dos Quatro Cantos, que já foi motivo de muita violência com brigas e facadas, mas hoje tornou-se mais um motivo de brincadeira. A dupla da diretoria conta, rindo, a origem dessa rivalidade. Num desfile, há muitas décadas, uma pessoa levou uma plaquinha escrita “A Pitombeira não morreu, está doente”, porque, naquele ano, a troça não saiu no Carnaval. No ano seguinte, ela também não desfilou e essa mesma pessoa exibiu a plaquinha “A Pitombeira morreu, aqui jaz”.</p>



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	                                        <p class="m-0">Juliana e Rafael, da diretoria do Elefante. Crédito: Arnaldo Sete/MZ</p>
	                
                                    </figcaption>
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<h2 class="wp-block-heading">O financiamento do regresso</h2>



<p>Rafael comenta que o ressurgimento do Elefante de Olinda manteve uma outra tradição: a de ser composto por amigos-foliões. O ano era 2017 quando o grupo conquistou totalmente a confiança de seu João e ele passou a diretoria para a nova geração.</p>



<p>“E aí o nosso grande orgulho foi quando as pessoas começaram a dizer novamente ‘recolhe que o Elefante vem aí’&#8221;, comemoram, explicando, em seguida, que as coisas não aconteceram de uma hora para outra. Foi através da venda de produtos como camisa, boné, bolsa e, este ano, meias (que esgotaram rapidamente) que a diretoria foi conseguindo mais verba, além do <a href="https://marcozero.org/a-farra-dos-caches-do-carnaval-de-olinda-na-gestao-de-mirella/" target="_blank" rel="noreferrer noopener">cachê pequeno</a> pago pela Prefeitura de Olinda, este ano de apenas R$ 48 mil para três exibições.</p>



<p>Mesmo com pouca verba pública, o Elefante mantém o baile como um evento gratuito, em que só se toca frevo e nada além disso. O clube conta com um patrocínio de R$ 10 mil da Pitú e não aceita dinheiro das bets, apesar de algumas empresas já terem oferecido. O desfile do domingo de Carnaval, o maior de todos, não sai por menos de R$ 60 mil.</p>



<p>Quem também chegou junto com força nessa história foi o maestro Oséas Leão, da Furiosa: “Ele também é responsável por esse renascimento. Ter a orquestra de Oséas no Elefante foi uma grande conquista, no nosso primeiro Trote. Mas isso porque ele topou cobrar um cachê que conseguíamos pagar”, afirma Juliana.</p>



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                <img decoding="async" src="https://marcozero.org/wp-content/uploads/2026/02/WhatsApp-Image-2026-02-12-at-16.18.50-1-1024x682.jpeg" alt="Essa imagem mostra uma celebração de rua à noite, cheia de cores e detalhes festivos. No centro, há uma pessoa vestida com uma fantasia elaborada de elefante: cabeça grande com presas, coroa e roupas bordadas com pedras e enfeites brilhantes. Ao lado dela, aparece um estandarte ricamente decorado com bordados coloridos e franjas, trazendo a inscrição “Elefante de Olinda – 70 anos – 1952 2022”, além da figura de um elefante dourado sob o sol, cercado por palmeiras. Ao fundo, outras pessoas em trajes festivos participam da comemoração, reforçando o clima alegre e cultural de um carnaval ou festa tradicional brasileira." class="" loading="lazy" >
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	                                        <p class="m-0">Um dos estandartes do clube com o Elefante símbolo da agremiação. Crédito: Hugo Muniz
</p>
	                
                                            <span>Crédito: Hugo Muniz</span>
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                    </figure>

	


<h3 class="wp-block-heading">O hino &#8220;Regresso do Elefante&#8221;</h3>



<p>Ao longo das décadas em que o Elefante esteve adormecido, muito da sua história se perdeu. Uma dessas perdas foi a partitura do hino <a href="https://www.youtube.com/watch?v=klKix-hvcCk" target="_blank" rel="noreferrer noopener">Regresso do Elefante</a>, que era (e agora voltou a ser) tocado quando a orquestra recolhe, ao final dos desfiles. Tradicionalmente a agremiação encerra com esse frevo e inicia com o frevo <a href="https://www.youtube.com/watch?v=E5XuKm_PKhk" target="_blank" rel="noreferrer noopener">A chave de tudo é o segredo</a>. Isso faz parte da mística do Elefante, é quando Oséas faz, com as mãos, um sinal de que está girando uma chave.</p>



<p>“Mas ninguém sabia nem como era esse frevo, nunca tínhamos ouvido. Sabíamos apenas uns trechos da letra graças à Newtinho, do bloco Dez de Xarque e uma Latinha. Por sorte, Célio Gouveia, também da diretoria do Elefante, encontrou um vinil super antigo, num sebo, e lá estava o Regresso do Elefante&#8221;, conta Juliana. O grupo entregou o vinil à Lúcio, maestro da Orquestra Henrique Dias, que conseguiu refazer a partitura.</p>



<p>“Às vezes, estou varrendo a sala de casa quando ouço as orquestras, no Clube Vassourinhas, perto da minha casa, ensaiando e tocando novamente o Regresso do Elefante. É quando penso ‘ele está vivo’, compartilha.</p>



<p>Essa é uma das várias histórias sobre o ressurgimento do clube presentes no documentário recém-lançado Elefante Encarnado, de Juliana Beltrão, um filme da memória viva do Elefante e do amor de um povo que transforma tradição em alegria e resistência.</p>



<p>“A gente está no Elefante, mas a gente passa. O Elefante fica. O elefante veio antes, estamos aqui durante e ele vai continuar depois. Então o Elefante não é nosso, não é de ninguém, mas é de todo mundo junto”, declara Juliana ao final da entrevista.</p>



<p>Uma coisa é certa: mesmo nos anos mais difíceis, quem algum dia brincou o Carnaval nas ladeiras de Olinda cantou o hino do Elefante, talvez a música mais tocada da folia em Pernambuco e que se tornou quase um hino não oficial tanto da festa quanto da própria cidade.</p>



<p>Cliquei abaixo para escutar com arranjo e regência do maestro Duda.</p>



<figure class="wp-block-embed is-type-video is-provider-youtube wp-block-embed-youtube wp-embed-aspect-16-9 wp-has-aspect-ratio"><div class="wp-block-embed__wrapper">
<div class="ratio ratio-16x9"><iframe title="Maestro Duda e Sua Orquestra - Elefante de Olinda" width="500" height="281" src="https://www.youtube.com/embed/Bl_2eRGpsdQ?feature=oembed" frameborder="0" allow="accelerometer; autoplay; clipboard-write; encrypted-media; gyroscope; picture-in-picture; web-share" referrerpolicy="strict-origin-when-cross-origin" allowfullscreen></iframe></div>
</div></figure>



<p><br><br></p>
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